Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 10 – Kannon e Saga: Os Gêmeos do Bem e do Mal

Gêmeos – A Face Oculta – Capítulo 10 – Kannon e Saga: Os Gêmeos do Bem e do Mal

Kannon e Saga: Os Gêmeos do Bem e do Mal

Já me decidi. – pensou Ying, dirigindo-se para a saída. – Tenho muito respeito pelo Mestre, é verdade, mas Saga é meu irmão e, além disso, também é meu mestre. Foi ele quem me ensinou como controlar meu cosmo, enfim como ser um Cavaleiro de Ouro. Não conseguiria esconder nada dele; não posso fazer isso com meu irmão gêmeo!

E foi assim, resolvida, que ela saiu da Sala do Trono, chamando por seu irmão:

– Saga! Você não imagina o que… Saga? – estranhou Ying, não o encontrando na antecâmara à sua espera.

– Com a sua licença, senhora… – disse uma voz às suas costas. Era um das sentinelas.

– O que foi?

– Tenho um recado do Cavaleiro de Ouro Saga de Gêmeos para Vossa Senhoria. Ele pediu que transmitisse as suas desculpas, mas um assunto urgente requeria a sua presença em outro lugar.

Ying corou como uma criança contrariada ao ouvir aquilo, mas conseguiu controlar-se e com voz calma perguntou ao guarda:

– Por acaso, ele não disse que assunto tão urgente seria esse?

– Não, senhora. O Cavaleiro Saga apenas disse que depois lhe explicaria tudo.

– Está bem. O recado está dado então. Obrigada.

A sentinela inclinou-se e retornou ao seu posto.

Não estou gostando disso; primeiro, ele não apareceu para me receber e agora desaparece novamente… – pensou Ying, intrigada. – Afinal, o que estará acontecendo com Saga? Ah, bobagens! Deve ter sido só uma coincidência. Não tenho motivo algum para desconfiar dele.

Para espantar esses pensamentos, ela resolveu ir outra vez até o Templo de Athena antes de voltar para a Casa de Gêmeos. Lá poderia apreciar a vista de todo o Santuário e ter paz para refletir sobre as estranhas palavras do Mestre.

*******

Tomado de súbito pressentimento, Saga saiu imediatamente da Casa do Mestre e pôs-se a vasculhar as proximidades com a sua percepção hipersensível. Não demorou a descobrir perto dali o vulto de um homem à espreita. O estranho percebeu que havia sido descoberto e fez sinal para que Saga o seguisse. Este pediu a ele que esperasse e tornou a entrar na Casa do Mestre. Depois de alguns minutos, ele voltou e seguiu discretamente o estranho até chegarem a um local mais isolado.

– Então? O que quer aqui? – perguntou Saga, de cenho franzido. – Eu já não lhe disse para não vir mais ao Santuário?

O estranho voltou-se, mostrando, então, sua face. Era o próprio reflexo de Saga, faltando-lhe apenas a armadura dourada e a expressão séria do outro. Sua boca distendia-se em um sorriso irônico e os olhos possuíam um brilho maligno e assustador.

– Vamos, Kannon! Não se faça de sonso! – gritou Saga, cada vez mais exasperado, para a diversão do outro que sorria ainda mais. – Sei que esteve aqui ontem também; quase que Ying o descobriu. É isso o que quer? – perguntou, agarrando-o pela gola da túnica. – Quer que ela descubra a sua existência? Você não tem esse direito! Não fique aí me olhando! Responda! Diga alguma coisa!

Kannon jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada selvagem.

– Calma, querido irmão! – respondeu Kannon, com ar cínico, procurando desvencilhar-se das mãos de Saga. – Não há motivo para tanta violência. Nem parece o anjo de bondade, o Cavaleiro ponderado e gentil que todos admiram e respeitam… Mas gosto mais de você assim, fica mais parecido comigo.

– Kannon, estou lhe avisando…

– Ora, meu irmãozinho, acalme-se, eu já disse! Acredite, se eu quisesse realmente que a sua preciosa Ying me descobrisse, já teria me revelado a ela; estou certo de que sabe disso. Eu queria apenas vê-la, saber se ela era na verdade tudo o que você sempre falou. Eu tenho esse direito sim, afinal, ela também é minha irmã tanto quanto sua!

