Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 17 – Primeira Luta : O Desafio da Ira

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 17 – Primeira Luta : O Desafio da Ira

Para a surpresa de Ying, a parede por trás do trono do Mestre havia sido removida, como se uma grande cortina houvesse sido puxada, dando visão a uma grande área livre sob os olhares vigilantes da grande estátua da deusa.

Ela e o Cavaleiro de Câncer fizeram uma reverência respeitosa para o Mestre e, em seguida, um para o outro. Com uma expressão claramente maliciosa, Máscara da Morte fez outra reverência para Ying indicando que ela passasse à sua frente.

– E você acha que vou dar às costas para você, Cavaleiro indigno? Não sou a tola que pensa! Iremos juntos e nada de truques!

Máscara da Morte deu outra risada e eles se encaminharam para a arena sem tirarem os olhos um do outro.

Ao chegarem à arena, no entanto, Ying teve sua atenção desviada momentaneamente para a grande estátua da deusa que a tudo parecia observar com olhos vigilantes. Um profundo arrepio na espinha a despertou para o perigo.

Máscara da Morte! Onde ele está?! – pensou ela, alarmada, olhando em volta.

– Ying!!! – soaram as vozes desesperadas de Saga e Ayoros ao mesmo tempo.

Não houve tempo para mais nada. Vindo aparentemente do nada, o Cavaleiro de Câncer saltou sobre a Amazona, atingindo-a com um violento chute em pleno peito, lançando-a, atordoada, à uma boa distância contra uma das colunas.

– Tsc, tsc, tsc… – fez Máscara da Morte, enquanto ria desdenhosamente. – Ora, cara Princesa Amazona, eu pensei que a nossa luta seria mais interessante! Não pensei que a derrotaria tão facilmente. Então é assim que se defendem as legendárias guerreiras?

Ying levantou-se lentamente com um brilho de ódio nos belos olhos azuis. Sua armadura dourada amortecera o golpe em seu corpo, mas não em seu orgulho. Como pudera se distrair tão facilmente? – pensou ela. – Era melhor começar a seguir os conselhos de Denora ou iria acabar se dando muito mal e todos os seus sonhos e a honra de seu povo e sua família seriam destruídos.

– E é assim que luta um Cavaleiro de Ouro? – perguntou Ying, cheia de desprezo. – Tenho certeza de que seus outros colegas tem vergonha de seu procedimento. Atacando assim à traição? Pois bem, vamos ver agora como você se defende!

Dito isto, Ying deu um salto formidável, atacando Máscara da Morte com incrível ferocidade e perícia. Eles passaram então a uma série de golpes e contragolpes, numa emocionante luta corpo a corpo, na qual nenhum dos dois parecia levar uma franca vantagem. Aquilo pareceu levar um tempo interminável, embora não tivessem se passado mais do que alguns minutos.

– Isto não está levando a lugar algum. – disse Máscara da Morte, aparentemente entediado. – Tenho que admitir que você é uma adversária de peso, garota, mas será que consegue me superar em uma batalha de verdade? Que tal se usarmos agora a nossa cosmoenergia?

– Eu concordo. Pode vir quando quiser, Cavaleiro de Câncer! – anunciou ela, acendendo seu cosmo.

– Você é quem pediu. – Ele deu um sorriso feroz.

Para o espanto de Ying, Máscara da Morte começou a correr em círculos em volta dela numa velocidade vertiginosa.

– Você ficou louco, Cavaleiro? Que brincadeira é essa?! – bradou Ying, tentando se manter atenta em sua defesa.

– Eu vou te mostrar. – respondeu ele. – Garras Assassinas!!

– Hein?!! – exclamou Ying, perplexa com as dezenas de garras feitas de energia pura que voaram em sua direção.

Ela pulou para o alto, sua única saída, esquivando-se das terríveis tenazes energéticas, mas uma delas conseguiu prendê-la pela cintura.

– Ying!! – gritou Saga, sentindo em si mesmo a dor de sua irmã gêmea. – Liberte-se desse abraço agora ou ele a matará! Não desista!

