Máscaras: Episódio 5 – Paranóia

Máscaras: Episódio 5 – Paranóia

Confiança é algo que se constrói. É algo que necessita de muito tempo e esforço, e que pode despedaçar em milhões de fragmentos a qualquer momento. A última coisa que me lembro é da voz do Eder momentos antes de desmaiar. Levo minha mão até o estômago, e percebo que alguém já fez os curativos. Tudo está escuro ainda. Minha cabeça dói e estou sonolento.

Demoro alguns instantes até perceber onde estou. Na verdade, não sei exatamente como vim parar aqui. Está apertado e escuro. Estico meu braço e bato em algo frio, de metal. Parecem ferramentas. Só então percebo que estou dentro de um porta-malas.

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A frase escrita no teto da casa de Debora não parava de martelar na minha cabeça. Quem será o próximo? Porque isso estava acontecendo comigo? Eu não podia acreditar que mais alguém havia morrido por minha causa. Eu era fraco, e fazia mal as pessoas ao meu redor. Nunca me importei muito com as minhas ações e nem com a forma com que elas afetavam as pessoas. Eu me considerava forte por fazer as coisas independentemente do que as pessoas pensariam sobre mim.

Mas agora isso estava tomando proporções maiores. Primeiro Ketlyn, agora Debora. Quem seria o próximo? E se o próximo fosse um dos meus irmãos, ou uma das minhas amigas, ou até mesmo eu? Pensar nisso me embrulhou o estômago naquele momento, mas eu precisava fazer algo.

Milena e eu já havíamos chamado à polícia, e obviamente mandaram o Comissário Nakamura para lidar com o problema. A casa já estava cheia de policiais e pessoas fazendo a perícia. Eu fazia parte da cena de um crime outra vez. Não estava nenhum pouco confortável com aquilo tudo. Lembrar do que houve com Katlyn me deixava frustrado.

-Não é estranho que você esteja outra vez no meio disso tudo?

-Acha que eu gosto? – Respondi

Não é a essa questão. Precisamos encontrar os responsáveis por isso. Infelizmente, você parece ser o epicentro das últimas mortes, então vamos precisar que você vá até a delegacia outra vez. Vocês dois.

Milena ainda estava em choque pela cena. Eu também estava, mas havia passado por todo o processo uma vez, então conseguia pensar nas coisas que precisaria responder. Estávamos sentados no sofá. Tentei dar um abraço nela, mas a sua reação foi nula. Ela e Debora eram apenas colegas de trabalho, mas elas tinham uma relação amigável. Eu me senti pessoalmente responsável pelo estado em que ela estava.

-Mi? Fala comigo, por favor…

-Eu só estou processando o que acabou de acontecer.

-Eu sinto muito por tudo isso. É minha – Ela cortou a fala.

-.. Eu sei que isso não é sua culpa. Não foi você quem fez aquilo com ela. Mas eu estou com medo.

-De ser a próxima vítima do Assassino?

-Ele não estava brincando quando falou aquilo. Você viu o que ele fez com ela… Viu que ele… Aquilo não é humano! – Lágrimas surgiram em seu rosto.

-Eu sei… Sinto-me mal por ter envolvido ela nisso.

-Não foi você. Eu que pedi para ela ir comigo ao hospital quando soube que a Ketlyn…

Ficamos mudos por alguns instantes. Nakamura havia subido para ver com os próprios olhos o corpo da nova vítima. Do lado de fora dava para ver os carros da polícia. A luz vermelha piscando e sendo ampliada na parede dentro da casa me deixava aflito.

Comecei a me perguntar sobre o que havia na pasta da Debora. Como ela havia conseguido tanta informação sobre mim tão rápido? Pensei em pegar em abrir a pasta, mas fui interrompido novamente pelo Comissário.

Quando vocês chegaram, às portas já estavam abertas?

-Estava tudo destrancado.

-E não havia sinais de que alguém podia estar aqui dentro ainda?

-Não…

-Vocês não pensaram que isso poderia ser perigoso? Que ele poderia estar aqui dentro? Não pensaram em contatar a polícia?

Milena tomou a minha frente.

