Máscaras: Episódio 3 – Choque

Máscaras: Episódio 3 – Choque

 

Web Série de Maike Alves

 

 

 

 

EPISÓDIO DE HOJE: CHOQUE

 

De olhos fechados, eu sugo o ar de forma rítmica e calma na medida do possível, tentando encontrar força para fugir. Mas dói. Tudo em mim dói. Eu acabei de levar uma surra. Eu lutei bravamente, mas não sou tão forte quanto achei que seria. Estico meu braço e consigo me arrastar um pouco mais até a parede. Estou ficando cada vez mais gelado. Por favor, não acreditem em tudo que lhe disserem. As pessoas mentem.

-/-

Acreditem… Pular o muro foi fácil. Mas cair de uma altura dessas com uma ferida exposta na panturrilha é algo extremamente doloroso. Eu não sei exatamente como caí, mas meu ombro está doendo muito. Cada vez que faço movimento simulando levantar, as costas também doem. Não consigo respirar direito. Um homem alto e com o que parecia uma barra de ferro ou algo do tipo veio na minha direção.

-Quem é você e o que você quer?! – Ele falou muito irritado, mas dava para ver que ele também estava com medo. Minhas mãos tremiam. Permaneci mudo. As palavras não saiam. O que eu tinha acabado de presenciar afinal? Minha amiga estava morta. E o que eu fiz para salva-la? Nada.

– Já chamamos a polícia. O que você quer? Não vou falar de novo. – A única coisa que consegui fazer foi tentar me sentar e empurrar meu corpo um pouco pra trás. O muro era cheio de trepadeiras, e alguns ramos acabaram espetando um pouco as minhas costas. Eu estava aterrorizado, e acho que isso ficou bem evidente no meu rosto.

-Você não é o amigo da Ketlyn? – Ele me reconheceu quando a luz clareou o meu rosto – o que houve? Porque você pulou o muro? Está ferido?

Não houve resposta da minha parte. Eu só queria ir pra casa. Quando ele viu sangue, largou a barra de ferro que segurava e veio em minha direção. Eu me esquivei, mas foi no reflexo. Estava assustado. Não queria que ninguém me tocasse. Só queria ir pra casa. Estava doendo tudo; meu ombro, minhas costas, minha perna.

Ele correu pra dentro e saiu com o que parecia uma toalha, vindo em minha direção. Seus filhos, um menino e uma menina, que aparentavam ter entre sete a dez anos ficaram na porta me olhando. Mas o homem alto gritou para que entrassem.

-Olha, não sei o que houve, mas se eu não estancar o sangramento, você pode acabar tendo problemas.

Ele deu um passo em minha direção. Eu hesitei. Meu rosto estava pálido, e ele estava assustado também. Mas eu sabia que estava ferido. Torcia para não ser algo grave, mas ficaria manco por algumas semanas. Ele se abaixou até a altura dos meus olhos.

-Eu sou enfermeiro. Se não me deixar tratar o ferimento, pode ser que algo pior aconteça. Você perdeu muito sangue… O meu nome é Tomas.

Foi só nesse momento que eu decidi me olhar. Estava coberto de sangue, mas não sabia se era todo meu. Uma pessoa tinha tudo isso de sangue afinal? Fiz que sim com a cabeça e ele começou a analisar meu ferimento. Não demorou muito e ele amarrou minha perna com a toalha que trouxe. Era grato pelo que estava fazendo, mas as palavras não saiam.

-Como se chama? – Eu precisava falar. Precisava avisar que ela estava morta, precisava fazer alguma coisa. Mas só queria ficar ali, olhando para a parede em silêncio. Minha testa pingou uma gota de suor, e comecei a sentir as coisas rodarem. O homem levantou, pegou a barra de ferro novamente e por um instante eu achei que ele fosse me bater com ela, mas ele logo a largou em cima da máquina de lavar e ficou parado na porta me encarando. A qualquer sinal de que eu fosse sair dali, ele provavelmente me impediria. Mas a polícia estava chegando, e eu teria que falar sobre isso uma hora ou outra.

Eu presenciei um assassinato. De uma amiga. Talvez se eu tivesse retomado a amizade com Ketlyn antes isso não teria acontecido. Talvez se eu não tivesse me afastado. Talvez. Talvez. Talvez. Essa palavra martelava na minha cabeça, junto com uma veia que estava sobressaltada na minha testa. Senti a veia pulsando quando levei a mão próxima ao supercílio.

