O portal dos Sonhos: Capítulo 2 – A promessa

O portal dos Sonhos: Capítulo 2 – A promessa

Após quatro horas, sentada na cadeira batendo a caneta na mesa seguindo quase que freneticamente as batidas do meu coração.  Não conseguia largar meu diário, precisava de alguma forma de desabafar o que estava me sufocando. Como não sabia o que falar para Susan, a única opção que me restava era meu amigo fiel. Meu diário.  Nunca havia olhando tanto para o relógio acima do quadro negro, e nunca havia ficado tão fora de mim até hoje. A única coisa que parecia existir em minha cabeça eram aqueles lindos olhos azuis. Olhar para eles, era como saltar de um desfiladeiro e mergulhar no oceano aproveitando ao máximo a adrenalina do momento. Seu olhar além de direto contém uma dose generosa de mistério, existe algo nele que chega a ser irritante. Sabe quando nossa mãe nos da aquele aviso? Tipo assim…

– Você esta proibida de ver aquele garoto, ele não é confiável! – E você entende assim… – Nossa esse garoto é muito educado, gentil, um anjo! Mas no fundo você da razão a sua mãe, e mesmo assim resolve provar que ela esta errada? Mesmo sabendo que a errada é você por não escutá-la.

Então. Às vezes, às vezes não, na maioria das vezes erramos porque geralmente gostamos de desafios. Na maioria das vezes buscamos a salvação no caminho errado, só que no fundo, sabemos que é o caminho errado, e a vontade de vencer a adversidade, nadar contra a maré, pegar o barco furado, são nossas escolhas. Somos muitas vezes movidos pelo desafio, mas não nos preparamos para as consequências. E quando elas chegam às vezes pode ser tarde demais para mudar o que já foi feito.

-Então Catherine, posso saber em qual planeta a senhorita esta? – Disse o professor em tom de deboche, o que fez alguns da turma rir em alto som, obrigando-o em seguida pedir silêncio.

-Desculpe professor, não ouvi a pergunta. Estava terminando uma anotação para a próxima aula. – Ele se aproximou da mesa me encarando.

– Quanto tempo falta para começar a próxima aula? E quem disse que lhe fiz uma pergunta? Olhei rapidamente para o relógio na parede antes de responder.

– Bem, faltam 15 minutos para a próxima aula. E se o senhor não fez nenhuma pergunta qual o problema então, estava em silêncio. Dessa vez devolvi olhar firme fazendo questão de frisar a ironia em minha resposta. Se pudesse mataria todas as aulas de informática mesmo sendo uma das matérias que mais gosto, não suportava o Professor Estefan. Por ser de uma classe média alta se acha o melhor dos professores, além de ser ignorante e metido a conquistador. Chegou há pouco tempo na cidade, para preencher a vaga da professora Ana que saiu em licença maternidade, e já esta se achando o rei da cocada preta. Que raiva. Fechei meu diário cruzando os braços em seguida, escorei minha cadeira para trás encostando-se à parede e olhei bem em seus olhos. Minha vontade era de levantar e dar um soco na cara dele. E acho que consegui transmitir isso em meu olhar.

– Então, se você não fez nenhuma pergunta posso saber o que quer comigo? Posso saber o que fiz de tão grave para você interromper sua aula e focar sua atenção toda em mim? Desta vez tentei fazer com que saísse mais sutil minhas palavras, mas parece que teve um efeito contrário.

Ele socou a mesa derrubando o mouse e a caneta. No susto até minha cadeira voltou para o lugar. Os outros alunos da sala dessa vez abafaram o riso, exceto um, Oliver, que ficava na fileira ao meu lado. Olhei para os lados enquanto me abaixei para pegar o que havia caído no chão, todos estavam com um olhar que dizia. “O professor ficou maluco ou tá possuído.” Susan que estava duas fileiras a minha frente me olhou e fez um sinal para que eu ficasse quieta enquanto mexia no celular. Não fazia sentido sua reação, ele realmente deveria estar em um dia muito ruim.

-Não vou aceitar esses atrevimentos, e você senhor Oliver, tá achando engraçado? Então saia e faça companhia a sua amiga de sala. Encontrarei vocês na secretária, por hoje estão expulsos da minha aula. -Saiam, Berrou. Enquanto Oliver saía batendo a porta, fui guardando minhas coisas na bolsa sobre a supervisão atenta e furiosa do professor. Ele então totalmente descontrolado socou novamente a mesa berrando. Saia daqui agora Catherine, saia. Sua reação explosiva não me assustou, mas não posso dizer o mesmo do resto da sala. Todos começaram a sair correndo em direção a porta sem olhar para trás, menos eu.  Com a cabeça baixa ele se segurou na minha mesa apertando-a tão forte que pude ouvir o som dela se quebrando. E então percebi que estava acontecendo alguma coisa, alguma coisa da qual não ficaria ali para ver. Coloquei uma das alças da bolsa em meu ombro e sai sem dizer nada, todos já haviam saído. Faltando menos de dois passos para atravessar a porta em direção à saída, senti algo passar por mim voando e em seguida se espatifando contra a parede. Era minha mesa. Com o susto me joguei contra o quadro negro caindo no chão.

