Florescer de Espinhos – Capítulo V

Florescer de Espinhos – Capítulo V

Okami Mix

Capítulo V

Hana acordou sonolenta quando ele a despertou, mas a curiosidade e expectativa do que estava por vir logo a encheram de energia. Levantou, pegou a mala e se trancou no banheiro ordenando que o rapaz não espiasse. Yukito estava curioso para ver a yukata que ela escolhera especialmente para aquela noite, mas ele também precisava ir se arrumar. Daquela vez se vestiu diferente. Um kimono comprido com um ar mais ritualístico. O tecido era branco nas vestes internas, na externa era um verde escuro com estampa de folhas verdes de vários tons e flores brancas. Ainda mantinha a aparência humana.

Sentou-se na cama e ficou aguardando até que Hana saiu do banheiro. A visão o deixou sem fôlego. Não pela maquiagem suave e impecável, ou pelos lábios que pareciam ainda mais deliciosos pintados de vermelho vivo, e sim porque ela estava deslumbrante naquela yukata. De um tecido suave, a cor base da vestimenta era negra e a estampa era linda: uma nuvem de borboletas de todas as cores e tamanhos concentrava-se na base da vestimenta e subia se dispersando em borboletas cada vez menores. O tecido negro na parte de cima era pontilhado com prata como um céu estrelado com uma brilhante lua cheia estampada no ombro esquerdo. O conjunto se completava com uma faixa prateada enlaçada na cintura.

– Eu pensei em algo florido – ela comentou tímida – Mas não acho que seria digna de vestir flores quando meu companheiro é um kodama… Então… Se não sou eu a flor, então posso ser sua borboleta…

Genial, foi o que o rapaz pensou. Ele realmente não esperava algo tão poético ou significante. Yukito ficou ainda mais encantado por ela depois daquela explicação. O kami se levantou e sem conseguir se conter segurou seu rosto e a beijou apaixonadamente. Mas a jovem o afastou com gentileza e sem fôlego, então ele a soltou um tanto a contragosto.

– Assim vai estragar o meu trabalho – ela riu – Se vai tentar me desarrumar assim, vou ter que levar a maquiagem na bolsa – ela apontou uma pequena bolsa de mão preta em cima da cama.

– Leve – não, ela não tinha mesmo noção do quanto ele gostaria de desarrumá-la, despi-la…

Yukito se afastou e murmurou que a esperaria no andar de baixo enquanto descia quase correndo. Hana riu e retocou os lábios antes de guardar o produto na bolsa e descer atrás dele. Saíram da casa e ela foi se dirigindo para o portão, mas o rapaz a levou para o lado oposto em meio às árvores do lado externo da estufa. Hana o olhou confusa e ele lhe sorriu antes de tocar um arbusto florido.

A humana se afastou surpresa quando a planta começou a se retorcer para os lados para abrir um caminho em seu meio. Havia uma gruta que ficava ali escondida atrás da planta espinhenta, longa e escura o suficiente para que a jovem não pudesse enxergar a saída do outro lado.

– Confia em mim? – Yukito perguntou lhe estendendo a mão.

– Confio – ela murmurou ainda assombrada por tê-lo visto usar os poderes e segurou sua mão de volta.

O kodama a puxou para dentro da abertura e a instruiu a andar com cuidado para não cair e se ferir, ou se sujar no chão de terra. Assim que entraram, a planta retornou à posição anterior e foi impossível enxergar um palmo à sua frente com a quase nula luminosidade que conseguia passar através dos ramos. Se já era difícil caminhar dentro de uma gruta enxergando, imagine sem poder ver onde pisa. Mas Hana, apesar de tropeçar algumas vezes, conseguiu não cair, pois estava sempre amparada pela mão de seu amante.

O cheiro da floresta que a brisa fresca da noite trazia a atingiu antes que pudesse ver o fim do caminho. Ela não fazia ideia do quanto haviam caminhado, mas supunha que estavam longe o bastante para já estarem fora da cidade. Logo o luar se tornou visível e, quando seus olhos se adaptaram à pouca luz, ela conseguiu enxergar a floresta do lado de fora. Ao saírem, notou que Yukito havia assumido sua forma real, os longos cabelos verdes combinavam de forma harmoniosa com o kimono que ele vestia.

