Eterno canto: Capítulo 9 – Regras do mundo

Eterno canto: Capítulo 9 – Regras do mundo

No capítulo anterior: 

Carla apresentou a seus filhos uma tia misteriosa. Lucas ouviu um desabafo de Doroteia e a empregada sobre o caráter de sua mãe. Os irmãos arquitetaram um plano para descobrir o que de tão errado Carla fizera no passado, mas falharam. No fim tudo vem á tona quando a anfitriã( tia) flagra sua meia-irmã dando em cima de seu filho adotivo de seis anos. Carla, além de pedófila, tivera um caso incestuoso com o pai no passado e matara sua própria mãe quando esta descobriu tudo. 

 

Carla tentou reverter a situação em pânico, segurou no braço do filho.

– Vocês não podem acreditar em nenhuma palavra que essa mulher está dizendo ao meu respeito, não percebem que tudo não passa de uma vingança por meu pai ter escolhido a mim como sua filha predileta e não ela? Mas que golpe baixo, hein, sua sapona! Você acredita em mim, não é meu filho? Diz que acredita!

Lucas continuava a encará-la com menosprezo.

– Tira essas suas mãos imundas de cima de mim, sua criminosa!

E se desvencilhou, num apego doentio ela o agarrou, beijando-o no rosto.

– Pelo amor de Deus, meu filho! Não faz isso comigo…

Débora interferiu. Estava no limite com aquela farsa.

– Ele já mandou desgrudar, não ouviu, não, sua bruxa nojenta!

Carla se feriu com aquelas palavras, tentou convencer agora sua filha.

– Filha! Não faz assim! Você sabe que eu nunca faria mal a nenhuma mosca, nem mesmo com meu dedo mindinho. Não sabe?

Débora cuspiu em sua face.

– Eu não sou sua filha, seu monstro! Como tem coragem de nos abraçar, depois de ficarmos sabendo da sua diversão com as crianças? Eu tenho nojo, nojo de saber que um dia me deu banho. Vem Lucas, vamos sair dessa casa!

Ele concordou e Carla agarrou as barras da calça do rapaz.

– Eu sei filho que você sempre me amou de verdade, é só um momento, não é? Você vai me perdoar pelo que eu fiz, não vai?

Ele se abaixou contra a vontade da irmã e deu um tapa na própria mãe.

– Você matou meu pai! Como teve coragem de entregá-lo para aqueles bandidos? Seu lugar é atrás das grades, numa penitenciaria lotada, lavando privada entupida com aquela bosta boiando, por que é o que merece, conviver perto da sua própria natureza. Assassina!

E saiu correndo com a irmã. Carla deu um grito de dor e escorregou pelas portas do guarda-roupa, caindo no chão, paralisada. Até que se deu conta que Dorotéia e o filho ainda estavam ali. Ela se voltou contra a anfitriã.

– Tá satisfeita com o que você fez? Coisa ruim! Nunca aceitou que meu pai não te pegou para passar a noite, não é? Queria ter sido a vítima daquele estuprador, safado, não é? Confessa, vai!

Dorotéia a olhou no fundo dos olhos e meteu-lhe uma cotovelada no meio dos dentes, tirando sangue da megera.

– Eu não sou da sua laia, sua ramera! Eu nunca esqueci quando te flagrei naquele quarto sufocando sua mãe. Até hoje tenho pesadelos com ela implorando e você apertando o travesseiro nela. Mesmo assim, eu nunca te entreguei, passei uma borracha nisso tudo e te chamei para ficar na minha casa, mas você aprontou de novo, eu te disse para ficar longe do meu filho, eu fui bem clara por telefone. Você quis bancar a esperta para cima de mim, então entreguei a sua cabeça numa bandeja para seus filhos, para eles conhecerem quem é de verdade.

Carla ousou gargalhar.

– Que foi? Tá com medinho que seu filho descubra os prazeres de ser um homem? Ele tava gostando, eu mesma percebi. Não pode impedi-lo de me desejar, isso é hormonal, você não controla!

– Cala boca, seu energúmeno! (e a esbofeteou) Mas se pensa que termina por aqui, está enganada, vou achar a polícia agora para te pôr no seu lugar, afinal uma criatura como você não pode ficar a solta, é tóxico a toda a humanidade.

