Sessão das dez: “Cicatrizes de um Sonho”

WEB FILME Autora: Charlotte Marx Gênero: Drama Classificação indicativa:

Meu nome é Lavínia Martins de Mello! Sou ex-modelo. E eu fui vítima de um cenário de horror!

Antes

Depois

Empurrou cantarolante, a porta giratória da agência de modelos. O centro da cidade estava tranqüilo naquela tarde chuvosa, pensou por um momento em abrir seu guarda-chuva, mas o instinto criança era mais forte, retirou os saltos altos que lhe doíam o pé e tratou de pular as poças d’água pelos quarteirões, sujando ora ou outra de barro, além disso, parava para enroscar o cabo do guarda-chuva nos postes de sinalização, a fim de contorná-los em uma performance encantada, subia nas muretas das praças e equilibrava-se em um passar apenas, não percebendo que pombos ali descansavam, a conseqüência foi que muitos levantaram voo assustados.

– Me desculpe, meus caros amiguinhos, nunca foi minha intenção afugentá-los.

Ela continuou o caminho, atravessando uma linha de trem e se adentrando numa mata fechada. As nuvens abriam-se aos poucos no horizonte e um sol aparecia para findar aquele dia, atravessou a colina de girassóis e não demorou a avistar o vilarejo onde morava, sorriu e seus belos dentes refletiram os raios que agora atingiam sua face feminina, soltou seus longos cabelos enegrecidos e a suave brisa tratou-os de levar até as costas, tirou as luvas de couro avermelhadas que ganhara no estúdio fotográfico e fez aquilo que mais amava: atirou-se morro abaixo, rolando por entre as folhagens umedecidas completando seu banho de lama. Gargalhou feito criança quando o impulso tratara de levar até a primeira estrada de terra que abria a vilazinha.

***

– Mãe! Cheguei!

Francisca, uma passadeira muito requisitada na região, tratou logo de abrir a velha porta de ferro, desemperrando-a com as duas mãos.

– Lavínia Martins de Mello! O que significa isso? Pode deixar as roupas no quintal e entrar pelos fundos, direto para o banho, ouviu mocinha?

A adolescente de quatorze anos a obedeceu em meio aos risos.

Já haviam se passado alguns minutos quando se sentou a mesa para saborear o escondidinho de carne seca que sua mãe havia preparado.

– Está uma delícia, mãe. Um dia precisa me ensinar a fazer isso! Meus futuros filhos precisam conhecer essa arte da cozinha brasileira!

A Maria-do-lar terminava mais uma de suas encomendas para o dia seguinte, desligou o ferro e o pôs em pé para esfriar.

– Não vai precisar disso, minha filha. Terá profissionais para fazerem isso para você! Do jeito que é bela, vai ganhar o mundo apenas com esse olhar!

A jovem corou-se.

– Devo ter puxado minha mãe!

A passadeira ficou sem graça.

– Quem me dera ter nascido com um pouquinho da sua beleza! Sabe que eu vou todo dia à catedral e ponho uma moeda na caixinha, rezo para que eles não demorem a reconhecer o seu talento. Mas Deus há de ouvir minhas preces, você vai vencer na vida, minha menina!

Lavínia correu e abraçou-a forte no ventre, abaixando-se de joelhos.

– Tomara mãe! Tomara!

Naquele mesmo fim de semana, a agência retornou dizendo que o book de fotos havia sido aprovado e a convidaram para um comercial de uma colônia de ares tropicais, o corpo moreno da menina em contrastes com sua íris esverdeada entregava um toque meio Araguaia ao produto e era tudo que eles precisavam.

Clic aqui. Flash acolá. De perfil. Frontal. Panorâmica. De baixo. Deitada sobre bancada. Orelhas a mostra. Cabelos cacheados no ombro direito, agora no esquerdo. Que mudem a imagem do fundo! Olhe para as lentes! Sorria sutilmente! De costas, sedutora!

Na semana seguinte, a cidade inteira já estava conhecendo, nos mais altos outdoors quem era a misteriosa adolescente do novo perfume do momento. Eliza, uma vizinha do final da rua viera trazer suas peças de roupa para Francisca passar e a filha de seis anos veio acompanhá-la,  não poupando Lavínia de um autógrafo.

