The Last of US: Episódio 2 – Ligação para o outro lado

The Last of US: Episódio 2 – Ligação para o outro lado

Episódio escrito por: Clayton Correia

Classificação indicativa: 

 

 

Cena 01: (Autoestrada – Noite – Ext.)

A cena começa subitamente e mostra as pernas correndo rapidamente. A imagem sobe mostrando Breff ofegante, quase que tropeçando nas próprias pernas. Ele corre por entre matos e grama alta, talvez uma plantação. A expressão de preocupação estampada no rosto mostra que algo não está bem. Chega a uma área descampada.

Breff: Meu Deus!

Ele avista as luzes do carro de Emily ao longe, o automóvel está virado de “ponta cabeça”. Ele corre ainda mais rápido até alcançar o automóvel. Breff encontra Emily desacordada na parte de traz do carro. Com dificuldade ele consegue puxa-la para fora e a acomoda em seu colo.

Breff: Emily! Emily! Acorda garota!

Emily abre os olhos lentamente. A imagem sobe, mostrando Breff acomodando Emily no seu colo, em meio ao descampado e ao lado, o carro de rodas para o ar.

Corta.

Cena 02: (Fazenda – Noite – Ext.)

Na cozinha, alguns homens, liderados por Pedro, arrumam as mochilas com água, lanternas e armas de corte. A cozinha é ampla e tem em seu centro, uma grande mesa de madeira cercada por oito cadeiras. Os armários feitos da mesma madeira da mesa são pintados de verde musgo e cobrem toda a extensão da parede. Os homens, quatro deles, tem a expressão cerrada. Nesse momento adentra uma senhora de cabelos brancos, mas muito ativa. Mimi parece ser uma hippie dos anos setenta, com sua saia longa e um casaquinho branco e surrado.

Mimi: Nenhuma notícia dele ainda?

Pedro: Não. Parece que as redes de comunicação cessaram.

Ele se refere ao walkie talk que segura nas mãos.

Pedro: Mas ele não deve estar muito longe.

Então Mimi dirige-se a um dos homens.

Mimi: Você disse que ele deve ter ida atrás da garota.

Então um homem de aparência mulçumana, coloca a mochila nas costas.

Homem: Ela saiu de carro momentos antes, eu vi a hora. Então, Breff entrou no celeiro e foi quando tudo aconteceu.

Pedro: Como estão os outros?

Mimi: Bem, assustados. Mas bem.

Pedro: Eu o trarei de volta.

Mimi se aproxima e acaricia o rosto de Pedro, quase que num ato maternal.

Mimi: Eu sei que vai, mas, me prometa uma coisa. Todos vocês! Se virem ou ouvirem qualquer coisa fera do comum, corram!

Pedro: (rindo) Fora do comum, aqui em Mirella? Então é melhor nem sairmos de casa.

Todos soltam uma gargalhada cheia de timidez e apreensão.

Corta para fora da casa.

Os homens seguem em direção ao bosque, liderados por Pedro. Mimi os observa da varanda. Sua expressão de preocupação denuncia um perigo eminente.

Corta.

Cena 03: (Autoestrada – Noite – Ext.)

Emily está sentada sobre uma pedra e coberta pela jaqueta de Breff. O mesmo vasculha o carro ainda de “ponta cabeça”. Ele sai do carro tirando alguns pertences da jovem. Ele a entrega uma carteira com documentos.

Breff: Guarde isso com você.

Ela acomoda os documentos e outros pertences.

Emily: Eu estava indo para a casa dos meus avós, tentando fugir de lembranças que mexiam comigo. Tinha acabado de falar com meu pai. Ele me dizia que meus avós estavam me esperando. Eu disse que ligaria assim que chegasse pra que não se preocupasse. Então o telefone tocou de novo e era uma ligação da Keith. Keith Brastow, minha amiga, que está morta. Como isso é possível? Eu perdi o controle da direção e o carro saiu da pista. Só lembro-me de ter girado no ar uma vez. Depois apaguei. (pausa) quando acordei, já estava no hospital. Mas eu juro que pensei estar morta. Eu me senti assim, sabe?

Breff: Eu sei. Já me senti assim também.

Emily: Breff, onde estamos? Que lugar é esse?

Breff: É o que estou tentando descobrir, há quatro anos.

Emily: O que são aquelas luzes? Quando percebi, já estavam por todos os lados. Aquilo virou o meu carro.

Breff: Nós chamamos de “vagalumes”. É a única definição que encontramos para essas coisas.

Emily: São eles que levam as pessoas?

Breff: Nós só sabemos que os desaparecimentos tem ligação com essas luzes.

