Garota de Ipanema – Capítulo 20

Garota de Ipanema – Capítulo 20

 

NOVELA DE: EDUARDO MORETTI

 

(CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO ANTERIOR)

 

{Tocando: O Segundo Sol – Cássia Eller}

 

Paloma e Rodrigo continuam segurando a porta do carro e se encarando…

OS DOIS – Eu vi primeiro, esse táxi é meu! (Dizem em uníssono).

PALOMA – Não. Eu dei sinal primeiro, ele parou foi pra mim. (Diz tentando abrir a porta).

RODRIGO – Negativo. Eu estava parado a sua frente, e também dei sinal… Ele parou pra mim. (Diz fechando a porta).

Os dois permaneceram com a mão na porta e não tiravam de jeito nenhum…

TAXISTA (Impaciente) – E ai como é que é? O taxímetro ta rodando… Quem vai? (Diz olhando pra fora do carro).

OS DOIS – Eu! (Dizem ao mesmo tempo de novo e depois se encaram com raiva).

PALOMA (Séria) – Escuta aqui rapaz, eu estou parada aqui faz um tempão e só agora consegui pegar esse táxi. Eu tenho um compromisso e já estou atrasada, portanto quer fazer o favor de me deixar entrar nesse táxi?

RODRIGO (Debochado) – Mas nem pensar! Metida você hein… Ta se achando a rainha da cocada preta? O que te faz pensar que eu também não tenha um compromisso e que eu não esteja tão atrasado quanto você?

PALOMA (Ri) – Ah para vai… Ta na cara que você é um filhinho de mamãe que não tem nada pra fazer, deve ter deixado o carro importado na revisão, ou é um péssimo motorista e bateu com ele. E que agora esta tentando roubar na cara dura o meu táxi! O meu compromisso sim é importante, caso de vida ou morte.

RODRIGO (Irônico) – Porque você é médica? Não tem cara viu… Deve ser uma filhinha do papai fresca, que ta indo bater perna no shopping. Eu sim tenho mais o que fazer do que ficar perdendo o meu tempo discutindo com você.

PALOMA – Mas é um grosso mesmo, cretino! Larga desse táxi agora ou eu não respondo por mim…

RODRIGO – Não largo. Quero vê quem vai me fazer largar…

TÁXISTA – Já vi que isso vai longe… (Diz e começa a buzinar impaciente) – Se vocês não vão decidir eu vou embora.

OS DOIS – Cala a boca! E espera.

RODRIGO – Bom se você não vai largar esse táxi e muito menos eu… Eu só vejo uma saída.

PALOMA – Qual? (Indaga curiosa).

RODRIGO – Nós dividirmos ele. Pra onde você vai?

PALOMA – Eu não divido táxi com estranhos…

RODRIGO – Mas você também não colabora, meu Deus do céu! Escuta eu vou pra Barra, por acaso você vai pelo mesmo caminho?

PALOMA – Não que isso seja da sua conta, mas eu paro antes… Eu vou pra Gávea.

RODRIGO – Então nós dividimos o táxi. O motorista te deixa primeiro e eu sigo em frente. O que me diz?

PALOMA – Por mim tudo bem. Eu não tenho outra escolha mesmo. (Diz dando de ombro).

TÁXISTA – Pronto. Já se decidiram, agora entrem.

Os dois soltam a porta e Paloma entra, abrindo espaço para Rodrigo que entra logo depois…

TÁXISTA – Se não tivessem perdido tanto tempo discutindo, teriam notado que passou pelo menos uns três táxis, nesse tempo todo. E vocês não iam precisar dividir o meu agora. (Comenta rindo e balançando a cabeça).

Paloma e Rodrigo se encaram e depois riem da situação…

 

CORTA PARA:

CENA 1. INTERNA |DIA |COBERTURA DE ANSELMO – ESCRITÓRIO.

 

CELINA – Bom dia meu amor. Eu nem vi você levantar hoje…

ANSELMO – Você estava na cozinha quando eu desci.

CELINA – Anselmo, eu preciso falar com você. É um assunto muito sério e que precisamos resolver logo.

ANSELMO (Preocupado) – Desse jeito eu fico preocupado, Celina. O que é? Tem alguém doente?

CELINA – Não. Graças a Deus, estão todos bem de saúde. Bom é sobre a Helô… Ela voltou.

ANSELMO (Surpreso) – O que? Quem é Helô? Eu não conheço nenhuma Helô e não quero falar sobre isso… (Diz fechando o jornal e saindo do escritório).

