Eterno canto: Capítulo 8 – A verdade

Eterno canto: Capítulo 8 – A verdade

No capítulo anterior: 

Carla e Juliano tiveram um embate fervoroso, após a dona-de-casa confessar ao policial que foi a autora do crime da filha dele: Talita( morta na banheira, após chantageá-la). No ímpeto do desespero para impedir que ele contasse a verdade ao seus filhos, ela golpeou-o na cabeça e ligou o gás a fim de matá-lo. Mas os planos saíram errado e ele acordou há tempo, no entanto, ao invés de por fim a sua fuga, o homem delirou e tentou resgatar a filha no largo das pedras, próximo ao farol. Posto a imutabilidade dos fatos, já que a jovem encontrava-se no início do processo de decomposição, suicidou-se atirando-se do alto do farol, corroído por dentro.

 

O ônibus estacionou na rodoviária de Santa Helena, dentre os passageiros que desceram Carla e suas crianças surgiram. Pagou um taxí, a manhã estava chuvosa.

– Mãe, pode nos dizer onde estamos indo?

Agora Lucas, ficara preocupado. Débora trocou olhares com ele.

Carla foi breve.

– Já, já, vocês irão saber, eu prometo!

***

Depois de alguns minutos, finalmente o motorista parou o taxímetro. Olharam pelo vidro da janela, um casarão assobradado se revelou. Ela pagou a viagem e o carro partiu, precipitando para a porta, as crianças ficaram sem entender nada. A porta se abriu pelas mãos de uma serviçal raquítica, ela sorriu quando os viu e logo sua patroa apareceu sorridente, mexendo os colares de pérolas no pescoço.

– Oh, minha querida irmã! Que saudades!

Débora olhou para o caçula! Que raios de mulher era aquela? Sua mãe sempre dizia ser filha única.

***

Assim que ficaram a sós no quarto de hóspede, cobraram uma explicação. Débora vomitou:

– Por que mentiu para gente dizendo que não tinha irmã? E agora nós chegamos e descobrimos que tínhamos uma tia! Você sabe como foi agüentar no colégio, os alunos contando as histórias de viagem que passaram na casa dos tios e eu e meu irmão não podendo usufruir dessa felicidade? Por que fez isso?

Carla pediu desculpas.

– Dorotéia não é minha irmã, é meia-irmã. Fruto de um caso extraconjugal de nosso pai. Um escândalo, matou mamãe de desgosto. Minha intenção nunca foi esconder nada de ninguém, fui obrigada devido às circunstâncias, Dorotéia sumiu no mundo sem notícias, casou com um banqueiro irlandês, muito famoso e morou fora, chegou até brigar com nosso pai por causa disso. Fiquei sabendo há pouco tempo que tinha voltado. Sempre nos viramos muito bem sozinhos, toquei nossa vida, não vi necessidade de contar.

Débora não acredita no que está ouvindo.

– Que mentira mais descabida é essa? Você largou o homem que te amava, sem motivos, para pegar uma estrada, passarmos dois dias dentro de um ônibus para você chegar aqui e revelar tudo isso. Conta outra, mãe. Você e seus segredinhos de sempre. Às vezes nem acredito que façamos parte da mesma família.

Ela precipitou-se para sair com o irmão, mas Carla a puxou pelo pulso.

– Escute. Desculpe, eu nunca quis magoar vocês. Só há coisas que ainda não estão preparados para saber, só tenham paciência.

Lucas se intrometeu.

– Ter paciência, mãe? Esse é o seu problema, achar que somos crianças demais e brincar com nossos sentimentos. Mas a gente tá farto disso.

Eles saíram e ela abaixou a cabeça reconhecendo o erro.

***

A hora do almoço chegou. A sala de jantar parecia um mausoléu, os quadros sempre estavam olhando para os visitantes inesperados, certos lustres retorcidos aparentavam querer fugir pelos buracos na parede com a finalidade de não serem testemunhas de mais alguma fatalidade. E as aves empalhadas no teto, então? Era assustador. Lucas dirigiu-se ao lavabo mais próximo e ouviu a anfitriã puxar a empregada para um canto, observou escondido.

