Máscaras: Episódio 2 – Ataque

Máscaras: Episódio 2 – Ataque

 

 

Web série de Maike Alves

 

 

Episódio de hoje: Ataque

 

Está doendo muito. Minha visão está turva e não consigo me mexer direito. Estou tremendo e com medo. Mexer no passado é como furar uma parede repleta de canos, você sabe do risco de furar um deles e ter uma infiltração. Mas há coisas que precisam ser descobertas. Com minhas mãos tremulas tento retirar o objeto que está cravado em meu abdome e percebo que está mais fundo do que eu imaginava. Não sei exatamente o que é, mas a parte do cabo que está pra fora lembra um Saca rolhas. Um sono pesado demais me deixa sem vontade de querer continuar. Está escuro e não consigo ver quase nada, ou estou chegando perto demais da morte…

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Cheguei das compras com Milena por volta das quatro e pouco da tarde. Eu tinha uma rotina bem corrida, mas eu gostava disso. Quanto mais coisa incluísse no meu dia-a-dia, melhor eu me sentia. Talvez isso fosse uma válvula de escape para fugir dos meus problemas. Não conseguia encarar a minha mãe. Já fazia um tempo que não sabia lidar com ela. Não a vejo há alguns meses na verdade. Nem meus irmãos, mas falo com eles por mensagem e às vezes eu telefono. Mas como eu disse, não sou bom em expressar sentimento algum.

Peguei o molho de chaves do bolso esquerdo e procurei a chave azul. Sou muito sistemático, então eu pintei as chaves com várias cores pra saber qual é do que exatamente.

Coloquei a chave na porta do apartamento, e percebi que ela estava destrancada. Eu nunca deixava a porta da minha casa destrancada. Nunca. Eu sempre fechava e dizia pra mim mesmo:

Tranquei a porta, e coloquei a chave no bolso esquerdo de dentro da minha calça.

Eu fazia isso pra nunca esquecer onde eu havia colocado as coisas. Dizem que quando se fala em voz alta o que se está fazendo, o cérebro lembra melhor de onde você deixou as coisas.

Eu não havia deixado a porta aberta, e tinha certeza disso. Entrei pisando devagar no chão, olhando ao redor. Meu apartamento era bem pequeno. A cozinha ficava a esquerda, assim que entrava. A sala ficava no meio, e no fundo tinha o meu quarto e meu escritório. Meu escritório era mais quarto do que o próprio quarto, já que eu passava mais tempo lá lendo e revisando os livros do que dentro do meu quarto descansando e dormindo.

Aparentemente, nada estava fora do lugar, e acredite, eu saberia se estivesse. O sofá estava na mesma posição. A minha lousa com os post it de cores variadas também estava do jeito que eu deixei. Será que eu estava ficando paranoico? Liguei a televisão, o único canal que eu assisto de fato é o Cartoon Network. Eu pago TV a cabo pra ter apenas esse canal. Mas quando a televisão ligou, estava no canal errado. Estava passando algum episódio de How To Get Away With Murder. Eu e a Milena adorávamos essa série. Mas esse não foi o último canal que eu assisti. Alguém mexeu na minha TV, ou ela apenas reconfigurou sozinha. Não sei. O silêncio que eu tanto adorava pra revisar os livros agora estava me assustando.

Talvez pelo fato de assistir a tantos filmes de suspense, eu era meio paranoico, e se tinha uma coisa que eu tinha aprendido é que se você acha que tem alguém na sua casa, a última coisa a fazer é ir entrando perguntando se tinha alguém. Por isso, deixei as compras no sofá, fui até a cozinha pegar uma faca. Eu sei. Se tivesse alguém ali dentro com uma arma, a minha faca não ia servir pra nada. Mas eu me sentia mais seguro com algo em mãos.

Fui andando em direção ao quarto, com passos lentos. O corredor estava mais escuro que o habitual, ou era apenas o meu medo criando paranóias. As duas portas do quarto e escritório no final do corredor estavam fechadas. Eu tinha a mania de sempre manter as portas do apartamento assim, talvez movido pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo que eu tinha diagnosticado a mim mesmo.

