Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 16 – O Conselho

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 16 – O Conselho

Saga não estranhou quando viu sua irmã passar por ele como um cometa e trancar-se no quarto. Na verdade, já esperava por algo assim.

Certamente, ele deve ter se declarado… – pensou Saga, ocultando um sorriso. – Bem, parece que as coisas não correram muito bem. Pobre Ayoros! Tomara que ainda esteja inteiro. Uma Amazona sabe ser muito violenta quando quer.

No entanto, Ying também não parecia ter saído ilesa desse encontro. Preocupado, ele foi até a porta e bateu, chamando por ela. Nenhuma resposta. Suspirando, Saga resolveu procurá-la mais tarde, permitindo que ela ficasse a sós com seus pensamentos.

Outra coisa também o preocupava: a estranha perturbação que sentira um pouco antes que sua irmã chegasse. Parecia ter vindo da aldeia e era uma coisa tão forte que tinha a certeza que devia ter sido sentida por todos os Cavaleiros do Santuário. O que teria acontecido? Tinha uma terrível suspeita, mas não queria acreditar. Pensou que Ying poderia esclarecê-lo, mas parecia que não conseguiria nada de sua parte no momento.

Resolveu sair para investigar, coisa que deveria ter feito, dizia para si mesmo, assim que tudo começara, mas como sabia da presença de dois Cavaleiros de Ouro no local, achara desnecessário, ficando apenas de prontidão.

Indagando aqui e ali, Saga conversou com alguns guardas e aprendizes que nada sabiam, até que um grupo de soldados vindos da fronteira do Santuário lhe contou o insólito episódio do touro furioso que tanto rebuliço causara na aldeia. Saga ficou intrigado: e a estranha e poderosa cosmoenergia que sentira? Eles lhe contaram tudo o que sabiam e Saga, empalidecendo conforme ouvia os detalhes, agradeceu distraído ao fim da narrativa, despedindo-os.

Estava pensando em ir até Sagitário falar com Ayoros, mas creio que não é mais necessário. – pensou Saga, sombrio. – Com certeza esse estranho poder que se apossou daquele animal tem algo a ver com Kannon…ou pior! Como ele se atreveu a ferir Ying?! Por que tentou matar a filha do chefe da aldeia? Isso não faz sentido!! – ele cerrou os punhos, furioso. – Kannon já está passando dos limites e não vou perdoálo! Quando o encontrar ele terá o castigo que merece sendo ou não meu irmão! – e saiu apressado e nervoso à procura dele.

**************

Perto dali, Kannon observava a tudo oculto por sua cosmoenergia, nem mesmo Saga percebeu que seu irmão estava ali, quase a seu lado.

Como de costume, sua expressão era de escárnio; ele parecia se divertir com a irritação de Saga e com o fato do irmão não conseguir vê-lo apesar de todo o seu poder. No entanto, na verdade Kannon estava profundamente contrariado por não ter conseguido realizar seu intento de impedir o novo advento de Athena. Seria muito mais fácil fazer isso enquanto ela ainda fosse apenas um feto e seus poderes e consciência estivessem embotados pelo processo de reencarnação em andamento. Ares1 não estava satisfeito; podia sentir isso clara e dolorosamente em seu corpo, dominado pelo deus desde antes do seu nascimento.

Por que aquela intrometida da minha irmã e seu amante tinham que se envolver nisso? – ele pensava, irritado.

Bem que eu pressentia que eles podiam atrapalhar, mas isso não vai ficar assim!! Eles podem ter me derrotado dessa vez… – Agora era Ares que falava dentro dele. – Mas não importa se Nike2, a queridinha de Athena e seu favorito, Sagitário estão aqui para protegê-la. Ainda falta muito tempo para ela veja a luz neste mundo e mesmo depois…Afinal, todos sabemos que a vida de um bebê é muito frágil… – ele sorriu maldosamente. – Se Ying e Ayoros se colocarem novamente no meu caminho serão esmagados também e finalmente, como deveria ser, a Terra será toda minha… – pensou, concluindo com uma gargalhada longa e selvagem que reverberou por todo o Santuário, como um eco sinistro, apesar não poder ser realmente ouvida como tal. Entretanto, mesmo o mais ignorante e insensível dos guardas não pôde se furtar a um arrepio involuntário naquele momento.

