Florescer de Espinhos – Capítulo I

Florescer de Espinhos – Capítulo I

 

Capítulo I

O rapaz corria pelo metrô para pegar o trem e por pouco não o perdeu. As portas se fecharam assim que entrara no vagão. Apoiado na barra de ferro, o jovem tentava recuperar o fôlego sob a máscara cirúrgica. Era um inferno ter que usar máscaras constantemente, mas não havia outra escolha para ele. Já tentara andar sem elas, mas as experiências anteriores foram todas desastrosas. O ar da cidade era poluído demais para sua saúde.

 

Sentou-se em um dos assentos e ficou observando a paisagem passar através da janela no lado oposto. Três anos. Três anos haviam se passado desde que fora considerado apto a ingressar na sociedade.

Atualmente eram os humanos quem dominavam o planeta. Os youkais e todos os demais tipos de criaturas sobrenaturais, antes poderosos e adorados ou temidos, hoje haviam tornado-se lendas, folclore, meras figuras do imaginário. Para sobreviverem no mundo hostil e banal, havia apenas uma opção: se afastar e se esconder da humanidade ou camuflar-se entre ela. Yukito era um desses seres.

Suspirou. Mesmo após aqueles anos em que havia deixado sua vila e escolhido se adaptar, ainda perguntava-se se aquela havia sido realmente uma escolha sensata. O jovem youkai não se importava de se esconder ou que as pessoas achassem que criaturas como ele eram apenas fantasia. O que o causava receio era aquele mundo cada vez mais poluído e consumista, onde as pessoas não pareciam mais se importar com o próprio planeta. A mãe natureza estava morrendo aos poucos… E os humanos não escutavam seus lamentos.

O trem parou em seu destino e Yukito desceu na estação de metrô. Estar em uma cidade grande lhe causava um forte mal estar. Conforme andava pelas ruas era possível observar que quase não havia árvores por perto, para onde olhava via apenas uma selva de pedra. Para um youkai ligado à natureza como ele, cada dia naquele lugar era uma luta contra os próprios instintos.

No entanto, apesar de toda a destruição, o rapaz admirava os seres humanos. Eles criavam coisas fantásticas e úteis quando seu intelecto era direcionado para coisas construtivas. Os óculos em sua face era uma das invenções mais simples e fantásticas para ele. Como um simples punhado de areia podia virar vidro para poder ajudar as pessoas a enxergarem? Se não fosse por aquele simples objeto ele não enxergaria nada e teria sido criado como um cego por sua família. Muitas coisas mais utilizavam lentes de vidro para suas funções – telescópios, microscópios, recipientes, além de seu favorito: as máquinas fotográficas.

Yukito entrou na faculdade e dirigiu-se para um dos laboratórios. Fotografia era sua paixão. Era aquilo que ele estudava e pretendia seguir como carreira. Começara o último ano de seus estudos e em breve poderia sair daquele lugar medonho cheio de asfalto. Logo ele estaria formado e livre para desbravar o mundo e realizar seu objetivo: fotografar a natureza e mostrar ao mundo. Quem sabe como um fotógrafo profissional ele não pudesse ajudar a reconciliar os humanos com o meio ambiente? Talvez fosse um sonho utópico, mas era um sonho que ele acreditava ser possível…

|{|{|{|

Aquela era sua rotina desde que começara seus estudos. Quase todos os dias o mesmo trajeto de ir pegar o metrô para ir pra faculdade, estudar, voltar para casa e trabalhar no tempo vago. Vez ou outra sair com algum colega, mas o jovem era bastante reservado e não gostava de lugares agitados. A rotina era confortável para ele, era algo que não tinha porque reclamar.

Mas imprevistos simplesmente acontecem.

Como desligar o despertador ainda sonolento e voltar a dormir.

Alguns minutos de atraso podiam ser o caos na vida de um japonês e Yukito não era exceção. Assim que acordou e viu as horas saiu correndo para se arrumar. Somente quando chegou arfando na estação percebeu que havia esquecido algo essencial: a máscara.

Procurou em todos os bolsos, dentro da mochila, mas não havia nem uma reserva. Pensou que talvez pudesse correr até uma farmácia, mas já estava dentro da estação e o brilho dos faróis do trem já aparecia no fim do túnel. Teria que aguentar até a faculdade, lá poderia pedir uma máscara na enfermaria ou a algum de seus colegas que tinham o mesmo costume de usar, era um costume usá-las até mesmo como adereço nas cidades do país.

Logo aquele detalhe cobrou seu preço. A respiração não havia normalizado após a corrida e o ar estava difícil de respirar no meio da multidão. Tossia ao descer na estação e indignava-se ao ver como as pessoas se afastavam dele com medo de que estivesse com alguma doença enquanto repreendiam-no com o olhar. Seria possível que aquelas pessoas não tinham um pingo de simpatia? Ao botar os pés na rua, a tosse e a falta de ar pioraram, e os olhos começaram a lacrimejar. Seco… Aquele ar era seco e tóxico para o Yukito.

Não havia mais condições de correr, então o rapaz caminhou devagar pela rua, pondo a mão sobre a parte inferior do rosto na esperança de que aquilo o ajudasse a respirar. Andava e andava, mas deslocava-se devagar demais. Quando estava na esquina da instituição, sua cabeça pesava e os sentidos começaram a falhar. Por fim seu corpo não mais aguentou, a visão escureceu e ele desmaiou na calçada.

|{|{|{|

Tudo ainda girava quando seus sentidos retornaram. Atordoado, tossiu de leve e levou a mão ao rosto, notando que alguém havia colocado uma máscara de oxigênio nele. Olhou confuso ao redor, mas não conseguia enxergar um palmo à sua frente sem os óculos. Sentou-se e tateou à sua volta em busca do objeto. Estava sentado em algo macio demais para ser o chão, devia ser uma maca, provavelmente haviam mandado-o a um hospital após desmaiar.