Primeiro queria verificar dentro do meu quarto. Uma gota de suor pingou pela minha mão. Ou talvez fosse apenas água. A faca estava molhada no escorredor de louça ainda. Coloquei minha mão sobre a maçaneta, fechei os olhos e contei até três. Um, dois…

E a campainha do apartamento tocou me fazendo tomar um susto e deixar a faca cair no chão.

Não sabia que eu era tão medroso assim.

Fui até a porta e pelo olho mágico eu vi Leila, a filha da Dona Eva, vizinha do apartamento em frente ao meu, que tinha aproximadamente quinze anos.

Abri a porta.

-Oi Leila, tudo bem?

-Tudo sim. – Ela fazia bolhas com o chiclete esbranquiçado. Provavelmente estava mascando aquilo ha um bom tempo. Meu estômago embrulhou nessa hora.

-A minha mãe pediu pra avisar que deixou o cara da TV a cabo entrar no seu apartamento. – Eu havia me esquecido que tinha deixado uma cópia da chave do meu apartamento com a Dona Eva caso precisasse. Ela continuou falando enquanto mascava de forma asquerosa.

-Ele ficou uns quinze minutos e foi embora. Pediu pra te entregar esse papel – E Me deu uma folha preta amassada, diferente do que eles habitualmente deixavam comigo. A minha TV por algum motivo sempre dava problema e eu precisava chamar o técnico pra arrumar. Mas adorava meus desenhos, então tinha a paciência de esperar vez após vez o conserto.

-Obrigado Leila, – agradeci e com pressa fechei a porta antes que ela se insinuasse, como era de costume.

Dessa vez o técnico veio muito rápido. Eu havia aberto o chamado no dia anterior no site, e eles geralmente demoravam entre três a quatro dias pra virem arrumar. Iria tentar me lembrar de fazer um elogio no site, quem sabe assim eles talvez viessem mais depressa nas próximas vezes. Voltei no corredor e peguei a faca do chão. Coloquei de volta na pia pra lavar. Levei as coisas que tinha comprado com Milena do sofá para o quarto. Abri a porta, e olhei em volta ainda desconfiado. Meu quarto tinha as paredes na cor cinza. Eu gostava das cores sóbrias, porque tinha medo de errar na combinação das cores vivas. Então eu sempre investia mais em cinza, bege, e o básico preto e branco. Eu tinha uma cama Box de casal, por que eu gostava de dormir com espaço. Do lado esquerdo tinha um espelho que ia de cima abaixo da parede, perto da janela. Na frente da cama tinha uma escrivaninha com meu Notebook e uma lanterna na lateral, porque era de noite que meu cérebro costumava funcionar melhor. Do lado esquerdo da cama eu sempre deixava um Puff em formato de dado, e do lado dele uma Arara de roupas. Não gostava da ideia de ter um guarda roupa roubando espaço dentro do quarto que já era pequeno. Coloquei as sacolas em cima da cama, tirei meu tênis e fui até o escritório.

Abri a porta e lá estava o que me dava mais prazer em observar, a minha estante cheia de livros. Adorava tirar todos eles do lugar e colocar tudo de novo na mesma ordem. Eu separava os títulos por trilogias e não trilogias. Eu era uma contradição. Ao mesmo tempo em que adorava livros como Jogos Vorazes eu amava suspenses como Garota exemplar e, por mais complicada que fosse a leitura, eu adorava a história de O Conde de Monte Cristo também. Mas por algum motivo, um livro estava no lugar errado. Eu sabia onde cada livro estava. Eu tinha feito até uma planilha, pra saber exatamente para quem eu tinha emprestado meus livros, e onde eles estavam nas minhas prateleiras de madeira. O suspense Não Conte a ninguém, de Harlan Coben, estava entre A Elite de Kiera Cass e Estilhaça – me de Tahereh Mafi. Eu jamais cometeria esse erro. Não deixo livros que não são trilogias em meio aos que são. Talvez tenha sido o cara da TV a cabo. Na próxima vez vou trancar a porta do quarto também.

