Garota de Ipanema – Capítulo 17

Garota de Ipanema – Capítulo 17

 

NOVELA DE: EDUARDO MORETTI

                                      

 (CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO ANTERIOR).

 

CENA 1. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE BEATRIZ – SALA.

 

HELÔ (Preocupada) – Me ajuda senhora. Me vê um pouco de álcool… (Diz a Chica que vai buscar correndo).

Helô ainda emocionada começa a rir da situação… Como era bom rever Maroca, pensou. Ela só esperava que todos fossem assim também. Chica voltou trazendo o litro de álcool e entregou para Helô, que o destampou e logo em seguida, o aproximou do nariz de Maroca, que foi voltando com o cheiro forte entrando por suas narinas.

 

{Instrumental Emoção}

 

MAROCA – Virgem Maria do Céu! Eu não estou acreditando no que os meus olhos estão vendo… É você mesma Helô?

HELÔ (Ri) – Claro que sou eu sua boba… Eu sei que demorou muito tempo, mas eu voltei pra te ver…

Nesse instante, Maroca se levanta e abraça forte Helô, e as duas caem no choro enquanto se abraçam e se olham com ternura… Elas parecem que viajam no tempo e nem percebem quando Celina chega…

CELINA – Maroca, eu estou entrando. A Beatriz já saiu? Eu vim ver com a Chica se ela tem… (Para de falar ao notar Maroca abraçada a uma mulher e chorando muito) – Que foi que aconteceu Maroca? (Indaga preocupada).

Maroca nada fala e continua chorando… Helô se vira para Celina e a olha também chorando. Ela fica sem entender o que esta se passando, mas sente uma emoção muito forte ao olhar para aquela desconhecida como se a conhecesse de algum lugar… Por fim, ela acaba reconhecendo Helô…

CELINA (Emocionada) – Ai meu Deus… Não pode ser! (Diz levando a mão na boca) – Helô! A minha menina voltou… (Fala indo até ela e abraçando-a).

Elas ficaram abraçadas um tempão, depois Maroca se levantou e juntou-se a elas num abraço triplo…

 

CORTA PARA:

CENA 2. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE ANSELMO – SALA.

Anselmo já estava desinquieto com a demora de Celina, enquanto lia o seu jornal.

 

ANSELMO – E a Celina que não vem… Vai aos lugares e esquece da vida. Eu detesto isso, se ela demorar mais um pouco eu vou buscá-la. (Diz virando a página do jornal).

 

CORTA PARA:

CENA 3. INTERNA |TARDE |HOSPITAL.

Teodora e Débora conversam, e Teodora pressiona a nora sobre suas atitudes…

 

TEODORA – O Rodrigo não é por ser meu filho não, mas ele é um rapaz muito bom, muito paciente… Mas acredite, até a paciência dele tem limites. Se fosse a minha, por exemplo, eu já teria perdido há muito tempo. Você ultrapassou todos os limites dessa vez Débora, com o seu ciúmes e neuroses…

DÉBORA – Mas eu amo o seu filho, Teodora. Eu sou louca por ele.

TEODORA (Ri) – Me desculpe, mas amar significa confiar e respeitar o outro. E você não confia e nem respeita o Rodrigo. Ta sempre desconfiada, vendo traição onde não tem… Vive armando escândalos e barracos o tempo todo. Assim não há homem que te agüente minha filha, nem mesmo o Rodrigo e por mais paciente que ele possa ser. O fato de você estar ai, em cima de uma cama de hospital, toda quebrada é prova disso… Você se da conta Débora, de que foi o seu ciúmes doentio que te colocou aqui, num hospital? E que uma hora dessas você poderia estar morta e enterrada? Isso senão tivesse levado o meu filho junto né, por que agora é só o que esta faltando… Você cometer um crime passional, matando o Rodrigo.

