Capítulo inicial

O irmão pródigo

Escrito por Charlotte Marx

Direção de Wellyngton Vianna

 

O Além do Eterno Canto…

O despertador ressoou estroboscópico na cabeceira da cama, assustada, ela estendeu o braço de meia- idade e o desligou, retirou o Black-out caminhando para as janelas, puxou as cortinas delicadamente, o róseo da aurora revelou-se em seu cristalino.

– Mais um dia de vitória para nós, povo lindo!

Pegou o elástico vermelho na porta-acessória, em cima da cômoda e pôs na boca enquanto puxava seus cabelos para trás, fez um rabo de cavalo, prendeu-o.

 

Já havia feito café quando percebeu que Paçoca ainda estava no décimo sono, riu observando-o dormir por debaixo do travesseiro.

– Ah não, mocinho! Temos muito que fazer!

Ela fez cócegas nas costas de seu pé e ele acordou de um sobressalto, caindo da cama. Débora não conseguiu poupar as risadas.

– O que aconteceu? Os liberais reagiram as nossas reformas populares?

Ela deu-lhe um tapinha.

– Nem repita uma coisa dessas! Bate nessa boca. Hoje vou começar a reduzir o poder do estado, acho que já prolongamos demais essa intervenção socialista, precisamos ser éticos e possibilitar de fato que o povo se autogoverne no comunismo.

Paçoca se levanta rebatendo.

– Eu ainda acho muito perigoso, tem muita gente que está na tocaia só para derrubar o seu governo. Ainda está com aquela idéia maluca de autorizar a liberdade de imprensa a todos os canais? Mesmo depois do risco de sofremos um bombardeio feroz da oposição elitizada?

Débora ri.

– Como você é preocupado! Nesses quinze anos, fizemos de tudo para desconcentrar o capital, não só aqui, mas em boa parte do mundo inteiro, estatizamos muitas das multinacionais, ganhamos a causa na maioria delas, propomos reformas progressistas a plebiscitos, praticamente em unanimidade toda população votou a favor, injetamos a rodo nas periferias, criamos centro culturais para a causa indígena, legalizamos a maconha, acabando de vez com o tráfico, nossa educação tornou-se em uma década comparável as sociais democracias por aí. Evoluímos, meu amor, evoluímos.

 

Paçoca finaliza.

– Como você é inocente, Debby. Sempre haverá opositores e eles só estarão esperando uma brecha para poder retomar a velha ordem.

 

Débora completa.

– A existência da oposição é um mal necessário, isso mostra que existe democracia de fato. O Stalinismo na URSS, Maoísmo na China deturparam a visão de Marx, era apenas uma forma de imperialismo, só se importavam em melhor a economia e perseguir inimigos, não havia relevância em melhorar a condição de inclusão, tanto que foram corruptos até o pescoço. Novos ventos sopram agora, não há mais possibilidade da burguesia ascender, estão arruinados não só aqui, mas em todo mundo. Portanto, está na hora dos proletários governarem diretamente.

 

O celular da jovem ressoa e ela percebe que está atrasada para a reunião com seus assessores. Sentado ali, na beira da cama, enquanto Débora sai correndo pelo corredor, Paçoca não consegue controlar sua intuição, para ele algo de muito ruim está por vir.

 

 

***

Débora chega de carro movido a hidrogênio no palácio do Planalto e é aplaudida por uma multidão que cerca o veículo, fanática pela sua presença, como de costume e pela abertura de imprensa que ela faria, obviamente com fiscalização para lentamente passar o poder para o povo. Nesse fervor, Jesus Van Gogh, seu meio-irmão a recebe com um abraço.

– Como sempre, Debby, uma popularidade imensurável. Creio que fará a assinatura da abertura em público, provavelmente?

Débora arqueia a sobrancelha.

– Por que faria isso, Jesus? Não sou populista e nem pretendo ser, sou apenas empática e você me conhece muito bem. Já não é de hoje que você vem com essas idéias, onde está o oncologista que um dia, sem saber que era meu irmão, apaixonei-me?

Ela o deixa sozinho e logo é recepcionada pelos seus ministros. Por uma mensagem numa rede social, o cordeiro revela sua natureza canina em um bate-papo privado.

 

– #Débora assina hoje o início de sua queda!

 

***

A mulher entra em sua sala e sorri ao ver o quadro do irmão atrás de sua cadeira.