CELINA (Brava) – Pode negar e fugir o quanto quiser, seu velho tinhoso. Mas uma hora você vai ter que enfrentar a realidade…

 

CORTA PARA:

CENA 2. EXTERNA |DIA |RUAS DO RIO – TÁXI.

Há caminho de seus compromissos e já num clima mais amistoso, Paloma e Rodrigo começam a conversar…

 

RODRIGO – Eu sou arquiteto. Me formei tem seis meses e comecei a trabalhar na área há uma semana… Eu tive um contratempo e não pude ir trabalhar por dois dias seguidos, e justo hoje que eu queria chegar mais cedo pra compensar, o meu carro deu problema e eu precisei pegar um táxi… Foi por isso que eu estava brigando por ele, com todas as minhas forças. (Concluiu sorrindo).

PALOMA – Parabéns pelo emprego e a sua conquista. Agora eu vejo que você estava brigando pelo táxi por uma causa justa. (Ri) – A minha história é longa, mas resumindo… Eu finalmente consegui fazer a minha tão sonhada faculdade de moda, eu quero ser estilista e vai ter uma palestra hoje na facul com a Glorinha Kalil, ela manda super bem em moda e eu não queria perder isso por nada… Pode não parecer tão justa a minha causa como a sua, mas foi pelo meu sonho que eu lutei com unhas e dentes por esse táxi.

RODRIGO – E quem disse que a sua causa não é justa… Só porque você estuda moda? Todo sonho, e tudo que nos motiva a levantar cedo da cama, e apesar de todos os problemas da vida, continuar seguindo em frente, vale muito a pena e merece respeito.

Os dois se encaram por alguns segundos e sorriem… O taxista que acompanha tudo através do espelho do carro, só sorri e balança a cabeça… E logo depois para o carro, em frente à faculdade de Paloma.

TÁXISTA – Chegamos senhorita.

Só então os dois voltam a si…

PALOMA – Nossa eu nem me dei conta, foi à corrida mais rápida que já fiz. (Sorri) – Quanto eu devo pro senhor? (Indaga ao taxista).

TÁXISTA – Vinte e cinco reais.

Paloma tira trinta reais da carteira e entrega ao motorista…

PALOMA – Aqui. Pode ficar com o troco… Bom apesar das circunstâncias iniciais, foi um prazer dividir o táxi com você. (Fala sorrindo e estendendo a mão para Rodrigo, que pega na mão dela e a olha sério).

RODRIGO (Sorri) – Sabe que eu já nem me lembrava mais das circunstâncias iniciais como você mesma disse… E o prazer foi todo meu em dividir o táxi com você… Me desculpa qualquer coisa.

PALOMA – Que isso. Você também, me desculpa ta? Ah e eu me chamo Paloma… Provavelmente a gente não vai se ver mais e eu te desejo muitas felicidades.

RODRIGO – Quem disse que a gente não vai se ver mais? O Rio de Janeiro é uma ilha, onde mais cedo ou mais tarde a gente sempre acaba se esbarrando por ai, tudo pode acontecer… (Diz sorrindo) – Prazer. Eu sou o Rodrigo.

 

{Começa a tocar a música: O Segundo Sol – Cássia Eller}

 

Paloma sorriu pra ele, e depois eles soltaram-se das mãos bem devagar…

PALOMA – Bom, então tchau… Até um dia quem sabe…

RODRIGO – Até qualquer dia… Até breve.

Os dois sorriram e Paloma saiu do carro… E olhou para trás antes de entrar na Faculdade, e Rodrigo também foi acompanhando ela o quanto pode, até que o carro seguisse em frente.

 

CORTA PARA:

CENA 3. INTERNA |DIA |CLÍNICA DE MÉDICOS ASSOCIADOS – CONSULTÓRIO DA DRA. FLÁVIA.

Na sala de espera do consultório, Lenita esperava ansiosa a sua consulta, enquanto Leila tentava acalmá-la…

 

LEILA (Sorrindo) – Você já viu e reviu essa revista pelo menos umas cinco vezes… Você esta nervosa né?

LENITA (Risos) – Ta na cara né? Normalmente eu sou tão corajosa e bato de frente diante aos problemas, mas eu confesso que nessa situação eu estou muito nervosa e insegura.

LEILA – Também não é pra menos né amiga? É uma grande mudança na sua vida. (Diz pegando na mão de Lenita, dando forças pra ela).

SECRETÁRIA – Lenita. Vamos lá?

