Não mais Amar: Capítulo 1 – Quando uma nova vida começa, tudo termina

Não mais Amar: Capítulo 1 – Quando uma nova vida começa, tudo termina

 

Um buraco estava por abrir-se aos meus pés. Meus pais se amavam, mas as vezes eles brigavam e numa dessas, algo já previsível por mim aconteceu, a separação. Enquanto a discussão que decidiria nossas vidas se estendia, eu observava em silêncio, o quão era notável o fim daquele relacionamento de anos. Eu não era mais uma menina. Em 1984, estava com meus 20 anos e cheguei a pensar por um milésimo de segundo durante aquela overdose de farpas trocadas entre eles, que não seria tão difícil assim enfrentar a nova situação.

No final, foi decidido: eles realmente estavam se separando. Minha mãe resolveu sair de Manaus – AM, eu não entendia o porquê de tanta revolta por parte dela. Será que ele a tinha traído? Ela jamais me respondeu. Tive que me despedir de meu pai sem ao menos saber o motivo, o amava, aliás, amava aos dois mas pela insistência dele , tive que escolher ir com ela. Lucélia, a minha mãe, estava tão decidida a mudar de vida que nem mesmo uma de minhas inúmeras perguntas ela respondia. Eu estava louca pra saber para onde aquele ônibus estava nos levando, era velho e nem placa de destino consegui encontrar, as pessoas dormiam durante o caminho inteiro. Eu não conseguia ver o final da estrada, ao achar que havia terminado um caminho, logo outro se iniciava e isso era terrível, tão terrível, que já no primeiro dia de viajem desisti de saber qual seria nosso destino. Foram alguns dias assim, eu já estava me consolando com um dos livros que adoro ler quando paramos em uma rodoviária, não me animei, nem me surpreendi, achei que era mais uma das muitas que passamos no caminho. O que me surpreendeu de verdade, foi o que minha mãe exclamou:

– Chegamos Camille! Dizia ela entusiasmada enquanto levantava se poltrona. Ao sair do ônibus, seu pé direito foi o primeiro a tocar o chão da rodoviária, ela esbanjava um sorriso que jamais conseguirei descrever, parecia estar realizada.

Senti um alívio ao saber que aquela viagem fatigante havia terminado. Pensei: talvez agora ela me conte que lugar é esse:

– Chegamos onde? Será que já posso saber? Perguntei com ar de revolta.

– Já ouviu falar no Espírito Santo? Me respondeu ela com outra pergunta.

Quando abri a boca para responder, fui interrompida:

– Não, não me refiro a Jesus Cristo, este graças a Deus você já conhece! Estou falando do estado Espírito Santo, essa cidade aqui, chama-se Itaguaçu! Explicou ela cheia de gestos e olhar voltado a paisagem em volta.

Fiquei em choque, passamos dias dentro daquele ônibus, mas não imaginei estivéssemos indo a tão longe, talvez pela minha pouca noção de distância.

– Estamos no Sudeste, mãe? Atravessamos o Brasil e você não me disse nada? – A questionei indignada.

– Te conheço, você voltaria nos primeiros 100 quilômetros!

– Isso é loucura! O que viemos fazer aqui? Do quê vamos viver? Insisti em tentar convence-la do absurdo que cometera.

– Quero vida nova. Vida nova tem que ser do zero em diante.

Enquanto caminhávamos rumo a saída da rodoviária, o olhar estático e sínico dela destruía meus nervos:

– Mãe, o que estamos fazendo? Você ficou louca?

Ela interrompeu os largos passos que executava:

– Camille! Não estamos fora de casa, não estamos longe. Estamos perto, é aqui que fica a nosso verdadeiro lar, sempre foi. Eu passei os melhores anos da minha vida nessa cidade. Quero muito que os seus melhores anos também sejam vividos aqui. Tenho dois irmãos, eles moram por perto é para lá que vamos, temos um lugar pra ficar, não se preocupe. Disse ela com toda certeza.