– Ai gente, imagina. Foi só uma campanha!

A dona-de-casa repreendeu a filha.

– Tá esperando o quê, menina? Achou que a vida nas passarelas ficaria só no bater de fotos?  Prepara-se para seus fãs!

A adolescente pegou o caderno de anotações e rasgou uma folha, meio desajeitada e ainda trêmula com aquele reconhecimento, assinou. A menina sorriu agradecida e a beijou no rosto. Eliza completou.

– Você é um fenômeno! Só promete que não vai esquecer-se dos velhos amigos!

Lavínia a encarou no fundo dos olhos, emocionada.

– Jamais!

Horas, dias, semanas se passaram e a repercussão da menina só aumentava. A empresa,inclusive,já assinara contratos definitivos com ela e preparavam para lançá-la em outra campanha, dessa vez de moda feminina em uma loja popular no shopping central.

Foi quando, certa manhã, um opala preto estacionou-se em frente a um dos outdoors, um pouco aquém da cidade. Um homem descera do carro e ficara vidrado naquelas imagens que variavam lentamente no visor. Retirou seus óculos escuros e sorriu satisfeito.

O sujeito chamava-se Honorário Candela, era um desses caçadores de talentos soltos pelo mundo, patrocinava apenas a nata: cantores de vozes excêntricas, verdadeiros cérebros de escolas públicas, tinha um gosto terrivelmente rígido. Contudo, aquela menina lhe chamara atenção, muito mais do que procurava, tinha um místico de delicadeza e gentio, era uma verdadeira fera da inocência. Recorreu a agência e fez sua proposta para comprar seu direito de imagem, ofereceu muito mais do que estava disposto.

Quando recebeu a notícia, em uma visita, em sua casa, Francisca quase bateu as botas de tanta alegria, o empresário não poupou de elogios.

– Sua filha é realmente deslumbrante! Nunca vi outra igual! E olha que já patrocinei muitas modelos nessa minha jornada! Agora que temos negócio a tratar, queria muito anunciar meus planos futuros para Lavínia, a começar pela viagem ao Egito!

A menina se assustou.

– Uma viagem? Mas já? Não sou muito pequena?

Honorário explicou.

– Não há idades para se brilhar, princesa. Tenho velhos amigos em Alexandria, vão adorar conhecê-la pessoalmente, seu book já foi visto e eles possuem uma proposta de publicidade fenomenal para você! Será protagonista de uma empreiteira que deseja desviar fluxos do rio Nilo para construir um parque temático!

Lavínia cruzou os braços, incrédula!

– Mas isso é ilegal! Quantas famílias vão correr o risco de desabastecimento se isso acontecer?

Honorário mostra seus amarelos dentes encavalados num esboçar irônico e a abraça gentilmente.

– Nessa vida, minha querida! O mundo é dos espertos! Nem sempre, a ética e a moral fazem parte de nossa evolução. Deixá-las de lado, às vezes é necessário, para almejar algo sólido e estável para o resto dos nossos dias!

A adolescente desviou o olhar. O que poderia fazer? Não era responsável por si, sua mãe só concordava com aquilo, pois pensava na superação de suas dívidas, de seu sufoco financeiro, de sua miséria. Não era uma escolha, era uma necessidade. Abaixou a cabeça e como muitos por aí, calou-se.

Chegou finalmente à terça-feira do embarque. Depois de hospedar-se com sua mãe e Honorário em um hotel na metrópole do estado, finalmente se despedira de Francisca no aeroporto e agora apertava o cinto, no canto, ao lado de seu empresário. Observou uma senhora tomando remédios que a aeromoça ofereceu.

– O que são aquelas cápsulas?

O patrocinador riu com a curiosidade da menina.

– Algumas pessoas nem cogitam a possibilidade de pegarem o avião, sem antes tomarem o sonífero. O medo de altura, de confinamento, pode-os causar falta de ar, queda de pressão, tomam para evitar o transtorno!

– Minha nossa! É tão terrível, assim?

O homem finalizou.

– Já, você vai descobrir!

E o avião começou a se arrastar, o frio na barriga tomou conta, ela estremeceu meio masoquista.