********

Ying já havia recuperado seu autocontrole quando Saga voltou, já bem tarde da noite da sua busca infrutífera por Kannon. Uma grande excitação tomava conta da jovem guerreira, fazendo com que deixasse de lado, ao menos por enquanto, o que acontecera naquele dia conturbado. Ela não cabia em si de impaciência para dividir com o irmão que acabara de tomar conhecimento .

– Saga! Até que enfim! Onde esteve até agora? Já estava ficando preocupada!

Ele respondeu um tanto amuado:

– Eu também gostaria de lhe ter feito essa mesma pergunta quando você irrompeu como uma Fúria3 por este salão esta tarde, sem sequer falar comigo. Mas não se preocupe em me contar agora. – disse ele bruscamente, quando a viu abrir a boca. – Vejo que está bem e já soube de tudo o que sucedeu, indo então investigar a causa da misteriosa e poderosa ira que tomou conta daquele touro premiado.

– Descobriu alguma coisa? – perguntou ela, interessada.

– Infelizmente nada. Seja lá o que tenha sido, desapareceu sem deixar vestígios… – respondeu Saga, um tanto vago. Tentando habilmente desviar o assunto, perguntou rapidamente: – Mas o que há com você agora, minha irmã? Por que está tão agitada? Será que aconteceu mais alguma coisa neste outrora tranquilo Santuário?

– Aconteceu sim. Enquanto você estava fora, esteve aqui um mensageiro do Mestre…

– Você não está querendo me dizer…

– Exatamente. – ela sorriu, lendo os pensamentos do irmão. – É sobre o Conselho. O mensageiro disse que em virtude da chegada antecipada dos Cavaleiros de Ouro ausentes, o Conselho se realizará na próxima lua cheia, ou seja, daqui a dois dias.

– Já?!! – exclamou Saga, boquiaberto.

– Também estranhei essa súbita antecipação e perguntei se tinha algo a ver com os acontecimentos dessa tarde. Ele disse que o Mestre estava a par de tudo e sabia que eu perguntaria isso e que a resposta era que não e se retirou. Se quer saber, não fiquei muito convencida.

– Não devemos contestar as decisões do Mestre. Se ele está a par de tudo, com certeza saberá o que fazer e nos comunicará no devido tempo. Mais alguma coisa?

– Sim, ele disse que devo ir para o Templo de Athena ao amanhecer e ficar lá até a hora do Conselho para me concentrar e preparar para um possível confronto.

– Eu já esperava por isso. – Saga suspirou. – Esperava, no entanto, ter mais tempo para conversarmos e para poder prepará-la para esse momento tão importante.

Ying segurou as mãos do irmão com carinho.

– Não se preocupe comigo. Você vem me preparando para isso desde que nos encontramos pela primeira vez, lembra-se? – disse ela ternamente olhando-o com intensa emoção. – Tudo o que eu sei quanto a como ser um Cavaleiro devo a você que foi um mestre maravilhoso, apesar de muito exigente. – ela acrescentou rapidamente, com uma piscadela divertida. – Nosso pai teria orgulho de você e eu prometo que farei com que se orgulhem de mim também. – concluiu ela, séria.

Saga a abraçou, emocionado.

– Já tenho orgulho de você, minha querida. Tenho certeza de que se sairá muito bem em sua Investidura. – ele a afastou um pouco para olhá-la nos olhos. – Entretanto, não posso evitar temer qu a machuquem. Gostaria de poder lutar a seu lado…

Ela sorriu.

– Você estará a meu lado, irmão…E não fale como se eu estivesse indo combater numa guerra. Eles não são inimigos, são apenas pessoas que estarão defendendo o seu ponto de vista, assim como eu.

– E isso não acontece também em uma guerra? – ele replicou. – Podem ser Cavaleiros como nós, mas estarão no campo oposto dessa vez, não se esqueça disso!

Ying suspirou, exasperada.

– Eu sei. Estou ciente de todos os riscos, mais do que ciente. Minha tia Penélope já me avisou, minha irmã Hipólita também, você, Mu, Aldebaran, o Mestre e até a líder das amazonas daqui, Denora de Ophiucos…Acho que se alguém mais me alertar sobre os perigos que enfrentarei vou explodir!

– É bom mesmo que esteja ciente de tudo. Não deve se exaltar por isso. Guarde toda sua energia para o Grande Dia.

