O portal dos sonhos: Capítulo 6 – Visita indesejada

O portal dos sonhos: Capítulo 6 – Visita indesejada

Tranquei a porta saindo correndo em direção ao carro vermelho que buzinava enlouquecidamente em frente a minha casa.

– Hei sua maluca, quer acordar a vizinhança toda? Falei gritando, enquanto Susan se chacoalhava parecendo uma cobra mal matada dançando “Sim ou Não de Anita”. Balancei a cabeça em negação deixando escapar um sorriso.

– O que? Não estou ouvindo! Berrou ela levando uma das mãos ao ouvindo fingindo não me ouvir, arrancando o carro feito uma louca! Como já estava acostumada com as loucuras de Susan, nem me assustava mais, se minha mãe visse já iria colocar em pratica seu sermão nos chamando de inconsequentes.

– Por onde você se escondeu ontem que não foi para casa e nem avisou mocinha? Perguntei abaixando o volume do som.

– Hum! Segredo. Digamos que fui fazer uma visita há um antigo amigo que não via há muito tempo. Respondeu me dando uma piscadinha sarcástica.

E desde quando você tem segredos comigo? Perguntei dando um leve tapa em seu braço, o que a fez jogar o carro para o acostamento me dando o maior susto.

– Pirou de vez sua louca? Quer nos matar? Falei colocando o cinto.

– Não se bate em alguém que esta dirigindo, quase provou um acidente, viu? Alertou ela sorrindo. Mal havia encostado, mas se tinha uma coisa que “admirava” nela, era a forma sem noção que ela tinha de surpreender as pessoas com suas maluquices.  – E vai dizer que foi ruim ter ficado sozinha com meu irmão gato! Preferi nem responder, minha expressão de impaciência a fez se calar por alguns segundos.

Assim que Susan estacionou o carro, sai aliviada, respirando fundo á brisa fresca daquela manhã. Adorava o cheiro de terra molhada que surgiu anunciando as primeiras gotas de chuva. Saímos correndo em direção á livraria tentando evitar se molhar.

Quando finalmente atravessei a porta de vidro negro da sala de leitura, ainda vazia àquela hora, inspirei um perfume suave que parecia tomar conta da sala. Abrir a janela que ficava de frente para o estacionamento, do lado esquerdo, separado por uma grade que se estendia até a rua. A brisa rapidamente se espalhou pela sala deixando-a bem mais agradável.

Um carro preto, que estava no estacionamento me chamou atenção, conhecia de algum lugar! Enquanto forçava a memória tentando lembrar, Susan interrompe meus pensamentos!

– Caty, tem visita para você!  Senti um cheiro forte pelo ar de alguma coisa morta. Um arrepio se espalhou pelo meu corpo fazendo soar um alerta de perigo. Fiz um sinal com a cabeça para Susan que estava tudo bem, ela não ia muito com a cara de Matt.

– Olá, Catherine! Ou será que ainda posso lhe chamar de Caty? – disse a voz grave saindo por detrás de uma estante repleta de livros ainda embalados.

Virei-me lentamente. Deveria ter imaginado de onde vinha o cheiro. Talvez soubesse.

– Prefiro que me chame de Catherine, Caty é mais para os amigos!

– Ui, acordou de mal humor hoje?

– Não Matt, sua presença que me deixa mal humorada!

Matt Oliver, meu ex namorado mala, se aproximou puxando a gola de sua camisa preta tentando parecer sexy. Seu cabelo comprido, negro alcançavam seus ombros retos. Olhos negros mantinham em sigilo sua alma por trás de um véu sombrio e pálido. O sorriso maroto como sempre estava em seu rosto, já era sua marca registrada. Não vou negar que havia certa beleza peculiar nele. Mas já estava curada desse seu charme. A mim não fazia mais nenhum efeito a não ser nojo!

– O que veio fazer aqui? – perguntei o mais ríspida que consegui ser. Exceto os minutos que passei com Susan no carro.

– Vim ver você – disse ele, irônico, passando a mão sobre uma das prateleiras empoeiradas. – faz tempo que não limpam esse lugar né?