Já havia se passado algumas horas que estavam sobrevoando. Lavínia afastou as cortinas e percebeu que já escurecera, olhou para o lado e Honorário estava no décimo sono, soltou o cinto e identificou no letreiro fosforescente a porta do banheiro, precipitou-se, no exato momento o empresário escancarou os olhos.

Já terminara de limpar as mãos com aqueles lenços umedecidos quando destrancou a porta e se assustou com o olhar doentio que Honorário a mirava.

– Aconteceu alguma coisa?

Ele não respondeu, afastou-a para dentro com uma das mãos e a outra fechou o ambiente. Abriu o zíper da calça.

– O que você está pensando em fazer comigo?

Ela se desesperou, tentou bater na porta e gritar por socorro, mas ele tapou sua boca e a virou de costas, puxando suas vestes. Ela grunhia por debaixo de suas mãos.

– Pelo amor de Deus, me solta, eu sou apenas uma criança! Por favor! Não!

Ele não a poupou, estuprou-a ali mesmo, pondo fim a sua virgindade. Enquanto ela se contorcia em dores, escorria pela suas pernas, rastros de sangue, deixados pela brutalidade.

Passado o momento de sufoco, amedrontada a menina pôs os comprimidos na boca, virando um copo de água. O homem agradeceu a aeromoça. A jovem deitou-se na cabeceira da poltrona quando a profissional se afastou.

– Por que fez isso comigo?

Honorário a observou e percebeu que chorava, limpou-lhe as lágrimas com o indicador.

– Eu precisava cobrar o preço da viagem, você é realmente tentadora, o que posso fazer?

– Isso não é desculpa! Eu não fiz nada para você! Aquilo doeu e muito! Você tirou o meu direito de perdê-la com um homem que eu, por ventura, amasse. Violou a minha liberdade!

O empresário sofreu. Aquelas palavras revoltadas eclodiram em seu interior e ele sentiu-se seco, gélido, um monstro. Confessou-lhe.

– Me perdoa! Sei que isso perdeu completamente o sentido agora, mas eu nunca quis fazer você sofrer. Eu tenho um descontrole, um vício com todas as garotas que patrocino, me sinto solitário, esquecido, impotente, é a saída para dominar.

Ela não quis mais continuar aquela discussão, virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos tentando adormecer.

Em contrapartida, a manhã, no dia seguinte, fora um sucesso. Passou a ser conhecida na capital como a “Deusa do Nilo”. Durante as reportagens de televisão que conquistou, por mais discordante, tivera que ocultar ou desmentir a falência muitos ribeirinhos com a proposta de transposição. Era o degrau para o estrelato, atraindo muito mais investimento.

Não demorou muito para ganhar uma participação em um clipe de uma cantora síria e lá se ia outra viagem, mas ao contrário do que a adolescente achava Candela nunca mais ousou tocá-la. Grandes comemorações surgiram nas semanas seguintes, quando a beleza da menina já era conhecida em todos os pontos do oriente médio e dos países da África. A música da cantora bateu recorde de visualizações e inscritos: centenas, milhares, milhões. Viralizou-se pelo mundo. Ligava todas as noites antes de dormir para contar as novidades para a mãe cuja ação era vibrar do outro lado da linha.

Em uma dessas festividades, recebeu um convite, estranhou.

– Para mim?

Honorário confirmou, ela retirou do envelope e leu.

– Quem é esse Mustafá Sauã?

– É simplesmente um dos homens mais bem-sucedidos do mundo. É um dos mantenedores da ditadura da família Saudita na Arábia. Ele quer muito te conhecer!

– Seria uma proposta?

A resposta da jovem foi respondida horas mais tardes, quando chegara a uma limusine de luxo que o homem expedira. O templo onde morava, resgatava um estilo clássico. Estatuetas bem desenhadas, minaretes finos e compostos nos dois lados da entrada. Cúpulas no centro, tudo pintado de um branco reluzente. Desceu, riscando o sapato naquele piso imponente até ser recebida por alguns serviçais. Subiram alguns lances de escada até um salão de paredes avermelhadas iluminado por luminárias adornadas com frutas secas. Ao fundo moças com metade do rosto escondido saracoteavam a dança do ventre para uma cama acortinada de costas a entrada.

– Senhor! Ela chegou!

O homem levanta-se totalmente encantado e se aproxima para vê-la melhor. O tradutor prepara-se para auxiliá-los.