– Kannon, já lhe disse uma vez e não quero tornar a repetir: Não se aproxime dela. – ameaçou Saga, com a voz sombriamente baixa.

– E por que? Tem medo de que eu possa influenciá-la para o mal? – riu Kannon, cheio de malícia. – Será ela tão fraca assim?

Saga soltou-o bruscamente e respondeu:

– É claro que não! Ying é uma pessoa extraordinária e uma das mais fortes que conheço. Será um excelente Cavaleiro de Athena, se conseguir vencer a oposição dos outros Cavaleiros e irei me assegurar de que você não atrapalhe, Kannon, sob nenhum aspecto. Está me entendendo?

– Lógico que estou, Saga! Não se preocupe, estou apenas observando, por enquanto. Não é minha intenção atrapalhar em nada, muito pelo contrário! Talvez, se ela precisar de alguma ajuda, eu até possa…

– Não!! Ela não precisará da ajuda de ninguém e muito menos da sua!

– Ora, ora, meu caro Saga! Se eu não o conhecesse e soubesse que ela é sua irmã, ou melhor, nossa irmã, diria que você está com ciúmes…ciúmes da mulher e não da irmã, se entende o que quero dizer…

Furioso, Saga partiu para cima de Kannon disposto a massacrá-lo, mas deteve-se no último momento, controlando-se com visível esforço. Com o corpo todo tremendo pela raiva contida, ele murmurou, entredentes:

– Kannon, não brinque comigo! Não me faça esquecer que você é meu irmão!

Kannon riu, divertido com tudo aquilo e abriu os braços, dizendo:

– E como você poderia esquecer-se disso? Somos gêmeos, Saga, totalmente iguais um ao outro!

– Podemos ser idênticos na aparência, Kannon, mas não somos iguais no caráter, isso nunca! Infelizmente, cada vez mais me convenço disso. Sua alma é perversa e ambiciosa, irmão: Somos totalmente diferentes!

– Não tenho tanta certeza disso. – disse Kannon, sibilante, sorrindo maliciosamente. – Principalmente, quando está assim, nervoso… Se pudesse ver o brilho que surge em seus olhos…

– Não sei do que está falando. – Saga respirou fundo, impaciente, fechando os olhos por um instante. Conseguindo, afinal, acalmar-se, continuou: – Ouça, Kannon, tente me entender: não pense que não gosto de você, pois afinal também é meu irmão. Fiquei muito contente quando apareceu pela primeira vez no Santuário, pois nosso pai contou-me o que aconteceu com você quando nascemos. Nós o julgávamos perdido há muito tempo, por isso quando o vi na minha frente, abrindo os braços para mim e me chamando de irmão, pensei que ia estourar de tanta felicidade. Lembra-se que eu quis imediatamente contar a todos que meu outro irmão havia aparecido? Mas você não deixou, dizendo que ia causar muita curiosidade e que precisava de um tempo para se acostumar e eu respeitei e o mantive incógnito. Perguntei aonde você havia estado durante todos aqueles anos em que havia ficado desaparecido e como havia me encontrado aqui, mas você alegou que não estava pronto ainda para contar tudo pelo que passara e eu novamente aceitei e esperei. Sentindo que você possuía um cosmo ainda latente, comecei a treiná-lo, sonhando em torná-lo um Cavaleiro para ficar ao meu lado e ao de Ying na guarda da Casa de Gêmeos. Então você começou a “pregar peças”, se fazendo passar por mim em diversas ocasiões. Com alguma dificuldade, consegui contornar as situações, ainda sem revelar a sua existência. Você pediu desculpas dizendo reconhecer que realmente haviam sido brincadeiras de mau gosto e eu o perdoei. Finalmente, um dia você revelou sua verdadeira face maligna quando começou a falar em sublevação contra o Mestre e quis me convencer a ajudá-lo, dizendo que juntos poderíamos derrotar todos os outros Cavaleiros e assim dominar o Santuário. Nós tivemos uma briga terrível e eu o expulsei, com o coração pesado, do Santuário e da minha vida. No entanto, sentia que você ainda continuava por perto, ocultando-se nas sombras. Cheguei a pensar em desistir do meu sonho de trazer Ying para cá, pois tinha medo que ela descobrisse o que você se tornou e também do que você poderia tentar contra ela. Então deixei de sentir sua cosmoenergia e acreditei que havia afinal desistido e resolvido nos deixar em paz. Parece até que você só estava esperando que Ying chegasse para reaparecer! Como posso confiar em você? Você confiaria se estivesse em meu lugar? Afinal, o que quer de nós?