O kami a olhou e sorriu, então retirou seus óculos e pediu para que ela os guardasse em sua bolsa.

– Por que ‘tá tirando isso? Você não continua cego como uma toupeira? Como vamos achar o caminho? – perguntou receosa.

– Eu nasci, cresci e vivi nesta floresta. Pertenço a ela assim como ela me pertence – ele sorriu suave e fechou os olhos – Não preciso de meus olhos para saber onde estou. Tudo o que preciso é sentir.

O kodama segurou sua mão e a puxou enquanto andava com suavidade e confiança sobrenaturais. Ele não estava brincando quando dissera que não precisava de seus olhos, podia sentir cada ser vivo daquele lugar, principalmente as plantas. Logo Hana notou que ele estava descalço e por isso não tropeçava em nada, seus pés eram seus guias.

Yukito permaneceu em um silêncio pacífico quebrado apenas pelo som dos passos de Hana. A menina preferiu também se manter calada enquanto observava o semblante do namorado. O rapaz não parecia nervoso por estar a levando até os youkais, então talvez ela devesse relaxar mais. Minutos depois seguiram uma trilha escondida pelas árvores e, depois de andarem nela por um tempo, surgiu uma escadaria de pedra de aspecto antigo e degraus cobertos de musgo e folhas secas. Hana estranhou, era início de primavera e aquele lugar fechado parecia mais… vivo do que deveria ser naquela época do ano.

– Aqui ‘tá diferente do resto da floresta – ela quebrou o silêncio.

– É a nossa magia – Yukito respondeu – Ela mantém essa parte da floresta viva mesmo durante o inverno. É quase como uma primavera e verão eternos.

De cada lado da escadaria havia vários bambus que se curvavam formando um corredor em forma de arco. No topo havia um torii de pedra igualmente antigo com duas lamparinas acesas, uma de cada lado. Já era possível ouvir sons de pessoas conversando e rindo lá em cima. Assim que chegaram ao topo, Hana ficou boquiaberta com o que viu.

Era um lindo templo aberto feito quase todo de pedra, madeira e telhas de barro. O lugar adiante era um imenso jardim até além de onde sua vista podia alcançar durante a noite. Como um lugar tão grande e lindo poderia existir oculto em meio às montanhas? As árvores primaveris floresciam e o cheiro doce de suas flores emanava no ar. E, tão surpreende quanto o local, eram as criaturas espalhadas pelo enorme pátio do edifício principal.

Homens e mulheres de diferentes formas e tamanhos. Youkais alados, de longos narizes ou cabeças de corvo, os tengus das montanhas. Kitsunes, tanukis, mujinas, hebis, banenekos e mesmo inugamis, todos formando uma mistura heterogênea e figurar meio-humanas, meio-animais. Para o alívio da menina, os temíveis onis não estavam presentes, apesar dos homens serpentes, os hebis, ainda lhe causarem calafrios.

As criaturas estavam dispersas pelo pátio e pelo refeitório aberto, o cheiro da comida pairava delicioso no ar. Enquanto alguns deles comiam – comida comum, para a surpresa da humana -, outros deixavam suas preces em altares ou apenas conversavam entre si. Na alta construção em um dos lados reluzia um enorme sino ritualístico e o do lado oposto havia uma enorme cerejeira florida que tingia tudo ao redor com suas pétalas rosadas.

Assim que a humana botou os pés no templo, as criaturas olharam em sua direção sentindo sua presença. Hana ficou nervosa com os olhares e cochichos, mas Yukito se colocou ligeiramente à sua frente e ergueu o queixo em um gesto protetor e desafiador. Os youkais cochicharam mais um pouco, mas respeitaram o kodama e voltaram ao que estavam fazendo. Certo de que havia imposto que ninguém deveria tocar ou incomodar sua companheira, o kami a puxou pela mão para o outro lado e a fez sentar-se junto a ele na extremidade do pátio de pedra.