DÉBORA – Eu jamais seria capaz de matar o homem que eu amo. Eu errei sim, agi sem pensar, confesso. Mas eu peço desculpas e prometo me redimir de agora pra frente.

TEODORA – As suas promessas já não tem valor há muito tempo minha querida… Comece prometendo menos e agindo mais. Sabe, eu gosto de você Débora de verdade… Eu conheço você desde pequena, sou amiga dos seus pais, e na ausência deles, eu me sinto responsável por você. Mas outra dessas que a senhora me aprontar, eu te coloco pra fora de casa e te despacho no primeiro vôo pra França sem pensar duas vezes… E você fica morando lá de vez com os seus pais. Fui clara?

DÉBORA – Sim senhora. Eu vou mudar e, mas uma vez me desculpe por tudo.

TEODORA – É ao Rodrigo que você deve desculpas e não a mim. Ele esta agora nesse exato momento conversando com o chefe dele, com quem ele estava almoçando no dia do acidente quando você chegou lá e o resto você já sabe né? Enfim, ele foi ver como fica a situação dele agora na empresa, e eu só espero que ele não seja demitido por sua causa… Bom, é isso. Eu espero que você pense e reflita melhor nas burradas que você anda fazendo, e principalmente em tudo que esta em jogo. (Diz se aproximando da nora e dando-lhe um beijo no rosto) – Eu estimo suas melhoras. Tenha um bom dia. Tchau.

Teodora saiu sem olhar para trás, enquanto Débora ficou pensativa…

 

CORTA PARA:

CENA 4. EXTERNA |TARDE |CLIPE DE IMAGENS DO RIO.

 

{Começa a tocar: O Barquinho – Paula Toller}

 

Cam – Mostra imagens do Rio.

 

CORTA DIRETO PARA:

CENA 5. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE BEATRIZ – SALA.

Helô, Celina e Maroca conversam animadamente enquanto tomam um café. Até que em meio a risadas, Celina se lembra de Anselmo…

 

CELINA – Nossa… Só agora eu me lembrei do Anselmo. Ele deve estar louco atrás de mim, daqui a pouco ele bate aqui. (Diz se levantando).

HELÔ – E como ele esta? E a Bia, fiquei sabendo que se casou…

Celina e Maroca se olham, sem saber o que falar…

CELINA (Ri) – O seu pai continua ranzinza como sempre… Mas esta bem graças a Deus. A Beatriz ta bem, esta casada sim. Mas depois ela mesma te conta as novidades. Você vai esperar por ela?

HELÔ – Eu pretendo sim. Eu quero aproveitar e já ver todos que eu puder ainda hoje, quer dizer… Menos o papai né? Acho que ele não vai querer me ver nem pintada de ouro. (Conclui triste).

CELINA – Dê um tempo ao seu pai, que eu vou conversando com ele que você voltou e quer vê-lo. Ele vai acabar amolecendo, eu conheço o Anselmo.

MAROCA – Mas me diz Helô, você veio pra ficar né? E esta casada também?

HELÔ – Sim eu me casei, tenho um filho de dezoito anos. Mas o pai dele e eu estamos nos separando, enfim uma longa história que depois eu conto.

CELINA – Que pena. Eu sinto muito…

HELÔ – Fazer o quê foi melhor assim… De modo que eu vim pra ficar, sim! (Diz toda sorridente).

CELINA – Bom seja bem vinda então, minha filha. Agora eu vou indo, deixa seu celular com a Maroca, pra eu te ligar depois e marcar da gente sair e tomar um café… Beijos.

Celina antes de sair, olhou para Maroca e deu sinal pra ela não falar nada pra Helô.