-Eu entendo que você não consiga demonstrar nenhuma empatia, mas ela era minha colga de trabalho… Minha amiga! Eu não ia esperar vocês chegarem até aqui para tentar ajuda-la.

-Isso foi perigoso e imprudente.

-O senhor por acaso tem esposa? Filhos? Alguém com quem se importa?

-Não. Não tenho. O trabalho não permite esse tipo de luxo.

-Por isso você não consegue entender…

-O que eu entendo é que vocês precisam tomar cuidado.

-Eu me tornei um alvo não é mesmo? –Precisava tomar cuidado com o que iria falar para não comprometer o policial Eder.

-Não sei se você é o alvo dele exatamente. Se fosse esse o caso, ele teria ido até você outra vez. Mas ao invés disso…

-Então porque ele veio atrás da Debora?

-Talvez ele esteja com raiva de você, e queira te fazer sofrer por não ter conseguido mata-lo.

E o que eu faço agora? Fico em casa? Me tranco e espero vocês resolverem isso?

-Nós não temos recursos necessários para providenciar segurança pessoal para você.

-Será mesmo que não têm ou vocês não querem?

-Não dá pra colocar pessoas pra cuidar exclusivamente de você. Porque está insinuando isso?

-Acho que seria interessante pra polícia me deixar sem proteção caso o Mascarado decida tentar me atacar outra vez. Vocês estão tentando encontralo já faz um tempo, e uma pessoa com um alvo nas costas é a isca perfeita para vocês conseguirem atraí-lo. Estou errado?

-O meu trabalho é garantir a segurança de todos.

-Imagino que os jornais vão adorar saber que você não quer garantir a minha segurança e a da Milena.

-Ela não está na mira dele.

-Depois de hoje eu não duvido que ele venha atrás de mim também. – Milena já estava voltando da crise de choro. Eu não podia deixar o assassino fazer o que quisesse comigo. Então tentei pressionar um pouco mais Nakamura.

-Se você quiser, posso ir ali fora e falar com os repórteres. Deve estar cheio deles lá fora. As notícias voam… Principalmente aquelas que dizem respeito ao seu departamento, não é?

-Você e a Milena terão que vir até a delegacia para um depoimento oficial.

-Eu não vou a lugar algum! – Milena respondeu antes de ele terminar de falar.

-Isso seria obstrução de informação.

Peguei no braço da Milena e fiz que sim com a cabeça. Naquele instante, a perícia passou com o corpo da Débora embrulhado dentro de algum tipo de manto. Pensei que nesse momento Milena fosse voltar a chorar e sentar no sofá. A única coisa que ela fez foi dar as costas. A ficha dela só cairia mais tarde.

Saímos de dentro da casa da Advogada e a cena era a mesma: Uma penca de repórteres aos berros fazendo perguntas e tentando chegar o mais perto possível de mim e da Milena. Os flashes das câmeras só não incomodaram mais porque ainda era dia. Pensei no que eles escreveriam nas matérias. Os títulos que imaginei só me deram tontura, então foquei em ficar do lado dela enquanto entrávamos na Blazer do Nakamura.

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Mi e eu demos nosso depoimento e fomos liberados. Nakamura estava cada vez mais irritado com o fato de ainda não ter pegado O assassino por trás da Máscara. Eu evitava a todo custo entrar no Facebook, e agora Milena também. Tivemos nossos nomes e rostos divulgados, então as pessoas buscavam mais informações. Ouso dizer que nos tornamos subcelebridades praticamente. Milena insistiu em ficar sozinha. Como um policial havia levado meu carro até a delegacia, depois de ser liberado eu a levei até seu apartamento e a deixei.

No Caminho, me perguntei a todo instante como eu fui de revisor de livros à vítima de um Assassino em Série tão rápido. E o pior é que eu estava ficando preocupado dele ir atrás da minha família. Mesmo que eu não tivesse contato com a minha mãe há um bom tempo, eu não queria encontrar o corpo dela estirado e perfurado da mesma forma que o da Débora.