– Nem acredito, maninho, nem acredito que estamos finalmente estabelecendo a democracia. Esses anos de ditadura do proletariado me fizeram me sentir uma tirana, por mais que tenhamos avançados muito na força revolucionária, porém, agora, é justo que o governo, que o comando do país vá para a mão da maioria. Queria tanto que estivesse aqui conosco, você e o papai estariam orgulhosos. Por que você acabou com a sua vida daquela forma? Por que depositou toda sua felicidade em prol de um amor interrompido por ordinários? Robson valia tanto assim? Maldito farol!  Primeiro Juliano, depois você.

Uma rapariga se adentrou no aposento trazendo os documentos.

– Alguns jornalistas estão perguntando se podem acompanhar a assinatura.

Débora nega.

– Não quero holofotes, essa medida deve ser naturalizada.

Ela a entrega.

– Vou ler tudo com calma e dentro de alguns minutos assino. Obrigada, querida.

A menina a deixa a sós e a protagonista se emociona.

 

***

Algumas horas mais tardes…

Eulália, a ministra da ciência e tecnologia foi recebida por aplausos da multidão, no entanto, dentro de seu gabinete, Débora foi recriminada pela sua precipitação. Rosa, socióloga especializada em Perry Anderson, o expoente do marxismo inglês, não a poupou:

 

– Como você pode autorizar qualquer imprensa? Não percebe que eles farão de tudo para te derrubar?

 

Débora tripudia.

– Derrubar-me? Ninguém me derruba. A burguesia está praticamente extinta, exceto as cinco plutocracias, o resto aderiu ao regime marxista nesses quinze anos.

 

Denise Sampaio, a vereadora, encara Paçoca e incrementa.

– O que são quinze anos para quase seis séculos e meio de capitalismo? Esse sistema político-econômico é resistente, ele é fluído: colonial, industrial, concorrencial, financeiro. Entenda Débora, não é a hora de diminuir o poder do estado, precisamos dele forte para aculturar a massa e fazê-la compreender o quanto foi enganada e manipulada, só assim, com ela do nosso lado, teremos força para partir para o segundo estágio: o comunismo.

 

Débora se irrita.

– Escutem aqui todos vocês, até você Paçoca, que apesar de se deitar comigo, nessas horas pula a cerca para o lado desse bando de ortodóxicos. Eu não sou uma stalinista! Não vou vestir o velcro de socialismo apenas para guerrear com possíveis ameaças capitalistas. Não sou uma imperialista, isso aqui é coletividade! Chega de tirania! Basta! O governo precisa ser do povo de uma vez por todas!

 

E sai batendo o pé.

 

Rosa não consegue se conter e solta uma expressão:

– Ela vai cair no velho conto da pós- verdade!

 

Paçoca não entende.

– Pós… O quê?

 

Rosa explica.

– Pós- verdade. É o fenômeno em que as crenças de um fato são mais validadas do que o próprio. As interpretações rasas, o apelo emocional, por serem fáceis de memorização tornam-se mais legítimos do que o entendimento da realidade. Isso é muito comum numa difusão desenfreada de informações, na qual o indivíduo não possui tempo de aprofundar a análise, típico de classes menos favorecidas, praticamente exploradas. Ela é uma leiga e está depositando tudo na teoria superficial, sem se adequar a pratica.

 

Paçoca consentiu e acena atestando a percepção da socióloga.

 

Denise já afastada a um canto conversava com seu noivo Jesus Van Gogh no telefone, ansiosa pela sua ida ao México na tentativa de desmontar o estado moderno capitalista que ainda se mantivera no território.

 

-Tomara que dê tudo certo, amor. De cinco passarão a quatro resistências! Estou orgulhosa da sua coragem!

 

Do outro lado da linha, Jesus responde.

– Que isso, amor. Não faço nada que não seja minha obrigação!  Agora preciso desligar que a reunião vai começar.

 

Eles se despedem e assim que desliga, Jesus sobe num palco, revelando seu caráter, diante de variados tipos de empresários de alto a baixo escalão, estava em um dos grandes latifúndios hortigranjeiros. Ele toma posse do microfone.

 

– Senhoras e senhoras, quero começar essa sessão saudando-os como uma boa notícia: O circo está todo armado, em poucos meses o Brasil reingressa no sistema          capitalista neoliberal.

 

Os olhos dos proprietários faíscam, um sorriso sarcástico aparece.

 

ANOITECE…

 

Paçoca ainda não chegara do jogo de futebol com os amigos, quando a campainha ressoa no apartamento do casal. Débora que assistia a um filme na televisão atende a porta.

 

– Rogério? Você por aqui?

 

O diretor do hospital acena que sim.

 

– Desculpa vir sem avisar, estava hospedado num hotel no centro da cidade quando avistei algo e resolvi fotografar!

