NOVELA DE: EDUARDO MORETTI.

(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO ANTERIOR)

 

{Tocando: Instrumental Emoção}

 

Lenita fica sem saber o que dizer e emocionada, começa a chorar… Helô vai até ela também emocionada e a abraça. As duas amigas que esperaram anos por esse reencontro, choram e riem ao mesmo tempo…

 

CORTA DIRETO PARA: COPACABANA – RESTAURANTE.

Paloma fica sem saber o que dizer e Edu insiste…

 

EDU (Sereno) – Pode falar Paloma… De certa forma eu já esperava que isso fosse acontecer mais cedo ou mais tarde, só que acabou sendo mais cedo do que eu pensei… (Ri) – No fundo eu ainda tinha esperanças de que nesse meio tempo, eu pudesse fazer com que você se apaixonasse por mim de verdade…

Paloma nesse momento pega na mão de Edu e faz um carinho…

PALOMA – Você não fica chateado comigo?

EDU – Claro que não, imagina… Fico só um pouco triste porque eu amo você, sempre amei. Mas você sempre foi sincera comigo, como esta sendo agora. E isso conta muito viu…

PALOMA – Obrigada, Edu. Eu te adoro… Mas é que tem um cara, enfim… Eu acho que estou ficando apaixonada por ele.

EDU – Eu só desejo do fundo do meu coração que ele te faça muito feliz, como você merece ser. E ai dele se te fizer sofrer… Ele terá que se entender é comigo. (Diz sorrindo).

PALOMA (Sorri) – Você é um anjo que também merece ser muito feliz… Eu tenho certeza de que você irá encontrar a mulher certa pra ti, que te ame e valorize como você merece e muito…

Edu e Paloma dão as mãos e sorriem cúmplices por tudo ter terminado bem…

 

CORTA PARA:

CENA 3. INTERNA |NOITE |ATHELIÊ – GAROTA DE IPANEMA – SALA DE BEATRIZ.

Beatriz e Estela estão sentadas na sala, enquanto tomam vinho e jogam conversa fora…

 

ESTELA – Bom, então acho que agora o desfile finalmente sai…

BEATRIZ – Atrasado demais pro meu gosto né? Dois meses? Já vamos estar praticamente no fim do verão. Quem é que usa biquíni, maiô, canga no Outono?

ESTELA – Dois meses foi a estimativa máxima que a costureira chefe deu pra quantidade de peças que você encomendou, mais eu prometo que vou ficar no pé delas e depois o inverno que faz aqui no Brasil em algumas cidades é muito pouco. Fique tranqüila que vai dar tudo certo, nós aumentamos em uma hora e meia a jornada de trabalho delas e tudo vai sair bem antes do prazo, eu garanto… Mas também eu achei um exagero seu Beatriz, triplicar a produção dessa vez… Depois se não vende, fica tudo encalhado no estoque, além do prejuízo que será triplo também né?

BEATRIZ – Eu sei o que eu estou fazendo… A Paloma caprichou dessa vez. As peças vão ficar incríveis e vender que nem água, você vai ver. Agora essas costureirazinhas que se preparem, porque depois que tudo estiver pronto, elas vão é pra rua. Vou contratar uma equipe totalmente nova e bem mais esperta que essas lesmas ai… Não, tem umas múmias ai da época do Leonel ainda, pode? Já eram pra estar aposentadas… (Diz sorvendo todo o resto de vinho da taça).

ESTELA – Relaxa amiga… No fim vai dar tudo certo. Hoje em dia temos que evitar o estresse porque ele mata viu, é sério. E você anda estressada demais…

BEATRIZ (Ri) – E tem como evitar isso hoje em dia? A gente passa por nervoso e situações estressantes desde a hora em que levantamos da cama, até a hora de dormir. É no trabalho, no trânsito, em casa com os filhos, o marido… (Diz começando a chorar).

ESTELA – Hei o que é isso? Eu sabia que tinha alguma coisa errada contigo hoje… Você esta mais nervosa do que de costume. Que foi que aconteceu amiga? Se abre comigo vai… É o Pedro não é?

Beatriz assenti com a cabeça, depois respira fundo e responde:

BEATRIZ – Ele pediu o divórcio… Ele quer sair de casa Estela, o que eu faço?