Comecei a ouvir o barulho da sirene ao fundo. Foi ficando cada vez mais próximo, e ao invés de me sentir calmo por saber que a proteção estava chegando, eu estava tremendo de medo. Eu sabia que teria que contar tudo que vi e vivenciar aquilo novamente. Não sei se conseguiria. Quando dei por mim, estava sentado numa cadeira dentro da casa, e uma mão me oferecia um copo de água.

-Você precisa estar bem pra que possamos lhe fazer algumas perguntas. – Havia um policial a minha frente, alto e loiro. Tentei ver seu nome no emblema do uniforme, mas as coisas estavam girando. Respirei fundo e tentei focar novamente. Dessa vez consegui enxergar melhor. Seu nome era Eder alguma coisa.

-Não estou com sede – respondi.

-Você está em choque. É apenas água com açúcar pra tentar te acalmar.

-Isso não funciona. O que eu presenciei… Não vai ser uma água com açúcar que vai tirar isso da minha mente. Ketlyn…

-Precisamos saber o que exatamente aconteceu dentro da casa.

-Vocês ainda não entraram?

-Estamos esperando a perícia chegar – Outro policial bem menos simpático que Eder cortou a conversa – Mas nós entramos na casa pra ver se alguém estava feriado e vimos o que aconteceu lá dentro. – Ele era negro e tinha o dobro do tamanho dos músculos do Eder. Ele parecia um pouco tenso. Acho que todos estavam. Seu nome era Douglas.

-Eu não tive opção… Não sabia como ajudar ela. Ele quase me pegou… Ele quase me matou! – Eu voltei a tremer.

-Quem quase te matou? – Eder tinha uma voz firme, mas de alguma forma percebia que ele tentava me acalmar.

-O homem da Máscara.

Esse cara outra vez. Você conseguiu ver o rosto dele em algum momento?

-Qual parte de ele estava com máscara você não entendeu? – Fui rude com Douglas, mas eu estava nervoso e não foi proposital. Tentei amenizar.

-Eu não vi o rosto dele. Quando ele tentou me esfaquear, lutamos no quintal e a máscara dele caiu… Foi quando eu tentei correr e ele enfiou a faca na minha panturrilha. – O medo tomou conta de mim novamente. Senti um peso no meu peito. Droga. Eu já havia tido crises assim outras vezes. Quando eu morava com a minha mãe. Uma dor no peito, seguido de tremedeira, taquicardia e um desespero. Não. Não. Não. Eu estava tento uma crise de pânico. Comecei a respirar fundo e devagar. Fechei os olhos e isolei os barulhos a minha volta. Eu perdi o controle da minha vida uma vez por não conseguir controlar o que estava sentindo. Não ia deixar isso acontecer outra vez.

Um, eu presenciei um assassinato.

Dois, eu não fiz nada para impedir.

Três, eu lutei com ele.

Quatro, eu sobrevivi.

Cinco, meus irmãos precisam de mim.

Fui lembrando aos poucos cada etapa do que tinha acabado de acontecer e respirando fundo a cada frase que pensava para colocar meus pensamentos em ordem.

-Mike? –A voz do Policial Eder me trouxe de volta a realidade. – Precisamos do seu depoimento oficial. Tudo bem? – Acenei que sim com a cabeça e levantei no que fiquei tonto mais uma vez e senti uma fisgada na batata da perna. As coisas rodaram, mas Eder me segurou antes que eu caísse no chão.

-Precisa de mais um tempo? – Ele me perguntou, mas antes que eu pudesse responder Douglas com seu jeito extremamente apático nos cortou outra vez.

Não temos tempo, temos que leva-lo o quanto antes para um hospital ver o ferimento na perna e pegar seu depoimento. A notícia vazou e a rua já está cheia de repórteres e câmeras.

-Alguém avisou a minha família sobre isso?

-Não, mas quando chegarmos até o hospital você pode ligar pra eles e avisar onde está. Em todo caso, seu rosto já deve ter saído nos Jornais. Você é o primeiro que sobrevive a esse cara da Máscara.

-Não, na realidade eu não quero ligar pra ninguém da minha família… Prefiro ligar pra uma amiga. Tudo bem se eu pedir pra ela me encontrar lá?

-Sim, mas não demora na ligação. Não podemos perder tempo.

Peguei meu telefone então e liguei para Milena. Não tinha coragem de ligar para meus parentes. E Milena era a pessoa mais próxima de mim no momento. Nem me dei conta que já era quase 21:00h da noite. Tudo aconteceu tão rápido que eu nem reparei que o tempo tinha passado assim.

-Milena?

-Oi, tá tudo bem?

-Eu preciso da sua ajuda.

-Não sabe com que roupa sair hoje?