Dorotéia entregou o filho para Matilde que assistira a cena da porta e dirigiu-se para a sala. Carla entrou em surto no chão do quarto.

– Você não vai a lugar nenhum! Irmãzinha!

E correu nua para a cozinha buscando um facão. Quando a dona-de-casa puxou o gancho do telefone, mal teve tempo de virar e foi jogada ao chão com um golpe certeiro na barriga. Iago gritou e saiu dos braços de Matilde, Lucas e Débora que puxavam a mala pararam estacados com a cena na sala: Carla esfaqueava incessantemente Dorotéia já morta, numa espécie de carnificina, banhada de sangue. A cena se escureceu.

A música Circle de Edie Brickell e New Bohemians começou a tocar. Os irmãos assistiam à porta do casarão, a mãe sendo levada algemada por dois policiais para a viatura. A mulher ensangüentada olhou-os antes de entrar no porta-malas tentando buscar ainda algum gesto de amor, de afeto, de família, contudo, o gelo foi letal, nem ao menos ódio, a outra interpretação do amor possuíam, estavam indiferentes, sérios, em silêncio. A porta se fechou com um estrondo, por de trás do vidro chorou, o carro se distanciou até sumir no horizonte. Eles e Iago se abraçaram em lágrimas.

O dia amanheceu. Estavam todos na mesa de jantar.

– Tem certeza que não quer biscoito, bolo? Macabéia até fez pão de mel, ouvi dize que eram os seus preferidos.

Débora agradeceu Matilde.

– Muito Obrigada, mas não queremos nada.

– Mas precisam se alimentar, daqui a pouco a assistente social chega e…

E menina se enfureceu.

– E o quê? Vão nos levar para um orfanato rígido, com uma metodologia fascista e barata. Não queremos isso!

Matilde tentou convencê-la.

– Débora! Não complique as coisas! Você nunca esteve em uma instituição dessas, não pode tirar essas conclusões! Vai ser o melhor para vocês, poderão ser adotados por outra família.

Lucas cruzou os braços.

– Não queremos fazer parte de outra família. Esse maldito estado fajuto de banqueiros corruptos não vão investir em educação, estaremos destinados ao fracasso, além de aprendermos a ser violento com os outros, por que é isso que a política atual nos ensina. Venha fazer parte do mundo dos espertos, ser um jovem empreendedor, neoliberal, mas não queremos isso, isso é desumano demais.

Matilde tentou acalmá-lo.

– As coisas não são tão sérias assim, a economia está melhorando, Temer foi a televisão e nos garantiu que…

Débora bateu o braço na mesa.

– E garantiu, o quê? Você acreditou naquela conversa fiada? Esse cara é um traidor, ele entregou o voto de mais de cinqüenta e quatro milhões de pessoas para um aterro de lixo e está lá agora destruindo o frágil estado de bem estar social que desde Fernando Henrique começou a ser feito. Aquela maldita reforma no ensino médio, sem sociologia, filosofia, criando estudantes cabrestos, é uma vergonha. Sentimos muito Srta. Matilde, mas vamos embora.

Ela puxou o irmão para pegar as malas.

 

No quarto, porém, se surpreenderam quando estavam saindo. Acompanhada de enfermeiros, ordenou uma ação.

– Cedem eles, estão muito agitados!

Débora tentou se desvencilhar.

– Me solta. O que estão fazendo?

Lucas mordeu o braço de um, enquanto outra pegava a seringa, mas o homem não soltou. Matilde olhou para os dois e disse com uma voz aveludada.

– Calma, queridos. Vai ficar tudo bem! Tenho certeza que vão adorar o novo lar.

Débora a olhou enojada, antes de apagar.

Lucas acordou dentro de uma vã, estava na parte de trás, naquele famoso depósito encontrado também nas ambulâncias. Olhou pela janela e percebeu que o veículo ainda estava em movimento. Sua irmã dormia num colchão ao lado, chamou-a, ela despertou meio sonolenta.

– Acorda! Débora! Acorda!

A menina ficou apavorada ao perceber o selo do orfanato na lataria.

– Aquela desgraçada nos dopou, forçando a ir para essa merda de instituição.