– Não vejo à hora desse pesadelo terminar! Sirva-a nosso pior vinho! Não me sinto segura com essa criatura aqui dentro. Ela é muito perigosa, depois do que aconteceu no passado. Ai, nem sei por que estou falando tudo isso, deve ser o descontrole. Mas faça isso, Macabéia, por favor, que te pedi.

O menino chocou-se.

***

Débora descansava sobre uma espreguiçadeira no jardim quando uma monarca pousou em seu dedo, ela riu, achando graça. Lucas a abordou.

– Precisamos conversar!

– O que foi maninho? Parece preocupado!

Deixou a lepidóptera voar. Ele disparou.

– Na hora do almoço, quando fui lavar as mãos, escutei uma conversa estranha da tia Dorotéia com a empregada.

Uma interrogação nasceu na testa da menina.

– Que conversa estranha?

Ele revelou.

– Ela disse que nossa mãe é muito perigosa, que fez algo de muito ruim no passado e que não via a hora desse pesadelo acabar.

Débora se assustou.

– Você tem certeza de que foi isso mesmo?

Ele acenou positivamente. Ela entrou em pânico.

– Esses segredos estão tomando proporções escabrosas. Cada vez mais não reconheço nossa mãe. Para Dorotéia dizer isso, deve ser algo muito sério, ela é tão descontraída com os pesares da vida pelo pouco que pude perceber.

– O que vamos fazer?

– Eu não sei. Não podemos pôr a mamãe contra a parede, ela não vai dizer nada, temos que agir em surdina… Acho que já sei por onde começar.

E fixou um vazio, Lucas gelou, a cena apagou.

***

– Então você entendeu o que tem fazer?

– Ah, Debby, ainda acho que isso não vai dar em nada. Como vamos saber se as duas vão voltar a falar sobre o assunto?

Ela o entregou o celular.

– Mas é melhor do que nada. Já é um começo, pelo menos. Eu observei quando estive com Macabéia na cozinha falando sobre pratos, o chaveiro fica num canto meio despercebido atrás da geladeira, lá deve ter de todos os quartos, inclusive o de tia Dorotéia. Você só precisa achar a chave, entrar no cômodo e pôr o aparelho embaixo da cama com o gravador ligado.

– Eu ainda acho muito arriscado.

– Deixa de ser medroso. Você é um homem ou um saco de batata? Enquanto fizer isso, eu vou distrair a empregada e tomar conta para tia não cruzar o caminho. Quando você voltar digo a ela que vi um rato correr por debaixo da porta do quarto da tia, ela com certeza vai correndo retirar o animal antes que a patroa veja, depois encontro Dorotéia e repito a história mencionando Macabeia, ela vai correndo dar uma bronca na empregada no aposento e então é a brecha para as duas ficarem sozinhas de novo.

– Elas podem ficar sozinhas a qualquer momento!

– Eu sei! Mas pelo menos agora estaremos por dentro do assunto!

– Só tem um detalhe. Como vou saber qual chave é a correta? Não posso dar bandeira no corredor, testando uma por uma, alguém pode ver.

– Mas isso é simples. Vaidosa do jeito que é, tratou de fazer uma fechadura dourada, diferente dos outros quartos, pelo que pude reparar é funda e há algumas saliências. Deve ser para ressaltar a segurança, a chave é totalmente atípica, irregular, vai ser fácil de encontrar.

– Ai! Só você com esses planos malucos! Eu me meto em cada roubada por sua causa.

– Deixe de asneira, seu cagão. Espere no jardim, faço sinal, quando tiver a situação no comando.

Ele torceu a boca, meio contrariado, mas a obedeceu.

***

Carla acompanhou Matilde, a babá do filho adotivo de Dorotéia até um shopping no centro. A porta automática abriu quando se aproximaram, sem dizer do ar-condicionado que logo simpatizou com a baixa imunidade de Carla e tratou de provocar-lhe um espirro.

– Logo percebo que é de cidade pequena, não está acostumada com essas coisas.

– Pois é, venho de uma cidade do interior do Espírito Santo, Doce Recanto. Não temos um shopping com esse porte.

A mulher a interrompeu com um sorriso largo e pueril.

– Chegamos!