-Não, na verdade eu estou indo para o hospital das Clínicas nesse momento, com uma escolta armada.

-O que aconteceu? Você está bem?

-Se você assistisse mais jornais em vez de novelas saberia. Preciso que me busque lá.

-Vou me arrumar e já saio. Você está com problemas?

Você não faz ideia.

Eder me segurava pela cintura, eu ainda estava com tontura. Fui andando em direção à porta mancando e flashbacks da morte da Ketlyn passavam diante dos meus olhos. A cena do homem da Máscara cortando a garganta dela não saia da minha cabeça. Quando chegamos à porta, Eder me disse que se quisesse poderia cobrir o rosto. Mas eu era inocente. Eu sobrevivi. Recusavame a sair de cabeça baixa.

Quando a porta abriu, fui bombardeado pelas luzes, flashs das câmeras e perguntas dos repórteres que avidamente gritavam a poucos metros de mim. Os policiais haviam colocado faixas para isolar a casa de Ketlyn e a de Tomas. Andamos rapidamente até chegar a Blazer que estava do outro lado da rua. Quando entrei no banco de trás, pude ver a Unidade Móvel de Criminalística chegando. Os peritos saíram com pressa para entrar na casa. Não sabia explicar o que estava sentindo, mas era semelhante a um vazio dentro de mim. Ketlyn seria levada para autópsia e estudada, como um animal em laboratório. Mas ela não sentiria nada. Precisava me preocupar comigo agora.

-/-

-Chegamos ao Hospital das Clínicas. Havia alguns repórteres na frente da delegacia. Como esses urubus descobriam tão rápido sobre as coisas? Meu celular tocou. Era Jonatas, meu irmão. Ele deve ter me visto pela televisão. Pensei em atender, mas fui amedrontado com olhar de Douglas pelo retrovisor assim que peguei o celular. Desliguei e coloquei de volta no bolso. O veículo em que estávamos parou no meio do pátio.

Chegamos. – Eder abriu a minha porta. – Você vai passar com um médico e em seguida o Comissário da Polícia chamado Nakamura vai procurar por você.

-Tudo bem, mas eu posso esperar a minha amiga chegar primeiro? Não sei se consigo fazer isso sozinho…

-Infelizmente não. – Eder pegou na minha mão. – Assim que chegar eu peço pra que ela espere aqui na recepção. Eu preciso ficar aqui esperando o Comissário chegar e impedindo que os Jornalistas tenham acesso até você.

Eles podem atrapalhar o andamento das investigações. Quando ela chegar vai ficar aqui comigo.

Eder tinha os olhos azuis. Ele não era tão grande quanto Douglas, mas era gentil. Olhei no fundo dos seus olhos e por um instante me senti aliviado de ter alguém que conseguisse demonstrar empatia ali. Não durou muito.

Douglas colocou-me numa cadeira de rodas e saiu empurrando com pressa. Aquela atenção toda comigo era porque os jornais estavam cobrindo cada passo que eu dava. Sabia que os jornais estavam falando de mim, mas me fazer entrar pelo acesso dos funcionários do hospital para não ter as fotos vazadas estava começando a me incomodar. Douglas também aparentava estar incomodado com o fato de ter de tomar cuidado diferenciado comigo.

O pior de tudo era a reação das pessoas quando me viam. A essa altura, todos os funcionários já sabiam quem eu era, e as reações variavam desde compaixão a indiferença. Cheguei a ouvir alguém dizer que eu estava querendo atenção. Tentei ignorar, mas lancei um olhar raivoso de lado.

Os corredores tinham setas coloridas no chão que levavam as alas. A Verde levava à Radiologia, Azul ia até o Pronto Socorro, Laranja levava ao Ambulatório, e Vermelha era Endoscopia. Levaram-me para a radiologia a fim de realizar uma tomografia da minha perna. Estava latejando, mas eu estava tão confuso que era como se estivesse anestesiado. Uma médica com um cabelo escuro e corte Chanel veio na nossa direção. Ela falou alguma coisa com Douglas e em seguida abaixou para falar comigo.

– Mike, vamos precisar fazer uma tomografia para saber qual a dimensão do seu ferimento.

O tom de voz dela me irritou. Todos estavam me tratando como uma criança, e eu não estava gostando nenhum pouco. E gostei menos ainda de entrar naquele tubo apertado. Só precisou entrar metade do meu corpo, mas de qualquer forma, ficar sozinho me deixou desconfortável. Eu não tinha claustrofobia, mas o aparelho que realiza o exame me lembrou do momento em que eu estava escondido dentro do armário. Fechei os olhos e a primeira imagem que veio a mente foi aquela Máscara. Abri os olhos assustado e comecei a me debater tentando puxar o ar.