ESTELA – Você quer mesmo saber a minha opinião? Assina esse bendito divórcio logo e deixe que ele saia da sua vida pra sempre… Chega de sofrer amiga. Já passou da hora de você superar esse casamento fracassado e sem amor e partir pra outra. Você é jovem, linda, inteligente… Vai ficar a vida toda ao lado de uma homem que não te ama, mendigando amor e se contentando com as migalhas que ele te dá? Por favor, né!

BEATRIZ – Mas eu amo ele, Estela. Se eu pudesse arrancar ele do meu coração, eu juro que eu mesma abriria o meu peito e tirava ele de lá de dentro. Mas eu não consigo, eu já tentei milhares de vezes e não consigo… Eu não quero perder o Pedro, amiga… Ele é a razão da minha vida. (Diz e chora mais ainda).

Estela se senta do lado da amiga e a deita em seu colo lhe consolando…

 

CORTA DIRETO PARA: GÁVEA – APARTAMENTO DE LENITA – SALA.

Lenita e Helô estavam sentadas e se olhando mudas, enquanto Lenita tomava um copo de água com açúcar, ainda se recuperando do susto…

 

HELÔ – Ta mais calma agora amiga?

LENITA (Sorri) – Dentro do possível sim… Que saudades eu senti de você, Helô. O quanto eu esperei te rever um dia, mesmo sem saber se você iria querer me ver. (Diz pegando na mão de Helô).

HELÔ – Eu também senti muito a sua falta. Parece que arrancaram um pedaço de mim todos esses anos sem você… Agora eu to bem, to em paz, to inteira de novo… Ao lado da minha melhor amiga e irmã.

LENITA – Eu também… Você me perdoa amiga? Eu sei que você pensa que eu te trai com o Pedro, mas eu juro que não. Você entendeu tudo errado na época…

HELÔ (Interrompeu) – Eu sei. Eu acredito em você agora… Depois do que eu encontrei quando cheguei aqui, enfim, a Beatriz casada com o Pedro, eu tenho fortes razões para acreditar que ela foi a responsável por tudo. Me desculpa por não ter acreditado em você antes, Lenita. Você sempre me alertou sobre a Beatriz e eu nunca quis enxergar como ela era de verdade. Hoje eu vejo o quanto eu fui burra!

LENITA – Tudo bem Helô… A gente nunca esta preparado pra uma traição dessas, por isso nem acreditamos quando acontece. Uma pessoa que tem o nosso sangue, filho do mesmo pai e mãe, só deveria nos amar e querer bem. Mas infelizmente nem sempre é isso o que acontece… Muitos irmãos têm inveja e ciúmes do sucesso e felicidade de outros…

HELÔ – Ah mais eu vou tirar essa história toda a limpo. A Beatriz que me aguarde. Do que você se lembra daquele dia Lenita? O dia em que a Beatriz me ligou e disse que você estava me traindo com o Pedro?

LENITA – Bom eu me lembro que era na semana do seu aniversário, e a própria Bia nos propôs que fizéssemos uma festa surpresa pra você. Eu disse que você não gostava de grandes comemorações no dia do seu aniversário e mesmo assim ela insistiu. O que eu achei estranho é que ela só dava as ordens e deixava tudo pra que eu e o Pedro resolvêssemos. E sempre era só eu e ele também a nos encontramos e irmos atrás de todos os preparativos. Depois que tudo aconteceu, enfim, você achou que nós estávamos te traindo é que eu fui entender o motivo por trás da sua festa surpresa. Ela arquitetou tudo direitinho desde o começo, pra que você brigasse com o Pedro e terminasse tudo com ele.

HELÔ – Claro. Agora tudo faz sentido… E ela ainda deu sorte de você ter deixado o brinco cair lá na casa do Pedro. Quando eu vi o seu brinco lá pra mim foi como se o mundo desabasse na minha cabeça. Foi a prova que eu precisava de que vocês realmente estavam me traindo…

LENITA (Surpresa) – Peraê de que brinco você esta falando? Eu não perdi brinco nenhum na casa do Pedro. Eu dei falta de um brinco dois dias depois que eu estive na sua casa… Eu tenho quase certeza de que foi lá que eu o perdi. E eu perguntei depois pra Celina se a Maroca tinha achado um brinco meu e a própria Celina me disse que achou sim, e que perguntou pra Bia se era dela ou seu, e ela disse que era meu e que a Celina podia deixar que ela mesma me entregava…