Não tinha mais noção de tempo como antes. As horas passavam e eu me pegava viajando em delírios preocupantes. Será que eu estava enlouquecendo? Era bem capaz. Não quis ir à faculdade aquele dia, e muito menos esperava que Milena fosse. Eu mandei uma mensagem para ela, mas fui ignorado. Achei melhor não insistir.

Antes de chegar ao meu apartamento, decidi que passaria em um depósito de materiais de construção para comprar mais fechaduras. Se eu ia mesmo ficar paranoico de vez, era melhor que fosse com segurança.

Passei pela cancela e peguei meu tíquete. O estacionamento estava cheio nesse andar, e eu era péssimo de baliza. Por isso achei melhor deixar meu carro no andar abaixo. Estava muito vazio, quase deserto. Fiquei com medo por um instante, mas eu não podia me deixar abater. Estava tudo bem, eu só precisava comprar uma fechadura melhor e ir embora.

No corredor da loja, eu fiquei perdido. Tinham muitas opções, desde fechaduras simples até as mais complexas com combinações numéricas. Não achava essas muito úteis. Caso precisasse sair correndo de casa ou entrar, precisaria colocar a combinação de muitos números e já estaria morto quando conseguisse. Fiquei esperando um atendente aparecer para pedir ajuda, mas não tinha ninguém.

Meu telefone tocou. Chamada não identificada. Atendi no primeiro toque. Mas não houve resposta. O sinal no lugar era ruim. Eu tremia cada vez que recebia uma ligação. Acenei para um atendente que veio com muito pouca vontade.

-Qual dessas é mais segura e rápida para abrir ou fechar?

-Depende do que?

-De várias coisas. – Eu queria bater a cabeça dele na parede naquele momento. Ele estava tão distraído que não deveria nem ter ouvido a minha pergunta.

-Preciso de algo forte, resistente e fácil de abrir.

Bufando, ele foi até uma prateleira e pegou duas fechaduras que precisavam ser instaladas nas partes superiores e inferiores. Eram firmes e abriam de forma rápida… Pelo menos do lado de dentro. Por fora precisavam de duas chaves. Mas só de me sentir um pouco mais seguro eu aceitava o risco.

Por mais que o estacionamento estivesse cheio de carros, parecia que as pessoas haviam sumido. O lugar estava bem parado. Ou então eu que estava com tanto medo que me sentia sozinho e desprotegido.

Caminhando em direção ao subsolo onde o meu carro estava, tive a sensação de estar sendo seguido. Passando pela porta automática, a luz de emergência apagou por alguns segundos e voltou. Nesse momento, senti um calafrio subir pela espinha. Alguém estava me observando.

Comecei a andar mais rápido em direção ao meu carro e ouvi passos. O estacionamento estava vazio. Tentei manter a calma, mas a tremedeira tomou conta do meu corpo. Peguei a chave do bolso e deixei cair. Quando agachei para pegar, ouvi barulho de alguém chutando uma lata de refrigerante ou coisa parecida, e comecei a correr.

Os passos correram junto comigo, mas não via de onde vinham. Tremendo, coloquei a chave de primeira na porta, destravei e entrei com tudo no carro. Parei para respirar. Alguém estava mesmo atrás de mim ou era apenas a minha mente fantasiando aquilo? Esperei alguns minutos. Quando me acalmei, o telefone tocou.

-Sentiu minha falta, Mike? – A voz. A mesma voz. Era ele outra vez.

-Porque está fazendo isso comigo?

-Ah, então você não sabe? – Não dava para identificar como realmente era a voz dele. Era grossa, mas com um pouco de eco ao fundo. Ele modificava com alguma coisa. Eu estava paralisado.

-Por favor, me deixa em paz. Eu não fiz nada pra você! Eu nem te conheço.

-Pois deveria.

-Por quê?

-Temos uma conexão Mike. É melhor aceitar isso. – Havia um tom sarcástico em sua fala. Ele debochava do meu medo com suas frases curtas.

-Eu não tenho nada haver com você!

-Na próxima, eu vou arrancar os seus olhos. Eu vou cortar a sua garganta. Eu vou picar seus órgãos e vou dá-los para sua família.

