Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 12 – As Amazonas do Santuário

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 12 – As Amazonas do Santuário

Ying voltou-se de imediato, levando a mão instintivamente ao punho da espada:

– Quem está aí? Identifique-se! – ela gritou.

O jovem, que era ninguém mais do que o Cavaleiro Ayoros de Sagitário, levantou as mãos num gesto conciliador, fazendo um grande esforço para não rir.

– Calma, sentinela! Sou eu, Ayoros de Sagitário e sou amigo. Seu irmão nos apresentou ontem ao nascer do sol, lembra-se?

Ying retirou a mão da espada, mas manteve-se em alerta.

– Devo estar ficando relapsa. Em outros tempos, o teria cortado em fatias por ter se aproximado de mim desse jeito furtivo antes mesmo de ter tempo de pensar em falar algo. Nunca mais faça isso de novo!

– Relaxe, princesa! Sei como deve se sentir fora de seu mundo feminino, com tudo o que vocês, Amazonas, pensam sobre nós, homens, mas não precisa se manter em guarda o tempo todo. Está entre amigos, pelo menos, em relação a mim. Além disso, eu não estava sendo furtivo. Você é que estava distraída e não percebeu que estava me aproximando. Mas não se preocupe tanto. Vamos fazer as pazes, está bem?

Ela olhou para ele, ainda desconfiada, tentando ler nos olhos dele quais seriam suas verdadeiras intenções. Ayoros não desviou o olhar e Ying somente viu sinceridade refletida nele. Ainda estava hesitante, afinal ela não conseguia esquecer da presença constante daquele homem em seus sonhos, mesmo antes de se conhecerem e por isso preferia evitar qualquer tipo de aproximação além da necessária; mas como fazer isso sem ser abertamente hostil? E até nisso já havia pensado, mas suas barreiras derretiam-se ante o calor daquele olhar tão franco.Ying aquiesceu com um gesto de cabeça e acrescentou:

– Está bem, Sagitário. Mas, por favor, não me chame mais de princesa. Esse título pertence ao passado; a um passado muito vivo em mim, é verdade, mas que já ficou para trás. Não tenho outro título aqui que não seja aquele que pretendo ainda conquistar definitivamente em breve.

– Ótimo! – Ayoros abriu um largo sorriso. – então, vamos começar tudo de novo: Bom dia, prin… – ele gaguejou, parecendo embaraçado. – Perdão, perdão, ia esquecendo: Bom dia, Ying de Gêmeos! Espero que tenha passado bem sua primeira noite no Santuário.

– Bom dia para você também, Ayoros de Sagitário. – respondeu Ying com um ligeiro e quase imperceptível movimento de cabeça. – Sim, passei muito bem, obrigada. – mentiu, lembrando a noite passada quase insone.

– Folgo em sabê-lo, mas se me permite voltar à minha primeira pergunta… É que a observei tão entretida olhando ao longe que não posso deixar de perguntar…Está com saudades de sua terra natal?

Soltando um pequeno suspiro e deixando o olhar se perder novamente na distância, ela respondeu depois de alguns instantes:

– Talvez… De qualquer forma, ela estará sempre em meu coração. Quando sentir saudades, basta fechar os olhos e a verei tão nítida como se lá estivesse. Mas este é o meu lar agora. Estou ao lado de meu irmão e cumprindo o meu destino de Cavaleiro. O que mais posso querer?

Ele não respondeu, mas apesar dela não conseguir ler claramente seus pensamentos, sentiu que eles se encaminhavam por um rumo que pretendia, desesperadamente e a qualquer custo, evitar.

Para disfarçar, Ying apressou-se a perguntar:

– Mas o que faz aqui tão cedo, Cavaleiro?

Com o olhar malicioso de quem percebera a sua intenção de despistar, ele replicou:

– Eu poderia lhe perguntar o mesmo. Creio que a mesma coisa que você, talvez; o Mestre me chamou para conversar e após essa conversa vim até o Templo para meditar. Não foi isso?