Lenita e Leila se olham…

 

CORTA DIRETO PARA CONSULTÓRIO:

 

DRA. FLÁVIA – Bom a pergunta que eu sempre costumo fazer nesses casos Lenita é a seguinte: Você esta preparada pra ser mãe solteira nessas condições?

LENITA – Eu estou sim, doutora. É o meu maior sonho ser mãe.

DRA. FLÁVIA – Bom então deixa eu te explicar melhor quais são as opções no seu caso. Eu tenho duas na verdade, a Inseminação Intra-uterina e a Fertilização In Vitro. Para a inseminação intra-uterina, os espermatozóides do doador anônimo são depositados na cavidade uterina da paciente, facilitando o encontro dos gametas e, conseqüentemente, a formação do embrião. E pra que essa técnica dê certo, primeiro é indicado fazer uns exames nas trompas, para descartar qualquer tipo de obstrução. Já a in vitro é a mais indicada, visto que ela apresenta maiores chances de gravidez…

A doutora explicou tudo direitinho para Lenita, que questionou tudo que pode e ficou de fazer uns exames, pra depois decidir qual seria o melhor caminho e escolher um doador anônimo baseado nos dados da clínica…

 

CORTA PARA:

CENA 4. INTERNA |DIA |ATELIÊ – GAROTA DE IPANEMA.

 

BEATRIZ – Marta então é isso… Aqui estão os croquis da nova coleção verão moda praia, e vocês tem vinte dias para produzir tudo. Inclusive eu quero que sejam feitos três modelos de cada croqui, pra que fiquem de reserva caso haja algum acidente. Fui clara?

MARTA – Sim dona Beatriz. Mas em vinte dias? É um prazo muito curto, eu não sei se daremos conta.

BEATRIZ – Se vira. Eu não quero saber se vocês terão que trabalhar dezoito horas por dia, eu quero essa coleção pronta em vinte dias. Sou eu quem paga o salário de vocês, portanto eu mando e vocês obedecem. E ai de vocês se tudo não tiver pronto no prazo. Agora ao trabalho.

 

CORTA PARA:

CENA 5. EXTERNA |DIA |CLIPE DE IMAGENS DO RIO.

 

{Começa a tocar: O Barquinho – Paula Toller}

 

Cam – Mostra imagens do Rio: Montanhas, praias, trânsito, calçadão, prédios… Fachada de um restaurante.

 

CORTA DIRETO PARA – RESTAURANTE SABOR BRASILEIRO.

Paloma e Betina estão almoçando e Betina percebe o olhar distraído da amiga.

 

BETINA – Que foi que aconteceu hein Paloma? Você esta longe, com a cabeça lá em marte eu diria… Tem também esse sorrisinho no canto da boca, você esta estranha… Ai meu Deus, já sei! Você conheceu alguém, é isso? Me conta tudo agora.

PALOMA (Sorrindo) – E desde quando a gente precisa conhecer alguém pra estar de bem com a vida hein? Há tantos outros motivos pra gente sorrir…

BETINA – Realmente não precisa, mas essa sua cara de quem viu passarinho verde não me engana… Qual o nome dele?

PALOMA (Ri) – Não é nada demais, eu só dividi um táxi com ele hoje cedo. No começo foi engraçado, a gente brigou pra ver quem ficava com o táxi. Travamos uma batalha mesmo, precisava ver… Depois a gente foi conversando e se conhecendo melhor, acabou que ficamos amigos, ele parece ser um cara do bem… O nome dele é Rodrigo.

BETINA (Irônica) – Nossa que história maluca, você tem certeza de que foi tudo isso mesmo que aconteceu? Porque contando ninguém acredita.

PALOMA – Deixa de ser boba Betina… É claro que aconteceu. E eu concordo com você, parece história que a gente vê em filme ou novela mesmo. Eu senti algo especial quando estava com ele, depois de passada as primeiras impressões, sabe. Mas acho que dificilmente eu irei cruzar com ele de novo, quer dizer quais são as chances?

BETINA – Milhares minha querida… Vocês podem se esbarrar de novo em qualquer lugar ou esquina a qualquer momento. Até mesmo quem sabe num táxi de novo. O Rio de Janeiro como dizem é uma ilha.

PALOMA (Ri) – Engraçado, ele me disse a mesma coisa quando eu mencionei que a gente não se veria tão fácil… O Rio de Janeiro é uma ilha.

BETINA – Ta, mas nós estamos em pleno século vinte e um, você sabe né? Me diz que você pegou o telefone dele, e-mail, alguma rede social…

PALOMA – Não.

