Nação Naufrágio Capítulo 02 – Comoção

Nação Naufrágio Capítulo 02 – Comoção

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Naufrágio

 

Capítulo 2

 

 

 

Jesus cambaleia com o olhar fuzilante de Rosa. Denise chega à cozinha e se surpreende com o copo quebrado.

 

– Um acidente! Amor, você está bem? Cortou-se? Vou pegar uma vassoura para limpar esses cacos.

 

Rosa não se intimida com a presença da vereadora e retoma a pergunta encarando o articulador.

 

– Você não respondeu a minha pergunta Jesus! Você tem ha…

 

Ele a interrompe, mentindo.

– Óbvio que não! Não sei da onde você tirou essa idéia maluca!

 

Denise já com a pá na mão esboça curiosidade:

– Que idéia maluca ela está falando, amor?

 

Closet no rosto do homem amedrontado. Rosa sorri sarcasticamente.

 

***

Fábio Boa Vista, um juiz formado em Piemonte, representante do imperialismo internacional das cinco resistências, aclamado pelas mídias liberal-burguesas é entrevistado diante a denúncia de corrupção.

 

– Não se preocupe, brasileiros e brasileiras. Esse escândalo envolvendo a nossa líder executiva não ficará a ver navios. Hoje mesmo patrocinado por algumas instituições privadas resistentes, começaremos uma investigação profunda até que tudo se esclareça. Garanto que não haverá impunidades aqui.

 

 

As famílias que assistiam a Novilingua e a outras emissoras conservadoras se entusiasmaram com a garra do jovem.

 

***

 

Antes que Rosa pudesse responder, Paçoca chega à cozinha acompanhado de Débora.

 

– Não dá mais para esperar. O juiz Fábio Boa Vista, forte opositor do nosso governo acabou de conseguir patrocínio estrangeiro para criar a farsa. Precisamos revogar agora a liberação de imprensa antes que seja tarde demais!

 

Rogério os surpreende.

– Não dá mais tempo!

 

Débora solta um grito incrédula.

– O Quê?

 

Rogério mostra o site.

– Já viralizou pelas mídias internacionais, inclusive nossas parceiras. Estão pedindo seu afastamento provisório!

 

A protagonista troca olhares preocupados com Denise. Jesus comemora baixinho.

 

***

Mais tarde…

Dalila está em um grande jardim construído atrás do Palácio do Planalto ensinando algumas meninas a dançarem balé, quando um segurança a interrompe.

 

– Há dois rapazes te procurando!

 

– Quem são? Pedro?

 

Ele dispara.

– Preferiram não se identificar. Mas disseram que era urgente!

 

Ela estranha, mas pausa sua aula.

– Meninas, me esperem um minuto. Já volto!

 

Ela se adentra na sala de visitas e não os reconhece até Sam retirar a máscara.

 

– Não tá lembrada de mim, maninha?

 

Dalila engole seco. Closet.

 

– Sam?

 

Ele tripudia.

– Em carne e osso! Boo.

 

Elton troca olhares com o parceiro riem baixinho com o susto da jovem.

 

– Eu achei que você estava morto. Então fingiu todo esse tempo?

 

Sam abraça a irmã a ignorando.

– Eu estava morrendo de saudades. Essa temporada no inferno, apenas me fez rever os valores morais de família.

 

Dalila se irrita.

– Pare com as suas ironias, seu parvo! Não percebe que eu e Jesus sofremos por sua ausência!

 

Sam cai na gargalhada ao lado de Elton. Dalila se enfurece.

– Do que estão rindo, suas hienas ambulantes?

 

Sam é direto.

– Seu irmãozinho sabia que eu estava vivo, só não quis a contar a você. E não me venha negar o seu conhecimento sobre o golpe cívico-militar que está em curso sobre sua participação, eu já sei de tudo! Assim como sei que são carne e unha, deve ganhar algum cargo ministerial para ajudar a ruir com esse prenúncio vermelho. Portanto se não quiser que eu bote minha boca no trombone, é melhor conseguir uma reunião particular com ele!

 

Dalila paralisa.

 

***

À Tarde…

Débora chega ao hall do prédio acompanhada de Paçoca e dos amigos quando vários fotógrafos a cercam, cegando-os com flashes das máquinas. Denise se irrita.

 

– Afastem-se seus abutres! Urubus!

 

Uma repórter bate o microfone na boca de Débora tentando conseguir uma palavra.

 

– Chanceler Débora, A O.P.S ( Organização dos Países Socialistas) pediu o seu afastamento provisório depois do escândalo da Niosil. O que nós e o povo brasileiro quer saber é por que carga d’águas a senhora nos roubou? Para onde foram esses bilhões?