Ying aquiesceu, empalidecendo ligeiramente.

– Acho que estaria sendo indiscreta se perguntasse do que vocês falaram, não é verdade?

– Na verdade, estaria sim. E você me contaria como foi sua conversa com o Mestre?

– Ora, isso não é da sua conta! – protestou ela, corando dessa vez.

– Tem razão. Não é da minha conta, assim como não é da sua conta o que eu tenha conversado com ele. Mas ainda assim lhe direi, porque afinal também lhe diz respeito: ele me pediu que cuidasse de você.

– O que você disse? – perguntou Ying, estupefacta.

– O que ouviu.

Ying explodiu, visivelmente furiosa:

– Ora essa!! Quem, afinal de contas, ele pensa que é? Zeus em seu trono dourado no Olimpo? Por todas as Fúrias! Mestre ou não, ele precisa saber que uma Amazona não precisa da proteção de homem algum! – e dirigiu-se a passos pesados em direção à Mansão.

Ayoros postou-se à sua frente para detê-la.

– Espere! Tenha calma, por favor, Ying! Ou será que quer pôr tudo a perder? Na verdade, ele quis dizer que você precisava de alguém que lhe mostrasse os arredores, lhe explicasse como é a vida no Santuário ou ajudasse no caso de algum Cavaleiro insatisfeito ou mais atrevido querer criar alguma confusão como a de ontem.

– E você se ofereceu prontamente para o serviço, não é?

– Sim, como um favor pessoal a seu irmão.

– Apenas por isso? – indagou, desconfiada.

Ele riu.

– É claro, ora! Ou será que pensa que estou caído por seus encantos?

Ying corou ainda mais e respondeu com voz calma, porém sibilante:

– É bom que não me veja apenas como uma mulher bonita, Cavaleiro. Eu e meu irmão agradecemos a sua preocupação e a do Mestre; no entanto, ela é desnecessária. Sei muito bem como me cuidar ou não seria uma Amazona e muito menos um Cavaleiro de Ouro. Quanto a me mostrar o Santuário, Saga já está se encarregando disso. Creio que não precisará se dar a esse trabalho, muito obrigada.

– Não seria trabalho algum. Como já lhe disse, Saga é meu amigo e gostaria muito se pudéssemos ser amigos também. Além disso, ele deve ter lhe mostrado apenas algumas dependências do Santuário até agora. Eu poderia lhe apresentar outros lugares interessantes, assim como a vila de pescadores que existe nas cercanias. Tenho certeza que gostaria de conhecê-la.

– É uma excelente idéia, Ayoros. – disse Saga que acabava de chegar acompanhado por Millo.

– Saga! Onde você esteve? – indagou Ying, entre surpresa e furiosa. – Não gostei nada de não encontrá-lo quando saí da entrevista com o Mestre. Que assuntos importantes foram esses que o arrebataram de maneira tão precipitada? E-Ei, espere um pouco! Que história é essa de excelente idéia? Pensei que você iria me mostrar as coisas por aí. O que foi? Será que já se cansou de mim e está querendo fugir da responsabilidade? Se for isso, não precisa se preocupar comigo. Sou uma mulher adulta e sei perfeitamente como me defender sozinha. Creio que já provei isso ontem. E então, o que tem a dizer em sua defesa?

– Calma, calma! Eu me rendo! Mas, por favor, minha irmã, uma coisa de cada vez! – pediu Saga, rindo. – Em primeiro lugar, pensei que você e o Mestre iriam conversar por muito tempo ainda, por isso, achei que não faria mal se saísse para dar uma volta, e resolver alguns assuntos pendentes. Depois lhe explicarei do que se trata, se quiser. Em segundo lugar: não, não estou fugindo de responsabilidade nenhuma e muito menos me cansei de sua presença. Como poderia se você só chegou ontem e eu sonhei a minha vida inteira com a sua presença aqui ao meu lado? Apenas acho que não é nada demais você conhecer outros pontos do Santuário ou dos arredores com outra pessoa; Ayoros, por exemplo, por que não? Ele poderia lhe mostrar outros aspectos que a mim passem despercebidos. Além disso, é uma oportunidade para vocês se conhecerem. – disse ele, piscando maliciosamente para Ayoros. – É bom que faça amizade com os outros Cavaleiros, e Ayoros, pode ter certeza disso, é alguém em quem se pode confiar.