Emily: Eles podem ser alienígenas?

Breff: Em Mirella as coisas não são tão simples assim. Vem, vamos. Temos um longo caminho pela frente.

Breff caminha em direção à densa mata que cresce adiante.

Emily: Não é mais seguro irmos pela estrada?

Breff: Pela estrada vamos gastar uma hora a mais. Se tivermos sorte, em trinta minutos estaremos na fazenda, indo pela floresta.

Emily: “Se tivermos sorte”?

Breff: É, você sabe, é na floresta que vivem os “vagalumes”.

Breff segue em direção ao bosque e Emily, depois de hesitar por dois segundos, o segue.

A imagem sobe mostrando Emily e Breff seguindo em direção à mata fechada.

Fade to Black

 

Fade to Clear

Cena 04: (Floresta – Noite – Ext.)

A imagem acompanha Breff e Emily por entre a mata. A escuridão da uma trégua com as lanternas ligadas e iluminando o caminho desnivelado, por entre raízes protuberantes e pedras fincadas no chão.

Emily: … Então você está me dizendo que aqui não existe sinal de celular, transmissão de rádio ou televisão? E como as notícias lá de fora chegam até vocês?

Breff: Não chegam. Nós temos que nos entreter com os acontecimentos locais e olha que não são poucos. (pausa) Você vai entender como tudo funciona não se preocupe, com o tempo nos acostumamos com a rotina.

Emily: Eu não vou ficar aqui, eu vou embora!

Breff: Emily…

Emily: Não, eu não vou simplesmente morar aqui. Fazer de conta que nada aconteceu e que eu não deixei ninguém me esperando lá fora!

Breff: Todos nós deixamos alguém “lá fora”.

Emily: E vocês desistiram delas?

Nesse momento um barulho surge atrás dos dois. Eles param, por um segundo e reparam no silêncio.

Emily: Você ouviu isso?

Breff: É eu ouvi.

Mais um momento de silêncio e o barulho, rasteiro como se esgueirasse por trás dos arbustos que os cercam, surgem e agora em mais de uma direção.

Emily: (medo) Breff o que é isso?

Breff: Parece que não estamos sozinhos. (puxa Emily pelo braço) Vamos apertar os passos.

Os dois seguem a passos rápidos.

Breff tem razão, algo os observa por trás dos arbustos e árvores.

Corta.

Cena 04: (Hospital – Noite – Int.)

A imagem mostra a recepção do hospital que, como de costume, está estranhamente tranquilo. Vemos Charlotte debruçada no balcão, olhando a tela do computador, com a ajuda da recepcionista do local. Do outro lado do corredor, Nancy observa a cena e decide se aproximar para saber o que está acontecendo.

Nancy: Charlotte? Tudo bem?

Charlotte leva um susto ao ser surpreendida.

Charlotte: Oi, Nancy. Eu estou bem e você?

Nancy afirma que sim com a cabeça.

Charlotte: (demonstrado nervosismo) Isso é ótimo! Quer dizer, você é uma profissional da saúde, é imprescindível que esteja bem. Como se trata de pessoas que não estão bem se você mesma não está bem.

Nancy: Tem certeza que está tudo bem?

Charlotte: (suspira) Na verdade não. Eu queria saber notícias do Ben.

Nancy: Quem?

Charlotte: Ben, Benjamin Evans. O garoto com um ferimento no braço, que deu entrada no hospital, hoje mais cedo.

Nancy parece cada vez mais confusa.

Charlotte: Olha. Eu sei que o meu pai preza muito pela discrição e às vezes parece intimidador, mas eu só queria saber como ele está. Ainda não consegui nenhuma notícia concreta.

Nancy: Charlotte me desculpe, mas…

Charlotte: Meu Deus, você não faz a mínima ideia do que estou falando, não é?

Nancy: Eu nem sabia que uma criança tinha dado entrada no hospital.

Charlotte: Isso é muito estranho.

Nancy: Muitas coisas estranhas têm acontecido por aqui. Desculpe-me estou falando demais. Sinto muito não poder ajudar.

Charlotte: Não se preocupe você já ajudou. Obrigado Nancy!

Charlotte sai, deixando Nancy preocupada e curiosa para saber o que está acontecendo.

Corta.

Cena 06: (Floresta – Noite – Int.)

Emily caminha com dificuldade por entre a mata cada vez mais fechada, enquanto Breff está à frente, atento.

Emily: Acha que estamos sendo perseguidos? Não ouço mais nenhum barulho.

Breff: É porque eu mudei o nosso caminho.

Emily: Isso é uma boa notícia.

Breff: É sim, a notícia ruim é que, não sei onde estamos.