BETINA – Eu não acredito Paloma, em que mundo você vive garota?

PALOMA – Não no seu lógico. Você acha que eu vou sair por ai pedindo telefone do rapaz, Betina? A gente se conheceu dividindo um táxi e nada mais. Ta certo que ele foi agradável depois, que eu senti um clima, mas foi só isso. Depois cada um seguiu o seu caminho e ponto.

BETINA – Ta ok. Você é quem sabe, mas as oportunidades aparecem que é justamente pra gente aproveitar… E quer saber o que acontece se não aproveitamos? A gente quase sempre se arrepende depois, mas ai já é tarde né?

Paloma bebeu o suco e ficou pensativa…

 

CORTA PARA:

 

CENA 6. INTERNA |NOITE |APARTAMENTO DE FLÁVIA.

 

{Tocando: Como Vai Você – Daniela Mercury}

 

FLÁVIA – Nossa que saudade que eu estava desse seu macarrão amiga… É de comer rezando e de joelhos.

HELÔ – Obrigada. Eu fui ver uns móveis hoje à tarde para o meu novo consultório… (Diz pegando o pratos e tirando a mesa).

FLÁVIA – E comprou tudo já? Não senhora! O que você pensa que ta fazendo Helô? O combinado foi você cozinha e eu lavo, pode deixar essa louça toda ai… Você devia ter esperado que eu ia junto com você amiga, eu tenho a tarde livre amanhã.

HELÔ – Eu não queria te incomodar, você também tem suas coisas pra fazer… Depois eu já comprei tudo e combinei com eles de entregarem depois de amanhã na clínica. Ai eu já vou decorando tudo esse resto de semana e na segunda feira eu já começo a trabalhar, se Deus quiser!

FLÁVIA – Amém!

HELÔ – Bom eu vou aproveitar que você vai lavar a louça então e vou sair um pouco. Fazer uma coisa que eu estou louca pra fazer desde que cheguei e ainda não tive tempo… Ir à praia, ver o mar, caminhar na areia, sentir a água do mar batendo no meus pés e refletir sobre a nova fase da minha vida… E nada melhor do que olhar para o mar nessas horas e refletir sobre a vida. O mar causa esse efeito psicológico na gente né? Além de ser um excelente conselheiro.

FLÁVIA – Tem mesmo. Depois ta uma noite tão linda… Vai mesmo, vai arejar um pouco.

HELÔ – Até mais tarde então. Beijo…

FLÁVIA – Até.

 

CORTA PARA:

CENA 7. INTERNA |NOITE |COBERTURA DE BEATRIZ – SUÍTE MASTER.

Beatriz que não quis jantar, esta lendo um livro na cama, quando Pedro entra no quarto…

 

PEDRO – A Chica disse que você não queria jantar, esta com dor de cabeça?

BEATRIZ – Sim. Aquela maldita enxaqueca, mas até que dessa vez ela não esta tão forte. Eu também já tomei remédio, daqui a pouco ela passa…

PEDRO – Quer que eu peça pra Chica fazer alguma coisa pra você… Uma sopa, um chá com torradas?

BEATRIZ – Deus me livre! Eu odeio sopa, chá com torradas, enfim… Tudo que me lembre hospital. (Sorri) – Mas obrigada por perguntar mesmo assim. Você vai sair? (Indaga ao vê-lo trocando de roupa)

PEDRO – Vou dar uma arejada um pouco… Ta uma noite tão linda fora. Mas eu não vou demorar, eu só vou descer e ir até a praia um pouco, ver o mar…

BEATRIZ (Ri) – Eu acho tão engraçado essa mania que você e muitas pessoas tem de dizer que o mar é relaxante, que transmite paz, calmaria… Eu não tenho essa sensação. Pra mim, o mar é pra gente ir e dar um mergulho, depois sair tomar sol, ai depois de um tempo, vai e da um mergulho novamente e assim por diante, até cansar de ficar na praia e ir embora… Se eu tivesse boa, eu iria com você…

PEDRO – Deixa pra outro dia né? Quando você estiver melhor. Agora procure descansar, no máximo em vinte minutos, meia hora eu estarei de volta. Boa noite. (Diz dando um beijo na testa de Beatriz, que chegou a mover o rosto pensando que ele lhe daria um beijo na boca).

BEATRIZ – Boa noite. Não demora ta? (Disse fechando o livro e se deitando com o olhar preocupado).

 

CORTA PARA:

CENA 8. INTERNA |NOITE |CASA DE RODRIGO – QUARTO.