-Mike respire fundo. Se você se mexer, os resultados ficarão alterados e teremos que iniciar novamente. Você está seguro agora. – A voz dela pelo interfone era tão irritante quando pessoalmente. Respirei fundo novamente e tentei ficar parado pelos próximos minutos que pareceram dias.

Terminado o exame, fui levado na cadeira de rodas para um corredor. Eu não sou muito paciente, e na situação em que eu me encontrava, só queria chegar a minha casa e tomar um banho quente de quarenta e cinco minutos. O ar condicionado do hospital era muito gelado. Só percebi naquele momento que eu ainda estava de regata. Depois do que pra mim foi imensa espera, uma porta se abriu a minha direita, e outro médico veio até mim. Esse tinha um rosto cansado e expressão de quem estava com pressa para ir embora. Tinha os cabelos grisalhos, uma barriga protuberante e usava óculos. Nem se deu o trabalho de dizer meu nome, apenas acenou para que eu entrasse na sala.

-Então você é a celebridade de quem todos estão falando no hospital hoje?

-Se você considera dessa forma…

Ele me encarou por fora dos óculos e voltou a olhar para o exame na tela.

-Isso deve ter doído um bocado. Mas por incrível que pareça, foi um corte superficial. Você teve sorte.

-É. Muita sorte. – Falei com desdém.

-Muita mesmo, porque muitas veias importantes passam pela perna. Se ele tivesse ido mais fundo, poderia ter perfurado uma importante e você ter morrido de hemorragia.

-É. Foi muita sorte. – Continuei com meu deboche. Eu estava muito irritado.

-Vamos dar alguns pontos e deixar você descansando um pouco.

-Depois disso já estarei liberado pra ir pra casa?

-Acho que isso só ele pode dizer – E com os olhos apontou para Douglas, que fez uma expressão nada amigável.

Ele sabe que temos que colher o depoimento ainda.

Saímos da sala e fomos até outra onde um enfermeiro com um topete enorme estava me esperando. Havia mais duas mulheres jovens com ele, e eu presumi que elas fossem estagiárias. Deitei de bruços na maca, e elas pareciam mais nervosas do que eu.

-Não quero as estagiárias me remendando.

-Elas são qualificadas para fazer a sutura. – O topete disse.

-Elas estão tremendo mais do que eu, que quase fui morto. Não quero elas me costurando.

-Bom, então não podemos fazer muita coisa.

-Tudo bem. Então deixa aberto mesmo.

Douglas interveio.

-Não tem outras pessoas que saibam fazer isso?

Topete revirou os olhos, pegou o telefone na parede, olhou a lista de ramais e chamou outra enfermeira. As estagiárias ficaram visivelmente aliviadas de não precisarem colocar a mão na massa ainda. Deveria ser o primeiro dia delas.

Uma enfermeira negra chegou olhando torto para as estagiárias que estavam nervosas.

-Se as bonecas não ficassem com essa cara de peixe morto, ele não teria ficado com medo da sutura de vocês. Vão ajudar no berçário!

Elas saíram correndo.

-Olá, eu me chamo Roseli. Sou enfermeira chefe. Pode deixar que eu mesma farei sua sutura.

-Obrigado

Ela tinha habilidade, mas doía mesmo assim. Eu tenho pavor de agulhas, mas hoje eu já tinha levado até uma facada. Uma sutura era o de menos.

Um homem branco, com os olhos puxados, traços orientais e quase da minha altura apareceu, junto com uma mulher loira, que estava com um terninho preto social, e um scarpin amarelo que descombinava com todo o resto.

-Você é Mike Assumpção? – perguntou o Japonês.

-Sim – respondi.

-Precisamos conversar.

-Você é o tal Detetive que viria pegar meu depoimento?

-Essa é Marcela. Ela é nossa escrivã, responsável pelo cumprimento das formalidades legais. Vai acompanhar seu caso também.

Fui então levado para um quarto que estava mais gelado que o resto do hospital. Sentei na cama que tinham acabado de trocar o lençol. O Japonês e a loira sentaram de frente pra mim.

-Mike, com o que você trabalha?

-Achei que fossem me perguntar sobre o que eu vi e o que aconteceu.

-Apenas responda a pergunta – disse a loira com mal gosto pra sapato.

-Eu trabalho para uma editora.

-Trabalha em casa, certo?

-Sim – como ele já sabia disso. – Mas vou até a editora com frequência, e também a eventos quando precisamos divulgar alguns livros…

-E também malha pelo visto.