No meio do escritório, havia uma mesa de madeira comprida, e em cima meus materiais de trabalho que eu amava ter, mesmo sem ter muita utilidade, como clipes, que eu nunca usava nos meus livros para não amassar e deixar marcas. Preferia usar simples marca páginas e os post its. Usava muito marca texto, quando estava revisando os textos que a editora me mandava. Coloquei meu celular pra carregar e fui até o meu quarto trocar de roupa. Eu sempre ia à academia no final da tarde, era mais gostoso treinar quando o calor já tinha passado. Coloquei minha regata vermelha favorita, um short curtinho que eu tinha vergonha de usar pelas pernas magras, a garrafa eu enchi de água e fui.

-/-

Já eram quase sete horas da noite. Eu estava com muito trabalho acumulado e exausto do treino. Domingo eu fazia os exercícios de perna quando criava coragem para ir à academia, mas estava difícil ganhar massa muscular. Não conseguia comer apenas batata doce e filé de frango. Me esbaldava no sorvete com frequência, mesmo com a minha nutricionista me dando broncas constantemente.

O céu estava negro como nunca antes, com nuvens cobrindo quase que totalmente a Lua. Era noite de lua cheia, e eu só sabia disso por que meu smartphone por algum motivo me avisava. Dava para ver um pouco dela, mas o céu nublado atrapalhava. O vento gelado que assoprou meu rosto naquele momento trouxe-me de volta a realidade, e os pelos do braço ficando arrepiados me fizeram notar que eu estava de regata e sem blusa. Era melhor voltar logo antes de pegar uma gripe ou algo do tipo. Fui andando pela rua calma e deserta, tentando me lembrar de quantos livros eu ainda tinha que revisar naquele dia. No dia seguinte eu sabia que deveria entregar quatro para Editora logo de manhã, mas eu já havia terminado a revisão de dois parcialmente. Não seria um problema.

A rua me pareceu estar mais calma do que o normal. Será que meu relógio estava errado? Já era mais tarde e eu não tinha percebido? O telefone tocou.

-Alo? – Eu sempre atendia de forma ríspida, porque geralmente tinha que parar a música e tirar o fone de ouvido pra atender ligações.

-Mike? – Era uma voz de garoto. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Era Joao, meu irmão mais novo.

-Sim, sou eu! Você está bem?

-Estou e você? Pode falar agora Carrapato? – Ele sempre tinha um jeito meigo ao falar comigo, e cada um tinha um apelido. Eu era Carrapato, Jonata era Gafanhoto e Joao era Besouro.

-Claro que eu posso Besourinho. O que houve? Está tudo bem?

-Está sim, não precisa se preocupar. – Ele então começou a sussurrar – É que está acontecendo alguma coisa com a mamãe. – Meu coração disparou com a possibilidade de ela estar enlouquecendo outra vez.

-O que está acontecendo? Ela fez alguma coisa com você? Se ela…

-Não, ela não fez nada comigo, mas ela anda estranha… Ela vive no telefone com alguém. Falando escondida, vive saindo de noite, e esses dias ela só chegou de manhã. Acho que ela está saindo com alguém Mike!

-Isso é bom, pelo menos ela fica feliz assim.

-É, mas e se esse cara tentar roubar o lugar do Papai.

-Ei Besourinho, relaxa, ninguém vai roubar o lugar dele. Se esse cara estiver fazendo bem pra Jessica, ela não vai mais brigar tanto com você quando ficar vendo TV até mais tarde, pensa assim.

-É Mamãe, não Jessica… Talvez você tenha razão… Estou com saudades. Quando você vem nos ver? Você prometeu que me levaria no cinema esse mês.

As palavras saiam suave como pétalas mas cortavam forte como navalhas. Eu tinha me afastado da minha família, e não sabia como consertar as coisas.