– A celebração já vai começar – Yukito sorriu e passou um braço ao redor dela.

– Não vai colocar os seus óculos agora? – ela o olhou.

– Eu não posso.

– Por que não? – Hana perguntou. Estava intrigada com aquilo desde que ele retirara o objeto que lhe permitia ver. E sua resposta anterior para justificar aquilo não havia a convencido.

– Depois explico – Yukito afagou a mão dela e fechou os olhos.

Hana comprimiu os lábios e suspirou. Tudo bem, ela esperaria a explicação.

Sons de sino chamaram sua atenção para cima, para a escadaria diante deles. Cinco kodamas desciam os degraus em direção ao pátio. Todos estavam vestidos com os kimonos próprios à cerimônia, os machos vinham trazendo incensários atrás, enquanto duas fêmeas vinham à sua frente trazendo bastões com guizos e leques presos à suas yukatas. Hana se surpreendeu ao reconhecer os sogros em suas formas reais, mas o casal mais jovem era intrigante. Suas feições eram menos parecidas com humanos, sem narizes e com grandes olhos brilhantes monocromáticos, além das características comuns que os faziam lembrar uma planta.

Liderando a comitiva estava a sumo sacerdotisa, Sayuri, a irmã de Yukito. A humana esperava uma kodama semelhante ao namorado, mas as fêmeas se mostravam bem diferentes dos machos, com traços mais coloridos e delicados como pétalas de flores. Sayuri tinha a pele rosada com detalhes marrons que lembravam a casca de uma árvore clara, com sardas verdes que salpicavam principalmente o rosto e ombros. Os olhos eram de um rosa bem claro e o cabelo era espetacular. Longo e liso, suas mechas brancas terminavam em pontas vermelhas como pétalas das mesmas flores que lhe adornavam a cabeça em forma de uma coroa. Um kimono branco e bem mais simples do que os demais completava seu visual.

A procissão seguiu até o meio do pátio enquanto Sayuri murmurava algumas palavras como um mantra. As fêmeas atrás dela seguiam-na brandindo os bastões com sino em um movimento ritmado, e os machos seguiam murmurando as mesmas palavras da líder.

A sacerdotisa parou no centro do piso de pedra, onde havia um círculo recortado no mesmo, conectando-o diretamente à terra e a grama. Ela abaixou-se e fincou os pés no solo, onde se enraizaram como uma planta, e abriu os braços enquanto erguia o rosto à lua e fechava os olhos. As palavras continuaram sendo proferidas enquanto os machos seguiam em direções opostas, levando a névoa do incenso para todo o local.

Instrumentos de percussão começaram a tocar e Hana virou o rosto na direção. Ao lado da escadaria haviam surgido músicos com os mais diversos instrumentos, um grupo formado por seres das diversas raças ali presentes. Logo instrumentos de sopro e corda juntaram suas notas aos de percussão para compor uma melodia.

Assim que a música começou a tocar, as duas fêmeas kodamas se dispuseram em cantos opostos do pátio. Com o bastão tilintante em uma mão e o leque em outra, elas começaram uma dança sincronizada. Os passos eram suaves, leves e graciosos, a humana poderia afirmar que aquela havia sido a dança mais bela que já vira em sua vida.

A cada momento que estava ali, Hana ficava mais encantada. Sequer piscava acompanhando o movimento das kamis. Assim que as músicas e as coreografias terminaram, as fêmeas pararam ao lado de Sayuri e fizeram uma longa reverência. O público bateu palmas e a humana se juntou empolgada à multidão.

