Florescer de Espinhos – Capítulo VI

Florescer de Espinhos – Capítulo VI

Capítulo VI

Já fazia um tempo desde o festival de primavera acontecera, o tempo abafado denunciava que o verão estava por vir. Hana já havia assimilado a existência de outros seres inumanos, por mais fantástica que houvesse sido a experiência que tivera. Os youkais, o Santuário Mori, toda aquela beleza, toda aquela vida, aquela magia… E a flor.

As palavras de Yukito sobre a planta não saíam de sua cabeça. Uma substância que poderia curar qualquer enfermidade… Ela não entendia como seres como os youkais tinham tanto medo dos humanos. Guardar aquela planta escondida para si era além de uma covardia, um grande egoísmo.

Curar qualquer doença… A humana sonhava desde pequena em poder desenvolver alguma cura desde que vira sua querida avó morrer de pneumonia e uma amiga morrer de câncer quando eram ainda crianças. Pessoas maravilhosas que não mereciam passar pelo sofrimento que haviam passado até poderem descansar, não sem deixar para trás duas famílias e muita saudade.

Os dias passaram, mas Hana não conseguia tirar aquilo de sua mente. Um incômodo em seu interior que a cutucava toda vez que ela estava com seu amado e relembrava aquela viagem. Tentara ignorar e esquecer aquilo, ela amava Yukito e não queria nenhum conflito com ele ou sua família, mas era impossível. Quanto mais pensava, mais ela tinha certeza que precisava de uma amostra daquele néctar. Precisava daquela flor.

Enquanto estava no intervalo entre uma aula e outra, a jovem sentou-se em uma mesa da biblioteca e abriu seu laptop. Respirou fundo e pensou uma enésima vez antes de iniciar aquela pesquisa.

Uma amostra de néctar talvez não fosse o suficiente para a análise, era impossível saber como analisar o líquido de forma eficiente ou se teriam algum resultado claro logo de primeira, o que era improvável. Ter mais material de análise e sua fonte era o mais sensato e seguro quando se realizava um estudo. Não… Ela precisava pegar a flor. E, para isso, precisava de um jeito seguro de entrar no santuário e retirá-la sem morrer nas mãos dos youkais.

Hana repetiu aquela rotina, todos os dias em que tinha um tempo livre entre as aulas a humana se entocava em um canto da biblioteca e continuava a pesquisar. Havia muitas informações inúteis e incorretas, muita gente suspeita e muitos farsantes óbvios. Na época atual seria difícil encontrar uma informação verdadeira em meio à tanta bobagem e falcatrua, mas depois de muito procurar, ela enfim se deparou com uma fonte promissora. Relatos sobrenaturais em uma mesma região que haviam ficado sem explicação científica. E quando a ciência não podia explicar algo, a fé tomava seu lugar.

A jovem decidiu ir verificar. Saiu mais cedo de casa e decidiu faltar as primeiras aulas para não levantar suspeitas por chegar tarde. Pegou o ônibus e ficou ponderando enquanto olhava a paisagem passar do lado de fora da janela. Será que o que estava fazendo era o correto? Além do peso que a consciência lhe punha, havia o medo de ser enganada por aquele sacerdote. Se suas habilidades fossem enganosas, as conseqüências seriam catastróficas para ela.

Hana desceu no ponto correto e seguiu andando mais alguns minutos até chegar a um templo. Era pequeno e discreto, a maioria das pessoas só visitava o local em comemorações para realizar pedidos e oferendas. E, alguns poucos, procuravam os serviços dos sacerdotes para resolverem algum… problema sobrenatural.

A jovem respirou fundo e entrou no salão. O cheiro de incenso a agraciou, mas aquele lugar lhe causava arrepios, o ar era pesado.  Um homem vestido com roupas sacerdotais brancas estava ajoelhado enquanto acendia um incenso e o depositava em um altar no lado oposto da entrada.

– O que deseja? – perguntou antes que a mulher dissesse qualquer coisa.

– E-eu… Eu preciso de ajuda – ela respondeu após um tempo em silêncio.

– Não faço nada para curar corações partidos ou trazer seu amado de volta – o homem avisou ríspido – Se é isto que quer, apenas deixe sua oferenda para os deuses e espere que eles a atendam.

– Não é disso que preciso – Hana torceu o nariz para a grosseria do sacerdote – Meu tipo de problema é outro.

– E que tipo de problema a leva a pedir a ajuda de um onmyouji? – ele perguntou ainda sem tirar os olhos do que fazia.

Youkais – a jovem sussurrou.

O homem finalmente parou o que fazia e virou-se para olhá-la.

– E de que tipo de ajuda precisa de minha parte? – perguntou cauteloso.

– Proteção.

Hana observava em silêncio enquanto Yukito dormia. O kami ressonava suavemente em um sono tranqüilo ao lado de sua amada. A humana afagava seus longos cabelos verdes enquanto ainda debatia os sentimentos conflitantes dentro de si. Respirou fundo. Não poderia conviver consigo mesma se não fizesse algo à respeito.

