Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 2

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 2

O Chamado

De repente, três leves batidas na porta de seu quarto trouxeram-na de volta à realidade. Pela posição do sol, que começava a invadir todo o aposento, deveriam ser suas servas que vinham para vesti-la e penteá-la. Detestava esse antigo privilégio dos membros da família real, tanto que, muitas vezes, chegava a levantar-se antes do nascer do sol somente para poder se arrumar sozinha, como gostava. No entanto, logo em seguida, arrependia-se de ter feito isso ao ver a expressão de decepção nos rostos delas, especialmente no da mais velha, Leda, a governanta, que fora sua babá. Ela sempre costumava dizer, à guisa de explicação, que mesmo entre as Amazonas, consideradas como as mulheres mais formosas do mundo, jamais havia visto alguém tão bela quanto Ying. Ela, então, protestava dizendo que eram apenas seus cabelos negros, sua pele trigueira e seus olhos azuis-escuros, ligeiramente amendoados, herança de seu pai, que lhe davam uma aparência exótica, contrastando com os cabelos louros ou ruivos, a pele alva e os grandes olhos claros das outras Amazonas. Leda, com um sorriso complacente, respondia que, fosse como fosse, não havia mal em lhe dar o prazer de tentar deixá-la ainda mais bonita. Afinal, como ela sempre dizia, para elas isso era muito mais do que um dever. E era sempre assim, para cada argumento que ela lançasse, Leda tinha um contra-argumento e Ying acabava resignando-se e deixando que elas fizessem o que bem entendessem.

Leda

– Bem, não adianta fugir. – disse Ying com um suspiro e as mandou entrar e deixar que cumprissem sua obrigação.

Muitas vezes, enquanto elas penteavam e trançavam seus cabelos, Ying sentia sua mente mergulhar em uma espécie de transe, como se estivesse a milhares de quilômetros dali. E dessa vez não foi diferente, mas, no entanto, enquanto seus pensamentos vagavam por regiões desconhecidas, de repente, começou a ouvir uma voz distante mas familiar a chamar insistentemente o seu nome.

Ying…Ying…

Parece que alguém está tentando se comunicar diretamente com a minha mente, mas quem será? – pensou Ying, intrigada.

E a voz continuava:

Ying, Ying! Está me ouvindo?

Então ela se lembrou a quem pertencia aquela voz e respondeu:

Saga, meu irmão! É você mesmo?

Sim, sou eu. Você pode falar agora?

Espere um pouco. – pediu Ying e, dirigindo-se em voz alta às suas servas, ela disse: – Leda, por favor, saia e leve as suas companheiras. Preciso ficar só.

Surpresa com tal pedido, Leda protestou:

– Mas, Alteza, ainda não terminamos seu penteado.

– É só por um minuto, eu prometo. Por favor, Leda, faça o que eu pedi.

Um tanto amuada, ela obedeceu. Quando se viu sozinha, Ying sentou-se na posição de lótus e concentrou-se novamente, fazendo brilhar o seu cosmo:

Saga… Saga, você ainda está aí? Responda!

Sim, estou aqui, minha irmã. Ouça com atenção o que tenho a lhe dizer, pois é de extrema importância. O momento pelo qual nós dois ansiávamos há tanto tempo finalmente chegou. Eu já falei com o Mestre, ele quer vê-la o quanto antes.

O que disse? Você… Você quer dizer que… Então, eu já sou um Cavaleiro de Ouro? – conseguiu dizer Ying, ainda surpresa pelo que acabara de ouvir.

Será assim que obtiver sua armadura e conseguir superar alguns testes a que o Mestre irá submetê-la, mas estou certo de que não encontrará problemas. Eu confio em você, afinal, eu mesmo a treinei e conheço as suas habilidades e a força do seu cosmo.

Não o decepcionarei, Saga. Pode estar certo disso. Irei para o Santuário assim que puder. Nos veremos em breve, querido irmão, e ficaremos juntos para sempre em honra da deusa Athena, como nossos pais sonharam. – disse Ying, desta vez com voz firme.

Estarei esperando ansiosamente. Até breve, Ying. Por favor, não se demore. – despediu-se Saga.

Ainda ponderando se o que acabara de se passar fora real ou apenas um outro sonho, ela mandou que as servas retornassem para acabar de arrumá-la.

Quando, dando por finda a sua tarefa, elas se preparavam para se retirar, Ying as deteve:

– Esperem! Preciso lhes dizer algo.

– Sua Alteza deseja mais alguma coisa de nós? – perguntou Leda, solícita.

__ Na verdade, não, Leda. Desejo apenas comunicar a todas vocês que, de amanhã em diante, vocês estarão liberadas de sua obrigação diária de cuidar da minha pessoa.