Emily: O que?! Como assim você não sabe? Você mora aqui!

Breff: Eu moro na fazenda e não costumamos entrar na mata, por que sabemos o que tem nela.

Emily: Que ótimo! Eu e minhas escolhas. Primeiro saio fugida do hospital com dois estranhos e quase morro, atacada por vagalumes assassinos e agora estou perdida numa floresta onde posso estar sendo perseguida por psicopatas!

Breff agarra Emily e tapa sua boca com a mão.

Breff: Cala a boca. Estamos sendo observados.

A imagem mostra que algo os observa na copa das árvores. Faz-se silêncio por um instante. De repente algo, com a visão quase rasteira, sai de um arbusto próximo, na direção dos dois.

Breff: Corre!

Os dois correm por entre as árvores e os arbustos. A imagem acompanha a dupla correndo e depois algo correndo por entre a mata. De repente Emily tropeça em uma raiz e cai.

Emily: Breff! Socorro!

Breff volta e tenta levantar Emily, mas antes que consiga, um animal parecido com um javali passa por eles correndo.

Os dois permanecem ali, caídos no chão, recobrando o fôlego. Então, caem na gargalhada.

Breff: Quem será que estava com mais medo? Ele ou nós?

Emily: Acho que não preciso responder essa.

Ainda rindo do que acabou de acontecer, Breff caminha de cabeça baixa, mas Emily para ao ver o que está a sua frente.

Emily: Breff.

Breff olha para frente e observa intrigado, um casebre antigo, de madeira e pela aparência, abandonado.

Emily: Você sabia que isso estava aqui?

Breff: Não.

Os dois caminham lentamente e se aproximam da pequena construção.

Emily: Olha…

Ela aponta para marcas de pneus no chão de terra batida. Breff se abaixa ao lado das marcas.

Breff: Meu Deus.

Emily: O que foi?

Breff: Essas marcas são recentes.

Nesse momento, ambos são surpreendidos por um barulho ainda confuso, mas que logo é decifrado. Um telefone está tocando e o toque vem de dentro do casebre.

Os dois se olham por um momento e correm para dentro da casa.

Corta.

Cena 07 (Casebre – Noite – Int.)

Breff abre a porta cautelosamente e é seguido por Emily. O toque do telefone cessa.

Uma imagem panorâmica mostra o lugar. Algumas caixas de madeira estão empilhadas no fundo do único cômodo do ambiente. Logo a frente das caixas, uma mesa antiga e coberta de papéis, é acompanhada de duas cadeiras, uma de cada lado. É possível ver um arquivo de metal ao lado da mesa.

Breff se aproxima da mesa e pega um copo com o resto de um liquido dentro. Ele cheira e faz careta.

Breff: Alguém estava aqui e não faz muito tempo.

Emily se aproxima da janela suja e observa a mata do lado de fora.

Breff começa a vasculhar a procura do telefone e abre uma das pastas de papel que está amontoada em cima da mesa. Ele começa a ler uma ficha que diz:

“OLIVER TEDSON. PRIMEIRO TENENTE. FORÇA AÉREA AMERICANA. ABATIDO EM COMBATE. DESAPARECIDO”.

Ele observa a foto de um jovem. Pega outra pasta.

Emily se aproxima das caixas, em alguma delas o cartaz “FRÁGIL”, desperta a curiosidade da jovem. Ela também observa que por trás das caixas existe uma porta de saída sendo bloqueada.

Breff: Emily. Qual era o nome da sua amiga, que morreu no tal acidente com o ônibus escolar?

Emily: Keith Brastow. Por quê?

Breff: Por que existe um arquivo sobre ela aqui.

Emily pega o arquivo das mãos de Breff e leva um susto ao ver a foto da amiga. A ficha diz:

“KEITH BRASTOW. ESTUDANTE. DEZOITO ANOS. DESAPARECIDA EM ACIDENTE NA PONTE LINCON. CORPO NUNCA ENCONTRADO”.

Emily: Mas o que isso está fazendo aqui?

Antes que se possa ter uma resposta, o barulho de um carro se aproximando, faz com que Breff se jogue no chão e puxa Emily com ele.

As luzes que crescem do lado de fora, mostra que o carro se aproxima lentamente. O telefone volta a tocar. Eles olham para todos os lados na esperança de achar o aparelho. Emily encontra o aparelho aos seus pés, trata-se de um telefone por satélite, e sem hesitar ela o atende.

Emily: (com a voz trêmula) Alô.

Do outro lado, uma voz masculina responde.