– Está certo. Você, como sempre, tem razão. – ela olhou para um brilho avermelhado que aumentava gradativamente do lado de fora. – Bem, está na hora. Preciso ir para o Templo. Deseje-me sorte.

– Que Athena a acompanhe e lhe empreste Sua força e sabedoria, minha irmã. – disse Saga, tornando a abraçá-la.

Com relutância, eles se separaram e Ying tomou o rumo do Templo de Athena.

********

Faltavam apenas algumas horas para o Conselho e Ying lutava contra a ansiedade que ameaçava tomar conta dela. Será que estaria mesmo preparada agora que tudo para o qual vinha se preparando há anos iria se concretizar? Será que conseguiria corresponder às suas expectativas e as de todos os que torciam por ela?

Sabia que todas essas incertezas não iriam ajudar em nada, por isso tratou de aquietar seu espírito através de alguns exercícios de respiração. Inspirando e lentamente, soltando o ar várias vezes enquanto esvaziava a mente de pensamentos inquietantes, após alguns minutos já se sentia bem mais tranquila.

Lembrou-se de quando chegara àquele templo no dia anterior: como lhe fora recomendado, não envergava sua armadura dourada, a qual carregava às costas em seu respectivo cofre. Trajava simplesmente uma túnica branca longa sem enfeites, seus longos cabelos negros caíam soltos pelos ombros até a cintura e seus pés calçavam sandálias de couro cru. O Mestre a recebera solenemente, como exigiam as circunstâncias e a encaminhara até a câmara onde havia uma estátua de Athena de ouro maciço, réplica fiel da imensa estátua do exterior do Templo, a qual, com incrível vivacidade, parecia observá-la, avaliando-a.

 

Lá, livre de olhares curiosos, surpreendentemente, o Mestre retirara a máscara cerimonial e Ying pôde observar que ele a fitava com infinita ternura, como um pai que recebesse a filha bem amada há muito afastada e não pôde deixar de se comover e se perguntar o porquê daquela atitude.

Ele deve ser muito solitário, aqui isolado e reverenciado como um deus…E é o que ele parece; nunca senti antes uma aura tão pura e cheia de santidade como a dele…É como se ao lado dele nada de mal pudesse acontecer…” – pensou Ying, fascinada.

– Finalmente se aproxima o momento pelo qual tem se preparado há tanto tempo, criança. Posso sentir a determinação em seu olhar, mas mesmo assim é meu dever perguntar: é esse realmente o seu desejo? Digo, seu de coração, ou apenas quer satisfazer as expectativas das pessoas que a amam e esperam isso de você? Pense bem antes de responder.

Ying estremeceu levemente, sua irmã já lhe fizera essa mesma pergunta, mas não dessa maneira. Ouvira falar do Santuário desde que nascera e ainda mais depois que ela e Saga se reencontraram e começara seu treinamento para Cavaleiro. Era difícil separar o que era seu desejo de fato, embora Hipólita lhe tivesse dado a oportunidade de permanecer entre seu povo. No entanto, não conseguia se imaginar como outra coisa; ser um Cavaleiro de Athena era o seu destino e seu desejo, nunca tivera tanta certeza disso como naquele momento e foi com firmeza que respondeu ao Mestre:

– Nasci uma Amazona, pertenço à família real e poderia ter permanecido apenas como tal. Entretanto, tive a oportunidade de seguir um outro caminho e o segui. Não pretendo voltar atrás e não me arrependo de minha escolha. Eu sou o que sou: um Cavaleiro à serviço da deusa Athena, se ela assim me aceitar.

O mestre balançou a cabeça, satisfeito com a resposta.

– Que assim seja. Tenho certeza, mais do que imagina, de que a deusa já aprovou a sua escolha. – com um gesto ele indicou a um canto um leito simples e uma mesa com uma frugal refeição de frutas, legumes, leite e mel. – Aqui tem tudo o que precisará durante esses dois dias. Qualquer coisa a mais que desejar, peça e atenderemos na medida do possível. – antes de sair, ele acrescentara: – Reflita bastante sobre o seu destino e por que o escolheu. Isso é muito importante, minha jovem; se está tão certa do que quer ser, então deve saber o real motivo dessa escolha. Mas não precisa dizer nada para mim. – disse o Mestre vendo que ela abria a boca para falar. – Isso é apenas entre você e Athena. Converse com ela. Athena a orientará sobre como proceder nos desafios que terá de enfrentar.

