Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 9 – O Mestre

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 9 – O Mestre

O Mestre

No dia seguinte, bem cedo, Ying foi despertada pela voz possante de seu irmão no aposento contíguo.

– Obrigado. Estamos avisados então. Pode se retirar.

Ying entrou no salão à tempo de ver que se tratava de um dos soldados do Santuário e a julgar pelo que ouvira, um mensageiro. O soldado inclinou-se à guisa de despedida e quando ergueu novamente os olhos avistando-a, Ying pôde ler neles um misto de surpresa e medo respeitoso. Inclinando-se outra vez, ele, mais que depressa, desapareceu pela porta de saída.

Saga voltou-se para sua irmã com uma expressão divertida e comentou:

– Parece que a sua façanha de ontem causou uma forte impressão em todos por aqui, não é mesmo?

Ying não achou graça, afinal de contas, não era bem a sua intenção provocar tanto alvoroço com a sua chegada. Forçando um sorriso, ela perguntou:

– O que ele queria, Saga?

– Ele veio nos trazer uma mensagem do Mestre. Parece que o Conselho não poderá se reunir, pelo menos, nas próximas duas semanas, visto que vários Cavaleiros de Ouro se encontram fora do Santuário em missão. Entretanto, o Mestre deseja conhecê-la pessoalmente e pede que eu a leve até sua Casa para conversar assim que for possível. Se você já estiver pronta, podemos ir imediatamente, se quiser.

Ying não se surpreendeu. Na verdade, ela já esperava por isso e até estava curiosa em saber de que maneira sua chegada intempestiva teria impressionado o Mestre e nada melhor para isso do que uma conversa reservada, sem a presença dos outros Cavaleiros para influenciá-lo. Se pudesse conquistar o seu apoio, talvez isso pudesse contar pontos a seu favor.

– Iremos assim que eu vestir minha armadura.

– Ótimo. Eu a aguardarei e enquanto isso abrirei uma porta dimensional para nos levar até a Casa do Mestre. É uma grande distância de Gêmeos até o Templo de Athena. Assim poderemos economizar tempo e energia.

– Bem pensado. Se bem que um pouco de exercício não faria mal. Estarei pronta em um instante.

– Ora, nós, Cavaleiros de Gêmeos, temos esse privilégio, enquanto outros não conseguem se teleportar por causa do cosmo de Athena que protege este Santuário. Mu de Áries e Shaka de Virgem, acho que também conseguem, embora seja uma habilidade que deva ser usada em emergências, não sei porque não usar agora, afinal o próprio Grande Mestre a chamou.

– Se é só pra emergências, então iremos andando. Está um dia lindo.

– Muito bem, se prefere assim… – suspirou, desapontado.

Ying sorriu, à caminho do quarto.

– Não precisa tentar me impressionar, querido irmão. Sabe o quanto te admiro. Bom, não demoro.

Em pouco tempo, eles estavam em frente à Casa do Mestre. Acompanhando o olhar extasiado de Ying, Saga falou:

– É mesmo impressionante, não é?

Soltando o ar devagar, Ying respondeu:

– Realmente não canso de me surpreender com este lugar. É maravilhoso…e é duas vezes maior do que os outros prédios! É quase o dobro do tamanho do Palácio real das Amazonas!

– Este prédio, além de ser a residência do Mestre, é também o Templo de Athena. Mas se você está impressionada com isso, espere só até ver o templo lá atrás. – Saga deu uma rápida olhada para o céu, verificando a posição do sol. – Ainda temos tempo. Por que não vamos até lá?

Deram a volta no prédio e Saga mostrou o que queria:

– Veja.

Bem à frente se erguia uma gigantesca estátua da deusa Athena feita de ouro e marfim imaculadamente branco apesar de parecer ser muito antiga.

– Essa estátua foi esculpida pelo célebre escultor grego Fídias. Foi trazida do Parthenon para cá a muito tempo, pouco antes da invasão do império bizantino e dos cruzados. – explicou Saga. – Está vendo aquela estatueta de uma jovem alada na mão direita? É de ouro maciço e representa Nike, a deusa da Vitória. Diz a lenda que ela estará sempre junto da deusa.

– Acho que me lembro dessa história…Parece que ela pode assumir a forma que quiser, mas estará sempre na mão direita de Athena. E aquele enorme escudo de aço na mão esquerda da estátua?

– Aquele é o Escudo de Athena. Conta-se que pertenceu à própria Athena, a qual o deixou sob nossos cuidados até que ela retornasse.

– O que mais me impressiona é a aura de poder que cerca este lugar… – murmurou Ying, semicerrando os olhos. – É uma sensação tão forte que chega a ser quase tangível.

– Então você também sente… – divagou Saga, com um estranho brilho no olhar. – Sim, é verdade. Pode-se sentir que é algo realmente além da imaginação…– ele sacudiu a cabeça com força, parecendo acordar de um transe. – Precisamos ir agora, querida irmã. O Mestre está nos aguardando.