– Ela é linda! Completamente linda! Por favor, deixe-me a sós com ela!

Lavínia dá de ombros.

– Mas nem morta que eu vou ficar sozinha com esse desconhecido! Sou muito nova e não vou servir a vontade dele! Chamou-me aqui para isso? Eu não sou uma profissional do sexo! Sou uma modelo!

Honorário tentou amenizar um pouco na tradução, mas Sauã não gostou nem um pouco de ser contrariado.

– Quem ela pensa que é para falar desse jeito? É apenas uma mulher e nada mais. Deveria ter um marido e estar cuidando da casa e não andar solta por aí, sem ao menos uma abaya para cobrir o corpo!

A jovem se irrita.

– Que machismo todo, é esse? Vamos embora Honorário! Até agora estou tentando entender por que me trouxe para ver esse desenxabido!

Ela dá meia volta e sai caminhando pelo palácio. O empresário pede desculpas ao príncipe, o qual, no entanto, não consegue controlar seus sentimentos e grita para ela esperar. Lavínia se volta irritada e acaba depois de Honorário implorar, cedendo ao menos uma refeição ao lado de Mustafá.

Saíra da refeição com a mesma impressão que ingressara. Não era por que ele a havia pedido desculpas e servidos uns pratos deliciosos que ela se esqueceria do gostinho baixo que ele tinha, montando o harém. Mas agora isso não era relevante e talvez nunca fosse, pois naquele fim de tarde mesmo, estaria embarcando de volta para o Brasil, fazia meses que não via sua mãe para qual, aliás, tinha uma surpresa.

– Pode abrir os olhos, agora!

A mulher sorriu ao ver aquele pequeno apartamento mobilhado no centro da cidade onde moravam. Francisca estava boquiaberta.

– O que significa isso? Lavínia! É para mim? Esse apartamento…

A menina balançou a cabeça positivamente, a passadeira de roupa correu para abraçá-la.

– Eu não acredito nisso! Você realizou meu sonho da casa própria! Oh minha filha, muito obrigado.

A mulher chorava emocionada, Lavínia limpou suas lágrimas.

– Saiu o dinheiro do clipe, acho que todo mundo deve estar comentando, não poderia deixar de cumprir um dos meus sonhos, você merece mãe! Desde muito pequena vi o esforço que teve para me criar, superando a morte do papai e varando madrugadas passando roupa para poder ter o que comer no dia seguinte. Tava mais que na hora de ter tudo isso recompensado. E esse dia chegou.

Mas a vida para a adolescente não estacionou por ali, na semana seguinte voltaram a embarcar, dessa vez para Milão numa turnê da cantora síria, a galera vibrava só com a aparição de Lavínia. Eram capas e mais capas de revistas revelando sua identidade. Honorário até teve que contratar um assessor para tomar conta da repercussão da morena.

Em uma sexta-feira de madrugada, porém, foi acordada por um telefonema inesperado. Era ninguém menos que Mustafá Sauã, o qual ao visto havia aprendido algumas palavras em português e chorava em vagido, implorando para vê-la.

– Calma! Não fique assim por minha causa, por favor! Façamos o seguinte, você toma um chá sete azahares, descansa por hoje, amanhã vejo com Honorário e se der embarco para Arábia, tudo bem? Como? Você está aqui em Milão? No prédio da frente?

Ela sai na varanda e enxerga Mustafá no mesmo andar do que o dela, em outra sacada. Põe um sobretudo e atravessa rua.

O homem nem ao menos a espera apertar a campainha, ele abre e recebe com um abraço forte. Ela o acalma.

– O que está acontecendo? Não entendi muito bem o que você quis…

Ele não a responde e a beija. Ela tenta relutar num primeiro momento, mas não consegue, os lábios de Sauã eram muito quentes. Aquela língua longa e grossa tocando na dela, a pegada, o jogo de corpo, engatou na nuca dele e deixou-se embalar, ele a pôs no sofá e aos poucos foi despindo sua roupa, beijando-lhe o umbigo e subindo de leve.

– Eu não acho que seja uma boa ideia…

– Shiu! Não fala nada! Apenas sente!