Voz (em off): Transferência autorizada para o centro de tratamento Esmerald Hill. O portão será aberto amanhã às 22h e permanecerá assim por 30 minutos.

Emily: (falando baixo) Alô! Alô! Quem está falando? Onde é esse portão? Você precisa nos ajudar…

Voz (em off): Transferência autorizada para o centro de tratamento Esmerald Hill. O portão será aberto amanhã às 22h e permanecerá assim por 30 minutos.

Emily percebe tratar-se de uma gravação.

Ao mesmo tempo o carro parece estacionar bem a frente do casebre, os faróis iluminam a fresta por debaixo da porta.

Breff: Emily, precisamos sair daqui. Procure uma saída.

Emily pega a ficha que contém informações sobre Keith, mas é barrada por Breff.

Breff: Não pode levar isso! Vão saber que estivemos aqui. Agora me ajude a achar uma saída.

Emily deixa a pasta em cima da mesa e começa a arrastar uma pilha de caixas. Breff se junta a ela e logo a porta de saída se revela. Breff toma a frente e descobre que a porta está trancada com um cadeado.

Breff: Droga!

A porta do outro lado se abre e um homem entra. A luz que vem do carro não deixa que a face do homem se revele, é possível apenas ver sua silhueta.

Homem: Mas o que é isso? Quem são vocês?!

Sem pensar duas vezes, Breff saca a arma detrás da cintura, atira no cadeado e com um chute a porta se abre. Ele e Emily correm o mais rápido que podem e se embrenham na mata.

A imagem acompanha os dois correndo por alguns instantes e logo eles param, se esgueirando por trás de uma grande árvore.

Emily: Não podemos parar!

Breff: Calma. Fica quieta! (pausa) Não estamos sendo seguidos.

O silêncio confirma.

Emily: Breff!

Emily chama atenção de Breff com a cabeça e ele se depara com pontos luminosos bem a sua frente, por entre os arbustos. Ele saca a arma e o silêncio toma conta do lugar. Então ele vê uma silhueta conhecida e respira, aliviado, quando Pedro sai do breu acompanhado por mais Quatro homens. Breff abre um largo sorriso de alivio e vai ao encontro do amigo.

Pedro: Onde você estava? Procuramos por todos os lados e…

Breff: Precisamos sair daqui e tem que ser agora.

Breff toma a frente. Pedro observa a expressão de medo no rosto de Emily quando a jovem passa de braços cruzados por ele.

Pedro: (para si mesmo) Cara, isso aqui tá muito sinistro.

A imagem vista de cima, mostra Pedro correndo e alcançando o grupo que agora é liderado por Breff.

Fade to Black.

Terceiro Ato.

Fade to Clear.

Cena 08: (Hospital – Noite – Int.)

A imagem abre fazendo um panorama de uma sala toda em branco. No centro vê-se uma mesa e duas cadeiras igualmente na cor branca, as paredes são acolchoadas e em uma delas existe um grande espelho. No canto da sala está Ben, agachado com os braços em volta das pernas e ele tem o olhar fixado no nada. A porta se abre Howard Stevens entra carregando uma caixa de madeira em formado retangular.

Ele senta-se na cadeira e abre a caixa sobre a mesa e começa a montar uma espécie de jogo com tabuleiro e pequenas peças redondas o que chama a atenção do menino.

Stevens: Oi Ben, como você está?

Sem resposta.

Stevens: Sou o doutor Howard. (o silêncio continua)

Ben: O que é isso?

Stevens: Se chama Gamão. Chegue mais perto para ver melhor.

Mesmo relutante o menino, que veste calça e camiseta branca, se aproxima e senta-se.

Ben: Eu não conheço esse jogo.

Stevens: É muito fácil joga-lo. Quer que eu te ensine?

Ben da com os ombros parecendo não se importar.

Stevens: O Gamão consiste em dez peças de cada lado, um lado é claro e o outro é negro. Á medida em que você avança, as peças do adversário se convertem e assim o que é negro fica claro ou o que é claro fica negro.

Ben presta atenção na explicação sem tirar os olhos do tabuleiro.

Ben: Então um lado é do bem e o outro é do mal.

Stevens: Por que diz isso?

Ben: Por que um é branco e o outro é preto.

Stevens: Essa divisão é um equivoco. Você pode achar a morte no dia mais ensolarado e a salvação na noite mais sombria, isso vai das escolhas que você faz. (pausa) Tenho uma boa notícia para você Ben. Você vai embora. (o menino arregala os olhos) Para a sua casa de verdade.

Ben: Quando?!

Stevens: Amanhã. Não é legal? (Ben confirma com a cabeça) Mas existem pessoas que podem tentar te impedir de ir para a casa. Pessoas que dizem ser do “lado claro do tabuleiro”.