 

Ela o convida para entrar e se acomodar.

– Ainda bem que chegou agora, meus amigos revezam na segurança, teria que esperar um pouco para subir. Mas eu não entendo como posso te ajudar. E o que resolveu fotografar?

 

Ele a mostra a imagem.

 

– Sim, estou vendo um casal, um casal de namorados.

 

Rogério pede.

– Olhe bem.

 

Ela se aproxima e se choca. Era Elton, irmão gêmeo de Robson (ex namorado do falecido irmão de Débora, inclusive suicida pelo assassinato do namorado) e Sam Alves, vivinho da Silva.

 

***

Jesus se encontra com o dono da antiga emissora brasileira Novilingua e combina o início do seu plano.

 

– A toupeira da Débora autorizou o projeto. Amanhã mesmo entra em vigor, se puder cobrir o evento da denuncia!

 

Linderberg não entende.

 

– Que denúncia?

 

Jesus explica brevemente.

 

– A diretora-chefe da Niosil, você sabe nossa grande extrativista de Nióbio, vai denunciar uma falsa notícia de corrupção que alguns amigos nossos, você sabe não resistiram à grana e acabaram criando algumas contas nos paraísos fiscais remanescentes, Srta. Paula Veneziani vai jogar a culpa inteira para cima da comunistinha e vamos desmontar a imagem dela por completo, assim conseguimos tomar o poder.

 

 

Linderberg se entusiasma

– Fale mais. Aceita um pouco de vinho tinto?

 

Jesus aceita e continua

– Obrigado, meu caro. Vamos criar uma espécie de organização para limpar a corrupção, uma fachada que será aclamada pelo público num espetáculo dantesco, superará a sensação de impunidade, chamar-se-á: Caça as Bruxas…

 

***

Débora não consegue parar de andar de um lado para o outro.

– Não pode ser, isso não pode estar acontecendo, Rogério! Não pode! Vem me leva até lá. Precisamos descobrir pistas sobre o paradeiro desse sujeito, ele influenciou no suicídio do meu irmão, não pode estar livre desse jeito!

 

Rogério concorda, quando estão saindo no corredor, Paçoca chega e estranha a reação dos dois.

 

– Que isso gente? Que cara são essas?

 

Débora o puxa para dentro do elevador.

– Vem no caminho te conto tudo!

 

***

Sam puxa o boné para cima do rosto, olhando do lado para ver se não estavam sendo seguido quando sentou na varanda de um bar na presença de Elton.

 

– O que eu não faço para ter sua presença perto de mim! Vir até a instituição de reinserção social aqui em Brasília, antes não tivesse sido transferido de Doce Recanto. Tomara que eu não tenha sido visto.

 

Elton zomba.

– Que não tenha sido visto comigo mesmo, esse seu rosto costurado pós queimadura me mata de vergonha! Se fosse mais esperto, Otto nunca teria descoberto e jamais teria parado dentro daquela caldeia.

 

Sam se irrita.

– Eu só não parto sua cara aqui mesmo, por que não posso armar confusão. Mas você é muito ingrato, está me ouvindo? Agora vai, escolhe o quer beber, bebê!

Elton ri.

– Eu não pedi para você vir me buscar! Sua carência que não agüentou! Mas já que estamos aqui e meu filme não vai voltar! Quero uma tequila!

 

***

Na frente do prédio de Denise Sampaio, a vereadora tenta acalmar o ânimo de Débora.

 

– Ficar nervosa desse jeito não vai adiantar em nada, só está fazendo mal a si mesma. Você já vasculhou o local da foto, eles não estão mais lá.  Nós vamos encontrar esse infeliz, acalme-se.

 

A mocinha esmurra a grade do prédio.

– Eu não consigo Denise! Meu irmão está enterrado por culpa daquele seqüestro de Robson.

 

Denise revela um plano.

– Vamos pedir para alguns amigos espalharem fotos pela cidade e do exército para cercarem as saídas da cidade, eles não vão querer ficar aqui por muito tempo e quando tentarem fugir, pegamos eles.

 

Débora chora e Paçoca a abraça.

 

 

AMANHECE…

 

Muitas pessoas se acomodam no sofá, ansiosas para assistirem a retomada de velhos canais e se assustam com a notícia de abertura: ESCÂNDALO DE CORRUPÇÃO ENVOLVENDO NIOSIL. DÉBORA E SUA CONTA NO PANÁMA.

***

Débora está dormindo abraçadinha com Paçoca quando acorda irritada com o barulho da campainha disparada.

 

– Nossa que persistência é essa? Já vou!

