Florescer de Espinhos – Capítulo IV

Florescer de Espinhos – Capítulo IV

Cherry Blossom Storm - Okami

Capítulo IV

O kodama estava bastante ansioso. Esperava ter uma boa recepção com Hana em sua cidade natal, os youkais de lá não eram agressivos contra humanos. Yukito queria mostrar tudo a ela, a cidade, onde os humanos e alguns youkais viviam escondidos, a floresta e o templo que sua família era responsável.

Também estava feliz que Hana houvesse aceitado tão bem a verdade. Ela não se assustava mais com a forma real dele e até parecia apreciar, e muito, aquela aparência. A relação entre os dois havia ficado mais forte e desde sua primeira noite juntos, outras mais se seguiram. O rapaz não mais se importava com a opinião dos outros, ele a amava demais para não se afastar mais dela por causa de convenções sociais.

Yukito também estava louco para vê-la vestida novamente com uma yukata. Já havia a visto vestida daquela forma antes em outros festivais, como o do ano novo, mas agora seria algo diferente. Sentia que ela queria surpreendê-lo e iria escolher algo especial. Flores, flores bem coloridas era o que vinha à sua mente.

E o último motivo… Seu desejo havia aumentado conforme a data do festival se aproximava. Ele não havia contado a ela, mas aquele festival de primavera não celebrava apenas o início de um novo ciclo com a nova estação. Era um festival sobre vida e fertilidade. E, como um ser ligado àquela estação por raça e tradição… A libido dele estava o deixando louco.

O acasalamento fazia parte dos rituais que os kodamas realizavam naquele festival. Mesmo que não pudessem se reproduzir com outros seres, era pelo acasalamento que sua bênção de fertilidade era entregue para a espécie do ser que eles tinham relações no ritual. Ao contrário dos humanos, muitas outras espécies de youkais de longa vida pouco se reproduziam e buscavam auxílio nos kodamas para terem uma chance maior de terem seus filhotes.

Antes virgem, Yukito sempre participara do festival, mas nunca executara o ritual. Seu desejo não havia sido despertado ainda, então ele não era afetado pelo instinto e influência sobrenatural daquela data. Mas agora que havia experimentado o prazer… Os ares primaveris o atingiam com tudo e o atordoavam. Estava cada vez mais difícil ficar perto de sua parceira sem desejar tomá-la para si. Sorte sua que sempre tivera um bom autocontrole.

Finalmente o dia de sua viagem chegara. Seguiram juntos para a estação e de lá pegaram um trem para o interior do Japão. Hana o observava enquanto ele se mexia inquieto. Como ele queria estar numa cabine particular com ela, mas estavam em um vagão comum, então Yukito tinha que se comportar.

– O que te incomoda tanto? – ela perguntou após ele mudar de posição pela enésima vez.

– Nada – ele corou e tamborilou os dedos sobre a perna – Só estou ansioso.

– Eu ‘tô ficando ansiosa com sua ansiedade – Hana torceu o nariz – Relaxe, Yuki-chan. Tudo vai dar certo – ela segurou sua mão com carinho.

– Eu sei – ele respondeu e sorriu suavemente. Era melhor que ela não soubesse por hora que sua inquietude tinha outros motivos ocultos.

Após descerem do trem, pegaram um táxi e desceram na cidade pouco antes do horário do almoço. Yukito a levou pelas ruas enquanto cumprimentava os conhecidos que encontravam pelo caminho. Hana pode notar todo o carinho que os moradores tinham pelo rapaz, que se mostravam preocupados com coisas como “se ele estava se alimentando direito” ou “se ele andava se cuidando” e se estava vivendo bem na cidade grande. A jovem achou aquilo fantástico, crescer em uma cidade pequena do interior tão pacífica parecia ser um amor.

Com custo, e após apresentar Hana a todos e prometer algumas visitas, finalmente conseguiram chegar em seu destino. Uma escadaria breve os levava para uma linda estufa e jardim. Agora ela entendia tamanha afinidade que Yukito e a família tinham com plantas, depois de descobrir o que eles eram.

Atrás daquele espaço verde havia uma grande árvore cercada e adorada como sagrada pelos habitantes do lugar. Ao lado dela, havia um pequeno templo familiar e a casa onde os pais do rapaz moravam na cidade. Havia algumas pessoas comprando flores naquele momento, sempre nos dias anteriores e no dia do festival havia bastante movimento comercial para eles. Yukito as cumprimentou e esperou que se retirassem para poder falar com os pais.

– Meu filho! – a mulher sorriu feliz e o abraçou com carinho – Bem vindo de volta!

