Máscaras: Episódio 1 – Tragédia

Máscaras: Episódio 1 – Tragédia

Episódio escrito por Maike Alves

Classificação indicativa

   Jamais imaginei que enfrentaria tudo que enfrentei até aqui. Jamais pensei que teria que lutar pela minha vida e pela vida das pessoas que eu amo de forma literal. Não sei exatamente como as coisas chegaram a esse ponto, mas creio que eu esteja morrendo. Isso em minhas mãos é sangue. Acho que é meu sangue. Meu estômago dói, e eu sei que tem algo cravado nele. Estou deitado no chão, agonizando. Morrer parece algo bom, agora que eu sei a verdade. Mas preciso aguentar um pouco mais, preciso suportar um pouco mais. Não posso morrer agora, sem que ninguém saiba a verdade. Fui muito longe pra conseguir isso, e não posso levar o segredo comigo. Mas confio em você. Vou lhe contar como tudo começou…

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   Dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte! Prontos ou não, aí vou eu…

Afastando-me da parede fria e amarela mostarda, olho em volta a procura do meu irmão e dos meus primos. Jonata, o meu irmão do meio tem oito anos. Ele é mais parecido com a minha mãe, tem cabelos lisos, que grudam na testa porque vive correndo, é moreno, e tem olhos castanhos claros. Eu estou com doze, sou mais parecido com o meu pai. Tenho cabelos cacheados, quase crespos para falar a verdade. Sou bem magro, e tenho olhos idênticos ao do meu irmão. E o caçula João acabou de completar um mês de vida. Seu pouco cabelo que já nasceu é tão liso e escuro que chega a escorrer pelos dedos. Ele foi o único que nasceu com os olhos verdes da mamãe. Estamos na casa da Vovó Ana, onde moramos desde o nascimento do João, brincando de esconde-esconde enquanto mamãe toma café da tarde com a minha tia e a Vovó. É sábado.

A varanda onde estamos brincando tem um espaço amplo, mas cercado de vasos de flores, pertencentes a minha vó. É o seu hobby favorito, e ela as tratam com tanto mimo que às vezes sinto uma pontinha de ciúmes. Da porta posso ver a minha mãe sentada de pernas cruzadas, com um vestido cumprido rosa claro que lembrava iogurte, e cheio de flores, provavelmente margaridas, calçando chinelo. Ela tem um sorriso branco, e os cabelos são cacheados, loiros e longos, até a altura da cintura. Mamãe tem olhos verdes cintilantes que pareciam esmeraldas na luz do sol. Seu nome é Jessica. Do outro lado da mesa posso ver minha tia, baixinha e com seus sessenta e cinco quilos, cabelo liso escorrido e escuro; deveria estar contando uma de suas muitas histórias. Ela tinha o dom de tornar qualquer história trágica em cômica. Vovó estava sentada na ponta da mesa, com seus cabelos grisalhos e curtinhos, quase como o meu. Seu óculos possuía um grau fortíssimo, e nas minhas memórias, eu sempre a via com a saia preta e a camisa azul marinho. Vovó adorava café, mesmo durante o calor da primavera. Ela era a mãe do papai. Papai chamava – se Marcos. Ele estava viajando a trabalho, era caminhoneiro. Transportava mercadorias entre os estados. Meu avô já havia falecido de câncer no esôfago, mas as pessoas sempre disseram que ele tratava a minha vó muito mal, tanto que eu nunca ouvia as pessoas falarem bem dele. Por esse motivo, em geral eu não perguntava por ele.

Começo a procurar meu irmão e meus primos. O quintal está florido e sou capaz de inalar o aroma doce e verde dos vasos de planta da minha vó. O vento forte sopra as roupas que estão no varal, e lá está meu edredom favorito, dos 101 dálmatas, balançando com força, espalhando o cheirinho do amaciante que mamãe usava. Conseguia ouvir risadas atrás da máquina de lavar roupa. Era do meu primo Junior, e do meu irmão Jonata.