-Se você chegar perto dos meus irmãos, eu acabo com você. – Tranquei a porta.

-Você vai fazer o que? Não consegue nem se defender. O que você precisa se perguntar agora é… Você me trancou do lado de fora ou de dentro do seu carro?

Travei. Nesse momento, estava tão assustado que pude sentir os fios do meu cabelo ficando arrepiado. Olhei para o banco de trás e não havia ninguém. Quando voltei meu rosto para frente, ele estava na janela do meu lado, e a Máscara estava a alguns centímetros do meu rosto. Deixei a chave cair perto do acelerador. Ele ficou ali, parado apenas para me assustar. Me abaixei para pegar a chave e quando voltei ele estava à frente do carro.

Decidi atropelá-lo. Dei partida, acelerei e fui em sua direção. Eu ia passar por cima dele, eu ia acabar com aquilo. Troquei a marcha e quando estava prestes a quebrar o seu corpo em alguns pedaços, ele saltou para o lado. O carro bateu em uma das suas pernas, e pelo retrovisor eu o vi fugir mancando. Porque ele ficou na frente tanto tempo? Porque ele não tentou me matar? Seu objetivo era só me deixar nervoso? Eu estava morrendo de medo, e não poderia dirigir nessas circunstâncias. Por isso parei numa esquina e esperei o controle sobre meu corpo voltar novamente.

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Queria contar a Milena sobre o ataque do dia anterior. Eu mesmo furei a porta e instalei as fechaduras novas. Estava com medo, mas decidi guardar o que aconteceu apenas para mim. Ela já estava sofrendo demais com tudo aquilo. Sergio estava sendo bem compreensivo em relação ao meu trabalho, mas não queria abusar. Por isso virei à noite trabalhando e revisando os últimos livros que a editora havia me mandado.

Faltei à aula na faculdade no dia anterior, mas eu também não tinha muita vontade de ir. Fiquei em casa sentado no sofá assistindo Hora de Aventura tentando relaxar um pouco. Mas estava difícil. Qualquer barulho que eu ouvia me deixava tenso, e morando num apartamento, os barulhos vinham de múltiplas direções.

Estava deitado, tomando mais um pouco de café para manter me acordado. Comi um misto quente feito de qualquer jeito e deixei o prato na mesa de centro. No andar que eu morava, ventava bastante. Como o dia estava um pouco quente eu deixei aberto.

Meu telefone tocou. Dessa vez era meu irmão. Besourinho.

-Fala Besourinho. Tudo bem por aí?

-Tudo Carrapato. Você está em casa?

-Estou sim. Por quê? – Ele começou a cochichar.

-Vem Bomba por aí… – Ouvi alguém brigando com ele do outro lado da linha. Era a voz do Jonata, meu irmão do meio.

-Me da isso aqui… Alô, Mike?

-Gafanhoto? O que houve?

-Você sabe que eu não curto esse apelido.

-Só é apelido porque alguém colocou em você. Se fosse para você gostar usava seu nome.

-Parece que alguém anda dormindo de calça jeans ultimamente… Desde que você terminou com a Monalisa, você está de mau humor sempre. Ela era linda… Você foi um perfeito idiota.

-E você é a Margarida do jardim, não é mesmo?

Começamos a rir.

-É um assunto sério seu babaca… Me escuta.

-Tem haver com a Jéssica?

-Tem haver com a Mamãe. Ela também é sua mãe…

-Então desembucha.

-É complicado de dizer isso… O Joao Zé povinho aqui já havia te dito que a Mamãe estava saindo com alguém, certo? – Joao gritou alguma coisa ao fundo. Acho que xingou o Jonata.

-Sim ele falou algo sobre ela estar saindo com alguém.

-Pois é… Ela não estava apenas saindo. Ela estava namorando.

-Que bom pra ela. E o que eu tenho haver com isso?

-Eles estão noivos.

-O que? Isso foi rápido demais, não?

-Eu também estranhei, mas ela está bem como nunca. Então não dei palpites.

-Mas o cara é legal com vocês pelo menos?

-Ainda não o vimos.