– Obrigado, Saga. Espero sempre corresponder à sua confiança. – agradeceu Ayoros, com um gracioso cumprimento de cabeça.

– Acho bom mesmo. Não se esqueça de que ela é minha irmã. – disse Saga, muito sério, mas, em seguida acrescentou, sorrindo irônico: – Não que precise me preocupar muito com Ying. Na verdade, você é quem deve se cuidar se ela ficar zangada.

– Não precisa se preocupar quanto a isso. Já tive uma amostra do que a nossa bela recém-chegada é capaz de fazer. Asseguro a ambos de que a minha intenção é apenas ser gentil, sem outros interesses. – e dirigindo-se exclusivamente a Ying. – Será como uma irmã para mim também e prometo que a respeitarei como a qualquer dos outros Cavaleiros deste Santuário.

Vendo-a ainda hesitar, ele acrescentou:

– Sei que já aceitou Mu e Aldebaran como amigos. Não sei a razão de suas reservas contra mim, mas isso não importa. Talvez tenha seus motivos e eu os respeito, sejam quais forem. Não tem nada a temer de mim, eu garanto.

– Não tenho medo de nada! – disse ela, rispidamente.

– Muito bem. E então? – indagou ele, paciente.

Millo, que permanecera calado até aquele momento, resolveu se manifestar:

– Ninguém pediu a minha opinião, mas a darei assim mesmo: não precisa se preocupar de maneira nenhuma com qualquer atitude inconveniente da parte de Ayoros. De todos nós, ele é o mais cha… quero dizer, ele é uma excelente pessoa e é justamente este o ponto. Ayoros é tão “certinho”, ele faz as coisas sempre de uma maneira tão aborrecidamente correta e ortodoxa que será como se estivesse em companhia do Mestre em pessoa, que ele não nos ouça. – ele riu. – Saga sempre foi meu melhor amigo e por isso também poderia me oferecer para acompanhá-la, mas não poderia garantir meu próprio comportamento como garanto o de Ayoros.

Ying o encarou de maneira inquisitiva e Saga, subitamente consciente de seus deveres de anfitrião, fez as apresentações:

– Oh, que cabeça a minha! Desculpem a minha falta de cortesia. Ying, este é o Cavaleiro Millo de Escorpião, meu mais antigo amigo no Santuário. Apesar de suas palavras, ele também é uma ótima pessoa, apesar dessa cara de tarado, e eu confiaria a minha vida a ele. Espero que sejam amigos também.

Millo fez uma breve reverência à guisa de cumprimento e acrescentou:

– É um grande prazer e uma honra para mim conhecer a irmã do meu amigo Saga. Se me permite dizer, você realmente faz jus a tudo o que este “corujão” contou a seu respeito e até mais! A propósito, em relação à questão da máscara, eu e seu irmão já conversamos e posso afirmar desde agora que pode contar com todo o meu apoio. Sempre achei uma tolice essa história das mulheres-cavaleiro serem obrigadas a usarem máscaras e acho que já é hora disso mudar. – e concluiu com um sorriso malicioso. – Além do mais, seria um crime esconder tanta beleza.

Meio contrariada, Ying correspondeu ao cumprimento e disse:

– Agradeço pelo seu apoio, Cavaleiro de Escorpião. Entretanto, asseguro que há muito mais em mim do que um belo rosto e provarei isso a todos, eu prometo.