– Achei! – Gritei enquanto saíamos correndo como três crianças desesperadas para chegarem até a parede na tentativa de vencer a brincadeira. A corrida era pequena até a parede onde eu havia contado até vinte, mas estar com eles ali transformava o momento em algo especial. Todos eram muito felizes. Eu não sabia o que era tristeza. Estava sempre tão cercado de pessoas e coisas para fazer… O céu estava claro, sem nuvens. Nunca tinha visto um azul tão vivo, um céu tão claro e um sol tão agradável. Aquele poderia ter sido o melhor dia da minha vida. Mas tudo seria destruído em alguns instantes.

O telefone toca.

Mamãe atende.

Seu corpo perde as forças.

Cai de joelhos no chão.

Minha tia pega o telefone

Também entra em pânico, Desespero.

As pessoas choram.

O horror começa.

E a parte da minha vida onde eu não tive preocupações reais se encerrava ali.

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A ligação era do chefe do meu pai. Infelizmente houve um acidente na estrada, e o caminhão do Papai acabou se chocando de frente com o de outro motorista que vinha na contramão… Pelo menos foi a história que me contaram, já que naquela época, as pessoas faziam de tudo para me manter o mais leigo possível sobre o acidente dele. Meu pai havia falecido. De forma rápida eu imagino. Eu já havia viajado com ele na estrada. Não tinha sensação mais gostosa do que estar naquela cabine alta, no meio do nada, apenas o verde em volta, aquele aroma que nunca seria capaz de sentir na cidade grande, a sensação de liberdade, observar o por do sol laranja incandescente, naquela dança de nuvens e cores, e o frescor do vento que passava pelo meu rosto brincando de fazer cócegas.

A velocidade com que meu pai sempre dirigia na estrada com pressa de terminar as suas entregas para voltar pra casa me fez imaginar o estado em que o corpo deveria ter ficado. Mas nada disso meu preocupava mais do que o estado em que minha família estava. Foi a primeira vez que eu tive que lidar com a morte de um ente querido. Mas não entendia muito bem o que estava sentindo. Só sabia que era uma coisa muito difícil para toda a minha família. Especialmente para mamãe. Ela não estava só mal. Ela estava desolada, ausente, fora de si. Eu não sabia como reagir aquilo. Ao mesmo tempo em que queria consolar ela, queria tentar explicar a situação que nem mesmo eu entendia para Jonata, e precisava cuidar do Joao, já que minha mãe estava praticamente inerte.

No dia do enterro, eu descobri a existência de parentes que eu nem sabia que existiam. Não me recordo muito bem o porquê, talvez o rosto estivesse desfigurado, mas não me deixaram ver o rosto do Papai. Talvez tenha sido bom. Afinal, a última lembrança que eu teria dele não deveria ser o seu corpo sem vida, sem alma, pálido. Eu não sabia como a vida seria dali em diante, mas não fazia ideia das batalhas que o destino havia me reservado.

Logo após a morte do meu pai, minha mãe, numa tentativa de fugir da realidade, achou melhor ir morar longe dos parentes. Mamãe, Jonata, o pequeno João e eu fomos morar em uma cidadezinha no interior. Mamãe tinha feito magistério, então ela pôde dar aula por um tempo. Mas ela não estava bem. Com o passar dos meses pude observar que sua alma foi saindo dela aos poucos. Ela foi emagrecendo, seus olhos verdes como esmeraldas foram escurecendo e perdendo o brilho, foram ficando fundos, e seus cabelos loiros foram perdendo a vida, chegaram a escurecer. Ela estava acabada. Transtornada. Depressiva. Mas nada se compara ao incidente.

Estava chovendo. Olhei no relógio e eram exatamente 3:11 da madrugada. Eu estava sem sono. Eu e meus irmãos dividíamos o mesmo quarto. João estava com um ano apenas, mas eu precisava tomar conta dele. Minha mãe não tinha forças nem para amamenta – lo.

Eu sempre a ouvia chorar do meu quarto. Tinha vontade de ajudar, fazer alguma coisa, mas eu era só uma criança. O que eu poderia fazer? A chuva estava muito forte. Um galho batia na janela do nosso quarto. A casa era um sobrado. Olhei pra cama do Jonata, e ele como sempre, dormindo um sono profundo. Ele jogava futebol num campo perto dessa nova casa. Havia um time na cidadezinha, e o treinador morava na nossa rua. Eu nunca fui bom nesse esporte, mas meu irmão, ah ele era ótimo. Deveria estar podre de cansado. Ouvi um barulho no corredor. Passos leve. Deveria ser a minha mãe indo no banheiro. Ela sempre ia ao banheiro nesse horário. Eu sei por que eu sempre perdia o sono. O João poderia acordar no meio da noite, e precisaria que eu estivesse bem acordado pra fazer a mamadeira dele. Já estava na hora de começar a tirar isso, mas eu não sabia muito sobre como criar filhos. Já estava começando a nascerem alguns dentinhos.