 

Débora perde a consciência.

– Escute aqui, minha querida. Eu não roubei nada. Essa é a maior injustiça que estão fazendo sobre minha pessoa! Eu vou agora revogar essa liberação de imprensa. Querem me derrubar, mas não vão conseguir!

 

Enquanto seus amigos a ajudam a afastar os jornalistas. A repórter braveja.

 

– Típico de um governo autoritário! Censurar os opositores. A senhora já caiu há muito tempo! É só questão de tempo para ser afastada e nosso país voltar a crescer!

 

Eles conseguem finalmente sair do prédio. Denise se irrita.

– Aquela entrevistadora barata deve ter comprado diploma ainda no governo de nossos antecessores! Quanta audácia daquela umazinha dizer que você já caiu!

 

Quanto estão entrando no carro presidencial. Um homem acerta uma pedra na cabeça de Débora. Todos ficam embasbacados. Jesus entra em estado de êxtase. A protagonista põe a mão na cabeça e percebe que sua mão está encharcada de sangue.

 

Uma multidão de manifestantes se aproximam pedindo a saída imediata de Débora e a convocação de diretas já. Uma mulher grita batendo panela.

 

– Fora sua comunista! Cansamos do estado mamar em cima da gente!

 

Paçoca esbraveja.

– Doente! Seus doentes!

 

Um estudante acompanhado de colegas estão vestidos com a bandeira nacional.

 

– Abaixo ao comulatrocínio! Somos verde-amarelo. Chega dessa farsa. Queremos o capitalismo de volta!

 

E eles berram.

– Diretas já! Diretas já! Diretas já!

 

A mulher entra chorando no carro, deita no colo de Paçoca que a abraça. Denise chora e amparando a esposa a olha com piedade. Quando muda o olhar risonho encontra os de Rosa que o seca friamente.

 

ANOITECE…

 

Paula Veneziani e Fábio Boa Vista recebem em um veículo de vidro fumê uma garotinha e sua mãe, ambas fartas de dividir suas despesas com o estado. A mulher é incisiva.

– Disseram que o lance vai rolar muita grana, pois fale, fale o que minha garotinha deve fazer!

A pequena estava amedrontada. Paula retirou um Black longo e ofereceu à matriarca, a mulher não pestanejou ao aceitar. Fábio disparou.

– Ela vai agravar a situação de nossa líder executiva. Dizendo que foi estuprada pelo marido de Débora Carvalho.

 

No hospital…

 

Débora recebe os pontos na testa, enquanto Paçoca, no corredor, avisa Eulália para suspender por uma emenda constitucional a liberação de imprensa. A mulher consenti e diz providenciar.

 

Denise está dormindo cansada no veículo presidencial, do outro lado da rua, Rosa de dentro de uma padaria popular saboreia um brioche. É quando percebe Jesus saindo do carro e se dirigindo até um ponto de locomoção (local, no qual taxis estatais aguardavam para transportá-lo). A socióloga não engoliu direito aquela risada nefasta na cozinha e resolveu seguí-lo com outro táxi imediatamente após sua partida.

 

Mais tarde…

 

No estúdio da Novilíngua na região Cabeça do Cachorro…

 

Paula Veneziani chega acompanhada por Tinfani, a garotinha que recebera com a mãe no carro e Linderberg as recebe acompanhadas de sua equipe de jornalistas.

 

– Fiquem a vontade, depois teremos doces e guloseimas a vontade.

 

A menina sorriu encantada. Sentaram-se em umas poltronas ao fundo do cenário azul, abajures, projetores, holofotes, caixas de som, tudo estava equipado para aquela farsa. Paula Veneziani passou a maquiagem para fingir olheiras, alguns esteticistas intensificaram o sofrimento com traços delineados por pó de arroz mais escuro na menininha.

 

Assim que ficaram prontas, já com os colírios nos olhos começaram a gravar a denúncia.

 

***

 

Jesus chega a um prédio róseo e se adentra. Rosa reconhece o endereço no ato: no apartamento 112 no 11º andar, vivia Dalila, sua irmã mais nova. Até então parecia uma visita cordial, mas por que diachos sua orelha estalava avermelhada. Aquela situação parecia-lhe estranha, resolveu arriscar e bisbilhotar, não tinha nada a perder.

 

Esperou o porteiro ajudar uma idosa a subir as escadas da entrada e correu pelo estacionamento subterrâneo.

 

Assim que apertou a campainha, não poupou esforços para disparar sua ira ao irmão mais novo.

 

– Então você voltou, estrupício. Dei-te uma viagem para o México com uma grana gorda em sua conta e é assim que você me retribui: uma chantagem barata!

