Observatório da escrita: Opinião web novela Vem, Meteoro por Charlotte Marx

Observatório da escrita: Opinião web novela Vem, Meteoro por Charlotte Marx

 

Vem, meteoro e sua assassina mirim.

 

Começamos mais uma edição do Observatório da Escrita e desta vez, selecionei uma obra totalmente contrastante (quanto a exibição, afinal a escolhida ainda está no ar) com a anterior analisada e não venho aqui dizer que é superior ou inferior, são produtos totalmente diferentes, não podem ser julgados pelos mesmos critérios, a não ser os estruturais ( gramática, progressão, agilidade etc.)

 

Vamos começar pela sinopse, diga-se de passagem, brilhante. O autor Benício Martins do horário nobre do blog TV MIX começou quebrando tabus e a prova disso é o cerne do roteiro, totalmente embasado na tensão de um possível asteróide colidir com o planeta terra, posto isso, criou os núcleos, todos articulados entre si e temerosos com esse possível acontecimento. O que mais me cativou foi à capacidade do autor em criar personagens distintos e complexos entre si, de características singulares, sem pontos em comum, apesar de defenderem a mesma bandeira. Um exemplo? É o personagem Caetano (amoral) quando comparado a Frida (imoral). Ambos são vilões, todavia enquanto o primeiro vai mais para a linha de filho pródigo, rebelde, a garotinha de doze anos é um psicopata de sangue frio, inclusive destaco essa revolução como o ponto mais forte da trama que até então possuía um assassino misterioso (velho clichê dos folhetins)

 

O me incomodou um pouco, não muito ao que acredito, uma vez que, sou árduo defensor da libertinagem, é a ausência de limites definidos entre o roteiro e o literário. Na primeira cena da obra, por exemplo, em que o protagonista Ezequiel Ivanov está a observar o céu estrelado, em seu sótão, como de costume, somos apresentado ao cenário de forma descritiva e narrativa atendendo positivamente aos critérios do script, todavia, logo em seguida, o autor relata de maneira sensitiva e onisciente, ao mesmo tempo, sem fazer uma marcação adequada na pauta de que se trataria de uma locução elucidativa sonora, houve um misto de gêneros, algo totalmente criativo, malgrado pode confundir os leitores mais técnicos e conservadores.

 

A agilidade, porém, é formidável e novamente o autor surpreende. Logo no primeiro capítulo, ele praticamente esgotou a parte factual da sinopse, terminando com um gancho de arrepiar: Ezequiel é envenenado com cianureto. A fim de desenvolver o romance na história entre a secretária Dorothy e o mauricinho Tony, o caminho escolhido, infelizmente, de nada marcou, pois Benício bebeu da mesma fonte há muito tempo conhecida: dois jovens de realidades antagônicas sócio-econômica e cultural, quando, poderia, ao invés de focar no preconceito de Verônica (a mãe do jovem), criar uma problemática existencial, tal como um sofrimento de depressão pela jovem, a qual não aceitaria sua identidade e para isso precisasse fugir, esconder-se do mundo, Tony enfrentaria o desafio de ajudá-la a encontrar-se, submetendo a prova sua paciência e seus reais sentimentos.

 

Erros de gramática há poucos, a escrita do autor é boa. Falhas de pontuação que deveriam ser melhor revistas( mas é algo completamente normal, até professor de português equivoca-se). Termino aqui, nossa breve análise, com a cena de revelação do assassino no capítulo 05, lembrando que ainda há um mês de web no ar. Não vão perder, não é mesmo?

 

CENA 13|

MANSÃO IVANOV/FUNDOS/EXT/NOITE.

Jair, com sua lanterna em mãos e acesa, se encaminha para a casinha onde se guarda ferramentas e outros utensílios. A neblina toma conta do local. Ele gira a maçaneta da porta…

JAIR (estranhando): Trancada?

Prontamente ele retira um molho de chaves do bolso e enfia uma delas na fechadura fazendo a porta se abrir. Ele entra e acende a luz. Ninguém ali dentro. Logo um barulho é ouvido vindo dos fundos do local. Jair se encaminha lentamente entre as prateleiras cobertas de poeira.

Ele observa a tampa de um alçapão e se dá conta de que o barulho vem dali.

JAIR: Eu nunca vi isso aqui…

Jair abre o alçapão e acende sua lanterna tentando enxergar algo lá embaixo.

JAIR: Quem tá aí?

Jair decide então ir até lá embaixo. Ele desce e ao chegar lá, ilumina o lugar com sua lanterna e acha um interruptor. Quando ele aperta, uma lâmpada negra acende e a luz invade o lugar. O que se observa é de tamanha perplexidade!

JAIR (assustado): Meu pai do céu! O que é isso?

Nas paredes, desenhadas com lápis de cera, pessoas mortas. Algumas com facas na cabeça, corpos mutilados, sangue jorrando. Homens e mulheres desenhados de forma amadora, nus, outros se relacionando.

Jair observa assustado o que vê. Ele se aproxima e nota em uma das paredes, recortes de homens nus, só que no lugar da cabeça, estão recortes de fotos da cabeça de Renato, Enrique e Tony.

Jair olha para o chão e vê dentro de um aquário o corpo de um gato afundado em formol.

JAIR: O Bolota! O gato do Nicolas… Meu Deus!

Nesse ambiente assustador e sádico, podemos notar que alguém se aproxima por trás de Jair que está abaixado no chão. Jair vira sua cabeça para trás, assustado, e recebe uma martelada certeira no crânio. Ele cai no chão e o martelo atinge várias vezes sua cabeça.

A imagem se escurece.

Alguém está terminando de subir o alçapão. Sapatilhas chegam ao solo. Sapatilhas que ao serem tocadas no chão com seus saltos de ferro fazem um barulho alto. O andar sincronizado faz soar uma leve melodia. Uma melodia cruel e sinistra! Um isqueiro é aceso e vai direto para a ponta de um cigarro que já está em sua boca.

Com os dedos ela retira o cigarro e solta uma grande fumaça no ar.

A fumaça vai se dissipando e revela nossa cruel e doentia vilã, FRIDA. Em seu olhar perturbador chegamos ao FIM DA PRIMEIRA SEMANA DE “VEM, METEORO”!

 

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.