Ele então se despedira, colocando a mão sobre sua cabeça num gesto de benção e se retirando em seguida.

Ying ficara olhando para a porta por onde ele desaparecera e em seguida voltara-se para a estátua de Athena, aos pés da qual depositou o cofre contendo sua armadura sagrada. Ajoelhando-se, ela esperou que a deusa se manifestasse de alguma maneira, mas durante muito tempo nada aconteceu.

Cansada, ela se levantou e aproximou-se da mesa disposta a comer alguma coisa antes de continuar sua meditação. A comida que lhe fora destinada, embora simples, estava mais saborosa do que podia esperar e ela comeu com apetite. Após se saciar, resolveu dormir um pouco para se refazer da noite anterior passada insone.

Deitando-se, reparou que o leito permitia que ela fitasse diretamente o rosto da estátua e foi observando e sendo observada pela estátua de Athena que Ying, seu pensamento imperceptivelmente percorrendo os acontecimentos de sua vida como Amazona e o que acontecera desde sua chegada ao Santuário, resvalou para o sono.

Em certo momento, quando seu espírito vagava pelas estranhas regiões do sonho e, como em geral acontece, ela não tinha certeza se estava dormindo ou acordada, deparou-se com a surpreendente visão da deusa Athena, a mesma que tivera no dia anterior quando socorrera aquela moça da aldeia.

A deusa lhe sorria e tudo na sua fisionomia e em sua aura irradiava uma grande paz. Era uma sensação verdadeiramente inebriante e Ying caiu de joelhos, fascinada. A visão se aproximou dela e olhando-a fixamente, agora séria e solene, lhe fez a pergunta que o Mestre havia mencionado: independente de qualquer influência ou motivação de menor importância, por que ela havia escolhido ser um Cavaleiro de Athena?

Ying pensou longamente e em sua mente vinham sucessivamente imagens de sua pátria, suas amigas de infância como Hermíone, Mariska e outras que considerava como irmãs, suas cadetes, as crianças e a miséria e opressão que vira muitas vezes em suas incursões pelo mundo exterior, os novos amigos que fizera no Santuário, os habitantes da aldeia que visitara com Ayoros…Ayoros, a simples lembrança dele lhe acelerava as batidas do coração e a dedicação e altruísmo que se lia em seus olhos e em seu cosmo eram realmente inspiradoras. Era como se ele fosse capaz de amar a humanidade inteira e fazer qualquer coisa para protegê-la e agora que Ying pensava nisso achava que também começava a se sentir assim, especialmente após ter salvo aquele casal tão singular…

A deusa então sorriu novamente e passou a mão por sua cabeça, abençoando-a.

Não precisa dizer nada. Posso ler claramente a resposta em sua mente e em seu coração valoroso, o coração de um verdadeiro Cavaleiro. Seja bem-vinda, Ying de Gêmeos! E nunca esmoreça! Você tem grandes desafios pela frente, não apenas os que irá enfrentar daqui a algumas horas, mas não se preocupe que estarei sempre com você. Conto com sua coragem e determinação também para proteger esse mundo que irá passar por momentos de grande crise. Minha vida e a paz e segurança de toda a humanidade estará em suas mãos e nas do Cavaleiro de seus sonhos. Não tenha medo de enfrentar seu coração”.

A imagem de Athena começou então a vacilar, confundindo-se com a imagem de um bebê de colo e a de uma linda jovem de grandes e doces olhos violeta até finalmente desaparecer, deixando Ying novamente de volta a seu corpo, olhando para a estátua de Athena.

A Amazona piscou várias vezes para certificar-se de estar acordada. Erguendo novamente os olhos para a estátua ficou pensando se aquilo fora real ou apenas um sonho… Um sonho… A deusa falara no Cavaleiro de seus sonhos… Então ela também sabia? O Mestre também havia falado vagamente de algo muito importante relacionado a nós dois. Por que o nosso destino está assim entrelaçado? Afinal, o que significava aquilo tudo?