– Sejam bem-vindos ao templo Mori! – a sacerdotisa falou após as palmas cessarem – Estamos todos aqui para celebrarmos mais um ciclo da vida completo e o início de um novo. Celebrem, irmãos e irmãs, deem graças juntos pela dádiva dada a todos nós: de podermos conceber a vida. Agradeçam aos pedidos atendidos e clamem para que suas novas preces sejam ouvidas pelos deuses.  O descanso findou e enfim chegou o momento da vida renascer uma vez mais. Hoje as sementes começarão a serem semeadas para poderem crescer e serem colhidas no momento certo. Sintam a magia da primavera no ar, deixem seus instintos os guiarem, entreguem-se a eles e permitam relembrar a natureza dentro de si. Que a primavera traga a fertilidade para todos nós e suas sementes floresçam em prósperos frutos! Que se inicie o festival!

Sayuri fez uma reverência e os demais youkais ovacionaram e cumprimentaram-na de volta. Os músicos continuaram a tocar uma melodia mais alegre conforme as criaturas se levantavam e ficavam mais à vontade, aos poucos as conversas retornaram.

Yukito levantou-se e ajudou Hana a fazer o mesmo, depois a levou até sua irmã que havia acabado de recolher as raízes e retirava os pés do solo.

Sayuri-onee-sama – cumprimentou com respeito.

Otouto – a kodama o cumprimentou com um sorriso suave – É bom vê-lo depois de tanto tempo longe…

– É bom vê-la também, onee-sama. Gostaria de apresentar uma pessoa especial para mim – Yukito falou e puxou a companheira – Esta é Aoki Hana, minha namorada. Hana-chan, esta é Mori Sayuri, minha irmã mais velha.

– É um prazer conhecê-la, Aoki-san – Sayuri cumprimentou-a.

– Igualmente, Mori-sama – Hana fez uma reverência.

– Gostaria que conversássemos, faz tempo que não nos vemos, quero saber todas as novidades – a kodama falou para o irmão e olhou além do casal – Porém, receio que esta não seja uma hora oportuna.

Hana acompanhou o olhar dela e viu que um grupo de um casal de cada raça parecia aguardar algo. Alguns olhavam ansiosos, outros esperançosos.

– Podemos conversar após o festival – Yukito concordou calmamente.

– Está bem. Até mais tarde otouto, Aoki-san. O dever me chama – ela sorriu e olhou para o grupo – Boa noite, escolhidos. Queiram por gentileza seguir-me ao templo e iniciaremos a cerimônia.

Sayuri deu as costas e recomeçou a subir as escadas, seguida dos kodamas mais jovens. Os casais das demais espécies youkais seguiram atrás deles, cada um deles levando oferendas.

– Que cerimônia? – Hana perguntou curiosa.

– A cerimônia da fertilidade – Yukito explicou.

– Da fertilidade? – ela olhou surpresa e ainda mais curiosa – O que eles fazem?

Yukito ficou sem jeito, mas mesmo sem fitá-la, ele sentia pelo olhar de Hana que ela não o deixaria em paz enquanto ele não a contasse.

– Todo ano um casal é escolhido por cada espécie. Eles seguem a sacerdotisa ou sacerdote até o templo e lhe oferecem oferendas em troca de suas bênçãos. Se a oferenda e o ser forem aprovados, a sacerdotisa ou sacerdote o leva para… dar a benção da fertilidade.

– E essa benção seria? – Hana insistiu, ela queria saber tudo e vê-lo constrangido só atiçava-a mais.

Yukito respirou fundo e trocou o peso de um pé para o outro, mas a humana continuou olhando impassível.

– O escolhido ou escolhida é levado para tomar o néctar da flor sagrada e depois… bem… a magia é selada através da cerimônia… um acasalamento – respondeu envergonhado.

Hana não parecia constrangida, estava maravilhada.

– Você disse um casal, mas só tem uma sacerdotisa. Devo supor que ela possa escolher alguém do mesmo sexo também?

– Sim… É mais comum que o sexo oposto seja escolhido, mas há casos que o mesmo sexo apresenta maior afinidade, ou outros mesmo que ambos são escolhidos.

– Interessante… Mas só a sacerdotisa pode fazer isso? E qual o efeito da benção?