Kannon continuava sorrindo maldosamente, parecendo divertir-se muito com a raiva e a preocupação angustiada de seu irmão.

– Você sabe o que eu quero, Saga. Meus objetivos não mudaram nesse tempo em que estive “afastado”, por assim dizer, de você. Mas não se preocupe, meu irmão. Não pretendo interferir em nada, ao menos, por enquanto. Decidi observar e aguardar os acontecimentos. Aguardarei pacientemente o momento da mudança…

– Do que está falando? A que mudança se refere?

– Você saberá, irmãozinho. Não se preocupe, você saberá… – murmurou Kannon, saboreando a confusão do outro. – A princípio, não perceberá nada. Somente… – ele fez uma pausa, parecendo estudar o rosto do irmão. – Somente quando for tarde demais. Eh, eh, eh, eh, eh! Estou satisfeito. Descobri que a mudança que eu esperava já começou. Agora não vai demorar muito…

Kannon virou-se e começou a se afastar. Saga chamou-o:

– Como se atreve a sair dessa maneira?! Kannon! Kannon! Volte aqui imediatamente! Você ficou louco? Explique-se melhor! De que mudança está falando? – mas vendo que o outro já desaparecera, calou-se. Ele se foi. – pensou Saga. – E agora? O que devo fazer? Kannon está cada dia mais doente… Ou será que é pura maldade? Como não percebi isso antes, quando o encontrei? O que será que fizeram com ele depois que o raptaram? Terá sido mesmo Ares? Athena, ajude-me! Não sei o que pensar, nem como agir…

Saga ajoelhou-se com a cabeça entre as mãos, sentindo-se desorientado.

Talvez se eu pedir ajuda ao Mestre… – Saga animou-se ante essa idéia, mas descartou-a em seguida, desalentado. – Não, isso é um problema de família. Eu mesmo devo resolver. Além disso, apesar de ser um Cavaleiro muito sábio e poderoso, quando Ares renasceu em seu irmão mais moço não foi capaz de resolver tudo sozinho, recorrendo à ajuda de meu pai, o que, aliás, atraiu para nós essa terrível maldição. Embora ele nos deva isso, não creio que o Mestre possa fazer alguma coisa… Ah, pai! – ele ergueu o olhar para céu, desamparado. – Se pelo menos o senhor não tivesse nos deixado… tenho certeza de que se estivesse aqui saberia como lidar com essa situação tão difícil, afinal, já fez isso antes…Não, talvez o dilema fosse ainda mais terrível para ele, pois se trata agora de seus próprios filhos! De qualquer forma, ele se foi e cabe a mim agora assumir toda a responsabilidade. Mas… terei eu coragem, se for necessário, de erguer a mão contra alguém de meu próprio sangue e que, ainda por cima, é a minha própria imagem? – Saga pôs-se a andar de um lado para o outro. – Entretanto, também é meu dever como Cavaleiro manter o Mestre informado sobre o que acontece no Santuário e se for mesmo uma nova investida de Ares… Não! – pensou Saga, sacudindo a cabeça com força. – Isso é uma tolice! Ares não tem nada a ver com isso! Afinal, em toda família sempre aparece um membro desajustado e eu devo conduzi-lo à razão. Somente contarei à Ying sobre à existência de Kannon quando tiver certeza absoluta de que podemos confiar nele ou, pelo menos, depois que ela passar pelos desafios e se tornar oficialmente um Cavaleiro de Ouro. Não posso desviar a atenção dela disso, pois Ying precisará de toda a sua concentração para enfrentar essa prova de fogo. Isso é mais importante do que tudo. Nossos pais sonharam com isso a vida inteira e eu também, desde antes de nosso pai incumbir-me da missão de treiná-la. Esse é um momento crucial em nossas vidas e não deixarei que ninguém interfira, nem mesmo Kannon! – seus olhos assumiram uma expressão sombria. – Depois então veremos…

– Saga, meu amigo! Não esperava vê-lo por aqui!