Ela sorriu ao vê-lo falar português e fechou os olhos quando ele chegou a suas partes íntimas, estava anestesiada de prazer, ele realmente tinha experiência com mulheres. Empurrou o corpo dele para o outro lado e agora totalmente nua subiu em cima de seu colo, desabotoando suas calças, ele a encarava fascinado. Com certeza queria aquela jovem como sua mulher.

Acordaram na manhã seguinte e o dinástico a serviu café na cama. Ela recusou.

– Não deveria ter feito isso, onde eu estava com a cabeça?

Ele ligou seu tradutor portátil e respondeu.

– Mas você gostou, até gemer, você…

Ela não o esperou terminar a frase, deu-lhe um tapa. Ele não gostou.

– Nem repita uma coisa dessas! Eu tenho apenas 14 anos, isso que fizemos pode ser considerado pedofilia!

Ele rebateu repetindo pausadamente o que o tradutor pedia para ele falar.

– Fuja comigo para Arábia! Lá isso é perfeitamente normal!

Ela negou, vestindo a roupa.

– Você tem muitas mulheres, não tem o que reclamar!

Ele a puxou pelo braço.

– Mas eu quero você, não entendeu?

Ela pediu para soltá-la.

– Eu sou monogâmica, não quero dividir meu marido com nenhuma outra mulher, agora me dá licença, que tenho um desfile pela frente!

E saiu o deixando amargurado: aquele noite então não havia significado nada?

E quem disse que ficaria assim? Depois de algumas horas sofrendo, o homem decidiu e apareceu no desfile, subindo ao palco na vez de Lavínia e com um anel, na frente da platéia e de milhões de telespectadores, pediu-a em casamento.

– Eu me desfiz de todas! De todas! Só para ficar com você!

Ela ficou pasma com aquela revelação, fotos e mais fotos eram batidas da cena que iria bombar nos jornais pelos dias seguintes. Todos estavam esperando uma resposta. Até que Honorário apareceu com um celular nas mãos, sua mãe que a acompanhava pela televisão, opinou. Ela recebeu o Smartphone e a ouviu.

– É tão difícil encontrar um homem que nos ama, minha filha. Não jogue essa oportunidade fora! E não é pela situação financeira que eu te digo isso, é pela submissão dele, pelo desfazer de suas experiências, você sempre quis ter uma família, ser mãe, pois agora poderá realizar esse sonho. Estou eu, a galera toda do vilarejo, o Brasil, o mundo esperando por essa resposta!Não demore, pois se não depois pode ser tarde demais!

Ela entregou o aparelho para o empresário e decidiu emocionada lembrando da noite que tivera.

– Está certo! Eu aceito, Sauã. Eu aceito me casar com você!

Ele pôs o anel em suas mãos e a deitou com um beijo, escorando no braço, todos aplaudiram lunaticamente aquele espetáculo romântico.

Os primeiros anos daquela união foram os melhores possíveis. Ao contrário da primeira impressão, Mustafá era um homem muito carinhoso e por mais que na Arábia Saudita ela tivesse que usar abaya, burca e se preservar, ele não a impedia de viajar, até a acompanhava muitas vezes. A própria Dona Francisca foi morar no palácio, logicamente que os pais do rapaz não aceitaram muito bem essa situação, afinal ela tratava-se de uma ocidental, mas o carisma da menina não demorou a conquistar seus corações. O problema foi a criança, o valão esperado que nunca vingou, ela descobriu para desgosto dos sogros que nunca iria poder gerar filhos, pois era estéril por uma doença genética, mas isso em nenhum momento fez Sauã voltar atrás, ele continuou a amando, mais do que tudo.

OITO ANOS MAIS TARDE…

 

No entanto, o ciúmes doentio de Sauã crescia paralelamente a esses momentos de conquistas e ele começava a enlouquecer.

– Abre essa porta, Mustafá! Eu tenho que me apresentar a Amicus Productions para iniciar a gravação do filme!

Sauã arrumava sua Kandoora em silêncio no espelho. Respirou fundo e aproximou-se da porta do quarto.

– Você vai me prometer que vai largar aquele seu amante?

– Que amante? Eu já disse o Steven é protagonista do filme, assim como eu. Faremos par romântico e nada mais! Abre essa porta, por favor, Mustafá. É a minha carreira que está em jogo!