HELÔ – Maroca pode ir cuidando do seu serviço querida, que eu não quero te atrapalhar viu…

MAROCA – Ta certo. Eu vou sim porque senão a Beatriz me mata e eu ainda tenho que chegar a tempo de fazer o café da tarde do seu pai. Fica a vontade viu, qualquer coisa chama…

Maroca foi saindo e disfarçando, quando chegou perto do balcão com os porta-retratos da família, ela pegou tudo e tratou de levar pra cozinha e guardar lá pra Helô não ver…

 

CORTA PARA:

CENA 6. INTERNA |TARDE |ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA GOUVEIA & ASSOCIADOS.

Rodrigo contara tudo para Pedro sobre o que aconteceu no restaurante e o acidente envolvendo Débora, além do motivo pelo qual ela havia sido atropelada…

 

PEDRO (Boquiaberto) – Mas o que você esta me contando rapaz… Eu estou bobo com essa história, confesso. Um ciúmes doentio como o que essa moça sente por você, eu pensei que só existisse nas novelas. Olha eu sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas eu sei que você é um bom rapaz e eu já o considero muito. Você quer um conselho de amigo? Se livra dela enquanto é tempo, antes que ela te mate qualquer dia desses… A sua noiva não bola bem da cabeça, não…

RODRIGO – É o que eu vou fazer. Eu só vou esperar ela sair do hospital e se recuperar melhor, ai eu coloco um fim nesse noivado de uma vez por todas. Mas e quanto ao meu emprego aqui na Gouveia & Associados, ele continua de pé?

PEDRO – Mas é claro que sim, Rodrigo. Tudo que aconteceu não interfere em nada no excelente profissional que você é meu amigo. E acredite… Se fosse eu no seu lugar eu teria deixado aquele restaurante voando, muito mais rápido que você me deixou lá. Com aquela mulher no meu pé? Qualquer ato seu e até mesmo um erro é compreensível e totalmente perdoável meu caro… Agora, ao trabalho. (Diz batendo cordialmente nas costas de Rodrigo e rindo).

 

CORTA PARA:

CENA 7. INTERNA |TARDE |BARZINHO NO LEBLON.

 

{Começa a tocar: Mais Um Na Multidão – Erasmo Carlos & Marisa Monte}

 

Betina e Paloma tomavam um shopinho gelado numa happy hour, enquanto falavam sobre a vida e eram paqueradas…

BETINA (Sorridente) – Você como sempre arrasando corações por onde passa hein amiga? Deve ter pelo menos uns cinco caras te paquerando aqui…

PALOMA (Sorri) – Deus me livre! Eu estou muito bem sozinha, não quero saber de rolo tão cedo na minha vida. Nos dias de hoje, a gente só sai machucada. Todo mundo olha, paquera, flerta, mas no fundo ninguém quer nada com nada. Relacionamento sério então nem pensar, só sexo.

BETINA (Ri) – E qual é o problema com sexo, isso não é bom? Nós também temos as nossas vontades e necessidades, e precisamos extravasar de vez em quando amiga, isso não é um privilégio só dos homens não…

PALOMA – Eu sei… Mas eu estou muito bem com as minhas vontades e necessidades também, viu dona Betina. Obrigada. Hoje em dia esta tudo tão fácil e descartável que até desanima viu, perdeu-se o valor da conquista, do flerte, do amor… Depois você sabe que sexo pra mim sem amor, não rola.

BETINA (Irônica) – O pior é que eu sei… Ai como eu pude ser amiga de uma mulher tão certinha como você hein?

PALOMA (Sorri) – Porque eu sou uma pessoa irresistivelmente adorável e você não vive sem mim?

BETINA – É vai ver é isso né? Fazer o que… (Diz e ri) – Ainda bem que eu amo mulheres sabia? Eu acho os homens tão mais complicados e difíceis de lidar. Nunca tive saco pra agüentar o sexo masculino não.

PALOMA – Por falar nisso… Disfarça e da uma olhada atrás de você, naquela direção. Tem uma mulher lá que não para de olhar pra você.