Saga voltou-se ante a súbita interrupção e deparou com seu velho amigo Millo de Escorpião sorrindo jovialmente para ele.

– Ah, é você, Millo. Que bom vê-lo de volta! – disse, forçando um sorriso. – Não sabia que já havia retornado ao Santuário.

– Na verdade, acabei de chegar. Resolvi me apresentar ao Mestre antes de ir para a minha Casa e…Mas, o que houve? Algum problema o aflige? – perguntou ao perceber a expressão distraída e angustiada de seu amigo.

– Ah, não se preocupe! Não é nada sério, realmente. Não sei se você já soube que a minha irmã gêmea Ying chegou ontem ao Santuário…

– Oh, sim! Eu já soube. – Millon riu, divertido. – Num lugar pequeno como esse as notícias correm bem rápido. Para falar a verdade, não se fala em outra coisa! Você devia estar radiante, ora essa!

– E estou, é claro! Mas o Mestre ordenou que a trouxesse à presença dele esta manhã para que pudesse avaliá-la e…

– Já entendi. Está se sentindo inseguro, não é? – disse Millon, sorrindo, compreensivo.

– Acho que sim… – Saga quase soltou um suspiro de alívio. – É, pode-se dizer que é isso.

– Bobagens! Não precisa se preocupar, companheiro. Tenho certeza de que, se ela for a metade do Cavaleiro que você é, irá se sair muito bem e… Cá entre nós, com todo o respeito, é claro: ela é mesmo tão bonita quanto estão dizendo?

– Bem, sou suspeito para julgar isso, afinal ela é minha irmã…e além disso, os outros Cavaleiros estão tão acostumados a ver as demais mulheres-cavaleiros sempre veladas por máscaras que eu creio que qualquer uma que lhes aparecesse sem ela pareceria ser mais bela que Afrodite! Por que você não vem comigo e tira suas próprias conclusões? Talvez ela ainda esteja na Casa do Mestre e você disse que ia mesmo até lá…

– É isso mesmo. Por que não? – sorriu Millo, aprovando a idéia. – Vamos lá conhecer essa maravilha que todos estão falando! – ele apressou-se em acrescentar, muito sério. – Como já lhe disse antes, com todo o respeito, meu caro amigo.

Saga não pôde deixar de rir com a preocupação sincera de Millo em não ofendê-lo. Afinal, eles se conheciam desde crianças, quando seu pai o havia levado para o Santuário. Ele e Saga sempre foram muito unidos, praticamente o único irmão que Saga conhecera até que ele encontrara Ying e, posteriormente, Kannon. Millo conhecia muito bem o gênio explosivo de Saga e, embora soubesse que a sua ira nunca durasse mais do que alguns minutos, preferia não provocá-lo além do limite. E Saga sabia que Millo não ficava muito atrás em matéria de temperamento, apesar de ser mais dado a ironias.

Assim como Kannon… – pensou Saga, sombrio. – mas Millon é um homem de caráter, com a honra acima de tudo, enquanto Kannon…

– Você verá, meu amigo, o quanto ela é maravilhosa. – disse Saga em voz alta.

– Humm… Você não é nem um pouco coruja, não é Saga? – comentou Millon, piscando um olho, malicioso.

Saga tornou a rir. Só mesmo Millon para conseguir isso em um momento em que ele se encontrava tão angustiado.

Talvez eu pudesse me abrir com ele. Já fizemos isso tantas vezes um com o outro… Pensarei a sério sobre isso.

– Então vamos. – disse Saga.

Continua…

Andrea Figueiredo Bertoldo

“Que a minha vontade seja a minha força.”

  • Andrea Figueiredo Bertoldo

    Vc ainda não viu nada…kkkkk

  • Isa

    Arrasando Dea, os gêmes embate muito bom, vendo a treta que Ying está se metendo kkk

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