Foi como se um raio as tivesse atingido naquele momento. Ainda aturdida pela surpresa, Leda forçou-se a dizer:

– O que está dizendo, princesa? Não precisaremos mais… Não, isso não é possível! Alteza… – disse Leda, ajoelhando-se aos pés de Ying. – Acaso fizemos algo que a desagradou? Se for isso, é só dizer o que foi que tomarei providências imediatas para remediar a situação. – disse a governanta, lançando um olhar ameaçador para as outras, que recuaram assustadas.

– Absolutamente! Não se trata disso, minha querida Leda. – disse Ying, erguendo-a com delicadeza. – Se lhes digo que estão liberadas dessa obrigação, isso não significa que esteja insatisfeita com os serviços de vocês, muito ao contrário, vocês sempre foram perfeitas. Perfeitas demais. – disse Ying, para si mesma, lembrando-se que nunca lhe agradou muito a ideia de ser vestida e penteada por outras pessoas como se fosse uma simples boneca.

– Mas, então…

– Vocês não precisarão cuidar de mim, porque eu não estarei mais aqui para que possam fazê-lo. Ainda esta noite deixarei o Vale das Amazonas.

– Deixar o Vale?! Mas, Alteza, eu não entendo… Por que?

– Porque chegou o momento de partir em busca do meu próprio destino, Leda, e ele não se encontra aqui, todos sabem disso.

– Sim, eu sei. Mas continuo a não entender e a não gostar nada disso, se me permite dizer, Alteza.

– Minha querida Leda… – disse Ying, pacientemente, acariciando os cabelos brancos da velha governanta como quem consolasse a uma criança. – Não se preocupe comigo, eu prometo a você que ficarei bem e serei feliz e quanto a você, ainda poderá cuidar de minha irmã e das filhas que ela um dia terá.

– Sei disso, mas você sempre foi a minha criança, o meu pequeno cisne… será difícil me acostumar com a sua ausência… – disse Leda, sem conseguir conter mais as lágrimas.

A menção da palavra cisne a perturbou trazendo a lembrança daquele sonho que a perseguia, mas foi só por um momento. Afastando aquele pensamento incômodo, Ying sorriu, e procurando dar um tom jovial à sua voz, disse:

– Tenho a certeza de que vocês todas se acostumarão, e além disso, eu voltarei algum dia, eu prometo. Bem, isso é tudo. Por favor, Leda, peça que avisem a minha irmã que irei vê-la assim que voltar do campo de treinamento.

Com uma profunda reverência, Leda e suas ajudantes se retiraram. Sozinha, Ying pensou:

Pobres mulheres. Elas me fazem lembrar o que Nevara me contou sobre as Danaides1. Após tantos anos tendo que encher de água um enorme tonel sem fundo, as 50 filhas de Danao, quando foram liberadas do castigo não sabiam o que fazer com a própria liberdade. Bem, assim como as Danaides, Leda e suas companheiras terão de aprender agora a lidar com uma nova realidade e eu também… Ela, então, lançou um longo olhar sobre aquele quarto que fora o seu refúgio desde que nascera e que, talvez, não tornasse a ver por muito tempo e saiu rumo ao campo de treinos.

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Saga de Gêmeos

Saga despertou do transe com um brilho intenso no olhar. Finalmente. Ela se juntaria a ele. A Casa de Gêmeos teria dois guardiões como deveria ser…

Levantando-se, olhou em volta o imenso salão rodeado de colunas de mármore branco, a expressão endurecendo de repente.

Só espero que Ele não atrapalhe…Criatura irresponsável e instável…Como contarei a ela?

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Creio que tenho boas notícias, meu senhor. Nossa tão ansiada princesa amazona está à caminho.

Tens certeza disso?

Saga está tão eufórico que não resguardou sua mente o suficiente para me barrar dessa vez…Tenho certeza absoluta.

Uma risada triunfante se fez ouvir.

Continua…

1Danaides: As 50 filhas de Danao, Príncipe egípcio, irmã gêmeo do rei Egipto. Foram condenadas por Zeus (com exceção de uma) ao Tártarus por assassinarem os maridos a mando do pai. Sua pena seria encher de água um tonel sem fundo até o fim dos tempos. Em uma das inúmeras versões, após milênios, o castigo teria chegado ao fim. N.A

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”

  • Isa Miranda

    Show Dea …. Amando ^^

    • Andrea Bertoldo

      Que bom, Isa! Vai amar ainda mais o terceiro capítulo, então! Sabe por que? Treeetaaaa!!!kkkkkk XD!