Ben: E por que eles não querem me deixar ir?

Stevens: Por que você é especial Ben. De um jeito que você nem consegue imaginar.

Ben olha para Stevens, com expressão de questionamento.

Stevens: Vamos jogar uma partida?! (Ben concorda com a cabeça) Então, me diga Ben. Qual lado você vai escolher? O claro ou o escuro?

Antes que o menino responda, a imagem se distancia da mesa e atravessa o espelho que esta em uma das paredes. Do outro lado se revela uma sala escura, onde Burke ouve e vê toda a conversa de Howard Stevens e o pequeno Ben.

Corta.

Cena 09: (Fazenda – Dia – Int.)

Começa a amanhecer e uma névoa densa rodeia toda a extensão da fazenda. Corta.

A imagem mostra uma cozinha ampla, com móveis rústicos. Armários ocupam quase todas as paredes do ambiente e uma grande mesa de oito lugares, está posicionada no centro do cômodo. Nela estão sentados Breff e Pedro, Mimi estão no fogão terminando de preparar o café e Emily está encostada perto de uma janela.

Pedro: A casa fica a uns dois quilômetros a oeste daqui, é muito próximo. Como nunca ficamos sabendo da existência dela?

Mimi: Não costumamos vasculhar as matas.

Mimi começa a servir café para todos.

Pedro: E o que vamos fazer agora?

Emily: temos que voltar lá! Eles têm uma linha telefônica, talvez possamos ligar para fora e…

Breff: Você mesmo disse que era uma gravação do outro lado da linha.

Emily: Sim, como uma gravação da companhia telefônica que nos liga para oferecer promoções! Sempre vem de uma central.

Breff: Não podemos voltar lá é muito arriscado.

Emily: (nervosa) Por quê? Por que podem descobrir que estivemos lá? (pausa) Eles já sabem que estivemos lá.

Faz-se um silêncio momentâneo.

Emily: Eles têm um monte de arquivos sobre pessoas desaparecidas, eles tinham uma ficha da minha amiga, provavelmente têm uma minha também!

Pedro: Será que existe algo sobre minha irmã?

Emily: É bem provável.

Breff: Não, não é! Ninguém vai voltar naquele lugar até que eu diga o contrário! Eu sei que você quer ir embora daqui Emily, mas não é assim que fazemos as coisas por aqui! Existem outras pessoas tomando conta daquele lugar que podem estar armadas, eles têm carros e provavelmente uma estrutura fora da cidade ou alguém conhece algum centro de tratamento chamado Esmerald Hill por aqui?! Só peço para mantermos a calma, para não colocar ninguém em risco. Não vou perder mais ninguém.

Breff sai da cozinha deixando um grande silêncio no ambiente.

Mimi: Eu vou falar com ele.

Mimi sai carregando uma xicara com café.

Pedro: Você acha que pode haver alguma coisa sobre a Rose nesses arquivos?

Emily: Não posso te garantir, mas são muitos arquivos, podemos achar alguma coisa sobre ela.

Pedro: Será que consegue achar essa casa de novo?

Pedro e Emily se encaram por um instante.

Corta.

Cena 10: (Fazenda – Dia – Ext.)

Breff está sentado nos degraus da entrada da fazenda. Mimi se aproxima e senta-se ao seu lado, lhe entregando a xícara de café.

Mimi: O que foi aquilo lá dentro?

Breff: Só acho que podemos ser mais cautelosos. Pode ser perigoso, não sabemos nada a respeito daquele lugar ou quem são aquelas pessoas. Dá ultima vez que fizemos isso, perdemos a Rose.

Mimi: Tem certeza que é só isso? Esses não parecem ser motivos para Breff Conroy se intimidar a ponto de ficar com as mãos tremulas.

Breff esconde as mãos no bolso.

Mimi: Há muito tempo que não te vejo assim. Na verdade desde que chegou a Mirella. Desde que você passou aquela fase.

Breff: Havia dezenas de caixas cheias… Uísque. Eu senti o cheiro num copo que ainda tinha um resto de bebida e foi como sentir o gosto de novo passando pela minha garganta. Eu não posso voltar naquele lugar.

Mimi: Então não volte, deixe que alguém vá por você. Breff, não pode sempre estar à frente de tudo. Se o Pedro quiser e ele vai querer ir até lá tentar encontrar alguma pista sobre a irmã, deixe-o ir. E quanto à garota, não podemos culpa-la por querer ir embora, pois quando chegamos aqui, também queríamos. Mas a verdade é que nunca encontramos nada que estava aos nossos olhos assim tão perto. Essa casa com linha telefônica é um achado!