O homem destranca o quarto totalmente sombrio, não dá tempo dela reagir, agarra seu pescoço e esbija, deixando-a sem ar, ele a joga na cama e sobe em cima dela.

– Eu não quero mulher minha de caso com nenhum homem! Liga para aquela produtora imunda e cancela a sua participação!

Ela fica roxa, embólica perante a violência que ele empregava, tentando impedi-la a todo custo de encenar, se não fosse Francisca surgir, ele poderia tê-la matado.

– Larga a minha filha, agora!

Desesperada ela quebra um vaso na cabeça do homem, Ele cai totalmente atordoado, mas não chega a desmaiar. A dona-de-casa puxa o braço da filha.

– Foge, foge!

– Mas e você? Ele nunca vai te perdoar por ter feito isso!

– Não interessa o que vai acontecer comigo, faça o seu filme!

– Mãe, ele se tornou um maníaco, eu não posso permitir que ele…

– Eu sei me virar, só promete para mim que não vai mais voltar para essa casa, mais uma, ela pode te matar, se esqueceu do que todo mundo fala por aí sobre o óbito dos pais dele, foi muito suspeito aquele acidente com monóxido de carbono na garagem, ele queria herdar toda a herança e agora quer ter posse sobre você. Não permita! Nenhuma mulher merece passar por isso, Lavínia. Não sabe como me arrependo daquele telefonema que pedi para vocês se casarem! Nossa vida se transformou num inferno!

Mustafá começa a balburdiar e Lavínia sai do apartamento pegando seus pertences, sua mãe o tranca no quarto e começa a preparar suas malas para viajar.

O filme de terror Último olhar torna-se sucesso de bilheteria e Lavínia Martins de Mello, além da brilhante carreira de modelo que estava construindo, agora era conhecida ao lado do ator Steven Jonakesp como o melhor casal de cinema do gênero: #Andressa e Richard. Ninguém iria se esquecer daquele longa que há poucos dias tornou-se clássico. A mocinha que descobrira o caráter de seu marido, um verdadeiro torturador de vítimas, assassinando-as das maneiras mais escabrosas, juntara-se a ele na empreitada, driblando o receio do rapaz em revelá-la. Ambos tornaram-se o casal de psicopatas mais perseguidos pela polícia britânica.

Mustafá assistiu a produção na televisão naquela noite, meses após o abandono de Lavínia, ele chorava, seus olhos avermelhavam-se de ódio, doentes de obsessão. Ousou ligá-la e implorou por um último encontro em um hotel em Londres, onde ela mesma estava hospedada, estudando a continuação do filme. Seu maior erro foi, desta vez, não confidenciar seus planos a mãe por mais que a mesma mulher tivesse voltado ao Brasil.

Abriu a porta do apartamento alugado por Mustafá, exceto pelas cortinas ao fundo que esvoaçavam, tudo permanecia num silêncio. Ao centro uma mesa circular de vidro reservava dois acentos: o dele e o dela. A sombra de um homem revelou-se na parede, ela se virou.

– Que bom que você veio! Já estava com saudades!

Acaba de sair da cozinha, seu olhar tinha um tom místico.

– Olha aqui Mustafá! Eu só aceitei esse convite por que você me prometeu assinar o divórcio. Eu não quero complicações, desejo realmente que a gente termine bem! Não sei se conseguiremos ser amigos, depois das suas atitudes violentas! Mas torço, torço de coração para que seja feliz.

Ele sorriu quieto e mostrou-a o seu lugar. O jantar foi agradável, a luz daqueles castiçais a vela, ele apontava de alguma forma ter entendido a situação, estava calmo, sereno, até falava de seus planos com novas mulheres, talvez aquele tempo afastado tivesse feito conceber que não era seu dono.

Pobre Lavínia! Inocente, boa! Não enxergava todo o teatro que estava em sua frente! Depois de repetir a taça de vinho, sentiu-se cambaleante, chegou até a levantar, todavia, não resistiu e suas pernas penderam ao chão.