Passando a mão pela testa como para afastar todos esses pensamentos confusos, Ying pensou, aturdida:

O que será que colocaram nessa comida e bebida que me deram? Parece que estive em transe como as sacerdotisas de Avalon treinadas para a Visão! – Ela, então, levantou-se, esticando-se toda como uma gata. – Seja como for, descobri o verdadeiro motivo de estar aqui e de toda a preparação que fiz e isso é ótimo. Minha mestra-de-armas sempre me dizia que uma boa guerreira deve saber porque está lutando. Agora eu sei. E quanto a Ayoros… Bem, isso é algo com que me preocuparei depois. Preciso preparar meu corpo e meu espírito para as batalhas que vou enfrentar amanhã.

Ying passou o restante daquele dia e o seguinte se exercitando e meditando sobre os prováveis adversários que iria enfrentar. O Mestre apareceu algumas vezes para vê-la e, nessas ocasiões, Ying tentava perguntar sobre os estranhos acontecimentos da aldeia, mas o Mestre sempre respondia de maneira vaga ou dizia que quando chegasse a hora certa ela saberia de tudo.

Saga me disse para não questionar o Mestre, Nevara também dizia para ser paciente e não apressar o conhecimento de certas coisas que ainda estão além do meu alcance. – pensou Ying, rebelde. – Mas eu juro que vou descobrir o que está acontecendo neste Santuário quer esteja ou não na hora ou não me chamo Ying!

De repente, uma porta se abriu às suas costas, fazendo com que ela se erguesse de um pulo.

– Está na hora. – foi o aviso dado pela sentinela.

É agora!! – pensou, excitada. – Esperei por esse momento durante toda a minha vida…Por que agora estou com tanto medo?!! Bem, vamos lá!

Respirando fundo, ela deu um passo à frente com firmeza em direção ao cofre de sua armadura e deu o comando mental. Imediatamente ele se abriu como sempre e numa explosão de luz e cosmoenergia as partes da armadura vieram se unir ao seu corpo. A sua emoção era semelhante a da primeira vez que a vestiu e, no entanto era diferente de tudo o que já sentira antes. Para dar o toque final ela vestiu a capa que sua irmã lhe dera e encerrando todo o medo e a ansiedade no mais escondido de sua alma, Ying reuniu toda a sua determinação e força indomáveis e rumou com passos firmes em direção ao Grande Salão do Mestre.

***************

Com uma expressão de absoluta serenidade, Ying entrou no Grande Salão e sentiu sobre si o impacto de todos os olhares e emoções conflitantes voltados em sua direção. Os Cavaleiros de Ouro, além do Mestre, a avaliavam atentamente. Alguns como Mu, Aldebaran e Millo, que já conhecera, a fitavam com simpatia; outros, que ela ainda não vira antes, com um sarcasmo e ódio evidentes. – Por que tanta raiva se eles nem sequer me conhecem? – ela se perguntou. Com uma indescritível sensação de alívio encontrou os olhos protetores e encorajadores de seu irmão Saga. Com uma certa ansiedade, buscou pelo olhar cúmplice de Ayoros, mas ele estava estranhamente impassível, como se nunca a tivesse visto antes.

O que será que há com ele? Não consigo ler seus pensamentos…Bem, é melhor assim. Não devemos nos aproximar mais. Será melhor para nós dois. – pensou Ying com amargura.

Com grande solenidade, o Mestre apontou para a recém-chegada.

– Cavaleiros de Ouro – soou a voz profunda do Mestre. – Eu, o Mestre do Santuário de Athena, Senhor de todos os Cavaleiros, os convoquei para este Conselho para lhes apresentar uma nova companheira: esta é Ying de Gêmeos, irmã de nosso já conhecido Cavaleiro de Ouro Saga e treinada por ele para ocupar o lugar a seu lado na guarda da Casa de Gêmeos.

Um dos Cavaleiros se levantou abruptamente, rubro de cólera.

– Uma mulher?! Cavaleiro de Ouro!? Isso é ridículo!!

Ying olhou bem para o primeiro Cavaleiro que se pronunciara contra ela. Ele era alto e esguio, com longos cabelos loiros e seu rosto possuía uma beleza deslumbrante com traços quase femininos, mas a expressão de seus olhos era de tanta frieza e crueldade que ela não pôde se furtar a um quase imperceptível estremecimento.

Afrodite de Peixes!! Só pode ser ele! O Cavaleiro que mutilou Denora! – pensou Ying, com o seu sangue de Amazona fervendo nas veias.