Breff: Esse é o problema Mimi. Há quatro anos que estou aqui e nunca encontramos nada desse tipo. Eu acho que queriam que encontrássemos essa casa.

Os dois se encaram, tentando entender o que pode estar acontecendo.

Corta.

Cena 11: (Delegacia – Dia – Int.)

A imagem mostra a fachada de uma construção imponente no estilo vitoriano. Corta.

Charlie entra na Delegacia e a imagem mostra várias mesas, cada uma com sua luminária e papéis organizados. O ambiente amplo e cortado por um corredor entre os dois agrupamentos de mesas.

O delegado Bradley Tuk atravessa todo este corredor em direção a Charlie.

Tuk: Charlie!

Charlie: Delegado! Muito trabalho?

Tuk da uma olhada no ambiente. A imagem mostra o local vazio.

Tuk: Mirella é uma cidade muito pacata, graças a Deus!

Charlie: Ou graças ao nosso delegado.

Os dois riem.

Tuk: No que posso ajudar?

Charlie: Eu ia procurar nos arquivos do hospital, mas achei que seria mais fácil nos arquivos da polícia.

Tuk: E o que seria?

Charlie: Preciso que encontre uma pessoa pra mim.

Corta.

O delegado Bradley Tuk joga uma pilha de arquivos sobre a mesa.

Tuk: Você disse Mindy?

Charlie: Isso. Pelo menos esse foi o nome que me deram.

Tuk: Não existe ninguém com esse nome na cidade. Acredite, eu conheço cada morador nesse lugar. (ele abre uma pasta) Mas seguindo sua descrição, cheguei a essa pessoa.

Ele mostra a foto de uma jovem para Charlie.

Charlie: É ela!

Tuk: O nome dela é Emily Everett, deu entrada no hospital depois de sofrer um acidente de carro. (pausa) Desapareceu a dois dias do quarto no hospital. Agora já sabemos onde ela está e com quem ela está.

Charlie: Breff.

Tuk: Basta saber o que o seu irmão quer com ela.

Charlie: Acho que vou fazer uma visita ao meu irmãozinho. Quer me acompanhar delegado?

Fade to Black.

 

Fade to Clear.

Cena 12: (Fazenda – Dia – Ext.)

A imagem vista de cima, desce até fechar no grupo de pessoas, em frente à casa.

Emily termina de ajeitar a mochila e Pedro ajeita a arma na parte traseira da cintura.

Emily: Tem certeza que isso é necessário? (referindo-se a arma)

Breff: Vocês não sabem o que vão encontrar por lá.

Emily: Então não seria melhor eu levar uma também?

Breff: Você com uma arma? Acho mais perigoso do que ir sem arma nenhuma.

Mimi: Tomem cuidado.

Breff: Já sabem que esta é uma missão de reconhecimento. Vocês não vão entrar. Vão apenas observar a movimentação.

Pedro: Tem certeza que não quer ir com a gente “Papito”?

Breff: (sem jeito) Não dá. Tenho que resolver algumas coisas, mas prometo que vou com vocês dá próxima vez. (olhando para Emily) Por isso que hoje é só para observar.

Emily: Ok, Ok. Já entendi.

Pedro: Bom, é melhor irmos. Temos que voltar antes que anoiteça.

Pedro segue em direção à floresta e antes que Emily faça a mesma coisa, Breff segura seu braço.

Breff: Tome cuidado e volte. Eu não desisti de deixar esse lugar, mas temos que saber esperar a hora certa para que as coisas aconteçam.

Pedro: (gritando) Emily, vamos!

Emily: Essa é a nossa diferença, eu faço a minha “hora certa” acontecer.

A imagem vista do alto, mostra Emily correndo para alcançar Pedro.

Corta.

Cena 13. (Casa de Burke – Dia – Int.)

POV – Charlotte.

Abraham Burke entra na cozinha e deixa sua bolsa, no estilo carteiro, em cima da cadeira e vai para a geladeira. Ele pega alguns alimentos, vai para a pia, procura alguma coisa e ao se virar, se assusta com Charlotte sentada no fundo do ambiente.

Burke: Meu Deus, Charlotte, que susto! O que está fazendo ai minha filha?

Charlotte: Só passando o tempo. Pensando.

Burke: Assim no escuro?

Charlotte: Estive no hospital hoje.

Burke começa a preparar um lanche.

Burke: Foi? E porque não me procurou?

Charlotte: Por que acho que você não ia poder me ajudar com meu problema ou não ia querer me ajudar.

Burke: Como assim minha querida? Se estiver ao meu alcance…

Charlotte: Fui ver o Ben.