-Como assim? Se ela vai ficar noiva, o mínimo que ela faz é apresentar ele pra vocês.

-Ela vai fazer isso… Nesse fim de semana. Eles vão noivar oficialmente.

-Não vem com esse “hum”. Você tem que vir.

-Por quê? Não quero presenciar isso. E você sabe que eu e a Jessica temos nossas diferenças.

Mike, foi ela quem pediu para te chamar.

-E porque ela mesma não me ligou.

-Sério que eu preciso responder isso?

-Olha eu realmente prefiro ter que lutar com o Serial Killer outra vez a ter que encarar a sua mãe.

-Pelo que eu ando acompanhando nos jornais, você está fazendo muito isso ultimamente. Você está bem? Bem de verdade? Não precisa mais fingir que é nosso pai.

-Eu estou bem. Não estou muito disposto a ir nesse noivado não. – Ele ia argumentar quando eu emendei – MAS, eu prometo que vou pensar sobre.

-Vou aguardar. Faz tempo que a gente não se vê. O Besouro disse que você vai leva-lo no cinema. Não prometa coisas que você não vai cumprir.

-Eu vou levar ele em breve

-Espero que fique bem. Sentimos sua falta.

-Eu também, Gafanhoto.

-Até mais, Carrapato idiota.

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Seria o meu primeiro dia na faculdade depois do acontecido. Eu não sabia como as pessoas me veriam, mas precisava ir à aula. Minha sala ficava no terceiro andar do complexo da faculdade. A sala da Milena ficava no quarto andar. Passei minha carteirinha e entrei. As pessoas olhavam pra mim. A maioria dos olhares era de curiosidade, embora eu identificasse olhares de dó e alguns de raiva. Não sabia bem o que as pessoas pensavam sobre mim. Só queria ver um rosto familiar. Andei a passos largos até a sala da Mi.

Na porta estava Arthur Caspher. Ele era professor de Direito Penal, e exnamorado da Milena. Se é que pode – se chamar de namoro um rolo de quase dois meses. Eles ficaram durante o primeiro ano do curso de direito da Mi, mas ela ficava incomodada com o fato das pessoas falarem que ela usava isso para conseguir boas notas. Então ela acabou se afastando dele. Mas era visível a tensão que ficava no ar quando eles estavam perto um do outro. Ele era muito alto, deveria ter quase um metro e noventa. Tinha um corpo definido e cabelo grisalho, embora tivesse em torno de quarenta anos, e seus olhos eram de uma cor indefinida. Poderia ser cinza. Arthur era muito educado, e era o tipo de pessoa que poderia te seduzir apenas com dez minutos de conversa. Acho que por isso ele era advogado.

-Posso ajudar Mike? – Ele viu que eu estava procurando alguém do lado de fora.

-Eu só estava procurando a Mi. Por acaso a viu por aí?

-Olha, ela estava aqui até pouco tempo atrás, mas a vi descer com uma bolsa na mão. Acho que foi comprar algo para comer. Quer que eu avise que passou por aqui a procurando? – Sua voz era muito grossa e firme. As pessoas o chamam de voz de trovão… Mas não na sua frente, claro.

-Não, pode deixar… Não era nada importante. – Mentira.

Fui em direção à escada rolante pra ir para o meu andar e acabei por esbarrar num rosto familiar. Bia, uma amiga da Milena. A gente se conheceu quando fomos juntos ao show de sertanejo de algum cantor que eu não lembro. Não é o estilo de música que eu gosto. Mas estava na promoção e a Mi acabou comprando três ingressos, então eu fui. Bia tinha quase a mesma altura da Mi, mas como as duas estavam sempre de salto agulha, ficavam quase da minha altura. Ela chamava atenção pelo contraste entre a pele pálida e os cabelos escuros no último tom de preto que se possa imaginar. Seu cabelo era muito comprido, e liso. Os cílios sempre estavam pra cima. Eu tinha a impressão que ela já dormia com cílios postiços, porque nunca havia a visto sem. Ela era estudante de psicologia. Estava no primeiro ano.

-Você está bem? – Ela perguntou. – Parece meio assustado.

-Ah, eu estou bem. Acho que eu devo estar um pouco cansado.