Ela agarrou a porta, tentando abri-la, mas estava trancada.

– Isso é cárcere privado! É seqüestro!

Lucas foi mais racional.

– Fale baixo, vão descobrir que acordamos.

– Mas você quer o quê? Sabe muito bem como funciona um local desses! Lembra-se muito bem do que aconteceu com Bentinho, aquele filho do amigo do papai. Passava fome se não fizesse juramento idiota do hino nacional. Aqueles positivistas lunáticos! Militares maníacos! Não podemos cair nas garras desse pessoal!

– Eu sei, você tem toda razão. Mas não vamos conseguir nada, batendo nessa porta. Eu tenho um plano.

O veículo estacionou em frente ao orfanato e quando os seguranças abriram a garupa, os irmãos pegaram os extintores de incêndio que ali estavam e acertam os dois, desatando a correr. A diretora que aguardava a chegada deles gritou para mais homens irem atrás. O portão estava aberto. Adentraram às pressas num bosque a toda velocidade, os seguranças foram atrás.

– Corra de pressas, Lucas! Por aqui!

Passaram por árvores e mais árvores entre folhagens secas até que o menino não viu o declive e tropeçou, os seguranças estavam a pouco metros.

– Me ajude, me ajude!

Débora retornou correndo e por um triz não foram pegos pelos homens, levando o irmão apoiado com o braço no ombro, já que havia torcido os pés no tombo. Passaram por um vale, ela já estava se cansando quando abocaram em uma estrada de terra e por pouco um caminhão não os atropelou.

O caminhoneiro soltou seus palavrões, mas não havia tempo a perder, por ter parado, eles pediram ajudas, estavam a segundos de serem capturados quando Zeca concordou. Subiram e o homem ligou o motor a todo vapor, não dando brechas para a ordem de parada que os seguranças berravam ao se aproximar. Agora estavam salvos.

– Então aqueles cheira-leites queriam levar vocês para um orfanato?

Eles riram. Que maneira engraçada de retratá-los. Débora acenou positivamente.

– Nossa mãe foi presa por assassinato! A empregada dessa tia morta nos dopou quando nos negamos a ir com a assistente social.

Zeca riu.

– Que família de malucos! Essa aventura toda daria um ótimo romance policial! Só penso no mal que isso fez para vocês, lugar de criança não é só na escola, é brincando na rua. Não sei o que passa na cabeça desses marmanjos, parecem que nunca tiveram infância.

Débora concordou. Como ele lembrava seu pai. Emocionou-se.

– Pode nos deixar na rodoviária, damos um jeito de conseguir grana para voltarmos para Espírito Santo.

Lucas proferiu, pensando na possibilidade de morar com Juliano.

Zeca negou.

– De maneira alguma! Vocês não podem dar bandeira por aí, tudo bem que a cidade é grande, mas se estiverem na rua, vão dar uma maneira de te encontrarem. Façamos assim, vocês posam lá em casa, amanhã de manhã partimos, tenho um entrega em Minas Gerais mesmo, deixo-os na porta de casa.

Débora corou-se com a bondade do homem.

– É muita gentileza sua, Zeca! Mas não precisa, a gente se vira…

Ele a interrompeu.

– Para de tagarelar um pouco, chica! O assunto tá resolvido.

Débora sorriu para o irmão.

O caminhão estacionou em frente a uma grande fazenda. De um lado podia-se ver o celeiro aberto e os cavalos bebendo água, do outro, um imenso milharal com um galinheiro, no qual as rinhas eram furiosas por comida. Zeca os ajudou a descer, pegando no colo.

– Vem, vou mostrar vocês a minha filha. Está passando um tempo aqui conosco, vai adorar conhecê-los.

Eles entraram ainda fascinados com o ambiente. A mulher terminava de comer uma espiga de milho a mesa, na cozinha, de costas para a sala, quando ouviu a voz de Zeca, seu velho pai.

– Encontrei esses meninos na estrada, estavam fugindo de três brutamontes que queriam levá-los ao orfanato.

Ela virou-se surpresa e gelou. Os meninos a olharam de volta decepcionados. Na sua frente, encontrava-se Ivette Bolonha, a antiga proprietária, responsável pelo despejo de sua família.

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.