 

{Tocando: Pra Te Lembra – Luiza Possi}

 

Débora entra no quarto com o apoio das muletas e encontra Rodrigo deitado com o olhar perdido e sorrindo…

DÉBORA – Nossa eu pedi tanto pra você me esperar pra gente subir junto, e você me carregar no colo… O César que me trouxe no colo até aqui. Poxa, Rodrigo eu fico chateada com essas suas atitudes sabia? É seu dever de namorado, de noivo e não do César… Não vai falar nada? Você esta me ouvindo… Rodrigo! (Grita).

RODRIGO (Assustado) – Que foi aconteceu alguma coisa?

DÉBORA (Tom) – Aconteceu que eu estou falando com você há horas e você não me escuta. Ainda por cima me deixou plantada lá embaixo depois do jantar e nem esperou pra me trazer… O César que me carregou até aqui. Você podia ter um pouco mais de consideração com a sua noiva, poxa.

RODRIGO – Ta bom me desculpe. Também não precisa fazer tempestade em copo d’água. Hoje que eu voltei pro trabalho, foi uma correria o dia todo, trabalhei em projetos atrasados que tem um prazo a serem cumpridos, enfim… Foi estressante.

DÉBORA (Sarcástica) – Interessante… Mas alguma coisa fora todo o estresse te fez sorrir mesmo assim nesse dia estressante, como você mesmo disse… Eu percebi assim que entrei no quarto, o seu olhar perdido, um sorrisinho nos lábios, você nem sequer ouviu eu te chamando. Eu não sei em que planeta você estava, mas você estava longe, bem longe daqui. E por mais que eu tente me controlar, eu não consigo me conter de tanta curiosidade… Me fala qual o motivo desse seu sorriso cínico e olhar perdido? Que foi que aconteceu hoje pra te deixar assim tão bobo?

RODRIGO (Tom) – Ah não, eu não estou acreditando nisso Débora. Tem uma semana que você se arrebentou num acidente por causa desse seu ciúmes doentio e pelo visto você não aprendeu nada não é mesmo? (Disse se levantando da cama e abrindo o closet, de onde começou a tirar umas roupas) – Será que até o meu pensamento agora você quer controlar? Pois eu te digo não! Você esta me ouvindo? Na minha cabeça, no que eu penso, você não vai entrar. Respeite a minha privacidade e os meus sentimentos, por favor!

DÉBORA – Pois fique o senhor sabendo que eu tenho todo direito de saber sim, o que se passa na cabeça do meu noivo, quando ele esta se comportando diferente e com um sorriso juvenil bobo estampado no rosto… Ou você acha que eu não sei quando um homem esta de olho em outra mulher, hein? (Grita) – Isso se já não chegou às vias de fato e esta me traindo… Quem é ela? Me diz quem é ela? (Indaga indo pra cima dele, quase chorando).

RODRIGO – Para com isso Débora, você esta com a perna engessada. Você pode tirar isso fora do lugar de novo… (Mas ela insistia) – Chega! (Gritou por fim) – Vê se para de se comportar como uma menina mimada, louca e neurótica! Eu não agüento mais… Eu vou me mudar para o quarto de hóspedes e amanhã ou depois quando você esfriar essa sua cabecinha, nós voltamos a conversar e pra colocar um ponto final de uma vez por todas nessa história.

Débora se joga na cama e começa a chorar descontroladamente…

RODRIGO – Eu não te agüento mais Débora… Ninguém nessa casa te agüenta mais, a convivência com você esta sendo insuportável. E se eu estava longe daqui, perdido em meus pensamentos quando você entrou por aquela porta, é porque qualquer lugar no mundo, ainda que seja no pensamento… Tem sido melhor do que ficar ao seu lado. Boa noite. (Diz e sai do quarto, batendo a porta).

DÉBORA (Descontrolada) – Seu idiota, ridículo… É isso que você é, um ridículo! Você vai se arrepender de me tratar assim, pode esperar. (E volta a chorar, enfiando a cara no travesseiro).

 

CORTA PARA:

 

CENA 9. EXTERNA |NOITE |PRAIA DE IPANEMA.