-Também, não é pra menos. Eu vi no jornal o que aconteceu com você. Deve ter sido complicado presenciar tudo aquilo. Pensei em te mandar uma mensagem, mas achei que você estava querendo ficar mais sozinho. Na verdade, é uma surpresa pra mim te ver aqui.

-Eu prefiro. Não quero ficar pensando naquilo. Foi… – pausei a frase por uns segundos. – Foi assustador, e tudo que eu não quero é ficar preso aquele acontecimento.

Um telefone toca. Meu coração dispara. Coloco a mão no bolso e tiro o celular. Não há nenhuma ligação. Eu estava ficando louco?

-Mike é o meu telefone que está tocando. Tem certeza que você está bem?

-Eu só preciso sobreviver a hoje e ir pra casa descansar. Vai ficar tudo bem. – Disse enquanto me afastava da Bia. Minha sala ficava no final do corredor à esquerda. Cheguei à porta da minha sala e parei, decidindo se entraria ou não. Não deu tempo pra pensar. Barbara estava saindo da sala e deixou a porta aberta. A professora me viu do lado de fora, plantado, e abriu o sorriso mais falso que eu já vi na vida. Wanderleia dava aula de Metodologia de Redação. No geral, eu adorava essa aula, embora ela cobrasse muito nas suas avaliações. Eu adorava escrever, então para mim não era um problema. Mas ela estava diferente comigo.

-Mike! Que bom que resolveu aparecer na aula de hoje. Estamos prestes a iniciar uma atividade. Estou terminando de passar os detalhes para as suas colegas (a sala só tinha mulheres), e logo em seguida você pode vir até a minha mesa que eu mesma explico pra você como vai funcionar.

-Ok, obrigado – disse enquanto ia até a minha cadeira. Eu sempre sentei no fundo da sala. Mas já estava lotado, e eu tive que me contentar com um lugar no meio da fileira, encostado na parece.

-Ei! Então você agora está famosinho, aparecendo na capa dos jornais. Aí sim! – Virei para responder a pessoa que sussurrava. Silmara tinha um senso de humor e sempre fazia piadas erradas nas horas erradas.

-Isso não é o mesmo que aparecer naquelas revistas pra adolescente acéfalas com fofoca de celebridades.

-Mas isso te deixa com um status acima da média.

Não pude deixar de notar a forma como as outras meninas da minha sala me olhavam. Eu nunca fui de conversar muito. Fazia o que precisava. Quando tinha trabalho em grupo eu interagia, mas fora isso não fazia muita questão. Rolava muita fofoca entre elas, e não queria fazer parte daquilo. Mas nunca deixei de ser educado com ninguém. Agora eu era obrigado a encarar aqueles olhares na minha direção. Se eu entrasse na sala com uma peruca loira chamaria menos atenção.

Permito-me começar a divagar. Fiquei ali olhando para minha caneta.

-Mike! – Tomei um susto quando Barbara deu um tapa na minha mesa. – a professora está te chamando, já disse seu nome umas três vezes.

-Ah, desculpa, eu não tinha ouvido. Nem tinha visto você entrando na sala novamente.

-Percebi – disse ela. Então me levantei, fui até a mesa da professora e me agachei pra ouvir a explicação do que era pra fazer.

-Olha, eu sei que você tem passado maus bocados esses dias, então eu não vou prejudicar você se quiser ir embora e fazer essa avaliação outro dia.

-De forma alguma! Eu não viria à aula se não achasse que estava bem o suficiente.

-Tem certeza? Eu não quero que a sua nota seja prejudicada pelo momento que você está passando. – Ela abria um sorriso forçado que eu tinha vontade de socar. Por que as pessoas agora me tratavam como se eu fosse de cristal e pudesse quebrar a qualquer momento? Peguei a folha com o enunciado da avaliação e fui até a minha mesa na expectativa de terminar logo.