 

Paçoca põe um travesseiro no ouvido.

– Logo de manhã! Que tumulto é esse?

 

A mocinha veste uma camisola, amarra na cintura e calçando seus chinelos chega à sala, puxando a porta.

 

– Rogério? Denise? Rosa? Jesus? O que está acontecendo?

 

Jesus falsamente a abraça.

– Eu nem sei como te dizer isso, maninha. Uma traidora entre nós!

 

Débora não entende.

– Quem? O que você está dizendo?

 

Denise pega o controle no braço do sofá e liga a televisão.

– Estamos querendo dizer isso!

 

A menina senta boquiaberta com tamanha injustiça. Paula Veneziani a acusa sem escrúpulos para muitas emissoras:

 

– Ela censurava vocês, por que queria tapar o sol com a peneira. Não queria que ninguém soubesse da sua conta no exterior. Isso mesmo meu povo, essa farsa de regime socialista era só o pretexto para botar a mão na grande de todo mundo.

 

Débora volta com os olhos em lágrimas para Rosa. A mulher é incisiva.

– Eu te avisei! E não se engane isso é apenas o começo!

 

Jesus esconde o prazer que está sentindo da situação, controlando o sorriso de escárnio.

 

***

 

Sam termina de se aprontar no quarto, quando Elton o questiona.

– Vem cá, ainda não me contou como conseguiu simular sua morte!

Sam gargalha.

– Saí como herói de tudo, não? Sou um gênio, meu querido! Jesus combinou tudo comigo.

Elton se surpreende.

– Seu irmão? Aquele que foi apaixonado por Debby?

Sam confirma.

– Ele mesmo em carne e osso! Nunca superou o trauma de ser deixado por aquela jumenta. Álias, não sei o que vocês homem enxergam num rabo de saia daquele, só de verem um buraco já pensam em saciar o falo. Isso é doença, hein?Enfim, ele me ajudou a fugir, procurou-me no hospital quando eu estava internado pelas queimaduras e eu amei a idéia. Era a maneira de sair da situação da melhor maneira possível. Liberou a minha parte na herança de nossos pais e sobrevivo com ela.

 

Elton interrogou.

– Mas como foi? Como foi que saiu do caixão?

 

Sam recordou-se com gosto.

– Coloquei bala de borracha naquela pistola acessível de Otto e quando ele atirou em mim, foi só simular a tragédia romana. Estava tudo combinado no IML, fiquei com uma bomba de oxigênio no túmulo, depois no caixão, os funcionários mais envolvidos estavam sabendo, assim que a cerimônia acabou, o coveiro me tirou e fugi para o México, Jesus já tinha providenciado tudo: Passagem, estadia, tudinho.

 

Elton se surpreendeu.

– Ual! Quem diria que aquele carcamano fosse ter uma artimanha dessa? Isso é psicopatia na veia!

 

Sam senta na cama para calçar o tênis.

– Não propriamente, tolinho. É obsessivo, apenas. Transformou a paixão em ódio enrustido. Ai quer saber, vamos parar de falar de passado, por quem vive disso é museu, vamos ver se nessa televisão está passando algo que preste. Fiquei sabendo da liberação de imprensa, finalmente, né?

 

Os olhos do vilão se encantam ao escutar o noticiário.

 

Elton estranha.

– Corrupção? Quem diria que a…

 

Sam o interrompe.

– Calado, sleeve! Eu nunca pensei que ele pudesse ir tão longe. Tenho certeza Jesus está por trás disso tudo, ele quer retirá-la do poder. Mas não podia ser melhor, agora consegui meu sustento para o resto da vida.

 

***

Paçoca tenta abraçar Débora, mas ela se esquiva.

– Não preciso que tenha pena de mim, essa mentirosa vai ter que provar o que está dizendo! Vamos ver se ela consegue sustentar essa história por muito tempo, vamos ver!

 

Denise se precipita para impedi-la de sair.

– Você não vai a lugar nenhum, com a cabeça cheia! Amor, pega um copo com água e açúcar para ela. Será que não percebe que se ela fez isso é por que está com um cerco todo armado, ela sabe que calúnia e difamação é motivo de sobra para ela perder sua liberdade!

 

Jesus segura o riso e Rosa percebe. Ele se dirige até a cozinha e sozinho não consegue conter a gargalhada de felicidade, ao virar-se para sair se choca com a expressão fria da socióloga. O copo se estilhaça no chão.

 

– Você tem algo a ver com o que está acontecendo, Jesus?

 

Closet no rosto amedrontado do articulador. Congela.

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.

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