-Em breve Besourinho… Em breve.

-Está bem. Tomara que seja essa semana. Vou desligar, antes que o Gafanhoto apareça. Ele brigou comigo e disse que não era pra perturbar você fazendo fofocas.

-Ok, Boa noite Besourinho. Toma cuidado.

-Você também Carrapato.

-/-

Continuei caminhando pela rua calma, já chegando perto do apartamento onde eu morava. Mas passando pela rua atrás do condomínio, lembrei que fazia algum tempo que não visitava minha amiga Ketlyn. Ketlyn era uma Transsexual que eu apelidei de KéFi, uma abreviatura do seu nome com a mistura de uma frase dita por ela o tempo todo. “Trans Finíssima” era o que ela dizia toda vez que se olhava no espelho. Éramos bem amigos; talvez mais por termos problemas em comum do que de fato gostar um da presença do outro, mas de qualquer forma, nos afastamos por um tempo quando comecei a trabalhar para a Editora. Se eu queria aprender a reiniciar relacionamentos abalados, eu precisaria começar em algum lugar, e seria bem mais fácil fazer isso com a KéFi do que com Jessica.

Sua vizinha, que eu não conhecia muito bem tinha três infelizes cachorros que latiam sem parar. Mas nesse dia, eles estavam estranhamente quietos demais. Apertei o interruptor e não apareceu ninguém. Kéfi tinha mania de ouvir música no volume máximo nos fones de ouvido, e não era incomum ela estar em casa e não me ouvir chama-la. Como eu sabia abrir o portão, coloquei o braço por dentro e destravei. Ele abriu, então isso significava que ela estava em casa. Kéfi ainda não tinha colocado uma lâmpada na garagem, embora eu já tivesse me oferecido para instalar.

Passei pela garagem escura e fui até a porta da frente já entrando. Pensei em dar um susto nela, por isso fui na ponta dos pés. Sem querer chutei algo, então tentei ascender à luz da sala pelo interruptor, mas a energia aparentemente estava desligada. A casa estava sem luz. Ouvi um barulho estranho. Parecia mais uma voz abafada. Aos poucos meus olhos foram se ajustando ao ambiente escuro, mas ainda não conseguia enxergar direito. Então chacoalhei meu Moto X e ele ascendeu automaticamente a lanterna me permitindo ver melhor o que tinha acontecido ali. O que senti foi um desespero ao conseguir enxergar a cena. Os móveis estavam destruídos, como se alguém tivesse lutado no ambiente.

Passos.

Ouço alguém andando no andar de cima.

-Ketlyn?! – Cometo o erro de chama-la. Os passos pararam. A curiosidade deveria ter me paralisado ou feito com que saísse correndo dali, mas eu precisava saber o que tinha acontecido. Comecei a ir em direção a cozinha e os passos voltaram a fazer barulho. Os grunhidos ficaram mais altos, alguém estava gritando, mas com a boca abafada. Fui até a cozinha, e quando cheguei na porta pude ver no centro do cômodo uma cadeira. Ketlyn estava sentada nela, com as mãos amarradas, e a boca coberta com algum tipo de fita isolante. A cena me deixou apavorado. Queria sair correndo, queria ajudar ela, queria gritar. Mas fiquei paralisado de medo. Quando me forcei a voltar à cena em questão, fui até ela e tirei o esparadrapo da sua boca. Ketlyn estava com um olho roxo, provavelmente por conta de um soco que devia ter levado, e sua testa toda suada, extremamente apavorada.

-Calma, eu vou te tirar daqui. – Tirei a fita que tapava a sua boca.

-Não, ele ainda está na casa… Está lá em cima… Você precisa sair daqui… – Ela estava suando frio e ofegante.

-Não, eu não vou deixar você aqui sozinha – Disse tentando retirar as cordas, mas estavam amarradas com um nó que eu não conseguia desfazer.

-Me escuta – Ketlyn disse – Você tem que sair daqui. Ele vai acabar matando você. Precisa chamar ajuda.