– Até que enfim acordou! – uma voz feminina exclamou aliviada e Yukito semicerrou os olhos tentando enxergar algo, porém tudo o que via era um borrão colorido diante de si – Aqui, deixa eu te ajudar – ela falou e colocou os óculos em seu rosto.

Graças às lentes milagrosas ele conseguiu enxergar. Tirou a máscara de oxigênio e olhou para a pessoa que havia falado com ele. Prendeu o fôlego com a visão. Era uma humana linda. Cabelos lisos da cor de chocolate na altura do ombro e com uma mexa rosa na frente. Olhos que mais pareciam avelãs, em transição do verde para o castanho. Lábios delicadamente pintados de rosa, pele clara e suave… Foi amor à primeira vista.

 

– Você está bem? – ela perguntou preocupada. Somente então ele notou que ela tentara falar com ele nos últimos segundos, mas ele apenas a encarava com cara de pateta.

– Amn, sim o-obrigado – agradeceu tímido e ajeitou os óculos no rosto.

– Fiquei preocupada com você – ela reclamou, ajeitando uma mexa do cabelo atrás da orelha. Que cabelo lindo – Você desmaiou de repente no meio da rua. Por sorte estava perto da faculdade e eu consegui te trazer pra enfermaria com a ajuda de um amigo. Foi aí que revistamos sua carteira em busca de informações sobre você e descobrimos que é aluno daqui também, não é muita sorte? Quer dizer, é claro que não é sorte desmaiar, mas estar justo perto de um lugar que a gente conhece quando algo assim acontece.

– S-sim… – ele murmurou enquanto olhava encantado ela tagarelar, até que o sinal tocou. Olhou para o relógio da enfermaria e se alarmou, havia perdido os primeiros tempos de aula.

– Já que você ‘tá melhor, eu vou indo agora e… Ei, ei, ei, você ainda não pode levantar da cama! Fique de repouso por mais um tempo, okay? – ela o impediu de sair dali – Eu venho te ver na hora do almoço, pra ver se ‘tá tudo certo – prometeu.

Yukito ficou receoso por ter que perder mais aulas, mas ela conseguiu convencê-lo a ficar. Além daquilo, ele intimamente queria uma desculpa para vê-la de novo. Então voltou a se deitar e a viu pegar a bolsa. Quando ela estava prestes a sair, ele perguntou:

– Qual é o seu nome?

A menina olhou para ele piscando os olhos confusa, então bateu na própria testa ao se tocar que não havia se apresentado.

 – Ai, como eu sou desligada, nem me apresentei – ela sorriu e então fez uma reverência respeitosa – Aoki Hana, prazer em conhecê-lo.

 Aoki Hana… Parecia o nome perfeito para ela. Flor da árvore verde. Ela era bela como uma.

– Mori Yukito, prazer em conhecê-la também – ele se apresentou, cumprimentando com uma leve reverência. Aquele pequeno esforço o deixou tonto e ela notou, correndo para empurrá-lo de volta para a cama.

– Bem, Mori-san, nos vemos mais tarde! – a garota acenou se despedindo e saiu correndo porta afora.

O rapaz continuou olhando na direção por onde ela sumira com um sorriso bobo nos lábios.

 

Observações:

– No Japão, as pessoas costumam se apresentar primeiro pelo sobrenome, seguido do nome. Assim: Sobrenome Nome.

– Usar máscaras para os japoneses é algo recente, mas tornou-se cultural. Muitos utilizam mesmo sem necessidade, apenas como um tipo de precaução para sua saúde. Outros usam como adereços, tipo uma pulseira. Hoje em dia se vende até mesmo máscara personalizada, colorida, com desenhos e tudo o mais. É sério.

– É comum que no ocidente que chamemos as pessoas apenas de senhor ou senhora, ou simplesmente como você. Os japoneses, entretanto, possuem uma forma diferente para tratar as pessoas. A disciplina e o respeito fazem parte de sua cultura inclusive na forma com que se referem à outra pessoa. Eles usam títulos honoríficos, um conjunto de sufixos que servem para se referirem às pessoas com respeito. A forma de tratamento, é claro, difere dependendo do contexto da conversa e das pessoas incluídas.

Neste capítulo vemos Hana se referindo ao protagonista como Mori-san. Além de chamá-lo pelo sobrenome (algo comum não só no Japão como em outros países), ela utiliza-se do sufixo –san, equivalente ao nosso senhor ou senhora. É a forma de tratamento mais comum e pode ser usado tanto para homens quanto mulheres de mesma hierarquia, seja etária ou profissional.

– Curiosidade: O nome Aoki Hana significa flor (Hana) da árvore verde (Aoki). O nome Yukito significa algo como coelho da neve (não encontrei tradução melhor), enquanto Mori significa bosque.

– Música: Magnet – Vocaloid (Versão NicoNicoDouga Clear x Dasoku)

Fabiana Prieto
Estudante de artes, tímida, chocólatra, gosta de ler, escrever e desenhar. Amante de jogos de vídeo game e RPG, é fã de histórias de fantasia dos mais diversos tipos e finais felizes (geralmente). Caso queira acompanhar outros trabalhos e desenhos: https://www.facebook.com/fabidesenhos/
  • Isa Miranda

    Lindooo Filha <3 Ansiosa pela continuação! ^^

  • Andrea Bertoldo

    Ai,que fofo! Adorei,Fabi!!^^ E achei muito bacana da sua parte explicar esses detalhes culturais. Parabéns!!

    • Fabi Prieto

      Obrigada! Sempre que necessário vai ter uma explicação dessas ^^