BETINA – Sério? Deixa eu ver… (Disse virando-se para trás) – Nossa… Eu devo admitir que você tem bom gosto amiga, ela é linda… Um pouco mais madura que eu do jeito que eu gosto, porque se tem uma coisa que eu não tenho paciência é pra mulher mais nova que eu, ou da mesma idade. Eu prefiro aprender, do que ensinar… É mil vezes mais gostoso. (Conclui rindo).

PALOMA – Para de olhar assim Betina, seja mais discreta. Ela ficou até com vergonha…

BETINA – Se fosse só vergonha tava bom, mas eu conheço o tipo só de olhar… Aposto que ela faz o gênero, eu não curto essas coisas… Eu gosto é de homem. Não se descobriu ainda, ou não se assume… Esta dentro do armário, eu tenho certeza. E eu detesto esse tipo.

PALOMA (Curiosa) – Nossa como você pode ter certeza disso tudo?

BETINA – Vai por mim, quem curte sempre acaba conhecendo e principalmente reconhecendo todo tipo de pessoas do meio. É o gaydar amiga… Esse nosso radar que nunca falha.

 

(Cam – Close no rosto de Paloma e depois em Betina ainda olhando pra moça)

 

CORTA PARA:

CENA 8. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE ANSELMO – COZINHA.

Celina terminava de preparar um bolo para o café da tarde e Liah chegava da rua…

 

LIAH – Hum… Que cheirinho bom!

CELINA – Oi minha querida. (Diz dando um beijo na neta) – Você chegou na hora certa. Eu acabei de tirar do forno esse bolo e vou só terminar de colocar a calda e o coco por cima. É aquele que você gosta, tolha felpuda…

LIAH – Adoro mesmo. E ele ficar ainda melhor geladinho.

MAROCA (Sorri) – Eu vou colocar um pedaço na geladeira pra gelar, depois você come.

LIAH – Oba! Obrigada Maroca.

CELINA – Você veio do colégio agora Liah?

LIAH – Não. Eu estava na casa de uma amiga, estamos em semana de provas e a gente estava estudando.

CELINA – E você almoçou por lá?

LIAH (Sem graça) – Comi uma bobeira, um sanduíche.

CELINA – Tem que se alimentar melhor querida, você tem dezessete anos e ainda esta em fase de crescimento. Tem que comer nas horas certas e de tudo um pouco, não precisa exagerar e nem passar fome viu, mas comer bem, de modo certo… Bom mas daqui a pouco, a Maroca vai servir o nosso café da tarde reforçado e você fica e toma com a gente.

LIAH – Eu não posso demorar, se minha vê que eu ainda não estou em casa, ela me passa um sermão daqueles, tipo: Onde você estava e com quem? Andou comendo besteira na rua? Você não pode comer doce… Cansa. É isso o tempo todo. Me vigiando, prestando atenção em cada ervilha que eu como, fora que sempre me analisa dos pés a cabeça, procurando quilos a mais…

Nesse momento Celina e Maroca se entreolham preocupadas…

CELINA – Não fica assim não, minha querida… Você é linda e no fundo a Beatriz só quer o melhor pra você como toda mãe. Ela só não sabe como demonstrar isso, acha que pegando no pé, esbravejando e brigando vai resolver tudo.

MAROCA – Não sei não… De boas intenções o inferno esta cheio.

CELINA (Brava) – Maroca você não tem que passar um café fresquinho não? Você sabe que o Anselmo detesta atrasos nas refeições. Vê se termina tudo rapidinho… Vem Liah vamos conversar lá na sala e sem interrupções. (Diz olhando feio pra Maroca).

Celina e Liah não agüentam e saem rindo da copa… E Maroca resmunga.

MAROCA – Eu hein… Esses patrões são engraçados, conversam tudo na nossa frente e quando damos a nossa opinião acham ruim, é mole? Mas eu falo mesmo, graças a Deus eu tenho minha opinião formada… Tão achando que aqui é bagunça? Aqui não é bagunça não! Deixa eu cuidar da minha vida, que eu ganho é mais…

 

CORTA PARA:

CENA 9. INTERNA |TARDE |CASA DE TEODORA – PISCINA.