– Pois é se quiser ser útil pode começar por essa aí mesmo! Debochei jogando um pano que estava em cima da minha mesa. Fiquei sabendo que esta de carro novo.

– Bem observador você, e onde viu meu carro, tem rodado minha casa Matt, devo me preocupar?

– Ei, calma! Acordou atacada hoje hein? Brigou com o namorado?

– Olha só seu folgado, minha vida pessoal não te interessa, aliás nada referente a minha vida te interessa. – Diz logo o que você quer dessa vez, Matt ou saia daqui agora.

– Ok, estressadinha, já vi que hoje não é um bom dia né? Vim trazer um recado – disse ele.

– O quê? Perguntei irônica.

– Tenho um recado dele.

Ao fixar meus olhos nos seus, observei uma mancha vermelha na barra do seu jeans. Provavelmente ele teria se metido em alguma briga pelo caminho.

(Oque era bem típico dele)

– Ele quem? Do que você esta falando, você esta bêbado? – Perguntei sarcástica.

Matt riu, dando um passo à frente para olhar fixamente em meus olhos.

– Você sabe de quem estou falando, não se faça de besta? – concluiu em um tom sarcástico quase ameaçador.

A alguns centímetros de mim, ele desmanchou o sorriso, ficando sério por alguns instantes. No mesmo momento entendi a seriedade dele.

– O que ele quer? – perguntei sem conter a curiosidade em minha voz.

Matt levantou seu olhar gélido em direção aos meus novamente. Arrumando sua camisa, se aproximou parando ao meu lado e encostando-se à porta da sala.

– Você deve saber primeiro o que ele não quer.

– E o que ele não quer? Refiz a pergunta demonstrando minha impaciência!

– Que você continue andando com a Susan Villani. E principalmente, que você fique ainda mais longe do irmãozinho dela, aquele otário, disse ele jogando a cabeça para o lado.

Fui surpreendia por uma vontade súbita que me levaria a dar uma longa gargalhada. Mas me contive. Essa informação teria de fato extraído alguma risada de mim se não fosse tão absolutamente ridícula. E parecia ainda mais absurda quando se originava do meu ex-namorado, o babaca e desleixado Matt Oliver.

– Acho melhor você ir Matt – falei, me virando e apertando a maçaneta da porta. – Dá pra sair da frente? – Sugeri, sem disfarçar em minha voz um confronto.

Matt não se moveu. Não posso negar que tínhamos algo em comum, ambos adorávamos um desafio.

– Ele não está mais interessado em vocês, Catherine. Ele desistiu de leva-las de volta. (Depois que fugimos de meu pai, ele jurou a minha mãe que nos encontraria e nos levaria de volta).

– Não seja tolo – respondi, tentando não demonstrar minha desconfiança de que ele estaria deixando de me contar alguma coisa.

– Por que ele faria isso agora? Ele nos procura há um ano!

– Ele decidiu deixar vocês em paz, desistiu de vocês. Além disso, não quer mais desperdiçar tempo. Já esqueceu que seu pai é um homem de negócios e tem coisas muito mais importantes para resolver que ficar brincando de gato e rato?

– Há ta, não me faça rir, quem é você para se meter assim em nossa família? Conheço muito bem que tipo de negócio meu pai esta envolvido, os únicos ratos aqui é você e o bando de cachorrinhos que ele manda e desmanda quando ele quer, se você tivesse um pouco de amor próprio iria perceber que seu chefe apenas usa vocês. Acho que já deu seu recado inútil, já pode ir.

– Ainda não, ele mandou perguntar como esta sua mãe.

-Nossa que gentil da parte dele. Pode dizer que ela esta ótima, muito melhor agora longe dele.

– Agora me deixe trabalhar que eu realmente tenho coisas para fazer. Falei ríspida. Empurrando-o.

– Até deixo… Mas com uma única condição – continuou… Seu pai quer ver sua mãe! Ele quer que você a convença de vê-lo.

Aquilo estava tirando o pouco da paciência que ainda restava em mim.

– Mesmo que isso fosse verdade – disse – por que ele quer isso agora?  Você não acabou de dizer que ele desistiu da gente e que está cheio de coisas para resolver?