-Sim – onde ele queria chegar com aquelas perguntas?

E você estava indo ou voltando da academia?

-Estava voltando.

-E porque foi até a casa da Ketlyn?

-Ela era minha amiga. A gente não conversava há um tempo, então passei lá pra ver como ela estava.

-Você decidiu que ia até a casa dela antes ou depois de ir pra academia?

-Eu não estou entendendo. Achei que vocês iam querer que eu tentasse identificar o assassino.

-Veja bem, Mike. Estamos aqui tentando criar uma linha de raciocínio pra entendermos a lógica dos acontecimentos – disse a loira. – A verdade é que os vizinhos só viram você entrando pela casa. Suas digitais estavam espalhadas pela casa, e ninguém viu outra pessoa saindo de lá, exceto você.

-Espera, acham que eu foi quem a matou? O homem com a Máscara já matou outras vezes, não foi?

-Por enquanto, ainda não podemos afirmar isso. – Eles se entreolharam. – Ninguém aqui está fazendo esse tipo de acusação. Mas se esperamos encontrar o assassino, nós precisamos fazer algumas perguntas. Ainda não ficou claro o porquê de você ir até a casa dela.

-Eu já disse, só fui ver como ela estava.

-E o que viu quando chegou lá?

-Quando eu entrei já estava tudo sem luz, eu fui até a cozinha, e ela estava amarrada numa cadeira. Eu ouvi passos e me escondi no armário.

-Porque não chamou a polícia enquanto estava seguro?

 

Porque deixei meu celular no chão quando tentei desamarra-la. Depois eu só lembro-me de… – Travei. A cena vinha o tempo todo. A garganta sendo cortada e o sangue espalhando pelo chão.

-Espera – a loira cortou a minha fala – Ela foi morta na cozinha?

-Porque está perguntando – disse o japonês.

-Porque o corpo dela não estava na cozinha quando a perícia chegou. Disseram agora a pouco que ela estava no andar de cima. Ela estava na cama, e não era apenas a garganta que estava cortada. O corpo todo estava dilacerado. Ele devia estar com muita raiva.

Ambos olharam pra mim como se não acreditassem no que eu estava dizendo. Como assim ninguém mais havia visto o homem saindo da casa? Ele era maior do que eu. E como ninguém ouviu os gritos e os barulhos de luta dentro da casa? O silêncio tomou conta da sala. Ouvi uma voz no corredor que era familiar, e meu coração acelerou, mas dessa vez de alegria. Milena. E pra minha sorte ela estava com outro rosto familiar. Débora, a sua chefe, a advogada responsável pelo escritório onde Milena trabalhava. A loira e o Japonês saíram da sala, e em questão de segundos de conversa com Débora, a porta se abriu e o Japonês disse que eu podia ir pra casa.

Corri em direção a Milena e dei um abraço nela. A panturrilha doeu muito, mas eu precisava de um rosto familiar por perto.

-Você não consegue ficar longe de confusão não é?

-E você não consegue ficar sem me salvar. – Dei uma risada forçada, mas estava aliviado dela estar ali. Fomos até o carro da Débora, e ela começou a falar comigo.

-De agora em diante, sempre que quiserem falar com você, primeiro me liga, não importa a hora, ok?

-Tudo bem. Muito obrigado pela ajuda.

-Não agradeça ainda, eles vão te ligar novamente.

Você quer ir dormir lá no meu apartamento? – Mi perguntou.

-Eu nem considerei voltar pro meu sozinho – respondi – mas antes preciso fazer uma ligação.

Falei com meu irmão, que estava assustado no telefone, mas eu o tranquilizei, não havia motivo para ficar tão assustado.

Após finalizar a ligação, recebi uma mensagem de texto:

A próxima facada será no coração.

Mas de quem?

Sem pensar duas vezes, apaguei o que tinha acabado de ler. Talvez fosse coisa da minha cabeça.

Mais uma atitude que entraria pra minha lista de erros.

-/-

É a parede ou sou eu quem está gelado? Não sei. Um feixe de luz irradiou perto do meu pé. Alguém ainda está dentro da casa. Encolhi-me rápida e silenciosamente. Mas a dor no meu corpo é muito forte. Não deveria ter me mexido tanto. Agora o ferimento no meu estômago estava começando a sangrar demais. Preciso de algo pra estancar ou vou ter outra hemorragia.

Toc Toc

Alguém bateu na porta.

Maike Alves

Paulista, estudante de pedagogia, leitor compulsivo e fã da cultura Geek. Sonha um dia publicar um best seller. Em um relacionamento sério com As Séries e Animes.