HELÔ – Bingo! Eu não posso acreditar como a Beatriz foi tão sórdida… Ela pensou em tudo nos mínimos detalhes…

LENITA – E tem mais… No dia do concurso, foi ela também que sabotou o seu biquíni. Lembra que ele rasgou? Pois então, ela descosturou um pouco com a gilete e ele acabou de rasgar no seu corpo. Foi assim também que ela se feriu aquele dia, apertando a gilete dentro da bolsa contra a mão de tanta raiva que ela ficou de você ter ganhado o concurso…

HELÔ (Pasma) – Meu Deus! A mão dela, agora eu me lembro… A Celina me disse que ela chegou com um corte feio na mão. A Beatriz é louca… Uma louca que me odeia e capaz de tudo…

(Close em Helô perplexa).

 

CORTA PARA:

CENA 4. INTERNA |NOITE |IPANEMA – COBETURA DE BEATRIZ – SALA.

Celina espera Pedro chegar para ter uma conversa séria com ele e esta ansiosa, pois espera que ele chegue antes de Beatriz… Quando ela olha para o relógio, a porta se abre e ela respira fundo.

 

CELINA (Aliviada) – Ai que bom que é você Pedro. Eu já estava a ponto de ter uma síncope aqui te esperando…

PEDRO (Preocupado) – Aconteceu alguma coisa Celina? (Diz sentando-se ao lado dela no sofá).

CELINA – Eu não quero te assustar, Pedro. Mas vem acontecendo sim, uma coisa muito séria e que se nós não tomarmos uma atitude o quanto antes, pode nos trazer graves conseqüências… É a Liah.

Pedro ficou preocupado e esperando Celina falar…

(Closes Alternados)

 

CORTA PARA:

ABERTURA:

 

CENA 5. INTERNA |NOITE |GÁVEA – APARTAMENTO DE LEILA.

Leila não consegue dormir e vai para sala, onde encontra Betina deitada no sofá e mexendo no celular…

 

LEILA – Pelo visto não sou só eu que perdeu o sono hoje né? (Diz sentando no sofá e colocando as pernas da filha no seu colo) – Que foi filha? Você ta com uma carinha de chateada…

BETINA – Nada não mãe… É o meu karma de novo e essa mania que eu tenho de me interessar por mulheres que não sabem o que querem da vida… Eu conheci outro dia num barzinho uma mulher interessante, bonita, inteligente… Ela é médica. Eu fiquei super afim dela sabe, mas pelo que eu pude perceber, ela ficou com um pouco de receio, fingindo não ser a praia dela entende? Com certeza não se assumiu ainda, deve estar no armário. Ela é completamente insegura e apaixonante… (Comenta sorrindo) – O que eu faço dona Leila?

LEILA – Bom não tem muito o que dizer né filha? Vai em frente. Se você sentiu tudo isso nela e se acha que ela pode ter se interessado por você também, arrisque, conversa com ela. O máximo que pode acontecer é você levar um não, ai você parte pra outra, que a fila anda… Não é o que vocês jovens sempre dizem? Só toma cuidado pra não sofrer ta? Esse seu coraçãozinho inquieto, precisa aquietar-se e ser feliz… (Diz sorrindo).

BETINA – Obrigada mãe. Te amo… (Diz levantando e abraçando Leila).

 

CORTA DIRETO PARA: IPANEMA – COBERURA DE BEATRIZ – SALA.

 

PEDRO (Perplexo) – Mas como é possível isso vim acontecendo debaixo do meu nariz esse tempo todo e eu nunca percebi nada? Que tipo de pai não percebe que a sua filha esta com problemas?

CELINA – Calma Pedro… Você não tem que se culpar de nada. Esse tipo de coisa é silenciosa mesmo e difícil de notar. Principalmente nas garotas que querem emagrecer e comem escondido e depois se sentem culpadas, como é o caso da Liah. Bulimia é coisa séria, pode levar até a morte senão tratada de maneira certa, com acompanhamento psicológico, nutricional e principalmente tendo todo carinho e apoio dos pais e familiares.