-Quem vai me matar? – E no mesmo instante, passos de alguém descendo a escada me fizeram retroceder.

-Coloca de volta, o esparadrapo na minha boca, rápido. Ele vai saber que você está aqui. Esconda-se dentro do armário – e apontou com a cabeça pra um pequeno armário embaixo da pia.

Os passos estavam ficando mais altos, junto com a pulsação do meu coração, que agora já estava num batimento tão acelerado que dava pra ouvir a metros de distância. Ele iria matar ela? Quem era ele? Estava atordoado. Entrei no pequeno armário e tentei segurar a respiração. Deixei uma fresta para ver o que iria acontecer. Eu deveria ligar para emergência. Mas quando coloquei a mão no bolso, percebi que havia deixado o celular no chão, do lado da cadeira onde Ketlyn estava amarrada. Estava nauseado. Não sabia o que fazer. A pessoa que estava no andar de cima chegou ao fim da escada e andou até ela, parando em frente à cadeira com uma lanterna. Aparentemente era um homem, e estava de bota, calça jeans clara, luvas de couro branca e um Sobretudo. Quando tentei ver seu rosto, me assustei mais ainda. Ele usava uma máscara de teatro, que lembrava o fantasma da ópera, mas cobria o rosto por completo. Só os olhos estavam pra fora, e eles eram assustadores. Tinha ouvido falar sobre um tal Serial Killer que usava uma máscara, mas achei que fosse apenas invenção das pessoas, como o Carro Preto que raptava crianças para tráfego de órgãos.

Keltyn não parecia estar com tanto medo quanto eu. Eu deveria sair dali de dentro e tentar defende-la. Deveria lutar com ele. Mas não tinha força. Minhas pernas não me obedeciam.

Ele estava nervoso, irritado com alguma coisa, e na tentativa de deixa-la assustada, colocou uma faca em sua garganta. Retirou o lacre da boca dela como se esperasse que ela fosse pedir por socorro ou gritar.

-Você não precisa fazer isso. Por favor… – Ela estava se segurando para não chorar.

Mas ele não teve compaixão alguma, e deu um tapa na cara dela com tanta força que o estalo doeu em mim. Segurei minha própria boca para não deixar escapar um grito. Ele parecia se divertir vendo o medo dela. Ketlyn estava tentando manter uma postura firme, mas dava pra sentir a cadeira vibrando junto a tensão dela. Ele era estranho, e tinha um tipo de cacoete tremendo a cabeça e pendendo ela pros lados. Ele amaciou seu cabelo e colocou a mão esquerda no pescoço  de Ketlyn como se a qualquer momento fosse estrangula-la. Quando passou a mão perto da boca, ela cravou uma mordida que o fez sangrar, e com raiva ele a empurrou fazendo com que ela caísse junto com a cadeira no chão, ainda amarrada. Nesse instante, ela ficou de frente pra mim. Eu simulei que ia sair pra ajuda-la, mas ela balançou a cabeça negativamente.

-Quer me matar? Vá em frente, mas não vai tocar em… – E antes que ela terminasse a frase ele pulou em cima da cadeira e a faca traspassou na garganta dela, fazendo o sangue jorrar pelo chão. Nessa hora, pude sentir o cheiro de ferro que se espalhava pelo ar. O medo me paralisava. O homem com a máscara virou em minha direção. Estava escuro. Ele não poderia me ver. Poderia? Ele foi chegando mais perto e pude observar os seus olhos grandes, negros e nervosos. Definitivamente eram olhos de cobra, e apenas isso foi o suficiente para me fazer chegar perto de desmaiar. Ele veio em minha direção, e não sabia se estava me vendo ou se ia pegar algo em cima da pia. O que eu sabia é que minha amiga tinha acabado de ter a garganta cortada. Pensei em abrir a portinha e correr até a rua. Mas minhas pernas poderiam travar no meio do caminho. Nesse momento, uma barata passou por entre as minhas pernas, e eu quase dei um chute na madeira. Aquela pequena criatura poderia ter me levado à um destino pior que Kéfi. Eu queria chorar, mas me contive. Não era a hora.