Burke: Você sabe que isso, no momento, é impossível. Mas ele está bem, não se preocupe.

Charlotte: E como vou ter certeza?

Burke para o que está fazendo e olha para Charlotte.

Burke: Porque eu estou dizendo e isso já basta. (pausa) Desculpe Charlotte se você não tem autorização para entrar na área de isolamento do hospital, mas isso é uma lei nacional e não minha. As coisas não funcionam dessa maneira.

Charlotte: E como as coisas funcionam no seu hospital?

Nesse momento Burke da um murro na mesa onde prepara o lanche e Charlotte dá um salto na cadeira.

Burke: (nervoso) Qual o seu problema? Estou cansado de suas insinuações e grosserias Charlotte. Desde que sua mãe morreu eu tenho tentado de todas as maneiras, ter uma convivência civilizada e dentro de uma possível cordialidade, mas você está sempre pronta para me atacar. Já não basta ter ajudado a abrir aquele orfanato para ocupar o seu dia, já não basta estar de casamento marcado com o Charlie, você tem sempre que ter alguma coisa para reclamar, para questionar! Quando foi que você se tornou tão egoísta?

Charlotte: Não consta nos arquivos do hospital nenhuma internação no nome de Benjamin Evans. Eu conversei com a enfermeira Nancy e ela não sabe de nenhum garoto internado. (levanta-se da cadeira) Onde ele está?

Burke: Nós estamos cuidando dele dá melhor maneira possível. (aproxima-se da filha e acaricia seu rosto) Se parece tanto com sua mãe, a minha Mary Anne.  A paixão que você emprega em tudo o que faz, é impressionante, mas às vezes isso atrapalha seu discernimento entre o que é certo e o que é errado e isso me preocupa. (pausa) E é por isso que eu estou feliz por você ter conhecido o Charlie. Sabe por quê?  Por que ele tem foco, traça seu caminho e segue, sem se desviar. (pausa) Não deixe que sua instabilidade emocional lhe influencie a tomar decisões erradas. Por que em breve todos nós vamos ter de toma-las.

Charlotte: Eu só quero ver o Ben.

Burke: Isso é impossível. Ele já não está mais na cidade.

Charlotte: (nervosa e surpresa) E onde ele está?

Burke: Desculpe, mas eu não posso te dizer mais nada. Só peço que confie em mim.

Burke dá um beijo na testa da filha e sai da cozinha.

Corta.

Cena 14: (Floresta – Dia – Ext.)

Emily segue Pedro em meio à mata densa. Os dois caminham em um silêncio que é quebrado por trovões que seguem os raios que cortam o céu.

Emily: (irônica) Chuva, ótimo. (pausa) Posso perguntar uma coisa Pedro?

Pedro: Manda!

Emily: O que houve com sua irmã? Rose, certo?

Pedro: Maria Rosa, esse é o verdadeiro nome dela. (ri saudosamente) Ela sempre foi muito vaidosa, tem vergonha das origens latinas, sabe? Acho outras meninas brincavam com ela por causa do nome, até que um dia ela decidiu, por conta própria, que a partir daquele momento só atenderia por Rose.

Emily: E o que seus pais acharam disso?

Pedro: Meus pais morreram a Rose ainda era um bebê e depois eu a criei sozinho.

Emily: Como vieram para em Mirella?

Pedro: Eu recebi uma proposta de emprego em uma cidadezinha no interior. Erme Falls, ou alguma coisa assim, mas acabei me perdendo no caminho. Parei em um posto, desses de caminhoneiros e pedi informação a dois rapazes. Eram bandidos, tentaram levar o carro e eu reagi (pausa) e levei um tiro. Quando acordei já estava em quarto no hospital de Mirella.

Emily: E a Rose? Ela se machucou?

Pedro: Não, ela ficou acordada todo o tempo.

Emily: Então ela viu o caminho que pelo qual te trouxeram para cá?

Pedro: Viu, mas nunca disse nada. Desde que chegou aqui em Mirella ela nunca disse nenhuma palavra. (emocionado) Ela não podia gritar por socorro e não podemos ajuda-la.

Emily: Eu sinto muito.

Pedro: Sem problemas. Eu sei que ainda vou encontra-la.

Pedro para e olha ao redor.

Pedro: Chegamos. Foi aqui que encontrei vocês e agora é com você.

Emily toma a frente e Pedro a segue.

Corta.

Cena 15: (Fazenda – Dia – Ext.)

A imagem acompanha a caminhonete que é dirigida por Tuk e Charlie está sentado ao seu lado. O carro atravessa a distância entre o limite da cerca até a grande casa em um minuto. Breff e Mimi surgem na varanda.