Ele também a examinava de alto a baixo, com uma atitude claramente crítica e despeitada.

– Afrodite de Peixes, será que preciso lembrá-lo de onde está e do motivo que o afastou deste Santuário por tanto tempo? – disse o Mestre com voz calma, mas firme voltando-se para ele.

– Não, Santidade. – disse Afrodite, fazendo uma reverência profunda com mal fingida expressão de respeito, pois todos podiam ver que ele ocultava um sorriso de escárnio. – Perdoe-me o meu aparte inoportuno, mas acho inadequado que uma mulher chegue a essa posição tão honrosa. Afinal, o senhor sabe que desde tempos imemoriais Athena escolheu os homens para comporem a sua guarda.

– Não é bem assim, Afrodite. Todos que provaram ter o cosmo e a capacidade adequada para se tornarem Cavaleiros se uniram a nós através dos anos, independente de seu sexo. Temos muitas mulheres-cavaleiros no Santuário atualmente, deve saber disso, e se nenhuma até hoje conseguiu alcançar tamanho cosmo, parece que agora isso mudou. Saga, que você conhece bem, pode atestar isso e eu também. Ela passou em todos os testes a que foi submetida. – vendo que o Cavaleiro de Peixes ainda abria a boca para protestar, ele cortou bruscamente. – Se ainda tem alguma coisa a dizer, Cavaleiro, peço-lhe que aguarde sua vez, respeitando a ordem neste Conselho.

Afrodite tornou a se sentar, trêmulo de indignação e despeito, lançando um olhar terrível na direção de Ying que nem sequer piscou.

– Muito bem. – continuou o Mestre retomando o rumo de sua oratória. – quero deixar bem claro, senhores, que não é a sua condição de Cavaleiro de Ouro que está em julgamento aqui, mas sim outro de nossos tabus mais antigos, e creio que já devem ter adivinhado a qual me refiro. Segundo a nossa tradição e os precedentes que tivemos e que todos devem se lembrar, o uso ou não da máscara para as mulheres-cavaleiro deve ser um consenso ou ser resolvida através de desafios entre as partes discordantes. – ele fez uma pausa, olhando para cada um dos Cavaleiros sentados à sua volta e em especial para Afrodite, quando acrescentou, severo. – Espero que dessa vez a decisão advinda do resultado do desafio seja respeitada, não havendo represálias posteriores.

Após outra longa pausa durante a qual o salão permaneceu em silêncio absoluto, o Mestre continuou:

– Passo então a palavra ao Cavaleiro da primeira Casa: Áries. Mu, qual a sua opinião?

O simpático e esguio Cavaleiro que conhecera no seu primeiro dia de chegada ao Santuário ergueu-se lentamente, sorrindo discretamente para ela. Desta vez, assim como seus companheiros, ele usava a armadura dourada com as insígnias de sua Casa, o que lhe dava um ar ainda mais imponente e solene.

– Pude observar sua perícia na luta, além de outras habilidades psíquicas que eu mesmo possuo. Sua atuação no episódio ocorrido na aldeia há dois dias, como nosso companheiro Ayoros de Sagitário pode testemunhar, comprova, sem sombra de dúvida sua capacidade de ser um Cavaleiro de Ouro. Sei que isso não está em discussão aqui, mas creio que por si só torna ridícula e sem sentido a obrigação de usar uma máscara. Ela não tem o que esconder, muito pelo contrário.

– Então, não há objeções de sua parte, Cavaleiro de Áries? – perguntou novamente o Mestre.

– Não, Senhor.

O Mestre balançou a cabeça, parecendo satisfeito com a resposta e se voltou para o imenso Cavaleiro que estava ao lado de Mu.

– E quanto a você, Aldebaran de Touro?

O colosso se levantou, parecendo a Ying ainda maior do que ela se lembrava. Também sorrindo, ele foi breve em sua explanação.

– Compartilho da opinião de Mu e, particularmente, afirmo que seria um sacrilégio ocultar tanta beleza por detrás de uma máscara grotesca.

Essa última parte lhe valeu uma discreta cotovelada da parte de Saga, sentado à sua direita, o que fez Ying se segurar para não rir.