– Nem precisava dizer. Posso ver isso pelo fogo em seus olhos. Eu conheço o cosmo de Saga e posso sentir que o seu é tão ou até mesmo mais poderoso que o dele. Desculpe se eu me expressei mal. Agora se me dão licença, embora gostasse muito de presenciar o resultado desse impasse, preciso me retirar. Devo me apresentar ao Mestre sem demora. Mais uma vez, afirmo que foi um prazer conhecê-la, Ying, e desejo que seja muito feliz aqui como uma de nós. – e dirigindo-se a todos numa ligeira vênia de despedida. – Cavaleiros…

Ying retribuiu ao cumprimento de Millo e seus olhos se cruzaram rapidamente com os de Ayoros, que continuava aguardando pacientemente a resposta dela. Em meio ao silêncio embaraçoso que se estabeleceu, ela percebeu que seu irmão Saga também a fitava inquisitivamente.

Ying, o que houve? Acredite, minha irmã, Ayoros não é alguém que eu desejaria ter como inimigo. O apoio dele é essencial para nós, pois ele é um Cavaleiro muito poderoso e de grande influência por aqui. Dizem até que o Mestre o escolheu para ser seu sucessor!

E o que quer que eu faça? – indagou Ying, também telepaticamente. – Que o agrade para obter favores? Ou que eu aja de acordo com a minha consciência conforme você me ensinou? Pouco me importa quem quer que ele seja!

Tem razão. Mas é apenas um passeio, Ying! Tenho certeza de que Ayoros quer apenas ser gentil, e mesmo que ele não esteja sendo inteiramente sincero, o que eu duvido, sei que você saberá colocá-lo em seu devido lugar, não é verdade? Sendo assim, do que tem medo?

Ela desviou os olhos, negando-se a responder. No fundo de sua mente, criou uma barreira para resguardar seus pensamentos do irmão.

Como posso fazê-lo entender que o meu maior medo é de mim mesma? – ela pensou, com amargura.

Então respirando profundamente e erguendo o olhar para Ayoros, Ying finalmente tomou uma decisão:

– Está bem, Sagitário. Eu aceito o seu gentil oferecimento. Peço desculpas pelo meu comportamento rude e desconfiado, até mesmo um tanto hostil. – admitiu ela, a contragosto. Sou uma Amazona e somos ensinadas desde que nascemos a desconfiar dos homens. Não é nada pessoal. – e forçando um sorriso, acrescentou: – Terei muito prazer em sua companhia. Deve haver ainda muitas coisas interessantes por aqui que eu preciso conhecer. Entretanto, eu aviso: se tomar qualquer atitude que me desagrade asseguro-lhe de que se arrependerá de ter nascido.

Dito isso, ela encaminhou-se para as saída do Templo.

Um tanto surpreso, Ayoros ficou observando enquanto ela se afastava e voltando-se para Saga perguntou:

– Ela é sempre difícil assim?

– Nem tanto. Na verdade, acho que ela gostou de você.

– É, deu para notar.

– Não, estou falando sério. No nosso encontro com Mu e Aldebaran, ela foi até amigável, enquanto que com você notei desde o início essa estranha hostilidade…

– Foi o que eu disse. Ela não gostou de mim. E se continuar assim, pode-se dizer que a recíproca é verdadeira!

– Assim como Ying, você não está sendo sincero. Na verdade, amigo Ayoros, acho que ela realmente está gostando de você, se é que me entende. Observei isso, desde que presenciei o primeiro encontro entre vocês dois.

– Mas então…

– Ouça-me: em minha opinião, pelas atitudes que ela tem tomado, acredito sinceramente que ela está apenas se defendendo…

– Do que está falando? Se defendendo de que? – interrompeu Ayoros, confuso.

– De seus próprios sentimentos, ora! Ou será que esqueceu de que ela é uma Amazona?

Ayoros parecia aturdido. Saga continuou:

– Então não conhece os rigorosos tabus que envolvem as Amazonas? Ora, se as próprias mulheres-cavaleiro daqui também os possuem!

– Está querendo dizer que Ying está apaixonada por mim?!