Ouvi barulho de água forte. Mas não era do chuveiro. Minha mãe ia tomar banho essa hora? Não, acho que ela estava enchendo a banheira. Mas está tarde, e nem está tão quente assim pra tomar banho essa hora. Seu choro estava mais alto do que de costume. João simulou que ia acordar, mas apenas colocou o dedo polegar na boca. Achei melhor ir ver se ela não estava precisando de alguma coisa. Levantei, coloquei minha pantufa do Pikachu e me arrastei até a porta de madeira mal pintada com verniz fajuto, e rodei a maçaneta. O choro está alto hoje. Alguma coisa está errada. Antes de chegar ao banheiro, me deparo com um envelope azul em cima da escrivaninha, perto do telefone. “Para Meus Filhos”, dizia a frase. Tive medo. Minha mãe não estava mais sendo racional. Abri o envelope com muita rapidez, tanta que rasguei uma parte do papel onde estava a carta. Começava com a seguinte frase:

“Se vocês estão lendo isso agora, eu provavelmente devo estar morta . . .”

Desespero. Medo. Dor.

Não sei o que eu senti, só sei que eu joguei a carta em algum lugar e sai correndo em direção ao banheiro agora silencioso. Tentei abrir a porta, mas estava trancada. Entrei em pânico, o que fazer? Quem chamar? Não entre em pânico, era o que eu dizia pra mim mesmo. João começou a chorar. A chuva estava parando, mas o barulho do vento não. A torneira estava ligada há tanto tempo que água começava a jorrar por debaixo da porta.

– Mamãe! – Gritava de forma desesperadora. – Mamãe! Abra a porta! – Mas só recebia o silêncio como resposta. E quanto mais água saia por debaixo da porta, mas eu ficava assustado e batia na porta. Há quanto tempo ela estava lá dentro? Não sei, e não podia pensar nisso agora. Jonata apareceu no começo do corredor.

– Mike, o que está acontecendo?

– Eu não sei! – Respondia com lágrimas nos olhos. – A mamãe entrou no banheiro e escreveu um bilhete se despedindo. Eu não consigo abrir a porta! Ela trancou por dentro

– Ela vai se matar? – Ele começou a chorar também. João estava aos berros no berço, enquanto dávamos chute e socos na porta.

– Isso não está funcionando! – Disse meu irmão.

– Vai chamar alguém! – Eu gritei

– Quem?

– Não sei, vai! O vizinho! – O nosso vizinho era marceneiro, o Sr Oliverio. Ele deveria ter alguma coisa que servisse para abrir a porta. Meu irmão desceu as escadas desesperado, no escuro, chorando, e eu continuava a berrar chamando a minha mãe. Água escorria por debaixo da porta e já estava descendo a escada. Meu coração palpitava tanto que parecia que sairia pela boca. Já havia perdido o meu pai. Agora minha mãe ameaçava nos deixar. Como eu deixei isso acontecer? Era tudo culpa minha. Eu deveria ter achado uma forma de ajudar mais ela. Se eu não fosse tão fraco. Se eu não fosse tão infantil. Se eu não fosse tão eu… Minhas mãos já estavam sangrando de tantos socos que dei na porta quando senti uma fisgada forte na palma da minha mãe direita. Devo ter deslocado alguma coisa, porque um calombo começou a se formar entre os nós dos meus dedos. Lancei-me no chão, em lágrimas. Estava aéreo, em estado de choque. Aquilo não poderia ser real. Eu perderia a minha mãe também.