-Espere Catherine. Esta com pressa agora, não quer conversar mais um pouco? Sua voz estava estranha, além do sarcasmo havia mais alguma coisa. Ele começou a assoviar vindo em minha direção mantendo a cabeça ainda baixa. Senti uma dor em meu braço e instintivamente levei a mão sobre ele percebendo que estava sangrando. Não sabia o que pensar, minha cabeça estava doendo e meu corpo parecia não ter forças para se levantar dali.  Precisava fazer alguma, precisava sair dali, eu era o único alvo do professor surtado. Enquanto ele vinha em minha direção jogando as mesas e cadeiras para longe de seu caminho resolvi agir.

– Professor Estefan calma, esse não é o senhor. Antes que eu dissesse qualquer coisa ele caiu de joelhos em minha frente levando uma das mãos em meu pescoço.

– Cale a boca! Não era para você estar aqui, mandei você sair, agora é tarde demais. Preciso cumprir a promessa que fiz á ele. É a sua vida ou a minha. Ele se lançou sobre mim colocando seu peso sobre meu corpo me sufocando ainda mais. Conforme sua mão apertava meu pescoço mais minha visão ia se apagando, forcei meus olhos a se abrirem enquanto sentia as lágrimas rolarem pela minha face. E assim que abro meus olhos encontro com os dele. Jamais esquecerei aquele olhar escuro e frio. Senti como se estivesse sendo sugada pela escuridão de seus olhos e sem encontrar forçar para lutar me deixei levar pela escuridão. Não sabia quem estava tentando roubar minha alma, mas sabia que não era o professor.

Senti uma sensação como se estivesse em queda livre a quilômetros por hora.  Queria gritar, mas minha voz não saía. De repente, vi que estava me aproximando de uma luz, ela era tão forte que mal conseguia enxergar, havia cores em tons de azul e vermelho, cores lindas vibrantes, mas quanto mais me aproximava mais me obrigava a fechar os olhos. Mas antes de fecha-los percebi que estava saindo da escuridão, e seja lá para onde estava indo não estava sozinha. Não havia dor, nem medo… Não havia nada.

Sem saber quanto tempo havia se passado, fico feliz por conseguir abrir meus olhos novamente. Mas minha alegria não dura muito. Vejo acima de mim um ventilador de teto girando a toda velocidade e fazendo um ruído metálico, eu conhecia aquele ventilador, havia voltado para o pesadelo, havia voltado para a sala de aula. Gritei com todas as minhas forças esperando que alguém ouvisse meu grito de desespero. E assim que tento me levantar sinto uma mão firme sobre meu peito, e em seguida uma voz que não me causou medo e sim paz.

– Calma Catherine esta tudo bem. Um leve toque sobre meus cabelos me fez olhar para outra direção, na direção do paraíso. Não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo.

-Breno! Oque faz aqui? O que… Aconteceu? Levanto-me  escorando-me a parede com a ajuda de sentindo meu coração bater forte assim que a cena de terror volta em meus pensamentos.

– Hein, calma. Esta tudo bem agora. Ele me puxou para perto de seu peito, e suavemente encostou minha cabeça sobre seu coração que seguiam em batidas firmes, porém tranquilas.

– Oque você veio fazer aqui?  Cadê o professor? Por mais amedrontada que estivesse, por mais medo que pudesse sentir, notei que meu coração estava batendo no mesmo ritmo que o de Breno, calmo e tranquilo.

-Catherine, vamos sair daqui, vamos te levar para a nossa casa, lá conversamos. Precisamos cuidar desse seu braço. Falou enquanto acariciava meus cabelos.

– Nós? Mas…

-Mas nada. Vamos. Ele levou uma das mãos sobre minha cintura e foi me levando para fora daquela sala horrível. Seu perfume era tão encantador quanto seus olhos.

Já no estacionamento vejo quando Susan sai do carro correndo em nossa direção.

– Oi Caty, como você esta? Fiquei preocupada. Disse segurando no meu outro braço. Vamos te Levar para casa tá, fique tranquila. Concluiu com um breve sorriso. Assim que entramos no carro Breno pisou fundo no acelerador, deixando a marca do pneu no asfalto e uma poeira negra para trás. Nunca mais volto para este curso. Pensei antes de apagar por completo.

CONTINUA…

Cainara Biondo

Produtora/ diretora de divulgação – Cyber Séries