A matriarca olhou para dentro do salão de cabeleireiro infantil e pasmou quando viu o famoso Iago de seis anos, ele era um garoto muito além da sua idade, muito belo. Sentiu uma vontade de possuí-lo só para si. Era o instinto pedófilo.

***

Débora percebera que Dorotéia repousava na cadeira de balanço na varanda e se felicitou. Ela dirigiu-se para a cozinha onde Macabéia terminava de lavar os pratos.

– Com licença! Não quero te amolar, mas encontrei a sala de jogos no final do corredor do segundo andar, fiquei encantada com um tabuleiro medieval em cima do armário, se importa se pegar para mim?

– Claro que não, filha. Pego agora para você!

Ela sorriu agradecida. A empregada precipitou-se para a escada e a menina correu até os fundos fazendo sinal para o irmão. Ele entrou e esperou desaparecerem até correr ao chaveiro. Dorotéia revirara aos roncos na cadeira.

***

Matilde sujara a roupa tomando sorvete em uma lanchonete no shopping e pedira licença para ir ao toalete, deixando Carla e o menino a sós.

– Você toma conta dele um pouquinho? Prometo que não demoro!

Os olhos de Carla sobressaíram.

– Claro. Fique a vontade, querida!

O menino terminava de comer o sanduíche meio desajeitado. Carla se encantou com a cena.

– Calminha aí, meu doce. Se não vai pegar uma indigestão. Pera aí, que sua boca ficou sujinha de ketchup, vou limpar para você.

Ela pegou um guardanapo e enxugou seus lábios, deixando a mostra os seios no decote. O menino corou.

***

Débora abriu a sala de jogos e Macabeia puxou uma cadeira para alcançar a embalagem. Na cozinha, Lucas procurava afoito por uma chave que parecesse com as exigências daquela fechadura e acabou se distraindo, deixando um molho de chave cair. Dorotéia acordou. De volta à sala de jogos, a menina agradecera quando recebeu a caixa.

– É esse aqui, não é? – Macabeia perguntou para confirmar.

– Sim, é esse mesmo.

– Bom então você me dá licença, vou voltar à cozinha, tenho que escolher feijão para o jantar e…

A menina entrou na frente quando ela caminhava para o corredor.

– Mas não vai a ter a menor graça, se eu jogar sozinha! – Olhou meio sem jeito.

***

Matilde batera o porta-malas do carro, guardando a compra quando se voltou para o banco traseiro e prendeu o menino com os cintos.

– Eu detesto isso! Incomoda demais!

Aquela voz soou como melodia para os tímpanos de Carla, sentada no banco do carona. Matilde foi objetiva.

– Não adianta reclamar Iago, é para seu próprio bem.

A babá dirigiu-se para o volante quando Carla se ofereceu.

– Criança pequena é um perigo! Não quer que eu vá com ele lá atrás? Juro que não me incomodo!

Matilde esboçou um ar de tranqüilidade.

– Faria isso por mim? Conhecemos-nos há tão pouco tempo!

– Claro, claro que sim!

– Muito obrigada, viu? Não sabe como isso tira um peso nas minhas costas. Ele é muito imperativo, tenho medo de soltar o cinto com esse temporal que está começando. Olha só para essas nuvens escuras!

Carla entrou no banco traseiro, deixando o menino novamente corado. Ela pegou um carrinho no chão e inventou uma história sobre o mundo das corridas, o rapaz ficou encantado. Aproximou, deslizando o braço pelo estofado, tomando o cuidado para a mulher não ver suas reais intenções pelo retrovisor.

***

– Que isso, minha filha! Eu não posso…

– Por favor, eu não tenho ninguém para jogar.

– Por que não chama seu irmão? Tenho certeza que ele vai gostar.

– Ele está ocupado com desenhos no quarto, pelo que conheço não vai abandonar. Por favor!

Ela olhou a empregada de uma maneira implorante, Macabéia acabou cedendo.

– Okay, mas só uma partida!

A menina agradeceu. Enquanto a mulher aprontava a mesa, Débora foi até a janela verificar como estava Dorotéia e se desesperou ao perceber que ela desapareceu.