César esta fazendo massagem em Teodora que esta muito nervosa, eles estão em volta da piscina no jardim…

 

CÉSAR – Nossa amor você esta toda dura, tensa, precisa relaxar mais… Foi a sua ida ao hospital pra visitar a Débora que te deixou assim?

TEODORA – E o que mais seria? Olha eu gosto dessa garota, eu tenho a Débora como minha filha, eu a acolhi aqui em casa desde que os pais dela resolveram morar na França, não só por ela ser a noiva do meu filho, mas justamente porque eu gosto dela. Mas ela não toma jeito, depois desse acidente, eu temo que ela possa vir a fazer coisas piores e até mesmo com o Rodrigo daqui pra frente. Mas eu vou ter uma conversa séria com ele também, ah se vou…

CÉSAR – Não pensa assim amor… Ela ama o Rodrigo, tem um ciúmes doentio dele ta certo, mas ela não é louca né? Tenho certeza que contra ele, ela não fará nada. (Diz e depois pega a bandeja de prata que estava com champanhe fica olhando o seu reflexo).

TEODORA – Queria eu ter essa certeza… Porque você parou com a massagem meu amor, ah eu não acredito? Outra vez com essa mania de narcisista César? Não pode ver um espelho, nada que reflita imagens que você logo para pra se olhar? (Indaga nervosa).

CÉSAR – Desculpa meu amor… É que eu to vendo umas rusguinhas aqui perto do olho, até um mês atrás eu não tinha isso. E olha que eu me cuido hein?

TEODORA – Eu sei. Claro que se cuida. O dinheiro sai do meu bolso afinal…

CÉSAR – Também não precisa me humilhar Tetê… Você sabe que eu não levo jeito pro trabalho. (Diz fazendo cara de ofendido).

TEODORA – Eu não estou te humilhando, eu só comentei. Depois eu preferi assim, que você apenas se dedicasse a mim, aos meus caprichos do que trabalhar fora, não tendo tempo pra mim e ainda aprontando por ai na rua, pra trazer uns trocados pra casa… Não, eu ganho muito bem, o papai também me deixou herança, eu não preciso do seu dinheiro e sim do seu amor, dos seus cuidados que você sabe do que gosto. É bem melhor assim, eu mandando na relação. Esse é o bom de pagar as contas, e ai de você senão andar na linha comigo viu seu César…

CÉSAR – Nunca meu amor, eu te amo. Você sabe disso.

TEODORA – Ta bom. Agora vê se para de ficar se olhando e continua com a minha massagem que estava ótima. Semana que vem, a gente vai ver os seus pés de galinha e vamos deixá-los lisinhos de novo… (Diz rindo).

 

(Cam – Close no rosto preocupado de César).

 

CORTA PARA:

CENA 10. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE ANSELMO – SALA.

Celina e Liah estão à mesa tomando o café, enquanto Anselmo esta no escritório num telefonema de negócios… E Beatriz chega da rua, trazendo a pasta com os croquis de Paloma na mão e vai direto para o escritório do pai.

 

BEATRIZ – Oi papai, me desculpa eu não sabia que o senhor estava aqui…

ANSELMO – Tudo bem, eu já terminei. (Diz colocando o telefone no gancho).

BEATRIZ – Eu preciso usar a impressora do senhor, que a minha acabou a tinta, eu tenho que mandar colocar outra amanhã.

ANSELMO – Pode usar a vontade. Eu vou tomar o lanche da tarde, se estiver servida, vai até a sala de jantar depois.

BEATRIZ (Sorri) – Eu dou uma passadinha lá depois, pode deixar…

Beatriz esperou o pai sair e logo abriu a pasta com os croquis e começou a tirar cópia de um por um, enquanto ia colocando em outra pasta dela.