O homem com a máscara parou em frente à porta do pequeno armário. Fiquei ofegante. Fechei meus olhos. Pude ouvir o barulho dele largando a faca em cima da pia, e suas pernas estavam bem à minha frente. Eu iria morrer.

Pra minha sorte, ele começou a se afastar, subindo as escadas novamente.

Um

Dois

Três

Quatro

Cinco

Seis

Sete

Fui contando os passos, na expectativa de sair correndo dali assim que deixasse de ouvi-los. Mas antes que os passos fossem pra longe, um celular começou a tocar. O meu. Os passos pararam. Meu coração que já estava disparado agora saltava do peito. Se eu abrisse a boca o eco das minhas pulsações cardíacas poderiam ser ouvido à distância. Queria controlar meus impulsos, mas não queria ficar ali correndo o risco de ser pego e morto também. Os passos começaram a voltar. Ele estava retornando, descendo as escadas. Queria ficar ali, quieto, até a hora que tudo aquilo acabasse. Mas ver o corpo da Ketlyn apenas alguns metros de mim, sangrando pela garganta, me fez sair do armário no pulo e correr rumo ao celular. Não sei porque fiz isso, mas fiz.

Peguei o telefone e sai correndo em direção à porta da cozinha que dava para os fundos da casa dela. Ele correu na minha direção, e eu senti minhas pernas fraquejando, mas não queria morrer ali. Agora pensando foi insensato sair do meu esconderijo, mas já era tarde. Praticamente mergulhei pela porta, que mesmo se estivesse trancada, com o meu impulso avassalador teria aberto. Sai desesperado tentando correr, sem olhar pra trás, mas fui derrubado por ele. Tentei gritar, mas a minha voz não saiu. O medo tomou conta de tudo. Era o meu fim. Ele pegou a faca e tentou cravar no meu tórax, mas eu segurei com as minhas mãos trêmulas, deixando o celular cair. Ele estava me vencendo, e a faca estava chegando mais perto do meu corpo. Olhei para o lado, e vi de quem era a ligação perdida: Joao. Ele precisava de mim. Meus irmãos precisavam de mim. Eu precisava de mim. De alguma forma, meu corpo entendeu isso e a adrenalina tomou conta de mim. Decidi não morrer naquele momento. Dei um grito e empurrei as mãos dele pra cima, e com muita rapidez peguei meu celular e bati com ele no osso temporal. Aprendi que acertando o ouvido, você faz a pessoa perder o equilíbrio. A máscara dele se soltou mas não pude ver seu rosto. Virei de costas para correr, mas ele cravou a faca na minha panturrilha.

Dei um urro de dor, mas não senti por muito tempo. O sangue estava quente. Virei e lhe dei um chute que eu acredito ter acertado no rosto. Depois disso, só lembro que consegui escalar o muro e me jogar na casa do vizinho. Com o impacto da dor e o chão vermelho do sangue da minha perna, comecei a gritar pedindo ajuda, e duas crianças gritaram chamando pelos pais, que logo vieram desesperados ver o que estava acontecendo. Eu ainda estava tentando entender o que tinha acabado de presenciar, mas pelo menos não foi dessa vez que eu morri.

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Talvez o excesso de mentiras tenha levado a isso, ou a confiança nas pessoas erradas. Nesse jogo de predador e caça em algum momento as coisas se inverteram. Estou lutando para continuar acordado, porque você precisa saber de tudo. Mas se eu morrer antes de chegar ao fim saiba que eu tentei até a minha última gota de sangue ficar com você. As coisas ainda vão piorar, então só continue se aguentar todo o sofrimento a que fui submetido. Acredite você vai sentir na pele o que é dor.

 

 

Maike Alves
Paulista, estudante de pedagogia, leitor compulsivo e fã da cultura Geek. Sonha um dia publicar um best seller. Em um relacionamento sério com As Séries e Animes.