PEDRO (Ri) – Pais… Você sabe por causa de quem que ela esta assim né? A Beatriz e essa mania de perseguição que ela tem com a garota. Às vezes ela chega a humilhar e tratar super mal a própria filha. Ah mais eu vou ter uma conversa muito séria com ela hoje… A Beatriz vai ter que mudar com a Liah, senão…

Nesse momento ela chega e interrompe a conversa…

BEATRIZ – Senão o que Pedro? Vamos eu estou esperando uma resposta sua…

PEDRO – Você sabia que a sua filha esta doente? A Liah graças a você e toda a sua perseguição com ela e o peso dela, esta bulímica. Ela tem ido ao banheiro freqüentemente provocar o vômito depois de todas as refeições. E eu só fiquei sabendo disso, graças a Chica e a Celina que perceberam.

BEATRIZ – E o que eu tenho a ver com isso? Que eu saiba não é crime nenhum uma mãe querer o melhor pra sua filha. Pois é o que eu faço, pegar no pé dela para que ela emagreça e viva bem e com saúde. Ou vocês não sabem que obesidade mata? Aliás ela esta entre as principais causas de morte em todo mundo, e mesmo assim as pessoas insistem em continuar gordas e feias… E vocês vem agora condenar a mim que sou mãe e zelo pela minha filha? Eu não tenho culpa da Liah ser uma fraca, não agüentar ser criticada e recorrer à maneira mais fácil e repulsiva que ela encontrou de se livrar dos problemas dela.

PEDRO (Grita) – Cala essa maldita boca, Beatriz!

O clima pesa e Celina fica sem graça…

BEATRIZ – Ta vendo só Celina, o que você causou vindo aqui na minha casa fazer fofoca?

PEDRO – Deixa a Celina fora disso. Ela veio até aqui socorrer a Liah que teve uma crise e a Chica chamou ela porque não tinha ninguém em casa.

CELINA – Bom eu vou indo Pedro. Conta comigo para o que vocês precisarem ta? Desculpa qualquer coisa e boa noite.

PEDRO – Imagina… Eu que peço desculpas Celina. E muito obrigado por tudo viu, você é um anjo nas nossas vidas. (Diz acompanhando Celina e fechando a porta) – Eu estou cansado Beatriz. Eu não vou mais permitir que você machuque a nossa filha. A partir de agora a Liah ficará sob a minha supervisão e cuidados. E assim que eu encontrar um apartamento pra morar, ela vem comigo.

BEATRIZ – Será mesmo? Muita água ainda pode rolar debaixo dessa ponte, Pedro. Se eu fosse você, não cantava vitória antes do tempo.

PEDRO – Com licença. Eu vou pro meu quarto, porque nem pra sua cara eu estou agüentando olhar mais. (Diz passando por ela e subindo as escadas).

BEATRIZ (Sorrindo) – Vai sonhando que eu vou aceitar perder fácil assim essa guerra… Vai sonhando.

 

CORTA PARA:

CENA 6. INTERNA |NOITE |BARRA – MANSÃO DE TEODORA.

Rodrigo passa pelo corredor dos quartos e encontra a porta do quarto de Débora aberta. Ela o vê passando e o chama…

 

DÉBORA – Rodrigo… Rodrigo vem aqui.

RODRIGO – O que foi dessa vez Débora?

DÉBORA – Nossa… Você bem que poderia disfarçar melhor a raiva que sente por mim.

RODRIGO – Eu não tenho raiva de você, Débora. Eu apenas esgotei a minha cota de paciência com você, só isso.

DÉBORA – Mas eu estou mudando, eu to tentando melhorar. Custa me dar uma chance?

RODRIGO – Eu estou com dor de cabeça, Débora. Vou tomar um analgésico e dormir, se é só isso que você queria me dizer, boa noite.

DÉBORA – Espera… Você não notou nada de diferente em mim? Poxa faz um esforço vai, nem é tão difícil assim. Ta na cara. (Diz sorrindo).

RODRIGO – Eu juro que não sei… E jogo de adivinhação a essa hora não dá né? Como disse eu estou com dor de cabeça e sem saco pra isso.

DÉBORA (Sorri) – Ta bom. Você ta muito chato hoje, credo! Olha a minha perna… Eu tirei o gesso hoje e estou novinha em folha.

RODRIGO – Que bom pra você. Agora vê se cria juízo nessa cabecinha… Boa noite. (Diz e sai).

DÉBORA – Boa noite. Grosso! Ai que ódio… (Esbraveja jogando o travesseira na porta e fazendo bico).