– Isso mesmo. Mas devo lembrá-lo, meu amigo…Quando uma Amazona se apaixona de verdade, ela tem somente duas opções: ou se entrega de corpo e alma a esse amor ou…o mata! Ou seja, mata aquele que o despertou. Geralmente, preferem a segunda opção. Tenha cautela.

Ayoros olhou para Ying, que já se encontrava do outro lado da passarela. Percebendo que ele não a seguira, ela parou a sua espera, com ar de evidente impaciência.

Fascinado, Ayoros observou meticulosamente cada detalhe do corpo dela: o talhe esguio e altivo, o brilho do sol que se refletia em sua armadura dourada, os longos cabelos negros e ondulados que balançavam ao sabor da suave brisa que começara subitamente a soprar, o aroma inebriante de rosas que aquela mesma brisa lhe trazia… Seria proveniente dela ou Afrodite de Peixes estaria por perto? Não, era ela, sem dúvida, pois as rosas de Afrodite recendiam à morte e aquele odor era palpitante de vida…

Com os sentidos ainda presos a ela, Ayoros murmurou quase inaudivelmente, talvez mais para si mesmo do que para Saga:

– Então que assim seja. Eu não poderia imaginar uma forma mais doce de morrer do que nos braços dela…

Como que hipnotizado, ele se afastou, juntando-se a Ying. Sorrindo placidamente, esquecido momentaneamente do incidente com Kannon, Saga ficou observando até que eles desapareceram nos fundos da Casa do Mestre e também se foi, à caminho da Casa de Gêmeos.

Ayoros não sabia, ou talvez soubesse intimamente – Quem conhece os mistérios insondáveis da alma humana? – mas, naquele momento, com aquelas palavras, ele selara inexoravelmente o seu próprio destino.

************

Conforme prometera, Ayoros comportou-se durante o passeio como um perfeito cavalheiro e um cicerone atencioso. Durante todo o caminho, não mediu esforços para entretê-la contando pormenores e lembrando fatos curiosos acerca dos lugares por onde passavam. Ying o ouvia com fria polidez, tentando aparentar indiferença, mas Ayoros, graças à sua extrema perspicácia, já havia percebido o seu crescente e mal-disfarçado interesse, o qual fingiu ignorar. Como esperava, ele chegou ao auge quando disse que iam visitar o campo de treinamento das mulheres.

– Campo de treinamento das mulheres?! – indagou ela, deixando de lado toda a cautela. – Pensei que aqui não havia distinção nesse sentido. Não é para isso que servem as máscaras?

Ele respondeu, tentando ocultar um sorriso:

– E não há. Esse lugar é só para as novatas, para aquelas que ainda não sabem como se defender com a energia necessária. Conforme elas aprimoram suas habilidades, passam a treinar junto com os outros guerreiros. Mas veja… Chegamos.

Cercado por um belo bosque, coisa rara naquele lugar inóspito, estava o referido campo: uma área oval com cerca de dez quilômetros de diâmetro, onde treinavam de vinte a trinta mulheres, na maioria muito jovens, revezando-se em exercícios de corrida, levantamento de pesos e luta corpo a corpo.

– Pode se aproximar e conversar com elas, se quiser. Eu ficarei esperando por você na entrada do bosque. – ele sorriu um tanto irônico. – Homens não são muito bem-vindos aqui.

Ying não pensou duas vezes. Parecia mesmo ter se esquecido da presença dele. Foi se aproximando devagar, esboçando um leve sorriso nostálgico. Se não fosse pelas horrendas máscaras, era quase como se estivesse olhando para um dos grupos de aspirantes a guerreiras em sua terra.

É estranho. – pensou Ying. – Eu, que sempre ansiei por novos ares, estou longe a apenas dois dias e já sinto saudades!

Enquanto ela sonhava acordada, mergulhada em suas recordações, as guerreiras perceberam a sua presença, interrompendo as suas atividades. “Quem seria aquela estranha que as observava?”, pensavam elas. Com certeza era uma mulher, mas não usava a obrigatória máscara e além de tudo envergava uma armadura de ouro, fato inédito para uma mulher-cavaleiro desde a última Guerra Santa. Quem seria ela? Parecia Athena em pessoa!