– Sai da frente garoto – Gritava o Sr Oliverio, que surgia atrás de mim num piscar de olhos, enquanto meu irmão agarrava sua calça de moletom com desespero nos olhos. Ele estava com um extintor na mão, e com apenas uma batida na maçaneta, ele abriu a porta, e em choque entramos. A banheira estava derramando água, o espelho da pia estava quebrado, e os cacos embaçados pelo vapor. Os remédios estavam todos abertos, jogados pelo chão. Esperava encontrar o corpo da minha mãe sem vida na banheira. Mas o que eu vi foi ainda mais confuso do que eu imaginava. Do lado da banheira derramando toda aquela água, estava a minha mãe. Sentada, encolhida, descalça, com seu corpo se retorcendo. Não havia reparado que estava tão magra. O desespero logo deu lugar à raiva, e surtei, chorando de raiva agora. Como ela poderia ser tão egoísta em querer ir embora e deixar os três filhos aqui sozinhos?

– Venham aqui – chamou o Sr. Oliverio tirando a gente do banheiro com certa pressa em nos fazer esquecer-se daquela cena. – Eu não acho que seja uma boa ideia vocês ficarem aqui sozinhos.

– Não estamos sozinhos – O Jonata retrucou

– A minha mãe sempre cuidou da gente.

– É, mas eu preciso ligar pra alguém. O Pai de vocês…

– Está morto – As palavras saíram com mais raiva do que eu pretendia.

– Então algum tio, ou tia…

– Eu acho que tem no celular da mamãe.

– Ótimo – Sr. Oliverio disse

– Vou levá-los lá pra casa, e pedir pra minha esposa cuidar de vocês, enquanto eu arrumo as coisas aqui.

– E a mamãe? – Eu perguntei

– Eu vou cuidar dela também pequeno. Agora pega o seu irmão que está chorando e vamos. Depois daquele dia, minha mãe começou a fazer um tratamento e a tomar medicamentos controlados. Meus irmãos e eu moramos por um tempo com a minha vó. Mas quando a minha mãe estava estável, voltamos a morar com ela. Porém, Vovó sempre ia nos visitar, às vezes por dias seguidos. Minha mãe não ficava confortável com isso, mas era a única forma de nos ter com ela. Mas mesmo assim, minha mãe nunca mais foi a mesma.

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Onze anos depois…

– O que acha desse aqui? – Perguntou Milena, ao colocar o terceiro óculos de sol seguido e fazer careta pra mim. Estávamos fazendo compras para nossa nova viagem. Programamo-nos para ir a Buenos Aires, Argentina. Milena era a minha melhor amiga. Se você está se perguntando sobre o que aconteceu com a minha família, eu te explico.

Mamãe nunca se recuperou da morte do meu pai, e é uma pessoa instável até hoje. Por causa disso, eu precisei cuidar dos meus irmãos. Talvez para evitar a dor de se lembrar do Papai minha mãe tenha nos afastado da família dele. Mudamo-nos várias vezes, mas eu precisei ir morar sozinho quando iniciei a minha faculdade. Minha mãe e meus irmãos moram hoje na zona Sul de São Paulo, e eu aluguei um apartamento no centro. Acabei perdendo um pouco o contato com meus irmãos, e não me orgulho disso. Jonata está estudando engenharia e conseguiu um estágio numa empresa de grande porte. Joao está com treze anos e ainda na quinta série.

Faz mais ou menos dois anos que estou morando sozinho. Agora eu estou com vinte e três. Fiquei muito tempo confuso sem saber o que queria fazer da minha vida. Iniciei faculdade de Radiologia, Administração e Contabilidade. Mas foi só agora que encontrei minha vocação. Sempre gostei de literatura. Há alguns anos atrás, logo após o fim do ensino médio, Kevin, um amigo, começou a fazer estágio de jornalismo em uma editora. Ele escrevia alguns textos e me mandava para verificar a ortografia e fazer uma crítica, já que eu sempre fui muito perfeccionista nas coisas que fazia. Uma vez eu cheguei a reescrever um texto completamente pra ele. E assim eu fui criando gosto pela escrita.

Surgiu uma vaga dentro da editora no departamento que revisava livros antes de serem divulgados. Ele me contou sobre isso, e eu mandei um e-mail diretamente para o gerente responsável pelo departamento, o Sr Sergio. Foi ousada a minha atitude, mas eu não tinha nada a perder. Queria explorar mais a fundo essa área e descobrir o que eu podia fazer, por isso me joguei. Pra minha sorte, o próprio respondeu meu e-mail, dizendo que queria marcar uma reunião comigo. Disse que sabia que eu revisava os textos do Kevin, e que eu era muito bom com as palavras. Comecei a me interessar mais ainda por ler, e sempre tive facilidade de ensinar as pessoas. Foi aí que tive a vontade de estudar Letras.

