Eterno canto: Capítulo 7 – Vazio

Eterno canto: Capítulo 7 – Vazio

 

– O que você está dizendo, Carla?

Suas pernas balançaram, ela chorou.

– É isso mesmo que você ouviu! Eu matei sua filha e joguei o corpo no largo das pedras ontem à noite. O lençol continha o corpo dela, ele não enroscou, foi uma maneira de livrar de vestígios.

Ele se levantou desesperado, ainda não estava acreditando no que ouvira. Aquilo era uma brincadeira de mau gosto, só podia ser. Ele não podia ter se enganado há tanto tempo sobre aquela mulher, não podia. Encarou-a em lágrimas.

– Isso não é verdade, não é? É só uma forma de justificar sua saída, não é? Diz para mim que tudo isso é uma mentira. Diz caralho!

Ela abaixou a cabeça, o soluço tomou conta de seu choro.

– Infelizmente, é a verdade. Eu matei a Talita afogada na banheira.

Ele percebeu que a situação era séria e quebrou os objetos num tom agressivo, ela se assustou.

– Por que você fez isso?

– Ela me chantageou, eu estava desesperada. Escutou nossa conversa na cama sobre o real motivo deu ter te seduzido. Fiquei apavorada com a possibilidade dos meus filhos saberem que eu entreguei a cabeça do pai deles, pensei no medo de ser presa como cúmplice do assassinato de George, eles nunca iriam me perdoar. O amor dos meus filhos é a única coisa boa que eu tenho nessa vida, perder isso, seria o mesmo que morrer para mim.

Ele levantou o criado e o derrubou com um puxão ao chão, estava fora de si.

– Eu não estou acreditando no que eu estou ouvindo. Eu não posso ter me enganado quanto a você, não posso.

Ela se jogou aos seus pés em chamas.

– Me perdoa Juliano. Perdoa-me por tudo.

– Perdão? Depois de você me contar disso tudo, assim? Na maior naturalidade? Sua assassina desgraçada!

E lhe deu um pontapé em seus seios. Ela urrou de dor

– Tá vendo por que eu não queria te contar, por que eu queria ir embora?

Ele riu irônico, totalmente atordoado com suas atitudes.

– Você não queria me contar? Eu to pasmo com sua cara de pau! Desejava que o idiota aqui ficasse dias sem notícias da filha até receber um aviso do IML que o corpo fora encontrado? E queria ir embora, assim como se devesse nada? Realmente, agora eu estou enxergando a verdade! Burro que eu fui! Burro! Ficando do seu lado, apoiando sua sujeira por trás da morte do meu melhor amigo e sendo manipulado dentro da minha própria casa por uma bandida.

Ela berrou:

– Eu nunca te manipulei, nunca! Eu nunca te escondi que não sentia os mesmos sentimentos por você. Eu sinto muito, desde que fiz aquilo ontem, eu não consigo dormir, não consigo olhar para você da mesma maneira. Eu não queria te dar essa notícia, eu juro que não queria ver a sua expressão de desgosto é como se fosse um tiro na minha alma.

Ele a pegou pelos cabelos e a jogou na cama.

– Eu não sinto desgosto, eu tenho é nojo de uma pessoa como você, totalmente falsa, capaz de freqüentar uma igreja, sendo que é capaz de matar. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, ninguém.

Essas palavras destruíram profundamente sua essência.

– Sabe que agora vendo realmente o monstro que você é, chego até pensar que é capaz de você mesmo ter dado um pulinho naquele colégio e esquartejado seu marido.

Ela não conseguiu se conter, o estapeou na face.

– Lava essa boca, para falar comigo desse jeito. Eu amava aquele homem como amo meus filhos, nunca teria coragem de fazê-lo mal.

– Ah não? E o que você fez para a elite conservadora, foi o quê? Você pôs seu marido no corredor da morte. Dedurou ele por causa daquelas correspondências anônimas de fotos ameaçadoras, não é?

– Por favor, Juliano, não diz isso para ninguém, eu confiei em você.

– Ah então você mata a minha filha e tá tudo bem? Só rindo mesmo para não chorar. Como foi mesmo que você disse? Ah sim… Meus momentos de fragilidade. Sua pedófila nojenta, como pude te ajudar a acobertar essa sujeira?  Como eu tava cego de amor e não percebi nada. Otário!

Ela o observou em lágrimas e agarrou suas pernas numa tentativa de que ele a perdoasse. Mas ele manteve firme sua postura.

– Levanta daí, que eu não to a fim de emporcalhar minhas mãos com seu lixo.

Ela firmou seus braços, mas ele se desviou bruscamente.

– Sabe o que eu vou fazer agora? Eu vou contar para a polícia tudo o que você é! E arrumar um psicólogo para seus filhos, por que eles vão precisar de um quando souberem a megera que os gerou.

Ela o chamou de volta, mas ele não respondeu. Desesperada, correu até o banheiro e pegou o rodo do chuveiro. Quando Juliano precipitava-se para abrir a porta da sala, o atacou com um golpe certeiro, ele cambaleou em uma estante e Carla terminou o serviço quebrando um vaso em sua cabeça, deixando-o desacordado no tapete da sala. Foi até a cozinha, onde girou os botões do fogão, abrindo até o forno para o gás vazar. Depois, emocionou-se, abaixou em sua volta, acariciando sua face de testa ensangüentada. Beijou seus frios lábios e o olhou pela última vez. Pegou sua mala e entrou no taxí, o automóvel partiu.

***

– Ainda não nos disse, para onde estamos indo?

Débora parecia impaciente. Lucas já adormecera de cansaço a um canto. Carla explicou.