– A magia é ministrada pela sacerdotisa ou sacerdote, mas todo kodama pode participar e ajudar a fortalecer a magia principal. A benção atua sobre a fertilidade daquele que foi escolhido. Mesmo que seja apenas com ele ou ela o acasalamento, a magia faz com que o benefício seja recebido por toda sua espécie na região.

– Fantástico! – Hana sorriu e então se deu conta de um detalhe – Você… Já participou antes? – sorriu maliciosa.

– Não desta forma – Yukito corou forte – O instinto da primavera só aflora após o primeiro acasalamento e eu era virgem…

– Então é por isso que passou o dia todo me olhando como se fosse me devorar? – ele sentiu o largo sorriso malicioso mesmo sem enxergar.

As palavras dela e as risadinhas dos youkais ao redor deles o fez querer sumir de tanta vergonha. Ótimo, agora eles o achavam um tarado.

– Vamos dar uma volta, vou mostrar-lhe o jardim do santuário.

– Só mostrar o jardim? – ela provocou.

– Hana… – Yukito reclamou e ela o seguiu rindo.

A paisagem era fantástica. Era possível ver a gama de cores mesmo banhadas pelo luar. Arbustos e grama florida, árvores repletas de flores das mais diversas cores, do verde ao branco e cores vibrantes. Rios cortavam o solo e adiante havia um lago salpicado de lótus com uma ilha no meio onde ficava o prédio dos alojamentos pessoais dos moradores do templo. Todos os lugares eram conectados através de pontes simples, mas belas.

A humana admirava todo o local, de braços dados com ele, mas ainda havia perguntas fervilhando em sua mente para que pudesse aproveitar por completo o passeio.

– Bem… Agora pode me explicar o porquê não pode usar os óculos aqui? – Hana perguntou.

– Porque não é um objeto natural, é uma invenção humana feita com tecnologia. Não é algo bem vindo em um templo voltado para a natureza. Normalmente eu teria sido criado como se fosse um cego total, mas onee-sama insistiu a okaa-san e otou-san que me permitissem essa exceção. Eles concordaram. Não seria tão problemático já que quem herdaria o templo seria minha irmã, por ser a primogênita.

– Mas… Você me disse que sua espécie tem poderes de cura… Algum deles não poderia te curar?

Yukito tocou os olhos, parando de andar por um momento, perdido em pensamentos.

– Não no meu caso. Minha visão não ficou assim por causa de um acidente ou doença. Eu nasci assim… defeituoso por natureza. Não há o que se possa fazer, já que não há algo para ser curado. Na verdade, kodamas costumam ser bem rígidos com seus filhotes defeituosos. Costumam ser abandonados ou mortos por seus pais. Aqueles que não podem sobreviver sozinhos na natureza devem seguir a lei da mesma. Eu tive sorte que meus pais me quiseram mesmo assim… Então eu não posso esperar maior benevolência. Usar os óculos aqui seria, no mínimo, desonroso.

Hana ficou indignada. Aquilo era realmente cruel e primitivo. Matar seus filhos porque nasceram com algum problema? Em que século eles haviam parado? Olhou o namorado e sentiu pena. Nascer e crescer em um lugar tão lindo e não poder enxergar era muito triste. No entanto, por respeito ele aceitava aquela decisão e sentia-se grato pela benevolência deles. A humana ainda achava que não passava da obrigação de pais com um filho.

– É… Normal nascerem filhotes assim?

– Não – Yukito respondeu sombrio. Hana notou que aquilo era um ponto delicado para ele, portanto não insistiu no assunto.

Passaram pelo prédio principal em silêncio e ela esperou mais um tempo para voltar a falar.

– Você disse que os escolhidos tomam o néctar da flor sagrada na cerimônia… o que é essa flor?

– Eu irei mostrar a você – o namorado respondeu e ela ficou radiante – Mas eu preciso fazer algo antes…

Yukito a puxou pela cintura e a beijou com paixão. Hana se surpreendeu, mas correspondeu com igual desejo. O kami continuou a beijá-la e, sem separar os lábios dos dela, a conduziu de costas até uma árvore.