– Guarde suas opiniões nesse sentido para si mesmo, Aldebaran. Isso não está em julgamento aqui. – repreendeu o Mestre. – Saga, tem alguma coisa a dizer sobre sua pupila?

– Sim, Santidade. – disse Saga, erguendo-se em toda a sua imponência, o que sempre deixava Ying emocionada de orgulho. – Mestre, senhores Cavaleiros, independente do fato de Ying ser minha irmã, reitero que ela foi uma discípula extraordinária e se tornou uma digna guerreira, um Cavaleiro de Ouro além de todas as minhas expectativas e se ela se recusa a usar a máscara como as guerreiras deste Santuário eu a apoio inteiramente, pois nunca vi sentido algum nesse costume.

Uma risada sinistra se fez ouvir ecoando sombriamente por todo o salão, fazendo com que todos os olhares se voltassem para o Cavaleiro sentado ao lado de Saga e que seria o próximo a ser ouvido. Saga voltou-se para ele, ofendido:

– O que é tão engraçado, Máscara da Morte?

– Ha, ha, ha, ha! Nada, caro amigo Gêmeos! Apenas estou achando muito bonito todo esse amor fraternal e também como uma mulher bonita pode afetar a capacidade de julgamento de um homem, como no caso de nossos companheiros Áries e Touro.

– Cavaleiro Máscara da Morte de Câncer. – disse o Mestre, muito sério. – Sua vez de falar já estava próxima. Não deveria ter interrompido o Cavaleiro de Gêmeos. A palavra ainda não era sua!

– Queira me perdoar, Mestre. – disse ele, fazendo uma reverência e fingindo uma humildade que estava longe de sentir. – Mas creio que o nosso companheiro já disse o que tinha a dizer, não é mesmo, Saga? – perguntou, olhando de soslaio para o Cavaleiro de Gêmeos, que olhava para ele vermelho de raiva, mas que acabou concordando com um aceno de cabeça. – E já que a palavra agora é minha, digo que uma vez que não estava aqui para presenciar as proezas de nossa nova companheira não posso julgar seu valor, ou melhor, dizendo, se esse valor tão apregoado dispensa a necessidade do uso da máscara. Como posso saber se Mu e Aldebaran não se deixaram levar pela beleza feiticeira dessa jovem, levando-os a exagerar as suas capacidades? E quanto a Saga, nem se fala! Afinal, os dois são irmãos! Até o nosso caro Ayoros de Sagitário se deixou levar pelos encantos dela, pelo que ouvi dizer. Creio que já imagino qual será o seu parecer…

Belicosos e impulsivos, Aldebaran e Saga se levantaram, dispostos a tirar satisfações. Para a surpresa de Ying, Ayoros se manteve impassível. Mu se manteve calmo, dando a entender que tinha algo a dizer. Conciliador, o Mestre olhou com toda a sua autoridade para os briguentos, que tornaram a se sentar e deu a palavra a Mu de Áries.

Mu se levantou e disse, calmamente:

– Caro Máscara da Morte, creio que deveria ter mais cuidado com suas palavras. Posso responder por mim. Não tive segundas intenções ou pensamentos ocultos por trás de meu pronunciamento. Quanto a Aldebaran, bem… – ele parou, parecendo escolher as palavras. – Sua sinceridade é…evidente, como pudemos constatar. Em relação a Saga, apesar do parentesco, seu rigor e imparcialidade chegam a ser lendários neste Santuário. E quanto a você, Cavaleiro? Da mesma forma, todos conhecemos a sua índole por aqui. Todo esse zelo não combina com sua fama, Máscara da Morte. Qual a sua verdadeira intenção ao claramente desafiá-la?

A gargalhada que partiu do Cavaleiro de Câncer pareceu abalar os próprios alicerces do prédio.

– Parece que me conhece bem realmente, Mu! – disse Máscara da Morte, com um sorriso irônico. – Está certo, eu admito! – disse ele, lançando um olhar avaliador para a Amazona. – Estou pouco me lixando se ela usa ou não uma máscara, mas concordo em parte com meus companheiros que já se pronunciaram… Ela é muito bonita… – sua voz soava terrivelmente ameaçadora. – e sua cabeça ficaria muito bem na decoração da minha Casa! Eu a desafio sim e quero ver se ela é tão boa guerreira quanto seus admiradores apregoam. – ele tornou a sorrir, malicioso. – É bom que seja…Se quiser ver o sol novamente!