 

CORTA PARA:

CENA 7. EXTERNA |DIA AMANHECENDO |CLIPE DE IMAGENS DO RIO.

 

{Começa tocar: O Segundo Sol – Cássia Eller}

 

Cam abre em fade in – Mostrando o trânsito do Rio, os prédios, o céu, praia, calçadão, o mar… O Cristo Redentor.

 

CORTA DIRETO PARA:

CENA 8. INTERNA |DIA |COBERTURA DE ANSELMO – SALA.

 

CELINA – Maroca, por favor… Você poderia ir até o supermercado comprar umas coisinhas que estão faltando pro jantar? Hoje eu quero ir pra cozinha e você só irá me auxiliar ta bom?

MAROCA – Sim senhora. Só espero que não queira roubar o meu lugar hein, que eu morro de ciúmes da minha cozinha. (Conclui sorrindo).

CELINA – Pode ficar sossegada que isso não vai acontecer. Cozinha pra mim é hobby, lá uma vez ou outra só. Cozinhar todo dia pra mim já não é prazer e ai perde a graça. Bom, a lista de compras ta na cozinha e eu deixei o dinheiro na gaveta, é só pegar. Vai com o Elias que é mais rápido. Eu vou aproveitar que o Anselmo esta no escritório lendo jornal e vou tomar um banho de banheira com aquelas ervas, que a minha coluna ta me matando e eu preciso relaxar um pouco… Até mais. (Diz subindo as escadas).

Maroca vai até a cozinha pega tudo pra ir ao mercado e liga para Elias tirar o carro…

 

CORTA PARA:

CENA 9. EXTERNA |DIA |PRAIA DE IPANEMA.

 

{Começa tocar: I Didn’t Know My Own Strenght – Whitney Houston}

 

Helô chega à praia toda feliz, pensando em tudo que Lenita lhe disse na noite anterior e se sentindo livre e com um peso a menos na cabeça de saber que Pedro nunca a trairá com a sua melhor amiga… Ela tira os sapatos e caminha pela areia descalça, de vestido, cabelos soltos e um chapéu, só sentindo a água do mar bater em seus pés e pernas… Linda e encantadora, ela começa a chutar a água e brincar com ela… Naquele momento ela só tem um certeza: De que ama Pedro e precisa pedir desculpas a ele e tentar se acertar com o seu grande amor… Ao longe um casal com um jornal em mãos vê uma nota e começa a olhar para Helô e comentar as coisas, mas ela nem percebe. Ele sai do mar e vem caminhando em direção do casal que começa a gritar:

O CASAL: Olha é ela mesma… É a Garota de Ipanema gente. Ela voltou!

Helô fica perdida e sem saber o que fazer, e logo é engolida por uma multidão que a cerca pedindo autógrafos, beijos, abraços e fotos… Todos loucos querendo tirar fotos com ela e fazendo um milhão de perguntas. Paloma que ia passando de carro e escutou a conversa de pessoas no calçadão relacionadas a Garota de Ipanema e viu a multidão na praia, resolveu descer do carro e ver o que estava acontecendo…

PALOMA – Com licença. O que esta acontecendo, porque essa euforia toda das pessoas na praia? (Indagou a uma senhora).

SENHORA – Estão todos assim por causa da Garota de Ipanema… Você não viu no jornal? (Diz mostrando pra ela, o jornal com uma nota de Helô) – Ela finalmente voltou! Eu vou lá também tirar uma foto com ela…

Paloma olhou pra multidão em volta da tia e resolveu ir até lá para ajudá-la…

PALOMA – Dá licença gente… (Diz abrindo espaço na multidão) – Licença, não empurra… Eu to passando. Tia Helô…

HELÔ (Surpresa) – Paloma? Me da uma forcinha aqui, por favor!

PALOMA – Claro. Dá licença pessoal, por hoje chega né? Outro dia ela dá autógrafos, tira fotos e ela também vai dar uma entrevista exclusiva para Atrevida desse mês. Vocês não podem perder. Lá ela responde tudo o que vocês estão querendo saber.