Ayoros a observava, pálido e mudo como uma estátua, mas não se mantinha impassível como poderia aparentar; pelo contrário, sua mente acabara de se fundir com a de Ying participando junto com ela daquele momento crucial do combate.

Ying lutava freneticamente para se soltar. Raiva e desespero se misturavam em seus pensamentos, mas uma determinação maior do que tudo não a deixava desistir. Sentiu que algo novo dentro de si lhe dava forças para continuar e lhe apontava um caminho. Surpresa, ela olhou rapidamente para o Cavaleiro de Sagitário e depois, com um sorriso feroz e vitorioso, para seu adversário. Já sabia o que fazer.

– Estrela de Fogo!! – ela gritou e tudo desapareceu num turbilhão de chamas devoradoras e selvagens, tendo ela ao centro como uma deusa vingadora.

Saga estava perplexo com o cosmo extraordinário de sua irmã naquela manobra inesperada.

– Que golpe é esse?! Não me lembro de ter lhe ensinado essa técnica!

– Ora, meu caro amigo! Parece que Ying resolveu voar com as próprias asas… – ponderou Mu, dando um sorriso enigmático. – ou quase. – acrescentou, olhando de soslaio para Ayoros.

– Consegui!! – Ying gritou, vitoriosa. – Acabei com a empáfia daquele cavaleiro das trevas! E agora, Cavaleiros de Ouro? Mereço lutar de igual pra igual, sem precisar usar uma máscara?

Uma risada sinistra então soou às suas costas, gelando-lhe a espinha.

– Olhe de novo, orgulhosa Amazona!

Lá estava o Cavaleiro de Câncer, vivo e inteiro, apenas ligeiramente chamuscado, e parecendo mais presunçoso e irônico do que nunca.

– Achou que fosse tão fácil me derrotar, garota? Bem, essa brincadeira já está me cansando. Vejo que tem suas armas e um cosmo razoável, mas chega de truques de salão. Chegou a hora do tudo ou nada. Afinal – ele fez uma pausa, dando um sorriso sombrio. – A Morte não pode tirar folga. A sua hora chegou!

– Isso veremos, Máscara da Morte. Mas não creio que seja meu destino morrer agora e muitos menos em suas mãos. – disse Ying com voz firme, enquanto um ligeiro estremecimento lhe percorria o corpo da cabeça aos pés, como um pressentimento de mau agouro. – Por que não deixa de se gabar e usa logo seu golpe mais forte?

– Já que quer assim… – ele sorriu. – Está certo! Vou te mandar para o Outro Mundo com o meu golpe mais poderoso! – anunciou ele, enquanto uma terrível e sombria cosmoenergia se condensava em torno e acima dele, formando um imenso buraco negro. – Ninguém nunca escapou do meu Sekishiki! Faça uma boa viagem, minha bela!

Uma incrivelmente forte e irresistível onda de sucção envolveu a Amazona atraindo-a lenta e inexoravelmente para o abismo negro à sua frente, debalde seus esforços.

Mu não estava brincando quando falou do terrível poder desse Cavaleiro! Não consigo escapar dessa atração!! – pensou Ying, lutando com todas as suas forças. – Aaahh!!! – gritou ela, perdendo seu ponto de apoio.

– Nãaaoo!!! – gritou Ayoros, levantando-se, muito pálido.

– Ying!! – gritou Saga, desesperado, vendo a irmã ser sugada e desaparecer no buraco negro.

Ah, ah, ah, ah, ah!!! – Máscara da Morte deu outra gargalhada. – Parece que sua pupila morreu pela boca, meu caro Gêmeos. Sinto muito, mas todos viram; eu apenas atendi o pedido de uma dama! – e olhando, de modo cruel e irônico para o Cavaleiro de Sagitário: – Desculpe se frustei suas pretensões com ela, meu caro Ayoros, mas infelizmente, para você e os outros Cavaleiros, era minha a prioridade; embora eu acredite que suas pretensões nada tenham a ver com um combate, pelo menos não como o que acabou de ser travado aqui, se é que me entendem…

Ayoros se ergueu novamente, rubro de cólera desta vez, mas foi detido discretamente por Shaka de Virgem.