***

Finalmente, Lucas achara a tão falada chave e antecipou-se para o quarto apreensivo. Nesse instante, a anfitriã chegara à cozinha pedindo um copo de leite e se surpreendera pela empregada não está lá para atendê-la, dirigiu-se até a geladeira e estranhara ao ver Lucas subindo para o andar superior, seu quarto era no térreo. Assim que encheu o copo foi atrás.

O rapaz abrira a porta do quarto e se felicitara por tudo der certo, abaixou para pôr o celular abaixo da cama. Dorotéia chegara ao segundo andar e escutara risos vindo da sala de jogos, constatara que Macabeia jogara com as crianças, ouviu voz de Débora. Quando se voltou para descer, percebeu que a porta de seu quarto estava aberta e estranhou. Teria a empregada aberto para uma faxina? Mas lhe dera ordens expressas para não fazer isso quando não estivesse por perto. Era uma inútil mesmo!

Ele já estava saindo, quando ouviu a voz da tia chamando pela empregada, escondeu-se abaixo da cama num furor de pânico. A mulher observou o aposento tentando perceber alguma alteração.

– Como pensei, uma incompetente!

Ela balançou a cabeça num tom de repreensão e trancou a porta. Lucas se apavorou. Chegou à sala de jogos e repreendeu a empregada pelo fato, Macabéia não entendeu nada, Débora pôs a mão na cabeça. O plano fora por água abaixo.

***

Um temporal forte assolava a região naquela noite. As travessas para o jantar já estavam sendo postas na mesa. Lucas, o qual fugira por sorte do quarto, não conseguia olhar para a irmã num tom de desculpa. Só de lembrar-se do sufoco que fora passar naquelas grades e depois ter pulado daquela altura do telhado. Plano mais maluco! Dorotéia que também já estava sentada a mesa encontrou Matilde e perguntou da irmã.

– Ela está no quarto do Iago, prontificou de arrumá-lo para o jantar.

A ricaça explodiu.

– Você deixou meu filho sozinho com aquela maníaca?

Os irmãos se entreolharam. Dorotéia saiu correndo, eles a seguiram.

***

Terminaram de bater peteca quando o rapaz se cansou, segurando na cabeceira da cama, Carla apressou para a porta, enconstando-a de leve.

– Sabe Iago… Você é um menino de ouro! Sua mãe nem deve imaginar do talento que possa ter.

Ele se virou meio perturbado quando ela se despiu em sua frente, em transe sexual.

– Não fica com medo de tocar a titia! Vem cá, vem!

Nesse instante, Dorotéia escancarou a porta.

– Eu sabia, sabia, que não ia demorar para tirar suas asinhas de fora, sua cachorra !

As crianças chegaram ao quarto, embasbacadas ao ver a mãe nua. Débora demonstrou sua repulsa.

– O que é isso, mãe? Por que você está sem roupa?

Dorotéia abraçou o filho num gesto protetor e esmurrou a meia-irmã que chocou-se contra o guarda-roupa. A anfitriã encontrava-se em ebulição.

– Eu falei para você não se encostar no meu filho, sua doente, pedófila filha da puta!

Lucas olhava a cena, incrédulo.

– O que essa mulher está dizendo, mãe? Eu exijo uma explicação!

Dorotéia quebrou seu pacto de sigilo.

– Não têm explicação, meus adoráveis sobrinhos. A verdade é que a mãe de vocês é um monstro, ela entregou onde o pai de vocês estaria produzindo o plano de metas da revolução por causa de umas fotos comprometedoras dela molestando uma criança.

Débora se desesperou.

– O quê?

Carla saiu de si. Aquilo não podia estar acontecendo, não com seus filhos presentes.

– Cala essa sua boca, sua cobra! Não vê que vai destruir a mente deles?

Lucas fervilhou em sede de justiça pelo pai. Dorotéia concluiu.

– Querem saber de mais? A vagabunda aqui também é uma assassina. Ela matou sua própria mãe, sufocada num travesseiro na calada da noite quando esta descobriu que ela tinha um caso com nosso pai, o avô de vocês.

A menina encarou a mãe com náusea. Lucas a fitou com desprezo. Carla jamais se esqueceria do dia que perdera seus filhos.

 

                                           

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.

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