Okaa-san. Otou-san. É bom vê-los – o rapaz sorriu para ambos.

Com o pai, Yukito apenas trocou uma reverência respeitosa. O patriarca não era tão carinhoso quanto a matriarca. O jovem kami então puxou a namorada e a apresentou.

Okaa-san, otou-san, esta é Aoki Hana. Minha namorada. Hana, estes são meus pais, Mori Haruko e Mori Akane.

Akane estava radiante em conhecer a namorada do filho. Já cumprimentou a menina e foi a levando para a casa. Haruko apenas a cumprimentou de volta com uma reverência e observou as mulheres irem. Depois voltou a encarar o filho com uma expressão séria. Yukito sentia-se um pouco tenso com o pai, sabia que ele gostaria de vê-lo com outra kodama, não uma humana. Mas o olhar do mais velho se suavizou e ele deu um sorriso.

– Ela parece ser uma boa moça. E é muito bonita. Ela está te fazendo feliz?

– Sim – Yukito quase suspirou em alívio.

– Fico satisfeito então… Já estava na hora de encontrar uma parceira – Haruko se virou para entrar – Vai participar do festival este ano, não? Seu cheiro não mente.

Yukito corou ferozmente.

– S-sim… – murmurou.

– Ela sabe o que somos?

– Sim – assentiu – Eu contei tudo a ela antes de… antes do nosso relacionamento se tornar mais íntimo.

– Isso é bom. Assim não precisamos temer nos esconder ou que ela faça um escândalo – tocou o ombro do filho – Agora me ajude a fechar a estufa, já que sua mãe roubou sua namorada e nos deixou aqui sozinhos.

Yukito sorriu e ajudou o pai a fechar a loja, depois se juntaram às duas dentro da casa. Akane já havia enchido Hana de perguntas sobre a menina e o relacionamento com o filho dela. Em contrapartida, Hana também havia enchido a sogra de perguntas sobre eles e como era viver naquela cidade sendo um youkai, além de querer saber sobre os outros seres da região.

Logo todos estavam sentados à mesa almoçando. As duas continuavam tagarelando e por vezes puxavam o rapaz para a conversa, mas Haruko permaneceu apenas observando em silêncio enquanto comia. O kami mais velho, apesar do porte sério, demonstrava um olhar suave, apenas apreciando o momento em família sem sentir a necessidade de se expressar.

– Você vai levá-la para a celebração na cidade? – Akane perguntou ao filho.

– Sim, okaa-san. Vou levá-la aqui na cidade e mais tarde irei mostrar o “nosso templo” a ela.

– Tem certeza que isso é uma boa ideia? – Haruko se pronunciou pela primeira vez desde que haviam se sentado.

– Sim… Por quê? – Yukito perguntou cauteloso.

– Bem… Haverá muitos youkais no Templo Mori. E levá-la justo durante a noite, no ápice da celebração… – ele fez uma pausa enquanto os olhava severo – Nem todos os youkais tem o hábito de respeitar os humanos. Alguns podem ver a presença dela como uma afronta, o que é o menor de nossos problemas, mas outros podem vê-la como… bem… um lanche fresco.

Hana arregalou os olhos. Ela não era tola de achar que todos os youkais eram mansos e gentis como seu namorado, mas ainda não havia parado para pensar sobre quanto perigo ela poderia estar correndo ao aceitar ir com ele para o meio de uma celebração onde ela seria a única humana. E pensar que poderia acabar como o lanche de um deles, quando não conhecia a real natureza de ninguém… Engoliu seco.

– Eu irei protegê-la – Yukito falou com firmeza – Ela é a minha companheira. Nenhum deles irá se atrever a tocá-la enquanto Hana estiver ao meu lado. Além de ser altamente desrespeitoso, em muitas formas diferentes, todos sabem do que a ira de um kodama é capaz. Não serão tolos de despertar a minha fúria em meu próprio habitat.

Hana olhou surpresa para o rapaz. Nunca havia visto Yukito usar algum tom que não fosse doce ou tímido, vê-lo falar com tamanha firmeza e com palavras tão afiadas… Será que aquela era a verdadeira face de seu amado? Algum tipo de youkai impiedoso? Ela não conseguia vê-lo ferindo alguém, ele era bonzinho demais para aquilo. Mas não podia mentir que tivesse ficado lisonjeada, preocupada e receosa com ele ao mesmo tempo.

Haruko, entretanto, continuou com a expressão séria, mas seu olhar dizia que ele apreciara ver o filho tomando alguma atitude. O jovem sempre fora amistoso demais, talvez por culpa de terem-no criado como indefeso devido sua deficiência visual. Ficaria feliz se estivessem enganados e o filho demonstrasse ter a alma de um verdadeiro kodama, não de um coelhinho manso.