 

Sam tripudiou.

– Como se você não tivesse o mesmo espírito de porco, irmãozinho. Todo mundo sabe aqui das suas intenções, quer tomar o poder na marra e regredir ao sistema capitalista financeiro, derrubando Débora.

 

– Mas ela vai cair e eu assumir. Não será você que me deterá!

 

Sam ri.

– Quem diria, hein? De bobo da corte apaixonado passou a conspirador político. Tudo isso é incesto enrustido?

 

Jesus avança para cima dele.

– Cala essa sua boca, seu parasita. Eu não estou sozinho nessa, muitos querem ver a cabeça de Débora numa bandeja. Armamos o espetáculo da Niosil e se precisar usar arma militar, nós usaremos, não vemos descansar enquanto não restaurarmos a ordem liberal-burguesa.

 

Nessa hora, Rosa que entrara pelas portas do fundo não se agüenta com o gravador do celular nas mãos.

 

– Então é esse seu plano, não é seu rato imundo? Destruir os nossos direitos sociais?

 

Sam se assusta. Dalila se preocupa. Elton põe na cabeça. Jesus está petrificado.

 

***

Depois de estranharem o sumiço de Rosa e Jesus; Rogério, Débora, Paçoca e Denise finalmente chegam ao Palácio do Planalto e para sua surpresa, os manifestantes que lá estão pedem clareza nas investigações, reconhecendo a legitimidade do governo marxista da mocinha.

Um garotinho acompanhado de seus pais entrega flores de Camélias e rosas brancas para a chanceler que se emociona.

– Obrigada, querido.

Um grito de “NÃO VAI TER GOLPE” invade a praça dos três poderes, além de mensagens de apoio.

 

***

– Calma, Rosa, não é nada disso que você está pensando!

Dalila fica pasma.

– Como essa mulher entrou aqui? Gente! Eu vou chamar o porteiro!

Rosa rebate instantaneamente.

– Não será preciso, sua Judas. Já conheço caminho! E quanto a você, seu golpista ordinário! Saiba que seus planos terminam aqui! Eu vou mostrar essa gravação a todos, principalmente a sua mulher. Será o seu fim!

 

E sai pela porta da frente. O articulador esmurra a estante de pratos.

– Eu sabia! Sabia! Que não era uma boa hora para me ausentar. O Que eu vou fazer agora, estou perdido, perdido. Tudo por sua culpa, sua bicha estelionatário! Eu não posso deixar isso acontecer, ela não vai conseguir, não vai.

 

E saiu desatinado atrás da socióloga. Rosa corre e consegue tomar um táxi que passava pela rua. Dentro do veículo, ela telefona para Paçoca.

 

– Reúna seus amigos em seu apartamento, possuo as chaves, estou indo para lá. Tenho uma revelação bombástica a fazer.

 

Por trás do táxi, em outro veículo, Jesus a segue

 

MAIS TARDE…

 

A notícia do estupro da menina Tinfani é lançada pela Novilíngua e promove uma comoção nacional. As panelas são batidas a todo vapor pelas donas-de-casa e mãe de família que exigem prisão perpétua com direito a pena de morte de Bruno Paçoca, o primeiro-cavalheiro.

 

– “Se não fosse Paula me ajudar, eu não sei o que teria sido de mim. Ela me salvou. Ele me mantinha presa num flat, minha mãe estava preocupada com meu sumiço há meses, é tão bom saber que posso voltar agora para casa.”

 

Denise abraça Jesus e o questiona sobre sua ausência quando estavam saindo do Palácio, depois planejarem com os ministros como seria a Assembléia popular que abririam no dia seguinte a fim de esclarecer a denúncia. Ele disse estar tratando do auxílio dos menos favorecidos no México. Ela lamenta.

– É uma pena ainda existir desigualdade no mundo! Temos que destituir essas elites tradicionais e trazer o povo para mais próximo do poder.

– Sim, sim! Para onde estão indo? – Aquele papo todo estava extremamente chato.

Para sua felicidade, Rogério o revela.

– Para o apartamento de Débora e Paçoca, Rosa está nos esperando por lá. Tem uma revelação a nos fazer.

Jesus finge surpresa e embarca junto deles.

 

***

Desceram em meio a uma multidão escandalizada. Não entendiam nada. O ranger de dentes clamava por justiça. Uma mulher fora defenestrada do alto do prédio. Débora conseguiu abrir espaço entre empurrões e lamentos. Rosa estava morta na entrada do seu prédio. Denise e Rogério se assustaram. Débora virou a face desesperada a Paçoca.

CONTINUA…

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.