Meus pensamentos estavam como um tornado em fúria sem direção, causando uma inquietação e um pressentimento de que alguma coisa estava errada. Mas o quê?

 – Oque ele quer com ela? Perguntei desconfiada.

– Ele não me disse.

Era difícil de acreditar em suas palavras. Matt sempre fora o homem de imensa confiança para meu pai. (e um grande bajulador também) Sempre teve relacionamento com os episódios que envolviam nossa família, desde os supérfluos aos mais graves. Ele recebia e obedecia às ordens do meu pai sem sequer as questionar. Sempre fez isso, até o dia em que eu resolvi deixa-lo. O que não mudou em nada sua obediência ao meu pai.

– Vou pensar no que você falou! Agora da para você sair da minha frente?

Perguntei ainda com a mão na maçaneta da porta.

Matt deu um passo a minha direita, posicionando-se com o corpo ereto bem próximo a mim, diria próximo até demais.

– Ele quer que você se afaste dos Villani… – Dando uma pequena pausa, enfatizou – ou… Muito sangue será derramado, a consciência é sua Caty – Pude sentir uma trepidação em sua voz, além da frieza que se misturava na cinzenta nuvem que encobria seus olhos.

Por impulso, pensei em pedir pra que ele repetisse, porém havia entendido perfeitamente, apesar de não conseguir acreditar. Já imaginava que meu pai já soubesse da minha amizade com Susan, apesar de não entender essa rivalidade entre eles engoli em seco a ameaça. Queria entender por que uma união entre nossas famílias era inegociável. Por que meus pais sempre se irritam quando pergunto o que houve entre eles… O porquê da raiva de Susan e sua família. O que será que aconteceu de tão catastrófico que gerou esse ódio entre eles? Pior que não ter respostas é ter que conviver com esses mistérios e mentiras!

Ainda de cabeça baixa, mirava uma pedra redonda a minha frente que servia de encosto para evitar que a porta batesse com o vento. Quando me virei em direção ao Matt, ele já não estava mais ali. Com um sobressalto, voltei minha atenção em direção a um barulho que vinha do outro lado do estacionamento, uma arrancada forte fez os pneus cantarem deixando provavelmente sua marca e sua fúria, no asfalto ainda úmido da brisa fina que caía.

Mal havia começado o dia e já estava me sentindo exausta, fui até o salão principal da livraria pra ver se avistava Susan, mas não havia ninguém lá além de Dona Greta uma senhora muito simpática que era responsável pela limpeza. Ainda me perguntando o real motivo que levaria meu pai a mandar Matt até mim. Fui até a cozinha pegar um café tentando tirar por alguns momentos, as palavras e a visita indesejada que acabará de ter recebido!

Mesmo com um dia chuvoso e nublado posso dizer que foi um bom dia, eu e Susan catalogamos alguns livros novos, de novos autores nacionais da região, alguns deles, sempre acabam pegando carona comigo pra casa, sempre amei livros, o cheiro, a capa, tudo neles me atrai, por isso confirmo a cada dia o quanto amo meu trabalho. Viver entre Histórias fantásticas é como viver entre um enorme portal que intercala entre a realidade e a ficção! Na verdade nos divertimos bastante em nosso trabalho, digamos que, passamos mais horas espiando os livros do que realmente fazendo nosso trabalho, eu prefiro mais uma boa ficção, romance, mistérios… Enquanto Susan nem preciso falar né? Gênero unanime Hot, Hot bem sexy, na verdade quanto mais pervertido melhor, me acabo de rir com ela quando ela começa ler e tentar interpretar a cenas calientes. Não sei qual o meu problema, mas, preciso dizer que me surpreendo com meu poder de atrair gente maluca. Embora eu as ame e não sei viver sem elas. Após mais um dia, diria mais longo que o comum, fechamos a livraria e corremos para o carro tentando não nos molhar com a forte chuva que caída, na verdade parecia mais um dilúvio. Enquanto olhava através do vidro embaçado não via a hora de me enfiar na banheira e relaxar. Estava exausta.

CONTINUA…

Cainara Biondo

Produtora/ diretora de divulgação – Cyber Séries

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