– Pode se aproximar e conversar com elas, se quiser. Eu ficarei esperando por você na entrada do bosque. – ele sorriu um tanto irônico. – Homens não são muito bem-vindos aqui.

Ying não pensou duas vezes. Parecia mesmo ter se esquecido da presença dele. Foi se aproximando devagar, esboçando um leve sorriso nostálgico. Se não fosse pelas horrendas máscaras, era quase como se estivesse olhando para um dos grupos de aspirantes a guerreiras em sua terra.

É estranho. – pensou Ying. – Eu, que sempre ansiei por novos ares, estou longe a apenas dois dias e já sinto saudades!

Enquanto ela sonhava acordada, mergulhada em suas recordações, as guerreiras perceberam a sua presença, interrompendo as suas atividades. “Quem seria aquela estranha que as observava?”, pensavam elas. Com certeza era uma mulher, mas não usava a obrigatória máscara e além de tudo envergava uma armadura de ouro, fato inédito para uma mulher-cavaleiro desde a última Guerra Santa. Quem seria ela? Parecia Athena em pessoa!

Quando Ying deu conta de si, já se encontrava cercada pelas mulheres que a observavam curiosas. Claro que, como em qualquer agrupamento humano, essa curiosidade apresentava diferentes nuances: algumas a fitavam admiradas, outras respeitosas e reverentes, outras despeitadas e invejosas.

Ying teve que piscar algumas vezes para certificar-se de que não se encontrava ainda entre as suas aspirantes, se bem que em razão do respeito devido à sua posição elas jamais se atreveriam a se aproximar daquela maneira. Em parte aquilo a assustava mas por outro lado estava radiante. Não fora por aquele anonimato que ansiara a vida inteira?

Elas faziam perguntas sem parar como crianças curiosas e Ying não sabia por onde começar ou a quem dar atenção primeiro quando dentre elas surgiu abrindo espaço uma que aparentava ser a mais velha, possivelmente a líder, pois as outras afastavam-se respeitosamente à sua passagem. Ela parou defronte à princesa e examinou-a atentamente com olhar avaliador. Ying sustentou-lhe o olhar, avaliando-a também. Era uma mulher alta e magra, já passando bem da meia-idade, mas ainda forte e rija, com os músculos endurecidos no exercício de muitos anos de treinamentos e batalhas. Seus cabelos ruivos entremeados de fios grisalhos estavam soltos emoldurando-lhe o rosto impassível. Do seu rosto,aliás, oculto parcialmente pela odiosa máscara, se destacavam um par de frios olhos cinzentos dotados de um estranho brilho metálico. Passaram-se longos instantes antes que ela finalmente lhe dirigisse a palavra.

– Este é um lugar de treinamento e não estamos acostumadas a sermos interrompidas. Quem é você e o que veio fazer aqui? – indagou a guerreira, autoritária.

Ying empertigou-se. Não estava acostumada a que ninguém lhe falasse naquele tom, mas precisava lembrar-se de que ali, apesar do status de Cavaleiro de Ouro, o que, aliás, ainda não era oficialmente, ela não era mais a princesa ou a comandante de tropas. E foi em tom respeitoso, mas repleto de dignidade que respondeu, após gracioso cumprimento:

– Sinto realmente pelo transtorno, senhora. Não foi minha intenção interromper nada, muito pelo contrário. Sou nova no Santuário e estava apenas dando uma volta quando resolvi parar para observar suas guerreiras. E fiquei bem impressionada pelo que vi. Elas parecem ser muito habilidosas e disciplinadas. Com quem eu tenho a honra de falar?

– Sou Denora, a responsável pela ordem e disciplina neste local. Mas você ainda não disse quem é.

– Foi um descuido de minha parte. Meu nome é Ying. Sou irmã do Cavaleiro Saga de Gêmeos e, assim como ele, um Cavaleiro de Ouro.