BEATRIZ – Muito bem Paloma, minha filha querida… A César o que é de César… Esses desenhos me pertencem e agora sim, eu terei o desfile que mereço. (Conclui sorrindo com ar de maldade).

 

CORTA PARA:

CENA 11. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE BEATRIZ – SALA.

Helô já estava desinquieta de tanto esperar Beatriz. Já haviam se passado mais de três horas desde que ela chegara ali. Quando Chica passou pela sala, ela a chamou.

 

HELÔ – Por favor! É Chica seu nome né?

CHICA – Sim, senhora.

HELÔ – Bom eu acho que eu já vou indo embora, que eu tenho um compromisso com uma amiga, e a Beatriz pelo jeito ainda vai demorar…

CHICA – Que nada, ela já chegou. Eu desci na portaria pra pegar o correio e vi ela entrando com carro na garagem do prédio. Ela deve ter passado da casa do pai um pouco, mas logo ela tai, se a senhora quiser esperar…

HELÔ – Bom nesse caso, eu vou esperar então. Obrigada. Ah Chica, eu estive notando aqui na sala, não tem nenhum retrato da Beatriz, das filhas ou do marido? É que eu passei muitos anos fora, nunca mais vi a minha irmã e nem conheço a família dela…

CHICA – É que hoje foi dia de faxina, ai a dona Beatriz prefere que a gente deixe os retratos todos lá no quarto dela, pra ela mesma limpar e polir, é que a maioria é de prata e ela é muito exigente. Da licença.

HELÔ (Sorri) – Eu imagino… Obrigada. A Bia limpando porta retrato… Tai uma coisa que eu não consigo imaginar…

 

CORTA PARA:

CENA 12. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE ANSELMO – SALA DE JANTAR.

Anselmo, Celina e Liah tomam o lanche da tarde sossegados, quando Beatriz aparece…

 

BEATRIZ – Papai eu já usei a impressora, agora eu vou indo que eu tenho… (Fala e para no meio ao ver a filha sentada a mesa com eles) – Muito bem dona Liah… Se esbanjando em doces, bolos, pão, queijos… Em casa comigo no seu pé, você faz direitinho, mas basta eu virar as costas pra senhora correr pra geladeira ou então pra cá pro apartamento do seu avô, não é mesmo? Eu já vi que você não tem jeito mesmo, vai continuar gorda, balofa, uma elefanta até morrer! (Tom) – E que seja bem longe de mim viu, que eu não quero ver você explodindo na minha frente.

CELINA (Pasma) – Que isso Beatriz, isso é jeito de falar com a menina?

BEATRIZ – Você diz isso, porque não é com você Celina. Se você tivesse tido filhos ao invés de ficar estragando os dos outros o tempo todo, você saberia do que eu estou falando.

ANSELMO (Grita e bate na mesa) – Chega Beatriz! Agora você passou de todos os limites. Você esta na minha casa e eu exijo respeito com a minha esposa, que por sinal é a mulher que te criou desde que a sua mãe morreu. Quem você pensa que é pra ficar julgando todo mundo? A dona da verdade? Pois pra mim você não é nada, é só uma mulher fútil e mal amada, que tem como hobby infernizar a vida dos outros. Mas agora acabou. Eu não irei mais tolerar esse tipo de comportamento seu, principalmente dentro da minha casa. Você tem uma filha ótima, linda, maravilhosa, que podia ser sua amiga e sair por ai com você, e ao invés disso você só a critica. Ela é nova, tem dezessete anos, ta em fase de crescimento, depois ela vai emagrecendo naturalmente com o tempo…

BEATRIZ (Ri) – Ah papai… Até parece que é assim. Grandes casos de obesidade mórbida começam assim na adolescência, comendo tudo que vem pela frente, engordando meio quilo hoje, dois amanhã e quando vê já esta atolada em cima de uma cama, incapaz sequer de se levantar, que só um guincho pra dar conta. Depois sobra pra quem cuidar? Pra mãe né? É sempre assim… Eu na idade dela, nunca precisei fazer dieta, estava sempre esbelta, elegante, andava pelas ruas de cabeça erguida, com os rapazes me olhando, mexendo comigo… Agora pergunta se isso acontece com a Liah? Óbvio que não né? E olha que eu comia hein e não engordava.