Foi muito difícil ouvir aquelas palavras desconhecidas. Irmãos capixabas? Ela sempre foi tão enrustida em relação ao seu passado. Imagina, durante minha vida inteira achei que ela fosse amazonense e não conhecesse outro lugar a não ser Manaus:

– Está me dizendo que Itaguaçu é sua cidade natal e que tem dois irmãos aqui? O que você foi fazer tão longe daqui então? Eu realmente estava muito curiosa pra saber.

– Eu era uma menina praticamente, deixei tudo pra trás pelo seu pai e pra quê? Depois de anos achando que ele era o homem dá minha vida me decepcionei. Você foi a única coisa boa que me restou disso tudo. Dizia ela escorregando os dedos em meus cabelos.

– Por que não me diz o que aconteceu entre vocês, porque se separam? Perguntei na tentativa de descobrir algo mais.

– Não lhe acrescentará em nada.

Ela me puxou pelo braço me forçando a acompanhar seus passos eufóricos. Durante a caminhada naquela cidadezinha, senti fome e cansaço, nunca pensei que fosse um dia estar ali. Carregava uma mochila pesada, já estava descabelada e suada, mas o que mas me importava naquele momento era chegar ao tal destino que haveria de conhecer logo mais. Eu estava exausta, mas minha mãe não, continuava radiante e ansiosa, ela admirava com orgulho cada esquina da cidade que com certeza lhe fazia lembrar seus anos de infância. Aquilo era uma overdose de nostalgia que ia muito além das lembranças. Depois de muito caminhar, uma rua curta e inclinada ate pararmos a frente de uma casa maltratada pelo tempo. Minha mãe tirou o sorriso do rosto o substituiu por lágrimas. Não resisti e acabei por me emocionar também:

– É aqui?

Ela esforçava o olhar por cima do muro baixo dá residência tentando ver seu interior, mas sem sucesso, logo avistamos uma mulher velha sair da casa ao lado:

– Posso ajudar? Dizia a velha

– Bom dia! Pode sim, estou procurando uma moça e um rapaz que moram nessa casa, será que eles estão?

A velhinha parou por um minuto, pensou, pensou… e disse:

– Marinha e Jocélio? Questionou a velha franzindo a testa.

– Sim, eles são meus irmãos! Respondeu empolgada enquanto deu dois passos a diante.

– Eles não moram mais aí não! Respondeu a velha.

Fiquei muito mal ao ver a tristeza tomar conta do sorriso que ela vinha esbanjando durante todo o caminho:

– Faz uns 2 anos que saíram daí! Justificou a velha.

– Mas, a senhora sabe para onde eles foram? Se mudaram de cidade? Questionou esperançosa.

– Não costumo saber da vida dos outros, moça. Respondeu a velha, como se estivesse se defendendo.

– Não, não senhora, me desculpe, não quis e ofendê-la!

– Só sei que essa casa já foi vendida e os novos donos são uns porcos, vivem viajando e deixam o lugar ser tomado por mato e sujeira. A casa é até boa, mas…

Minha mãe virou as costas pra velha e aproximou-se de mim:

– Vem filha! Falou baixo tom e visivelmente entristecida.

– Obrigada senhora!

– Boa sorte! Desejou a velho sentindo-se encabulada.

Minha mãe mudou completamente depois daquela notícia, não prestava mais atenção nas ruas nostálgicas que tanto lhe enfeitiçou. Era exatamente meio dia, o sol estava nos castigando, o cansaço era tanto que por alguns instantes achei minhas pernas estavam desprendidas do corpo. Resolvemos sentar na calçada de uma das lojinhas do centro de Itaguaçu, mas logo fomos vetadas:

– Ei, vocês não podem ficar aí espalhadas aí não, me desculpem, mas não podem. Reclamou a senhora que saia da loja com as mãos na cintura.

De imediato consegui defini-la como uma mulher estável, segura de si. Vaidosa e bem vestida, parecia ter uma condição financeira que poucos tinham naquela cidade pequena e de poucas boas expectativas.

– Desculpe, estamos descansando um pouco, fizemos uma viajem muito longa, estamos exaustas.