Akane deu de ombros, indiferente. Confiava no filho e não se sentia surpresa com a reação. Era simplesmente natural para ela que ele reagisse daquela forma. Então apenas se levantou para levar a louça para lavar e depois serviu a sobremesa.

Depois de terminarem o almoço, Yukito levou Hana a seu quarto, onde dormiriam enquanto estivessem na cidade. Após um banho relaxante, a menina saiu do banheiro e se aproximou dele lhe dando um beijo suave nos lábios.

– Eu não esperava que me levasse em duas celebrações – ela sorriu sem jeito – Eu trouxe apenas uma yukata, mas queria guardá-la para o festival de noite… Acho que vou ter que colocar uma roupa comum agora.

– Não é necessário – ele sorriu de leve – Creio que tenha alguma yukata de minha irmã guardada no quarto dela. Ela não se importaria se você a usasse, afinal ela nem os usa mais mesmo… Vá se maquiando, eu vou pegar para você.

– Tudo bem – ela sorriu e foi adiantar a maquiagem conforme ele pedira.

Pouco depois Yukito retornou com uma yukata branca e rosa escura, com laço no mesmo tom de rosa e uma estampa bela e suave de galhos e flores de cerejeira. Os olhos dela brilharam ao ver algo tão suave e belo. Rapidamente pegou as vestes e as colocou com cuidado. Depois de se ajeitar, terminou o penteado e deu os últimos retoques no visual. Depois olhou o kami e sorriu com os lábios tingidos de rosa.

– Que tal estou?

– Linda – Yukito respondeu satisfeito com a visão.

– Agora está na hora de você ficar lindo também, não acha? – ela riu. O jovem esquecera de se arrumar enquanto a observava tão avidamente.

Yukito pigarreou e foi tomar um banho gelado, depois vestiu um kimono masculino tradicional preto e branco com detalhes em forma de folhas. Depois desceram e encontraram Haruko lavando louça na cozinha.

– Vocês não vão?

– Ainda temos coisas a arrumar e sua mãe vaidosa gosta de se vestir com calma – Haruko respondeu – Vão na frente. Depois nos encontramos com vocês.

Yukito deu de ombros e então levou Hana para a cidade. Tudo estava decorado com muitas flores, as árvores florescendo pintavam o caminho com suas cores em uma linda visão colorida e harmoniosa. Havia um ar pacífico e feliz, um momento quase familiar de apreciação e respeito à natureza. Hana entendia perfeitamente porque o namorado gostava tanto daquele lugar. Ele a levou para conhecer a cidade, depois se encontraram com os pais dele no templo principal para realizarem as oferendas, pedidos e agradecimentos. Depois retornaram as ruas para verem as atrações e o comércio típico que surgia naquelas celebrações.

O kami retornou à casa pouco antes do entardecer, levando-a de volta com o argumento de que a namorada deveria descansar um pouco para poder apreciar o segundo festival. Hana adoraria ficar mais na cidade, mas o namorado tinha razão, ela estava um tanto cansada da viagem e queria dormir algumas horas antes de saírem outra vez. Os pais de Yukito partiram direto para o templo da floresta para ajudarem com os últimos preparativos do outro festival.

Era tentador terem a casa só para eles e, conforme a noite se aproximava, os instintos do kodama ficavam cada vez mais aflorados. Mas ele não era uma besta irracional, manteria o auto-controle e respeitaria sua parceira, mesmo que aquelas novas e intensas sensações o assustassem um pouco e o deixassem agitado. Com a ajuda de outro banho frio e de se manter longe andando fora da casa, ele conseguiu manter a promessa de não interromper seu sono e nem tocá-la até quase o horário de partirem.

Obs.:

Okaa-san é a forma como os japoneses chamam suas mães, enquanto Otou-san é a forma como chamam os pais.

Kimono e yukata são tipos de vestes tradicionais japonesas.

– Curiosidade: Akane significa “doce flor” e Haruko significa “filho da primavera”.

Fabiana Prieto

Estudante de artes, tímida, chocólatra, gosta de ler, escrever e desenhar. Amante de jogos de vídeo game e RPG, é fã de histórias de fantasia dos mais diversos tipos e finais felizes (geralmente).

Caso queira acompanhar outros trabalhos e desenhos: https://www.facebook.com/fabidesenhos/

  • Isa Miranda

    Muito bom … Yukito s2 Hana

  • Andrea Bertoldo

    Adorando a história!^^ <3

    • Fabi Prieto

      O próximo terá bem mais coisas, aguarde 😉
      (e obrigada :* )