Ela não dormiu naquela noite. Yukito terminava de se arrumar e olhou preocupado para ela.

– Dormiu mal?

– Tive insônia – ela bocejou.

– Deve ser por causa das provas finais – ele falou e se aproximou dela, beijando-lhe os lábios com carinho – Já disse que se preocupar em excesso vai te fazer mal…

– Eu ‘tô bem – ela deu um leve sorriso – Vou sobreviver a isso.

– Certo… Se precisar de mim, ligue-me e voltarei o mais rápido que puder.

Ela se aproximou e ajeitou a gola da blusa dele.

– Não vou interromper a sua viagem por causa de alguma besteira – beijou-o outra vez – Agora vai logo, ou vai perder seu vôo.

Yukito a olhou com doçura e a abraçou apertado. Hana correspondeu, apesar da culpa a consumir por dentro.

– Eu te amo. Vou sentir saudades.

– Eu também – ela falou e o observou em silêncio enquanto ele sorria para ela e saía porta a fora.

Hana ficou encarando a porta fechada por um longo tempo e se sentou no sofá, pensativa. Depois de alguns minutos, se levantou, tacou alguns pertences dentro de uma mochila e saiu.

Enquanto andava apressada pela rua, relembrava do que havia acontecido. Havia feito um pedido para o sacerdote e este lhe dera um prazo para lhe entregar o que ela requisitara. Agora, uma semana depois, ela estava seguindo pelo mesmo trajeto que traçara dias atrás. A humana ainda poderia voltar atrás e fingir que nada havia acontecido, mas havia tomado sua decisão. Aquela poderia ser sua única chance.

– Vejo que voltou – a voz masculina soou suave assim que a mulher botou os pés dentro do templo.

Hana encarou o onmyouji e se aproximou.

– Sim – respirou fundo – Vim buscar o que pedi.

Encontrar o caminho certo dentro da floresta foi difícil. Mesmo tendo acompanhado Yukito até o templo mais de uma vez, ela sempre usara o atalho da casa dele. Só que agora Hana não poderia correr esse risco. Teve de aventurar-se à partir da entrada da floresta e seguir seus instintos, rezando para não se perder ou encontrar algum youkai maligno no meio do caminho. Suas preces foram atendidas.

Seguindo o riacho e uma bússola, seguiu por dentre as árvores até o ponto em que o instrumento começou a sofrer interferência, sinal de que estava no caminho correto. Logo detalhes na paisagem se tornaram familiares e ela encontrou o caminho de pedra. Parou diante da escada e tocou o rosário de contas em seu pescoço. Esperava mesmo que aquilo funcionasse, ou correria grave perigo. Abriu a mochila e tirou de dentro os demais itens que havia buscado com o onmyouji. Estava pronta.

A noite estava tranqüila. As duas fêmeas estavam no salão do prédio principal, uma ao lado da outra em silêncio. Sayuri estava concentrada meditando quando sentiu que havia algo diferente no ambiente… algo errado. A kodama se levantou, incomodada com aquela sensação.

– Sayuri-sama – a jovem Rika a olhou – O que foi?

– Fique aqui – a mais velha falou e se afastou para a saída da construção.

Rika se levantou e a acompanhou de longe com o olhar. Sayuri caminhava intrigada tentando definir o que a incomodava até bater em algo e quase cair para trás.

– Mas o que…?

Ela ergueu as mãos e as estendeu à frente. Seus dedos tocaram em uma superfície lisa e transparente, uma parede invisível. Quando tentou forçar a passagem, um brilho branco surgiu e Sayuri foi ricocheteada para trás sentindo os braços queimarem. Sentou-se com dificuldade e olhou as mãos que doíam. Estavam feridas como se houvesse tocado em fogo de verdade.

– Sayuri-sama! – Rika se aproximou assustada e, ao ver o estado da outra, correu para buscar água e um pano.

– Estamos presas – Sayuri falou quando a outra voltou.

– O que?! – Rika olhou horrorizada – Como?!

– Campo de força – a mais velha gemeu e Rika se apressou em molhar o pano e colocar sobre as mãos de Sayuri.

– E como vamos sair?! Sayuri-sama sabe de algum jeito de quebrar isso?

– Não há como quebrar daqui de dentro, vamos precisar de ajuda externa.

O vento soprava suave sobre as copas das árvores, trazendo uma brisa fresca na noite. O rapaz bocejou e ergueu a cesta do chão. Já havia frutas o suficiente para o desjejum do dia seguinte. Enquanto voltava, apreciava a calmaria do local. O santuário sempre seria o melhor lugar do mundo para ele.

Enquanto Kenta caminhava de volta, ele teve a impressão de ter ouvido seu nome ser chamado. Teria sido só sua imaginação? Concentrou-se e tentou ouvir algo além do som da brisa nas folhas, teve quase certeza que sua impressão não era apenas uma impressão. Porém, antes que pudesse descobrir o que estava havendo, outra sensação súbita tomou conta de seus sentidos. Kenta caiu de joelhos, ofegante. O que fora aquilo? Sentia como se alguém tivesse arrancado violentamente uma parte de si, sentia como se lentamente começasse a murchar, a definhar. Um alerta tocou em sua cabeça. A flor sagrada.