Mustafá respirou, aproximou do corpo que lentamente adormecia, acariciou seus cabelos morenos, como ela era linda, por que ela não poderia ser dele? Apenas dele? Por que ela havia o traído com aquele sujeito? Se ele sempre a dera tudo? Uma casa? Uma família? Amor? Dinheiro? Poder? Absolutamente Tudo! Mas mesmo assim ela deixara-o de amar. Precisava aprender que se não fosse dele, não seria de mais ninguém! Abriu discretamente seu vestido, retirou-lhe os sapatos, puxou carinhosamente as pulseiras, a gargantilha, tudo que a artificializava, resgatou seu estado de natureza: o nu.

Beijou seus lábios secos e chorou de soluçar.

– Me perdoa, me perdoa!

Encarou-a pela última vez naquele assoalho e a pôs nos braços, carregando-a pelo corredor até o banheiro, onde uma banheira os aguardava em água fervente!

Pôs delicadamente suas pernas, seus braços, até submergir o corpo inteiro, o teto condensava, o vapor de água escaldava o corpo do homem que a deixou a sós, transmutando em queimaduras naquele cômodo sobre bolhas e mais bolhas de fervura.

***

Um pesadelo horrível a fez despertar, seu corpo ardia-se violentamente, olhou em seus braços, suas pernas, tudo estava em carne viva, precipitou-se da banheira e escorregou no tapete, sentiu a rugosidade de sua face. Tremia, sentia-se sede, muita sede. Ergueu-se de supetão e limpou o vapor com o que sobrara de suas mãos totalmente enervadas para dentro. Olhou seu reflexo e petrificou por um segundo, berrou por socorro quando sentiu suas pálpebras grudarem nos olhos.

Mustafá não conseguiu fugir por muito tempo, foi pego pela Interpol na França. O caso chocou o mundo. O destino daquela menina que concorreria a miss universo, agora estava estragado, havia sido violentamente arrancado para sempre. Francisca não suportou a notícia e teve um enfarte fulminante. Os infectologistas, cirurgiões plásticos tentaram de tudo para reverter ao máximo às queimaduras, mas Lavínia nunca mais seria a mesma. Dez, vinte, trinta operações, mas aquele tom tão doce de fera da inocência que fizera Honorário se interessar não voltava, havia ficado parado no tempo, em algum lugar no passado, segundos antes dela ser atirada naquela banheira. Mustafá não aguentou o remorso quando caiu em si e se matou na prisão.

Um ano depois…

 

Uma apresentadora de televisão do Brasil anunciava a entrevista.

– Depois de um ano, finalmente uma cena rara: Lavínia retirará a máscara que tanto cobre o rosto.

A câmera virou-se, subindo pelo corpo deformado até chegar ao espelho, onde a ex-modelo, fitava-se, chorando desfigurada, sem ao menos poder se defender.

 

FIM

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.
  • Parabéns linda! Impressionante, adorei!!! Sucesso! beijos

    • Charlotte Marx

      Obrigada. Para você ver como é triste essa realidade, baseei em casos reais : Karine Eline, Katie Piper, a qual tiveram o sonho das passarelas destruídos por causa de seus ex-maridos. Sucesso para você também, querida. Conversei com Wellys e queria muito que substituísse Eterno Canto, às nove, com Eternas Lembranças.

      • Oi Linda! Boom dia! Por que substituir? Eterno Canto esta um arraso!!!!

        • Charlotte Marx

          Quando digo substituir, refiro-me após o término. Quando Eterno terminar de ir ao ar, queria muito que fosse substituída pela sua trama.

          • Ah flor…Que linda! Vamos ver né, ficaria feliz…mas estou toda atrapalhada. Com meu filho doente não estou conseguindo escrever! Mas vamos ver! Beijos linda e uma ótima quinta! estou aproveitando o tempinho que ele dorme para divulgar o Cyber e as obras de vocês! bjs

  • Wellyngton Vianna

    Nossa : “Pôs delicadamente suas pernas, seus braços, até submergir o corpo inteiro, o teto condensava, o vapor de água escaldava o corpo do homem que a deixou a sós, transmutando em queimaduras naquele cômodo”. Charlotte estou sem ar, esse foi o ápice, uma breve e definitiva descrição da cena mais chocante dá obra. Parabéns eu amei, muito bom.

    • Charlotte Marx

      Obrigada! Eu decidi na última hora em fazer um romance trágico, estava com três páginas adiante de superação, mas não estava ficando bom, reli-las( e não a obra inteirakkkk, meu erro) e achei massante