– Não consigo mais me conter… – falou ofegante enquanto a imprensava no tronco com seu próprio corpo – Eu a quero… Passei o dia inteiro querendo tomá-la em meus braços… Deixe-me prová-la, preciso de você…

A humana estava arrepiada dos pés à cabeça. As palavras dele, sentir o desejo dele contra seu corpo e a forma como a pegara a excitavam. Ela o abraçou e o beijou de volta com luxúria, permitindo sem palavras que ele fizesse com ela o que desejasse.

Yukito ofegou mais e suas mãos ansiosas percorreram as vestes para abri-las o mais depressa possível. Deitou-a na relva macia e cheirosa entre as raízes da árvore florida e amou-a deixando o furor do equinócio primaveril o dominar.

 

Hana acordou somente na tarde do dia seguinte. Estava sonolenta, faminta e não fazia ideia de onde estava. Aquele não era o quarto da casa de seus sogros. Ainda grogue ela ouviu a porta de correr se abrir e olhou na direção. Yukito entrou, fechou a porta atrás de si e colocou uma bandeja com comida ao lado do colchão.

– Bom dia, Hana-chan.

– Bom dia – ela bocejou e gemeu ao se sentar, o corpo estava dolorido – Onde estamos?

– No dormitório do templo – Yukito esclareceu e olhou preocupado quando ela reclamou – Está se sentindo bem? Desculpe, eu… Exagerei ontem – corou.

Flashes da noite de amor surgiram em sua mente e a fizeram corar também.

– Vai ser assim toda primavera daqui em diante?

– Receio que sim… – ele mordeu o lábio inferior.

– Podemos ter mais de um desses por ano? – ela brincou com um sorrisinho malicioso.

Yukito corou ainda mais.

– Coma e descanse, precisa repor suas energias.

Hana riu e pegou algo da bandeja para comer, somente então notou que ele estava de óculos.

– Você não disse que eram proibidos?

– Aqui dentro, fora dos olhares de outras pessoas, não tem tanto problema. E eu precisava cuidar de você.

– Umn… – ela grunhiu e tomou um gole de chá – O festival já acabou?

– Acaba esta noite, mas é melhor você não ir lá por enquanto. Youkais bêbados não são seguros para ninguém.

– E qual bêbado é? – ela retrucou – O que vamos fazer hoje então?

– Continuar o tour – o kami sorriu suavemente – Ainda há lugares que prometi lhe mostrar.

A flor sagrada, Hana lembrou. Aquilo a empolgou, mas daquela vez o corpo pedia mais descanso. Nunca pensara que passaria uma noite inteira fazendo amor com Yukito em um jardim à céu aberto. Não podia negar que fora uma das melhores experiências que já tivera.

Eles descansaram e se curtiram por mais algumas horas e saíram da construção pouco antes do entardecer. Ele continuou levando-a para o norte do santuário e caminharam mais alguns minutos até que pudesse avistar o topo de uma árvore imensa, bem maior que as demais. Seus galhos estavam repletos de flores do mais puro ouro que cintilavam como uma imensa jóia viva.

Atravessaram algumas árvores e enfim chegaram na clareira. A imensa árvore fantástica repousava sobre uma base de pedra com dois metros de altura e suas pesadas raízes caíam sobre ela e espalhavam pelo chão de toda a clareira. Musgo de um verde vivo salpicava as raízes e pedras, dando ainda mais cor.

– É linda… – Hana exclamou maravilhada – Essa é a árvore sagrada?

– Sim – Yukito sorriu – Mas a flor está dentro dela.

O kodama a levou até uma escadaria na base de pedra e eles subiram até o topo. Ali, pouco acima das raízes, havia uma cavidade oca grande o suficiente para acomodar um pequeno grupo de pessoas. E dentro daquele espaço a base de pedra era substituída pelo próprio solo, e plantada nele estava a mais linda flor.

Era de uma espécie que Hana nunca havia visto, grande o suficiente para preencher duas mãos juntas em concha. Duas camadas com vistosas seis pétalas cada, de um branco puro com um vermelho vivo nas extremidades externas. O miolo era de um dourado brilhante e gotejava um líquido da mesma cor, que caía na terra com um leve brilho e se dissolvia no solo.