Paloma foi tirando Helô com jeitinho do meio da multidão e depois que chegaram até o carro, Paloma a levou para o edifício, onde elas entraram pela garagem e depois subiram rumo ao apartamento de Paloma…

HELÔ – Nossa que loucura! Eu não esperava uma recepção dessas… Não fosse você eu não tinha conseguido sair de lá…

PALOMA – Ta vendo só como a senhora, digo você é tão querida ainda. O povo nunca te esqueceu tia. Desde que eu me conheço por gente que eu ouço falar na Garota de Ipanema… (Conclui rindo).

HELÔ (Sorri) – Eu só não sei como as pessoas me reconheceram? A entrevista que eu fiz pra revista da Teodora nem saiu ainda.

PALOMA – Mas saiu uma nota no jornal com a sua foto e tudo e tinha algumas pessoas na praia com o jornal. Deve ter sido a Teodora mesmo que soltou a nota, assim faz mais marketing pra revista depois…

HELÔ – Claro, foi isso então. Bom agora o Rio de Janeiro todo sabe que eu voltei… E o meu sossego acabou de vez. (Diz rindo).

PALOMA – Tudo tem o lado positivo e negativo né? Mas você tira de letra… Agora vem, vamos entrar e tomar café?

HELÔ – Melhor não Paloma. Eu vou aproveitar e dar uma passadinha aqui na Celina. A sua mãe pode não gostar de me ver ai e depois o nosso último encontro não foi dos mais agradáveis… Coisas de irmã, logo passa.

PALOMA – Eu entendo a minha mãe é difícil mesmo de lhe dar… Bom fica pra próxima então. Ah e eu estou esperando o seu convite pra gente sair hein?

HELÔ – Pode deixar. Eu não esqueci não, é que eu tenho estado numa eterna correria desde que cheguei ao Rio. Amanhã mesmo eu começo na clínica e depois se Deus quiser, eu voltarei a ter tempo pra mim e pra sair com você lógico. (Ri).

PALOMA – Amém!

HELÔ – Muito obrigada por tudo! Você foi um anjo minha querida. (Diz abraçando Paloma e dando um beijo no rosto dela).

Paloma retribui e as duas se encaram felizes… Elas tinham uma conexão muito boa, além de se gostarem muito e desde o começo. Helô já na porta do apartamento do pai, foi tocar a campainha, mas parou ao ver a porta entreaberta e foi entrando devagar…

 

{Começa a tocar: Complicamos Demais – Alinne Rosa}

 

Helô observava tudo a sua volta… A sala, os móveis, e várias recordações lhe vinham a mente. Ela começou a viajar e rever em flashbacks sua adolescência no apartamento com a irmã. As duas correndo pela sala, brincando de desfilar, fazendo cabelo e pintando as unhas… (Helô chegou a se emocionar com as suas lembranças) – Ela via o pai e Celina conversando, ele ficando bravo com elas… Maroca entrando e falando que o almoço estava servido. Como era bom, poder recordar tudo aquilo… (Pensou ela ainda emocionada) – Helô estava tão distraída em seus pensamentos que nem percebeu que o seu pai sairá do escritório e a observava surpreso e estático…

 

{Começa tocar: Instrumental Emoção}

 

ANSELMO (Com receio) – Quem é a senhora? Quem foi que deixou você entrar aqui?

Helô nesse momento fica gelada… Ela sente o corpo todo ficar duro e sem reação. Ela estava diante de seu pai, que ela não via há mais de vinte anos e que dissera pra ela antes de partir que ela havia morrido pra ele… Ela nunca conseguiu esquecer aquelas palavras e no fundo estava tentando adiar esse reencontro o máximo que pudesse, mas agora era inevitável. Era chegada a hora e ela iria enfrentar esse momento de cabeça erguida… Lentamente ela foi virando e ficou cara a cara com o pai, que não a reconheceu…

ANSELMO (Sério) – E então? Eu estou esperando uma resposta sua… Como foi que você entrou aqui?

HELÔ – Eu encontrei a porta aberta… O senhor não esta me reconhecendo? Sou eu pai… A Helô.

Anselmo parecia não acreditar no que acabará de ouvir… Ele arregalou os olhos e ficou transtornado…

ANSELMO (Perplexo) – A minha filha Helô morreu… Eu só tenho uma filha agora, a Beatriz. Eu não sei quem você pensa que é, mas também não me interessa nem um pouco. Saia da minha casa agora, antes que eu chame a polícia. Eu disse… Agora! (Grita).

Helô se assusta, mas fica parada…

HELÔ (Suplica) – Pai, por favor! Não faz assim… Sou eu, me perdoa.