– Porque não foram até a praça? lá é mais sombreado e ventilado. Com arrogância, interrogou a tal mulher.

– Só conseguimos aguentar até aqui, senhora. Por favor, nos permita ficar. Já, já nós sairemos. Respondeu minha mãe de maneira comovente.

A dona da loja ficou em silêncio por alguns segundos, percebi quando ela reparou nossas bagagens:

– Estão com sede? Perguntou ela.

Minha mãe e eu nos olhamos simultaneamente, estávamos surpresas, pois a início, aquela mulher não havia gostado muito de nós:

– Vocês não podem ficar nessa situação numa calçada de loja. Venham, entrem.

Nunca senti tanto prazer em beber água, aquele era o líquido mais saboroso que havia tomado em toda minha vida. A cada copo que tomava a sede aumentava. Minha mãe estava na mesma situação:

– De onde estão vindo? Perguntou a senhora da loja

– Manaus. Respondeu minha mãe colocando o copo vazio sobre a mesa que avistou ao seu lado.

A sala onde estávamos era pouco iluminada, ficava localizada no final da loja de roupas, percebi que a mulher estava um pouco desconfortável por estar nos acolhendo naquele ambiente pouco aconchegante por isso resolveu se justificar:

– Estamos com um probleminha na iluminação, mas já estamos providenciando o conserto.

– Estamos bem, muito obrigada! Agradeceu minha mãe soltando um leve sorriso.

– Desculpe, não nos apresentamos. Meu nome é Camille e a minha mãe se chama Lucélia. Falei colocando a mão por cima dos ombros de minha mãe.

– Muito prazer, eu também não havia me apresentado, me desculpem. Me chamo Neusa Albuquerque sou dona desta loja e mais algumas outras espalhadas aqui pelo centro de Itaguaçu. Disse ela apertando nossas mãos.

– O prazer é nosso. Respondeu minha mãe.

– Desculpem também minha grosseria na frente dá loja. O que vieram fazer por aqui? Perguntou Neusa.

– Imagina dona Neusa. Estávamos erradas mesmo. Bom nós viemos …
Fui interrompida por minha mãe.

– Viemos ver uns parentes e já estamos voltando pra Manaus.

O que ela estava tramando? Porque não me deixou contar a verdade? Por que não permitiu que eu falasse o que realmente aconteceu conosco minutos atrás. Estávamos na rua, não tínhamos nem onde dormir até então. O dinheiro que sobrou não dava nem pra comprar uma passagem de ida pra cidade vizinha. Minha mãe estava tão confiante que reencontraria os irmãos e que eles iriam nos acolher que não pensou em separar um dinheiro pra nossa volta.

– Muito obrigada, dona Neusa! Precisamos ir se não perderemos o ônibus. Despediu-se  minha mãe agarrando meu braço e me levando em direção a saída.

– Ah certo, vão com Deus então.

Já fora da loja me posicionei contra ela, não pude compactuar com tal atitude absurda e orgulhosa. Definitivamente não estávamos numa situação favorável pra isso, tínhamos que ser sensatas e reconhecer que tínhamos que pedir ajuda.

– Mãe, pelo amor de Deus. O que está fazendo? Ficou louca? Onde vamos? Com que dinheiro? Não temos família nenhuma nesse fim de mundo. Só temos uma a outra e dignidade suficiente pra pedir ajuda. Não temos nem ontem passar a noite hoje mãe.

Ela ficou em silêncio, só o que conseguimos ouvir, foi a batida da porta da loja, era dona Neusa, ela havia escutado tudo.

–  Sua filha tem razão, eu jamais deixaria vocês dormirem na rua sabendo que posso ajudar de alguma maneira.

Realmente eu não havia me enganado quanto a personalidade daquela senhora, ela estava disposta a nos ajudar e isso me fez sorrir novamente.

Wellyngton Vianna

Recifense, 23 anos, CEO fundador do CYBER SÉRIES.

“Escrever liberta, podemos criar, recriar e inovar. Podemos tornar públicas as nossas idéias”.