Queria mudar de ambiente. Precisava me afastar dos meus fantasmas do passado. Queria iniciar uma nova fase na minha vida. Quem sabe até escrever um livro um dia. Hoje, eu estou trabalhando nessa editora, mas a maior parte do meu trabalho, eu faço em casa. Não que isso signifique que eu trabalhe pouco, ou que ganhem bem. Pelo contrário. Eu já passei noites sem dormir, revisando textos e fazendo correções ortográficas para entregar tudo na manhã seguinte. Mas eu amo o que faço. Porém, foi muito difícil deixar os meus irmãos sozinhos com Jessica, embora eles já conseguissem se cuidar. Eram fortes, mais até do que a minha própria mãe. Jonata agora está completando dezoito anos, e João está com dez.

– Acho que deixa seu rosto muito quadrado – respondi para Milena a pergunta sobre os óculos.

– Tenta esse, acho que é mais a sua cara – disse entregando a ela outro.

– Esse ficou perfeito em mim! – Milena disse atônita.

Eu adorava fazer compras com ela. Isso era quase como uma terapia para as nossas vidas amorosas decadentes. Foi um pouco antes de entrar na faculdade que eu a conheci. Milena estuda direito, está no terceiro ano, enquanto eu ainda estou no segundo da minha graduação em Letras.

– E você não vai levar nenhum? – Ela me perguntou – Eu já tenho um, mas o que eu preciso mesmo é de uma bota nova.

– Bota? A gente não vai pra um rodeio, vamos pra Argentina.

– Eu sei, mas isso não é pra usar lá.

– Então você vai pra outro país com as mesmas roupas de sempre?

– Claro que não! – Então anda que na Renner eu vi umas camisas lindas.

– Camisas lindas ou você está falando daquele vendedor moreno que está na porta te encarando desde que a gente entrou aqui?

– Não tenta queimar meu filme dessa vez, por favor…

Chegava a ser engraçado o nosso tipo de relacionamento. Somos muito amigos, mas não há qualquer interesse romântico de ambas as partes…

– Mike! Olha essa camisa! É a sua cara. Vamos levar – Milena me mostrou uma camisa preta com a gola em V e uns riscos cinza na lateral, e colocando-a na sacola de compras da loja.

– Agora precisamos arrumar uma calça jeans nova pra você.

– Mas escuta, você veio fazer compras ou ser esquadrão da moda comigo? Por que eu tenho roupas novas que ainda nem usei…

– Eu sei, eu sei… Você trabalha em casa, enfunado naquele monte de livros, não sai, não vê gente, por isso suas roupas ainda estão todas novas. Você deve trabalhar em casa pelado.

– E você vai pro seu escritório trabalhar com um vestido mais curto que a camisa que eu estou usando. Quem via de fora, achava que estávamos brigando, mas nós éramos muito parceiros.

Nossa amizade era assim. Dizem que colegas são aqueles que te veem sorrindo, e amigos são aqueles que enxugam nossas lágrimas. Eu e Mi já tivemos um pouco dos dois. Sabemos de cada detalhe da vida do outro, que chegava a assustar. Acho que tínhamos traumas em comum.

Terminamos de escolher as roupas que queríamos, e fomos em direção ao caixa.

– Ele ainda está te olhando Mi.

– Eu sei, mas não tenho coragem de ir até lá e pegar o telefone dele.

– Então eu vou, fica aqui…

– Não! – Mi deu um grito no meio da loja enquanto eu me virei, assustando um casal que estava do lado. Ela me puxou pelo braço. – Não, está louco? Ele é bonito demais, homem assim ou é gay ou já é casado.

– E você viu aliança no dedo dele? – Não, mas… – Sem mais, porque gay ele não é, se não estaria olhando pra mim, e não pra você.

– E se ele não quiser falar comigo?

– Ele está te olhando desde que a gente estava na outra loja. Vai ficar esperando aparecer outra garota mais bonita, ou vai aproveitar?

– Tá bem, me espera aqui.

– Eu não saio daqui enquanto você não voltar com o numero de telefone daquele garoto.