A caminhonete para envolto a poeira e Tuk salta do automóvel, seguido de Charlie.

Breff: Xerife Tuk. (irônico) Meu querido irmão.

Tuk: Conroy. Mimi.

Os dois acenão com a cabeça.

Charlie: Como vai Mimi? Alguma novidade Breff?

Mimi: Como vão os assuntos na delegacia Bradley? Muitas ocorrências?

Tuk: Não, apenas uma garota que desapareceu do hospital e que está precisando de tratamento. Por um acaso não sabem nada a respeito, sabem?

Breff: Nós só cuidamos dos assuntos da fazenda. Por que saberíamos alguma coisa a respeito?

Charlie: Deus quisesse que vocês só cuidassem dos assuntos da fazenda.

Tuk: Olha. Não quero fazer isso da maneira mais difícil. Mas se você quiser Conroy, eu posso voltar com um mandato.

Breff: (olhando para Charlie) Isso não seria nenhum problema para você, certo?

Tuk: Na verdade não. O “Conroy bom” aqui (aponta para Charlie) cuidaria disso rápido.

Breff: Então faça isso Xerife. Porque você não vai entrar aqui.

Tuk: Não me subestime garoto.

Tuk leva a mão ao coldre e todos se encaram por um segundo.

Charlie: Xerife não vá fazer o jogo dele. (vira-se para Breff) Já sabemos que a garota está com aqui, só peço que você meu irmãozinho, tome juízo e peça para que a “Mindy” procure o hospital, ela ainda não tinha recebido alta.

Breff: O que você veio fazer aqui Charlie?

Charlie: Eu queria ver até onde você vai com esse seu olhar de superioridade. É melhor tira-lo da cara quando voltarmos com o mandato.

Breff: Vou me lembrar disso.

Corta.

Cena 15: (Floresta – Dia – Ext.)

Pedro e Emily se esgueiram por entre os arbustos, enquanto observam o casebre de uma distância considerada segura.

Emily: Nós vamos mesmo apenas observar?

Pedro: Foi o combinado, certo?

Emily: Tem milhões de informações lá dentro, podemos tentar fazer uma ligação e…

Pedro tapa a boca de Emily.

POV – Pedro e Emily.

A imagem mostra um jipe sujo de barro se aproximando do casebre e estacionando bem em frente. Um homem robusto, de expressão cerrada e com vestimenta militar, salta do carro carregando uma mochila e uma caixa de madeira. Ele entra na casa sem, aparentemente, perceber que estava sendo observado.

Emily: Será que ele não percebeu nada?

Pedro: Parece que não. Foi essa cara que viu vocês?

Emily: Não dá pra ter certeza.

POV – Pedro e Emily.

O homem volta a sair da casa e vai até a caminhonete, de onde ele tira uma espécie de armamento militar. Ele para em frente à casa, ajeita alguma coisa na arma e dá uma rajada para cima, o que assusta os dois observadores.

Homem: Como é? Vão ficar me olhando ou vão vir falar comigo?

Emily e Pedro se olham numa mistura de medo e surpresa. O homem tem um sotaque carregado.

Homem: Eu não tenho tempo para esses “joguinhos”. Vamos apertar nossas mãos, sentarmos numa mesa e tomar um bom gole de uísque. Tenho dezenas de garrafas aqui.

Pedro saca a arma e a deixa engatilhada.

Homem: (sotaque russo) Vamos! Eu sabia que iam voltar depois da visita que me fizeram hoje, só não imaginava que seria tão rápido!

Pedro: Abaixe a arma! (blefando) Você está cercado. Não estamos sozinhos!

A expressão do homem muda e agora é cerrada e séria.

Homem: (sotaque russo) Que bom, pois também não estou sozinho.

Nesse momento uma voz masculina surge atrás de Pedro e Emily.

Voz: Ei!

POV – Pedro.

Pedro vira-se, mas antes que possa ver o dono da voz, ele leva um golpe com o cabo de algum tipo de rifle.

A imagem fecha num baque.

Fade to Black.

CONTINUA…

 

Escrito por:

CLAYTON CORREIA RIBEIRO

Nesse episódio:

BENJAMIN EVANS

BREFF CONROY

CHARLIE CONROY 

CHARLOTTE BURKE 

  1. ABRAHAM BURKE 
  2. HOWARD STEVENS 

EMILY EVERETT 

NICKOLAY GRANDJEN (Homem)

MIMI CASTRREL 

NANCY WRIGHT

PEDRO SANCHEZ 

XERIFE BRADLEY TUK