Saga reconduziu-a até a entrada e juntos eles atravessaram um imenso átrio até chegarem a um grande portão guardado por dois soldados armados com lanças.

– Essa é a Sala do Trono. O Mestre está aí dentro. Agora você deve ir sozinha, Ele deixou bem claro que deseja vê-la sem a presença de mais ninguém para poder conhecê-la e avaliá-la melhor.

Ying assentiu com a cabeça e dirigiu-se para o portão. A atitude de Saga era tão grave e solene que ela não pôde deixar de comparar: Parece um pai zeloso conduzindo sua jovem filha donzela até o altar. – pensou, achando aquela situação extremamente divertida. No entanto, se manteve impassível, afinal, ela não podia negar que também se sentia um tanto ansiosa.

Quando Ying já se preparava para entrar, Saga a deteve, segurando-lhe o braço:

– Espere!

– O que foi?

– Antes que se vá, ouça-me: O Mestre é alguém quase sagrado para nós, afinal, ele é o representante da deusa Athena na Terra. Portanto, eu lhe peço, minha irmã: por favor, trate-o com todo o respeito e deferência devidos a uma pessoa da importância dele.

Num gesto pleno de ternura, Ying acariciou o rosto de seu irmão e com a voz mais suave de que pôde dispor, respondeu:

– Saga, meu irmão, lhe asseguro de que não precisa se preocupar. Sei que algumas vezes tenho um gênio terrível e que, como Amazona, não gosto de receber ordens de um homem, mas… – ela fez uma pausa, sorrindo ao recordar-se do passado. – Bem, realmente a minha reação quando Nevara, a minha primeira mestra, comunicou-me de que um homem iria me orientar dali por diante, não foi das melhores. Entretanto, aquele homem era você, querido irmão, e a partir de nosso treinamento e durante todos esses anos eu amadureci bastante e mudei muito o meu modo de pensar a respeito de muitas coisas. Além disso, apesar de ser uma princesa – ou justamente por causa disso – tive que entender que antes de aprender a comandar o mais importante era aprender a obedecer. Sei qual é o meu papel aqui neste Santuário e pode ter certeza de que saberei como me conduzir. Tem a minha palavra de honra.

Saga aquiesceu e afastou-se para deixá-la passar. Os guardas abriram o portão para que Ying pudesse entrar. Ela ainda hesitou alguns segundos, mas, enchendo-se de coragem entrou, ouvindo, com um ligeiro estremecimento, o portão se fechar às suas costas.

No fundo do enorme salão, sentado no trono, estava o Mestre.

Ele se ergueu quando a viu entrar e Ying pôde observar, a princípio, em razão da distância e da luminosidade difusa do ambiente, que se tratava de um homem de grande estatura usando uma longa túnica branca. Sua cabeça estava guarnecida por uma espécie de elmo semelhante ao que vira na estátua de Athena, entretanto, não conseguia distinguir suas feições, envoltas em sombras. Ele fez um gesto com a mão para que Ying se aproximasse e ela obedeceu. Tentando não parecer indiscreta ou ousada, ela procurou conter sua curiosidade e não encará-lo diretamente. Quando chegou ao pé do trono, curvou-se em reverência, encostando um dos joelhos no chão e abaixando a cabeça e então falou, apresentando-se:

– Mestre, o senhor mandou me chamar e aqui estou. Sou Ying de Gêmeos, irmã do Cavaleiro de Ouro Saga de Gêmeos.

– Sua presença aqui no Santuário tem por objetivo reivindicar igualmente a posição de Cavaleiro de Ouro? – perguntou o Mestre com voz grave.

– Sim, senhor. Está correto. Este é o meu objetivo.

– Erga-se e olhe para mim. A posição de submissão não combina muito com o que seu irmão Saga falou sobre você.

Quando Ying levantou-se e o olhou diretamente não pôde se furtar a um leve movimento de recuo, tal a surpresa: O Mestre tinha o rosto oculto por uma máscara.

Ele percebeu a surpresa de Ying e explicou enquanto retirava a máscara e o elmo:

– Queira me desculpar, minha jovem. Realmente não costumo usar esta máscara quando chamo os Cavaleiros à minha presença, mas queria que você entendesse que eu não deixo de ser o Mestre do Santuário de Athena pelo fato de usar uma máscara, muito pelo contrário, sou reconhecido como tal até mesmo por causa dela.

Ying o observou em silêncio por alguns instantes, ponderando suas palavras. Era assim que, em seus sonhos, ela imaginava que seria o seu pai, a mesma aura de bondade, honra e sabedoria. Sentindo um aperto de saudade. – Como posso sentir saudade por alguém que nem conheci direito? Se nunca em toda a sua história nenhuma Amazona jamais sentiu falta ou soube ao certo o que era um pai?