Um murmúrio impressionado se fez ouvir por parte das jovens guerreiras, as quais foram imediatamente silenciadas por um olhar severo de Denora, mandando-as voltarem às suas atividades.

– Cavaleiro de Ouro, hein? – disse Denora, lançando-lhe um outro olhar avaliador. – Isso é novo para nós. Faz séculos desde que uma mulher alcançou essa honra. Mas diga-me uma coisa: foi você quem provocou aquela confusão ontem com os guardas da fronteira?

Ying franziu ligeiramente o cenho, contrariada, mas respondeu serena:

– Se pergunta se era eu a guerreira que se envolveu com aquele lamentável incidente, digo que sim, era eu mesma. Porém devo acrescentar que não provoquei nada, apenas me defendi de alguns importunos.

A reação da outra a surpreendeu. Denora respondeu com uma sonora gargalhada.

– Então pode se considerar uma das nossas! Não se incomode tanto com o que aconteceu. Aqueles idiotas mereciam uma lição daquelas há muito tempo. Saiba que eles já tentaram atacar várias das minhas guerreiras, sem sucesso, é claro. Creio que eles devem ter pensado que com uma forasteira seria mais fácil… Seja bem-vinda ao Santuário de Athena e ao nosso campo de treinamento. Será sempre bem recebida aqui.

Ying disfarçou um pequeno suspiro de alívio e sorriu agradecendo a acolhida. A última coisa que queria era um atrito com as mulheres do Santuário.

– Uma vez que já fomos apresentadas, permita-me fazer mais uma pergunta… – Denora fez uma pausa, levando a mão significativamente ao rosto. – Por acaso, não estará se esquecendo de nada? Ou será que como Cavaleiro de Ouro está isenta de certas obrigações?

– Como você mesma disse, há muito não há uma mulher Cavaleiro de Ouro, ou Amazona de Ouro, como também costumavam chamá-las, por aqui. Só por isso já se poderia dizer que estou quebrando um tabu. Quanto à máscara… Bem, isso é outra coisa que pretendo mudar. De onde venho, as mulheres não precisam se esconder atrás de máscaras e não há guerreiras mais respeitadas em todo o mundo. – disse alçando orgulhosamente a cabeça.

– E de onde você vem?

– Sou uma Amazona.

– Uma Amazona? – a outra não pareceu impressionada. – Ora, também nos denominamos assim. Muitas de nós, aliás, são descendentes diretas das suas Amazonas. Eu mesma sou uma. Meu pai era filho de uma guerreira de seu povo.

– Como então aceitam esse estúpido e insultuoso costume?

– O que podemos fazer? Essa é uma tradição que data dos primórdios do Santuário. O uso da máscara foi exigido de nossas ancestrais como condição para que permanecessem aqui servindo Athena. Deve conhecer a história. Amazonas e Cavaleiros lutaram para decidir quem protegeria a deusa. As Amazonas perderam após encarniçada batalha e os Cavaleiros, reconhecendo o valor de suas adversárias, estabeleceram essa condição. Conhece a Lei do Vencedor, não conhece? Pois bem, elas a aceitaram e isso foi seguido desde então.

– Até mesmo as tradições mais antigas e arraigadas podem ser mudadas quando perdem a sua razão de ser. Os tempos são outros e se aqueles Cavaleiros não conseguiam aceitar a idéia de que as mulheres podiam ser tão boas guerreiras quanto eles, os de hoje terão de aceitar. Essa será minha primeira batalha.

– Por que diz isso?

– Conversei com o Mestre esta manhã. Pelo que aconteceu ontem e pelo que ele me disse, é bem provável que para que eu possa ficar aqui deva enfrentar um ou mais

Cavaleiros para provar o meu valor, ou melhor dizendo, provar que uma máscara não faz a mínima diferença. Com a minha vitória poderei dar a todas as guerreiras daqui uma opção que antes elas não tinham.

Denora deu um sorriso enigmático e um brilho estranho vislumbrou-se em seus olhos.