ANSELMO – Não engordava de ruim que é! Como sempre foi… Agora, por favor! Queira se retirar que você esta estragando o nosso lanche.

Celina estava perplexa com tanta barbaridade, como uma mãe podia tratar a filha daquele jeito? Liah estava cabisbaixa e segurava o choro…

BEATRIZ – Com o maior prazer seu Anselmo. Não precisa pedir duas vezes… Vamos Liah, a sua casa não é aqui.

Liah se levantou da mesa e saiu correndo na frente…

CELINA – Deixa a menina aqui Beatriz. Não precisava disso.

ANSELMO – Deixa Celina… Um dia sabe o que vai acontecer? E não vai demorar muito hein… Todos vão abandonar ela, um por um, a começar pelo Pedro. Ai minha filha você vai terminar de fato como sempre se sentiu… Sozinha e abandonada. Bata a porta quando sair… (Diz e serve-se de suco) – Você aceita um suco meu amor?

Beatriz olha com ódio para o pai e depois sai como um furacão, batendo a porta com tudo.

 

CORTA PARA:

CENA 13. EXTERNA |TARDE |TELHADO DO EDIFÍCO BELA VISTA.

 

{Começa a tocar: True Colors – Mariana And The Diamonds}

 

Liah chega no alto do Edifício no telhado e senta no seu lugar preferido num canto, aonde ela sempre vai pra ficar sozinha e refletir e de onde ela pode observar melhor os prédios da cidade e toda imensidão do céu… Ela começa a chorar e num momento desesperado, ela se levanta e pensa em pular de lá de cima, chegando próximo da beirada. Mas ela desiste, volta e senta de novo, com olhar triste, perdido e chorando…

 

CORTA DIRETO PARA:

CENA 14. INTERNA |TARDE |COBERTURA DE BEATRIZ – SALA.

Beatriz chega em casa louca da vida com tudo o que o pai lhe dissera. De tão nervosa, ela chega resmungando e nem percebe que Helô esta num canto da sala…

 

BEATRIZ (Nervosa) – Velho miserável! Acha que pode ir me falando o que bem quer, ele ta muito enganado… Ai que ódio! Se pudesse eu… (Ao se virar e ver Helô, ela para de falar na mesma hora e indaga surpresa) – O que esta acontecendo aqui? Quem é você?

HELÔ (Emocionada) – Eu sei que já se passaram mais de vinte anos… Deve ser por isso que você não esta me reconhecendo Bia, mas eu esperei por esse reencontro a minha vida toda… Sou eu a Garota de Ipanema, a sua irmãzinha querida. Não vai me dar um abraço? (Indaga abrindo os braços para Beatriz).

Beatriz fica pálida, estática e de boca aberta… Ela parece não acreditar no que os seus olhos estão vendo. – A Helô voltou? (Pensou em off). Beatriz logo sentiu as suas pernas ficarem bambas e desabou sentada no sofá.

 

FIM DO CAPÍTULO.

(A imagem congela no rosto de Beatriz. Depois se transforma em um cartão postal, jogado sobre Ipanema).

{O capítulo se encerra com a música: Combustível – Ana Carolina}.

 

Combustível - Ana Carolina (Tema de Beatriz)

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Eduardo Moretti

Um cara do bem, romântico, sonhador, apaixonado pela vida e que ama o que faz… “Escrever para mim, é deixar de ser criatura para ser criador.”