 

{Começa a tocar: Everything I Own – Bread}

 

Helô caminhava na praia descalça, sentindo seus pés afundarem na areia, enquanto a água do mar batia em suas pernas… Que sensação maravilhosa poder sentir o mar de novo. – (Pensou em off). Uma sensação da qual ela jamais se esqueceu… Ainda absorta em seus pensamentos, ela começou a pensar em Pedro e em tudo o que eles viveram anos atrás naquela mesma praia… Helô se abaixava e pegava a água do mar com as mãos e molhava o rosto e seus cabelos. Ela estava tão distraída que nem percebeu Pedro ao longe se aproximando cada vez mais. Pedro estava emocionado e com as pernas trêmulas, de algum modo ele sabia em seu coração que aquela mulher era Helô, o seu grande amor de vinte e dois anos atrás, que agora estava ali na frente dele, a poucos metros de distância… Como ele esperou por aquele momento. Uma vida inteira. Quando estava bem perto, ela percebeu e olhou rapidamente assustada pra ele… Foram alguns segundos calados, somente se encarando. Helô parecia não saber de quem se tratava, mas foi só olhar nos olhos dele bem fundo e sentir a emoção que ele estava sentindo, que ela caiu em si e também se emocionou, rendendo-se ao choro e segurando o peito… O seu coração parecia que ia explodir…

PEDRO (Emocionado) – Helô… Meu amor! (Disse caindo de joelhos).

Helô foi até ele devagar e também se ajoelhou, o abraçando logo em seguida e chorando junto com ele…

HELÔ – Sou eu meu amor… Quanto tempo, meu Deus!

Pedro segurou o rosto de Helô e olhou bem para ela. Ele parecia não acreditar no que estava acontecendo…

PEDRO – Me perdoa, por favor! Eu te amo… Eu nunca te esqueci minha Garota de Ipanema… Me perdoa. (Falou e beijou-a intensamente).

Helô tentou resistir no começo, mas depois rendeu-se ao beijo que na verdade ela esperava sentir de novo há mais de vinte anos… Nada mais importava, nem ninguém, só aquele momento, só aquele beijo e se deixarem viajar nele, como se fosse à primeira vez… Os dois estavam tão distantes que nem perceberam alguém se aproximando e os observando, ajoelhados de frente um paro outro, se beijando loucamente, na beira da praia, molhados pela água do mar, sob a luz do luar… Eles só voltaram a si depois que ouviram um barulho. Na verdade eram palmas que alguém batia pra eles…

HELÔ (Surpresa) – Beatriz? O que você esta fazendo aqui?

BEATRIZ (Irônica) – Parabéns para os pombinhos… (Continua batendo palmas) – Eu sabia que no fundo o verdadeiro motivo de você ter voltado, na verdade era por causa dele. Não foi por mim, nem pelo papai ou pela Celina… Mas por ele, por causa dele. Você sempre me decepcionando Helô… E eu boba, acreditando sempre. E você hein Pedro, que papelão ridículo… Um homem de família, casado, pai de duas meninas se prestando a esse tipo de papel, que já não cabe mais a você há muito tempo… O papel de jovem inconseqüente e apaixonado, que vem encontrar a sua garota na praia e se entrega pra ela de corpo e alma… Mais um pouco e eu seria obrigada a jogar água pra separar os dois… Que nojo eu tenho de vocês… (Diz com lágrimas nos olhos).

Pedro e Helô se levantam e ele vai até Beatriz tentando apaziguar as coisas…

PEDRO – Por favor! Aqui não Beatriz…

BEATRIZ (Grita) – Me solta! Não encosta em mim, seu traidor miserável…

Helô estava confusa, sem reação e chegando perto deles, indagou:

HELÔ – Alguém quer fazer o favor de me explicar o que esta acontecendo aqui?

BEATRIZ – Ah você ainda não entendeu minha querida… Eu explico pra você. Você estava beijando o meu marido… Surpresa? Foi isso mesmo que você ouviu. O Pedro agora é meu marido. Nós somos casados há quase vinte e dois anos! Ta bom pra você? (Pergunta cínica).

Helô fica chocada com a notícia e olha espantada para Pedro que sem conseguir encará-la, abaixa a cabeça… Helô olha para a irmã com os olhos cheios de água, enquanto Beatriz sorri pra ela com cara de ódio.

 

(Cam – Close em Beatriz, depois em Helô).

 

 

FIM DO CAPÍTULO.

(A imagem congela. Depois se transforma em um cartão postal, jogado sobre Ipanema).

{O capítulo se encerra com a música: Everything I Own – Bread}.

Everything I Own - Bread (Tema de Helô e Pedro)

Eduardo Moretti

Um cara do bem, romântico, sonhador, apaixonado pela vida e que ama o que faz… “Escrever para mim, é deixar de ser criatura para ser criador.”