– Cale-se, Máscara da Morte! – bradou o Mestre, agastado. – em virtude de seu comportamento desrespeitoso, eu, como Mestre dos Cavaleiros, deveria invalidar o seu desafio em virtude de seus motivos torpes e ainda posso fazer isso! Entretanto… – o Mestre fez uma pausa, seu olhar passando do Cavaleiro de Câncer a Ying. – Pelas nossas leis, creio que devo dar a opção à parte desafiada. Ying de Gêmeos, o que nos diz?

Inspirando profundamente, Ying ficou um longo momento em silêncio, olhando para o Mestre, para os Cavaleiros de Ouro que a observavam esperando o seu pronunciamento, seu irmão que a observava, inquieto e, finalmente, para o seu desafiante. Ele era uma cabeça mais alto que ela, parecia ser muito forte e sua pele apresentava uma palidez cadavérica que contrastava estranhamente com seu cabelos cor de madeira acobreada; os olhos, como com Afrodite, foram o que mais a impressionaram: negros, insondáveis, deixando transparecer unicamente um ódio feroz e um escárnio por tudo e por todos que não conhecia limites, que se refletia no sorriso que ele lhe oferecia, parecendo demonstrar um profundo desprezo por ela.

Foi com vagar que Ying respondeu, parecendo escolher cada uma das palavras com muito cuidado, como se lhe pesasse pronunciá-las. Em seu olhar brilhante, não se via raiva ou ódio pelos insultos recebidos, mas uma profunda tristeza e uma pena infinita, junto com a coragem indômita que lhe era peculiar.

– Eu aceito o seu desafio, Cavaleiro de Câncer. Entretanto, é uma pena que os seus motivos sejam tão torpes. – ela sacudiu a cabeça, parecendo confusa, olhando dele para o Mestre. – Como é possível que seja admitido no Santuário da deusa Athena, na posição de Cavaleiro de Ouro, suprema honra para qualquer guerreiro, alguém que guarde tanto ódio e sentimentos inferiores dentro do coração? Desculpe a minha ousadia, Mestre, mas me parece inconcebível que um Cavaleiro de Athena possa ser invejoso e prepotente como Afrodite ou sedento de sangue como Máscara da Morte. No entanto, sei que não me cabe julgar, isso eu deixo para o senhor, Mestre, e para Athena. Quanto a você, Máscara da Morte, e aos meus outros futuros desafiantes, alerto para que não me subestimem. Posso ser uma mulher, mas a minha força e determinação não ficam a dever a nenhum homem. Defenderei minha posição até o fim e sei que sairei vencedora, pois minha causa é justa e esse é o meu maior trunfo!

– Palavras bonitas não vão ajudá-la, mocinha! – disse Máscara da Morte, sorrindo com desdém. – As mulheres são boas nessa arte, isso é um fato, mas será que o seu cosmo é tão forte quanto a sua língua?

– Silêncio! – ordenou o Mestre. – Ying, já que a luta é inevitável, prefere enfrentá-la imediatamente ou após ouvir todos os outros Cavaleiros?

– Agora. – ela disse, sem hesitar. – Não gosto de adiar as coisas que preciso enfrentar. E, além disso, não sou tola de dar uma possível vantagem a meus adversários ao me cansar, disputando uma série de lutas seguidas, as quais não tenho ideia do quanto irão demorar ou quanto me custarão em termos de cosmoenergia. – pensou ela.

– Muito bem. Que assim seja então. – assentiu o Mestre. – Você e seu adversário passem para a arena montada no espaço aberto em frente à grande estátua de Athena. Que ela dê a vitória àquele que realmente a merecer. Assistiremos a tudo daqui.

Continua…

1 – Ares é o deus da guerra segundo a mitologia grega, filho de Zeus e Hera e um dos doze deuses olímpicos.( N.A.)

2 – A personificação da vitória, deusa anterior aos deuses do Olimpo.(N. A.)

3 – Fúrias: divindades gregas responsáveis pela manutenção da ordem natural e social do mundo, evitando e castigando os crimes e abusos ( principalmente entre pessoas do mesmo sangue) e a arrogância. São representadas como mulheres aladas, às vezes cercadas de serpentes e armadas com açoites e tochas.(N. A.)

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”