O kami se levantou mesmo zonzo e correu para o extremo norte do santuário. Conforme se aproximava, teve certeza de que havia algo errado. As flores começaram a murchar, as folhas secavam aos poucos e caíam, a grama perdia a cor e se quebrava sob seus pés. As plantas estavam morrendo e ele sentia aquilo como se parte de si estivesse morrendo junto delas. Ao ver a árvore sagrada, olhou horrorizado. Seus frondosos galhos, cheios das flores do mais puro dourado, haviam se tornado opacos, e as flores murcharam, escureceram e caíram, completamente podres. Onde havia grama, agora só havia o resquício da mesma em um solo cinzento e rachado de montanha. As raízes haviam se retorcido em pedaços ocos de madeira. A árvore e tudo ao redor… havia morrido.

Kenta entrou na cavidade em seu tronco e caiu de joelhos, atordoado. A flor sagrada… A flor da vida havia desaparecido.

– Por todos os deuses… A flor… Roubaram a flor… – o kodama arfou.

Como aquilo havia acontecido? Tudo estava bem e então de repente… Alguém roubara a planta, mas não poderia estar longe, tudo acontecera rápido demais. Kenta se levantou e saiu correndo. Ele precisava encontrar o ladrão e recolocar a flor no lugar, ou todo o santuário iria morrer. Corria e corria, mas ele não conseguia sentir a presença de ser algum ou mesmo da própria flor, quem poderia se esconder assim tão bem e ainda esconder algo de tamanho poder junto?

Conforme corria, o rapaz ouviu algo. Além dos gritos, agora claros, chamando seu nome na construção principal, ele ouvira o som de passos correndo. Lá estava o ladrão. O kami seguiu apressado na direção dos passos, rezando que conseguisse pegar a maldita criatura à tempo.

O coração de Hana batia a mil. Ela segurava com força a bolsa em seu peito, sentia a energia poderosa da planta dentro. Ela havia conseguido. O rosário agora estava enrolado parte em seu pescoço e parte em volta da bolsa, para ocultar a energia de ambos. Agradecia internamente por ter tido sorte de encontrar um onmyouji tão eficiente.

– Você?!

Hana se assustou com aquela voz e ergueu a cabeça, abraçando mais a mochila. O jovem kodama vinha correndo furioso em sua direção.

– Eu sabia que não deveríamos confiar em um humano! – ele cuspiu as palavras – Devolva a flor! Agora!

– N-não – ela gaguejou – Não posso!

Kenta não tinha paciência nem tempo para convencê-la discutindo. Ele avisara uma vez e era o suficiente, agora pegaria de volta o que era deles. Vinhas e raízes repletas de espinhos brotaram do chão e avançaram violentamente contra a humana.

Hana gritou e se encolheu, aquele poderia ser seu fim. O ataque bateu contra uma barreira invisível e as plantas foram destruídas, despedaçando-se diante dos olhos deles. Kenta olhou confuso sem entender o que havia acontecido. Atônito, ele olhou para baixo na direção da humana e então compreendeu.

– Um SELO?!?!

Havia um pedaço de papel com kanjis desenhados pregado ao chão. Um talismã, um selo de proteção contra youkais. Fora aquilo que Hana havia ido buscar com o onmyouji além do rosário. Fora aquilo que ela espalhara pelo santuário para buscar a flor em segurança. Era com aquilo que ela se protegera e prendia Kenta do lado de dentro do santuário, junto às outras duas kodamas.

– Maldita… – Como eles puderam permitir uma humana tão ardilosa se aproximar? – Maldita… LADRA MALDITA! – o kami golpeava a barreira vociferando em vão – DEVOLVA A FLOR! DEVOLVAAAAA!!!

Hana levantou assustada e correu fugindo escada abaixo e adentrando a floresta. Precisava sumir dali, se os youkais se libertassem de alguma forma iriam matá-la.

– MALDITA! LADRA MALDITAAAAA!!! – Kenta ainda urrava acima.

-…Me perdoe… Yuki-chan… – Hana murmurou enquanto corria assustada e os urros furiosos de Kenta sumiam com a distância.

 

Obs:

– Onmyoujis são uma espécie de sacerdotes. Sobre eles: https://pt.wikipedia.org/wiki/Onmy%C5%8Dd%C5%8D

– Curiosidades: Kenta  significa saudável e firme. Rika significa valorizada fragrância.

Fabiana Prieto

Estudante de artes, tímida, chocólatra, gosta de ler, escrever e desenhar. Amante de jogos de vídeo game e RPG, é fã de histórias de fantasia dos mais diversos tipos e finais felizes (geralmente).

Caso queira acompanhar outros trabalhos e desenhos: https://www.facebook.com/fabidesenhos/

  • Andrea Bertoldo

    ai,ai,ai, Hana…*gota

  • Isa Miranda

    Que Mer**** Hana =O

    Emocionante esse episódio Filha <3