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No intervalo, Milena, Bia e eu fomos ao refeitório para comer. Eu comprei dois pedaços de pizza e um suco de laranja, Milena comprou uma salada de frutas e a Bia comprou um pedaço de bolo de chocolate. Estava tudo bem até sentarmos no meio do lugar. As pessoas ficavam em silêncio quando chegávamos perto. Quando sentamos, duas meninas nos olharam, balançaram a cabeça e se levantaram do lugar onde estavam para sentar em um banco mais longe.

-Tchau Tchau, queridas. – Milena debochou.

-O que a gente fez pra ser odiado assim? – Eu perguntei.

-O problema é que vocês atraíram muita atenção. As pessoas na verdade estão com um pouco de inveja de vocês. Criaram até uma página no Facebook e subiram no twitter as tags #teammike #teammilena e uma #teammascarado. As pessoas não tem noção.

-Aposto que a da Milena deve bombar. As pessoas gostam de você Mi.

-O que eu posso fazer se sou popular?

-Na verdade, não é a tag de vocês que faz sucesso… E sim a do cara da Máscara.

-Como assim? – Milena e eu dissemos ao mesmo tempo.

-É que o pessoal é meio sádico. Criaram até uma fanfic sobre vocês.

-As pessoas me dão nojo. – Eu estava muito irritado. Como as pessoas podiam ser tão estúpidas a ponto de achar que eu gostava de receber esse tipo de atenção?

-Vamos falar de outra coisa. Bia, como está seu namoro com o Bryan?

-Eu nem estava sabendo que a Bia começou a namorar. Por isso eu questionei.

-Como assim você está namorando e eu sou o último a saber?

-Você estava ocupado lutando com um psicopata lembra? Então, nós estamos bem Mi. – Virou na minha direção. – Eu conheci esse cara do curso de Informática. Começamos a sair, e depois de dois meses ficando, ele me pediu em namoro. Você precisa conhecê-lo.

-Eu sei. Preciso aprovar ele como seu namorado.

-A Milena já aprovou.

-Ele é uma gracinha Mike. Você vai aprovar – Milena respondeu.

Nesse momento, eu havia conseguido me distrair um pouco de tudo. Mas durou pouco. Dois rapazes passaram atrás de mim e esbarraram nas minhas costas propositalmente. Meu suco derramou na minha roupa. Um deles me xingou de algo que não entendi direito. Não precisava passar por aquilo.

Levantei da mesa e perdi a cabeça.

-Por acaso você não está me vendo, babaca?

Ele se virou na minha direção.

-Você está falando comigo, bichinha?

Eu perdi o controle. Eu estava com raiva. Eu precisava bater em algo. Não estava com medo de surrar a cara dele. Por isso eu fui para cima com toda a força que eu tinha. Quando dei por mim, já estava em cima dele, socando o rosto dele repetidamente. O amigo dele tentou me parar, mas eu dei uma cotovelada nele e acabou caindo para trás. Milena e Bia me puxaram e começaram a gritar para que eu parasse, mas eu descontei toda a raiva que estava sentindo nele. Quando vi que ele estava sangrando pelo nariz, percebi o que tinha feito. Mas por pior que aquilo fosse eu estava aliviado.

Cheguei perto do ouvido dele enquanto ele se arrastava para trás.

-Quero que você se lembre do dia que levou uma surra da ‘bichinha’. Da próxima, eu mato você.

Como se nada houvesse acontecido, me levantei e sai andando em direção as escadas. Milena e Bia vieram correndo na minha direção. Parei um pouco e sentei na escada para tomar um ar.

-Mike você está bem? – Milena estava com cara de preocupada.

-Eu estou. Ele só me tirou do sério.

-Mas você precisa se controlar mais. – Bia me estendeu um copo de água.

-Eu sei disso… Mas eu estou cansado da forma como as pessoas estão me olhando, com dó, com pena, com raiva. Eu não sei mais o que fazer.

Meu celular vibrou.

Uma nova mensagem.

O celular delas também vibrou.

Recebemos a mesma coisa.

Tic. Tac.

A mãe de alguém vai morrer.

É melhor correr.

Maike Alves

Paulista, estudante de pedagogia, leitor compulsivo e fã da cultura Geek. Sonha um dia publicar um best seller. Em um relacionamento sério com As Séries e Animes.