– Seu objetivo é muito nobre, Ying, mas o que a faz ter tanta certeza de que vai vencer? Acaso tem idéia do que terá de enfrentar?

– Já recebi essa advertência mais de uma vez, Denora. Uma das razões para minha certeza você mesma acabou de dizer: a minha causa é justa. Em segundo lugar confio no treinamento que recebi e finalmente confio em meu cosmo e em minha força de vontade. Athena me guiará.

– Você é jovem e os jovens nunca acham que podem morrer, mas é isso o que pode acontecer, menina. – vendo que Ying abrira a boca para protestar, ela cortou: – Não. Eu não estou duvidando da sua força. Posso senti-la e estou realmente impressionada, porém há uma coisa que também conta muito numa batalha e você deve saber disso: é a experiência. Os Cavaleiros de Ouro são guerreiros muito mais experientes do que você que não passa de uma debutante comparada a eles. Ouça o conselho de alguém mais vivida: aceite a máscara ou então vá embora enquanto é tempo. Ninguém a acusará de covarde.

Ying corou mas reconhecia que ela falava a verdade. Forçando um sorriso, ela respondeu pausadamente:

– Sei que eles são muito mais experientes do que eu… mas isso também pode ser uma faca de dois gumes. Posso virar essa vantagem contra eles. Não se preocupe comigo.

– Espero que saiba realmente o que está fazendo. De qualquer maneira, a vida é sua. Desejo-lhe sorte. – disse secamente, virando-se para voltar ao campo.

Contente com seu primeiro contato com as mulheres do Santuário, Ying já fazia menção de retirar também quando percebeu que uma das guerreiras ainda a observava. O fato em si não a surpreendeu, pois a sua chegada ao Santuário era uma novidade, sendo normal que despertasse curiosidade e despertara bastante. Entretanto, o que a intrigava era atitude da outra, sombria e desafiadora. E que máscara mais sinistra ela usava: a face lívida de um vampiro de caninos expostos e sangrentos! Ainda mais sinistra era a sua cosmoenergia…densa, pesada, ameaçadora, maligna… – pensou Ying, franzindo a testa. O mais estranho era que tinha a impressão de que lhe era familiar, mas quando a sentira pela primeira vez não era tão forte e já fazia tanto tempo…

A mente de Ying voltou espontaneamente ao passado, quando ainda era uma jovem aspirante e tivera a sua primeira briga séria com sua amiga Mariska. Por pouco não se mataram naquele dia, mas nem se lembrava mais do motivo da briga. Lembrava-se apenas de Hermíone segurando-a e de uma das oficiais mais jovens – uma moça alta e de cabelos negros lisos e longos – observando a tudo impassível e afastando-se depois com Mariska. Ao evocar essa lembrança, Ying arregalou os olhos que brilhavam de reconhecimento e surpresa: Calypso!! Só podia ser ela! Mas como era possível? Sabia que ela havia sido expulsa do exército e do reino, mas encontrá-la depois de tantos anos ali, no Santuário de Athena?! Como a aceitaram?

Enquanto assim pensava, ainda confusa pela descoberta, Ying procurou-a novamente com os olhos e constatou que ela desaparecera.

Mais essa agora! – pensou Ying, suspirando. – Com todos os problemas que terei de enfrentar aqui ainda encontro uma velha inimiga… Hum, não me admiraria se Mariska acabasse vindo para cá também. Mas não importa. Ficarei de olho nela e se ela realmente continuar, como parece, uma guerreira sem honra, seus dias aqui no Santuário estarão contados. Entretanto, gostaria de estar enganada. Seria bom se ela tivesse se modificado, pois assim teria alguém com quem conversar e matar as saudades de casa. Mas aquela cosmoenergia…

Ying balançou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos e pôs-se a caminho. Teria tempo para se preocupar com ela mais tarde. Agora tinha outras coisas a fazer. Quase esquecera que Ayoros a esperava do outro lado do bosque.

Continua…

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”