– De fato, ela foi imprudente em provocar o seu golpe mais forte, Máscara da Morte. Entretanto, devo ressaltar que houve muita coragem e perspicácia nesse ato e talvez devesse tomar mais cuidado e não cantar vitória antes do tempo.

– Ora, Shaka! Afinal, do que está falando?!

Antes que Shaka respondesse, uma voz vinda de cima soou, alta e clara:

– Ele tem razão, Cavaleiro de Câncer! Não deveria ser tão precipitado em proclamar sua vitória. Agora é a minha vez de dizer: Olhe de novo, orgulhoso Cavaleiro!

Todos olharam, surpresos, na direção de onde vinha a voz de Ying e a viram, orgulhosa e altaneira na mão direita da estátua de Athena, com a capa enfunada e tremulando ao vento e a armadura e o capacete alado brilhando à luz do luar, como se estivesse sob o sol do meio-dia. A própria imagem viva da deusa da Vitória! – pensaram muitos dos Cavaleiros, inclusive o Mestre.

– Devo admitir que foi temerário de minha parte arriscar a vida dessa maneira, mas se não fizesse isso como iria tomar conhecimento da real força de meu adversário? A história prova que não fui a única a tentar algo assim. Agora sei como devo armar meu contra-ataque e em que medida. Venha e tente de novo, Máscara da Morte, se tiver coragem para isso! Vamos ver quem sairá vencedor!

– Humpf! – bufou Máscara da Morte. – Como toda mulher você fala demais! Desta vez não escapará da força do meu cosmo! Não poderá retornar jamais do Reino dos Mortos, Amazona!! – gritou ele, furioso, reunindo toda a sua cosmoenergia e reabrindo o buraco negro, que desta vez parecia ainda maior e com força de atração multiplicada.

 O cosmo de Ying também brilhou, ofuscante e ela gritou:

– Golpe da Dimensão Espelho!!!

Um enorme buraco se abriu atrás e acima de Ying também, só que este parecia feito de pura luz. Sua força de atração também era tremenda e ao se encontrar com a do buraco negro do Cavaleiro de Câncer provocou uma grande explosão como se fosse um encontro de matéria e antimatéria, cegando a todos por alguns segundos.

Quando tudo serenou, somente Ying estava na arena, não havendo um vestígio sequer do cosmo de Máscara da Morte e muito menos do próprio Cavaleiro de Câncer.

– Ying de Gêmeos, o que houve com seu adversário? – perguntou o Mestre do Santuário.

– Como já havia dito, eu o induzi a usar seu golpe mais forte para assim poder ter uma idéia de seu verdadeiro poder. Feito isso, tudo o que precisei fazer foi virar a própria força contra ele. – ela sorriu. – Ora, eu e Saga somos os senhores das dimensões! Ele jamais iria conseguir me mandar para um lugar de onde eu não pudesse voltar! Já não posso dizer o mesmo dele…

– O que quer dizer?

– Que o meu golpe o mandou para onde ele queria me enviar, ou quase, pois do Reino dos Mortos ele conseguiria voltar, uma vez que conhece bem o caminho.

– Então onde ele está?

– Em uma espécie de dimensão-presídio da qual ele só conseguirá sair quando se arrepender de seus crimes.

Ela então assumiu uma expressão contrita e se ajoelhou diante do Mestre dos Cavaleiros, dizendo:

– Senhor, me perdoe se passei por cima de sua autoridade. Sei que não cabia a mim castigá-lo, mas não consegui ficar braços cruzados diante de alguém que para mim representava uma vergonha para os Cavaleiros de Athena.

– Algumas vezes deixo que a própria vida castigue Cavaleiros do tipo de Máscara da Morte, para que assim os outros vejam o que acontece com quem não luta do lado da Justiça. Parece que dessa vez você foi o instrumento. Esperemos que ele aproveite bem a sua pausa para reflexão. – disse o Mestre, pondo a mão em seu ombro e a ajudando a se erguer. – A sua luta foi honesta e o resultado justo. Declaro-a vencedora do primeiro desafio, sem direito à contestação. – concluiu, olhando na direção de Afrodite que fazia menção de protestar.

Visivelmente contrariado, o Cavaleiro de Peixes tornou a se sentar.

Continua…

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”

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