Ela respondeu:

– Entendo o que está tentando me dizer, senhor. Entretanto, se me permite a ousadia, creio que o Mestre do Santuário e as mulheres-cavaleiro usam máscaras por motivos inteiramente diversos uns dos outros. O senhor usa uma máscara cerimonial, a qual demonstra que é o representante máximo de Athena na Terra; as mulheres, no entanto, são obrigadas a usar máscaras para ocultarem o simples fato de serem mulheres! Com todo o respeito, Santidade, eu não posso aceitar isso!

– Eu concordo com você.

– O quê?! – exclamou Ying, sem poder disfarçar sua perplexidade.

– Sim, é isso mesmo. Eu entendo o seu ponto de vista e o aceito; como eu já disse, até mesmo compactuo com ele. Em minha opinião, para ser um verdadeiro Cavaleiro, é necessário, além de um poderoso cosmo, uma alma justa, um forte espírito de luta e um grande senso de honra. Estes são os principais requisitos para ser um guerreiro de valor, independente do sexo. Entretanto, isso deve ficar entre nós. – disse o Mestre, sorrindo placidamente. – Entenda, Ying de Gêmeos, o uso da máscara pelas mulheres-cavaleiro é um costume, que acabou se tornando uma lei, a qual data das origens deste Santuário. Nem mesmo eu, o Mestre dos Cavaleiros, posso mudá-la de acordo com a minha vontade, pois não fui eu que a criei; pelo menos, não posso fazer isso sozinho. Você compreende?

– Sim, senhor, eu compreendo. – respondeu, baixando a cabeça.

– Sabe o que terá que enfrentar se persistir com a sua obstinação, não sabe?

– Sim, meu irmão já me falou sobre isso. – disse, erguendo o olhar em fogo. – Acredite, senhor, estou disposta a ir até o fim.

– Mesmo consciente de que terá ter que enfrentar em luta mortal um ou mais Cavaleiros de Ouro? – insistiu o Mestre.

– Sim. – respondeu Ying, pensando quantas vezes ainda teria de responder àquela mesma pergunta.

– Muito bem. Se você quer assim, assim será. Mas antes, vejamos se o seu espírito é forte o bastante. – disse o Mestre, aproximando-se dela e encarando-a com um olhar extremamente penetrante.

Sem hesitar, Ying sustentou aquele olhar que parecia transpassar-lhe a própria alma, buscando recantos ocultos em seu ser que nem ela mesma sequer suspeitava que pudessem existir. Ficaram assim por alguns segundos, os quais pareceram a Ying uma eternidade, até que ele se afastou um pouco e suavizando a expressão do rosto, declarou:

– Ying de Gêmeos, seja bem-vinda a este Santuário. Você é a Escolhida, aquela sobre a qual os astros me falaram que antecederia o retorno de Athena. Ouça com atenção: há uma grande força dentro de você e irá precisar de toda ela e muito mais, pois enfrentará desafios que nem em seus sonhos poderia imaginar e sairá muito ferida deles tanto em seu corpo quanto em sua alma. Entretanto, não deve se deixar abater, pois acredite: você jamais estará sozinha.

Ying o ouvia com os olhos arregalados de surpresa e não pôde deixar de perguntar:

– Mestre, estranhas são as palavras que me chegam aos ouvidos. O que quer dizer com ser a escolhida e a quais desafios se refere? Serão as lutas com os Cavaleiros de Ouro por causa da máscara?

– Essas serão apenas um pequeno teste. A verdadeira luta virá depois.

– Ainda não entendo, senhor.

– Você entenderá no momento oportuno. Apenas não se esqueça do que eu lhe disse e não comente com ninguém, nem mesmo com seu irmão. – ele virou as costas para sair, mas antes concluiu: – O Conselho se reunirá daqui a duas semanas, como já deve saber. Até lá descanse bastante e conheça o Santuário. É só.

No entanto acrescentou telepaticamente antes de se voltar para sair.

Ah, antes que me esqueça! Você ficou muito bem com a armadura que eu e seu pai fizemos para você. Ele ficaria orgulhoso de vê-la aqui nesse momento ainda mais vendo a extraordinária mulher que se tornou. – e retirou-se.

– Mas, Mestre, espere! Eu… – chamou Ying, mas era inútil. – Não adianta. Já se foi. Ele falou sobre meu pai… Nem tive tempo de perguntar sobre seu paradeiro, mas provavelmente ele não me diria mesmo… Mas, afinal, que significará essa história de Escolhida? E por que não posso contar isso nem mesmo para meu irmão? Nunca tivemos segredos um para o outro…

Ying permaneceu no salão cismando por mais alguns minutos ainda, até que se lembrou de que Saga deveria estar ansioso, esperando por ela do lado de fora.

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”

  • Isa Miranda

    Show Dea … Curti, aguardando o que vai rolar da Ying nessa treta ai rs
    Gostei da música ^^

    • Andrea Bertoldo

      Vlw,Isa!^^ Já vai ter uma treta no próximo capítulo, mas não diretamente con ela…Aguarde.^^
      A música é linda,ne? “The Chosen ones”, acho que o grupo se chama EvilDream. Foi um achado e tanto.Ela não mecsai da cabeça agora.kkk