Anselmo nesse momento perde a cabeça e vai até Helô e a pega pelo braço…

ANSELMO – Não vai sair por bem, vai sair por mal. Sai da minha casa, sua perdida… (Diz abrindo a porta e a colocando pra fora) – E não volte aqui nunca mais, entendeu? Eu não reconheço você, pra mim você não é ninguém… Rua! (Grita e bate a porta).

Helô começa a chorar descontroladamente… Ela chega a perder as forças da perna e cai no chão. Depois vai se apoiando na parede e se levantando e vai embora…

 

CORTA DIRETO PARA: SALA.

Anselmo esta baqueado e chora também… Ele revê a cara de Helô na sua mente e se emociona muito… E a emoção é tão forte que ele sente fortes pontadas no peito e imediatamente leva a mão ao coração. Ele tenta se arrastar até o sofá e chamar Celina, mas sua voz sai muito fraquinha e ele acaba caindo…

 

CORTA PARA: COBERTURA DE BEATRIZ – SALA.

 

BEATRIZ – Chica… Chica.

CHICA – Que foi dona Beatriz? (Indaga vindo apressada).

BEATRIZ (Com nariz empinado) – Isso são modos de me tratar? Que foi dona Beatriz? Eu não sou suas colegas de bingo não. É… Sim, senhora Beatriz?

CHICA – Claro. Me perdoe…  O que a senhora deseja?

BEATRIZ – Se a Estela me ligar diz pra ela que em uma hora eu estarei lá na Garota de Ipanema, ok? Eu antes tenho que passar no apartamento do meu pai, pra imprimir uns documentos. Porque pra variar a tinta da impressora daqui de casa acabou e ninguém se lembrou de repor… Vou te falar viu, é tudo eu nessa casa… Não esquece o recado hein, tchau.

Beatriz subiu e ao chegar no apartamento do pai encontrou a porta aberta…

BEATRIZ – Mas vocês não aprendem mesmo hein? Porta aberta com toda essa violência? É pedir pro bandido entrar mesmo, só pode. Ô de casa, Celina, Maroca… Cadê todo mundo?

Nesse momento Beatriz vê o pai caído no chão e mal conseguindo falar, Anselmo estende a mão para a filha pedindo ajuda…

BEATRIZ (Desesperada) – Pai! O que foi que aconteceu? Fala comigo… Eu vou pedir socorro. Agüenta firme pai, por favor! (Diz pegando o celular e começa a ligar pra ambulância) – Fica comigo pai, vai ficar tudo bem. (Suplica chorando).

Beatriz nervosa deixa o celular cair no chão e ouve o pai dizer baixinho:

ANSELMO – Helô…

BEATRIZ – Que foi pai? O que o senhor disse?

ANSELMO (Com dificuldade) – Helô…

Nesse momento Beatriz se transforma e parece não acreditar no que ouve…

BEATRIZ – Como é que é? Eu estou aqui do seu lado, preocupada em te socorrer e o senhor chama pela Helô? Qual é o problema do senhor comigo hein? Será que até na beira da morte, é só dela que você lembra? Seu velho miserável! (Grita).

Anselmo insiste em estender a mão para Beatriz com lágrimas saindo dos olhos, mas ela agora se nega a ajudar o pai…

BEATRIZ (Fria) – Pois pra mim o senhor pode ficar agonizando ai no chão até a morte. (Diz se levantando e limpando o rosto) – Pra mim o senhor não vai fazer falta nenhuma. Nunca fez questão de ser um pai pra mim mesmo, só pra Helô. O tempo todo a Helô… Agora vai morrer chamando por ela também. E eu espero do fundo do meu coração… Que o senhor vá para o inferno, que é o que você merece. Boa morte e adeus…

Diz saindo sem olhar pra trás e batendo a porta. Anselmo arregala os olhos e depois os fecha, deixando o braço cair e ficando desacordado no chão…

 

FIM DO CAPÍTULO.

(A imagem congela. Depois se transforma em um cartão postal, jogado sobre Ipanema).

{O capítulo se encerra com a música: Love Me Like You Do – Ellie Goulding}.

Eduardo Moretti

Um cara do bem, romântico, sonhador, apaixonado pela vida e que ama o que faz... "Escrever para mim, é deixar de ser criatura para ser criador."

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