Mesmo sendo humana, Hana sentia energia da vida pulsando daquela flor. Era algo tão puro e tão belo que seus olhos marejaram. Yukito se aproximou e parou a certa distância a bela flor.

– Eu… não tenho palavras para descrevê-la… – a menina sussurrou.

– Esta é a flor sagrada… o bem mais precioso de toda a floresta – o kami explicou – É o coração de todas as plantas e criaturas… Seu néctar é a pura essência vital. É ela quem mantém esta floresta tão viva. E nós, os kodamas, somos seus guardiões e lutamos para protegê-la nem que custe nossas vidas.

– Essência vital? – Hana perguntou com os olhos brilhando.

– Sim… esse néctar é usado para o ritual de fertilidade, mas ele também é capaz de curar qualquer enfermidade… Os seres nos procuram quando necessitam dessa essência milagrosa. A única coisa que não é possível curar é a própria morte.

A humana olhava maravilhada. Aquilo, aquela flor, aquele néctar… Era o sonho de sua vida. Ela sempre desejara ser uma pesquisadora para poder criar um medicamento que fosse a cura de alguma doença, para poder salvar a vida de inúmeras pessoas no presente e no futuro. E ali estava a solução, uma única substância que poderia curar qualquer coisa. Se ao menos pudesse analisar um pouco daquele néctar…

 – Se esse líquido pode curar qualquer coisa… – ela o olhou – Então por que não a compartilham com todos, Yuki-chan? Tantas pessoas poderiam ser salvas! O mundo precisa conhecer algo assim tão potente!

– Não podemos – Yukito negou com a cabeça – Apenas aqueles merecedores podem receber uma dose do néctar.

– Por quê?! – ela perguntou indignada.

– Porque não podemos nos revelar aos humanos… Se eles soubessem sobre essa flor, saberiam que a magia existe e nos descobririam. Nós ajudamos quem podemos, mas doenças e ferimentos também fazem parte da vida. O medo da morte e ela própria fazem parte do ciclo natural. Eu não posso imaginar como seria o mundo se certas pessoas perdessem o temor de morrer…

Hana não concordava. Milhares de pessoas inocentes morriam todos os dias, pessoas cujas mortes afetavam a vida de outras também inocentes. Não era justo ter tanto poder e não usá-lo para o bem dos outros.

Yukito a chamou para voltarem, o santuário era imenso e havia muito ainda o que mostrá-la. Hana deu um último longo olhar para a planta e depois o seguiu, no entanto, mesmo com tanta beleza ainda para ser vista, todos os seus pensamentos vagavam entorno daquela magnífica flor.

Obs.:

Torii são os portais japoneses. Para maiores informações: https://pt.wikipedia.org/wiki/Torii

– Onee-chan é a forma como se chama uma irmã mais velha, enquanto otouto refere-se a irmão mais novo.

http://www.japonesdeanime.com.br/2016/02/niichan-neechan-imouto-otouto-kyoudai-shimai.html

– Curiosidades: Sayuri significa pequeno lírio

Fabiana Prieto

Estudante de artes, tímida, chocólatra, gosta de ler, escrever e desenhar. Amante de jogos de vídeo game e RPG, é fã de histórias de fantasia dos mais diversos tipos e finais felizes (geralmente).

Caso queira acompanhar outros trabalhos e desenhos: https://www.facebook.com/fabidesenhos/

  • Isa Miranda

    Show… Muito lindo a discrição do lugar imaginei cada detalhe … Perfeito s2

    Sinto treta no ar rs

    • Fabi Prieto

      Obrigada <3 imagino mesmo um santuário maravilhoso D

  • Andrea Bertoldo

    Muito bom. <3, Mas sinto que Hana vai causar problemas.rs To adorando, Fabi-chan,^^

    • Fabi Prieto

      Obrigada ^^ e sim, aguarde para ver o que ela vai aprontar