– Se eu voltar sem?

– A gente vai à praça de alimentação e pede o Sorvete com mais calda de chocolate que tiver.

Milena foi em direção ao rapaz, que abriu um sorriso quando ela foi chegando mais perto. Eles conversaram brevemente, e ele entregou pra ele um cartão, ou um papel, com o número de telefone dele. Pelo menos eu acho que era. Porque ela estava voltando quase corada, e tentando segurar um sorriso.

– E aí, ele te mordeu por acaso?

– Eu perguntei

– Não, ele me deu o telefone, e disse que amanhã está de folga, se eu quiser, posso ligar pra ele e a gente vai ao cinema.

– Viu, não foi tão difícil. –

Agora precisamos arrumar um encontro pra você, que tal aqu…

– Eu fico com o sorvete mesmo, não estou a fim de sair com ninguém.

– Ah Mike, qual é, você me incentivou a sair com aquele cara, e agora está com medo de um encontro?

– Não é medo, – respondi, mas já em tom de advertência.

Não gostava de como as coisas sempre aconteciam de forma trágica na minha vida amorosa. Eu nunca fui muito bom em expressar sentimentos, tenho algum tipo de bloqueio. Eu nem mesmo choro. Nem assistindo “Marley & Eu”. Sempre estraguei tudo sozinho, e estava cansado de quebrar a cara. Então preferia não arriscar. Nunca. Jamais. – Então, vamos que eu já comprei tudo que queria.

– Mas…

– Mas se você quiser pode ir a pé pra casa, se continuar querendo arrumar um encontro pra mim. Não te dou carona mais. Além disso, sempre que eu quiser sair com alguém, eu tenho você.

– Menos amanhã, que eu vou sair com o gatinho da loja.

– Só não se apaixona tá bem, porque vendedor ganha pouco, e você é uma futura advogada.

– Pode deixar lindinho, é só um encontro, relaxa.

– Eu estou relaxado, só não quero o encosto da pobreza pra sempre em cima de mim.

– Então não deveria ter escolhido ser Revisor de livros.

– Sou um futuro Escritor renomado de Suspense ou fantasia, ainda não decidi. Só preciso encontrar a história certa para contar e vou me tornar um escritor de Best Seller.

– Boa sorte com isso. Entramos no meu Golf vermelho, ano 2010. Não era muita coisa, mas eu adorava dirigir aquele carro. Foi o meu segundo carro; o primeiro tinha sido um Tempra bem antigo. As peças nem vendiam mais. Mas depois que comecei a trabalhar pra editora, eu troquei, por que às vezes precisava carregar muitos livros, ir a eventos de divulgação de escritores, e não podia chegar lá com aquela banheira. Esse era o que eu podia manter no momento. Era útil. Dava até pra sair para fazer compras como hoje.

– Liga o rádio. – Milena falou enquanto batia a porta do carro, esquecendo que esse não era mais o Tempra antigo. Lancei um olhar de raio laser, mas ela ignorou.

– Não preciso do rádio, eu tenho as músicas aqui. Podemos fingir que estamos no The Voice. – Eu disse enquanto conectava meu celular com o Bluetooth.

A primeira música da minha playlist era Worth it, do Fifth Harmony.

Fomos saindo do estacionamento do Shopping Eldorado enquanto cantávamos a música tão alto que as pessoas nos olhavam com seu desdém. Não sei por que a nossa cantoria incomodava tanto as pessoas. Na verdade, elas queriam fazer igual. Só tinham vergonha de serem elas mesmas. Fomos embora felizes com nossas compras pra viagem.

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Até aquele momento, eu estava começando a recomeçar a minha vida. As coisas estavam ganhando um rumo razoavelmente bom, e eu estava otimista. Os fantasmas do passado não me atormentavam tanto, embora de vez em quando tentassem me assombrar. Fazer amizade com a Milena foi uma das melhores coisas que aconteceram nesse período de adaptação.

Mas logo eu descobriria que fazer amigos seria um dos maiores erros que eu poderia cometer. Isso os transformou em alvos, e infelizmente, nem todos saíram vivos disso…

Maike Alves

Paulista, estudante de pedagogia, leitor compulsivo e fã da cultura Geek. Sonha um dia publicar um best seller. Em um relacionamento sério com As Séries e Animes.