– Estamos indo para rodoviária. Vamos pegar um ônibus para o Mato Grosso!

A menina estranhou.

– O que vamos fazer no Mato Grosso?

Carla foi sucinta.

– Recomeçar nossa vida. Sabe que depois da história do seu pai, a cidade toda nos odeia. Cambada de comunista. – Imitou a voz de uma das senhoras que invadiu sua antiga casa.

Débora riu.

– Ai, mãe. Como você é cruel! Sabe que meu pai diria se tivesse aqui, né? Ia lhe dar um sermão por estar zombando dessas pessoas, justificando com analfabetismo funcional no país.

Mudou de assunto.

– Sabe que eu acho isso tudo uma idiotice. Largou o Juliano para tentar recomeçar em outro lugar, até conseguirmos algo para nos sustentar, vai demorar. Onde vamos morar? O que vamos comer? Foi totalmente precipitado.

Carla se recorda da discussão e do jeito que terminou, sofre.

– Algumas coisas precisam ser feitas, não há como adiar. Cada segundo pode ser letal.

A menina não entende nada.

– O que quis dizer com isso?

Carla é definitiva.

– Nada. Já pode soltar os cintos, acho que chegamos.

***

Juliano acordou. Percebeu a enrascada que havia o metido. Começou a tossir desesperado. A casa estava tomada pelo cheiro de mercaptanas. Pegou uma toalha sobre o braço do sofá e tapou o nariz, começou a abrir a janela em gestos repentinos, empurrando com todo seu esforço até chegar à cozinha e desligar o fogão. Após respirar aliviado no jardim, escorou na parede de madeira e ralou os braços, largando-se nas folhagens. Ela tentou matá-lo, a mulher dos seus sonhos jamais existiu, era uma demônia. Largou-se em vagido.

***

– Precisamos de três passagens para Santa Helena, no interior do Mato Grosso, por favor.

A mulher sonolenta digitou apressada.

– Tudo fica em R$ 530,00

Carla se assustou com o preço e entregou a quantia precisa.

Não demorou muito para o ônibus chegar, pôs as malas no bagageiro e subiu para a poltrona 27. Débora dormia na 26 e Lucas escutava música na 25, ambos juntos. Lembrou-se da pancada que dera em Juliano e que essa hora ele já deveria estar morto. Nunca quis que as coisas fossem assim. Pegou um lenço e enxugou o pronuncio de nostalgia. Olhou pela janela e observou as pessoas que ficavam na plataforma, enquanto o expresso partia.

***

Já virara mais uma garrafa de vodka goela a baixo quando diminui a velocidade, saiu do carro e caminhara em direção a praia, os ventos estavam fortes, mas aquilo não o impediu, pegou o barco ancorado e empurrou na água, subindo e utilizando-se dos remos. Seu sorriso inocente de quando tinha cinco anos pedindo de presente um gravador antigo. Papai, quando crescer quero trabalhar em um rádio igualzinho vovó. A voz dela ainda impregnava sua alma. Chegara ao largo. As ondas ferozes cambalearam a proa, mas ele se firmou nas pedras e subira sentindo aquelas águas gélidas. Sentou-se por um momento, a luz do farol o cegara, pode jurar que estava escutando a respiração da menina, os batimentos, até mesmo seu cheiro de cocaína. Deu um salto inesperado e jogou-se ao mar, gritando por seu nome:

– Talitaaaaaaaa!!!

O que ouviu foi o silêncio do oceano. Seria a natureza surda para o anseio de um pai desesperado? Mergulhou afoito em busca do corpo e quase foi engolido por um redemoinho dantesco, montou-se nas pedras e esperou o bicho amenizar, pulando do outro lado. Seus olhos ardiam pelo sal, mal dava para enxergar o fundo quando seus pés ficaram presos em alguma coisa, puxou e sentiu os cabelos humanos, regurgitou com o cadáver em seus braços. Era de Talita. Então era verdade. Oh, meu Deus! Ela estava imunda, suas pontas dos dedos já começaram a entrar em decomposição, seus lábios estavam podres. Abraçou-a por um momento.

-Minha pequena, o que fizeram com você?

Foi tomado por uma epifania, pô-la no barco e remara até a península do farol. Ele não podia permitir, ela tinha que voltar a viver.

De um pontapé empurrou a porta da torre e subiu os lances de escada, carregando-a nos braços, até chegar ao topo onde um terraço coberto se revelara. Apoiou o corpo em um canto e tentou reanimar num ímpeto de vazies

***

Virou o rosto para o lado esquerdo, tornou a encarar a estrada. O rádio portátil do passageiro da frente começou a tocar Circle de Edie Brickell. Amentou dos tempos de juventude. Aquele baile de inverno, ela sentada no banco entristecida pelo garoto que arranjara de última hora tê-la dado fora, quando ele apareceu trajado em um smoke.

– Quer dançar, senhorita?

Sua doce voz a fez levantar a face e o brilho nasceu em seu olhar, aceitou o convite e foi uma das melhores noites de sua vida. Era tão carinhoso.

Chorou calada.

– Perdoe-me meu amor.

***

O suor escorria pela face daquele pai. Cansara de gritar, de chamá-la de volta, o máximo que escutara fora o não velado do universo. Perdeu-se em lamentos. Qual presente você deseja? Sua presença no meu aniversário, pai, sempre está tão distante. Eu vou te pegar! Mas não vai mesmo, pega-pega é das crianças, os adultos não estão com nada. Pai, não consigo dormir. Posso dormir com você? Aqui está o convite do meu recital, espero que possa ir! Mas que saco, não percebe que o lance com a minha mãe foi à maior mancada de um homem para uma mulher? Acha que eu entrei nas drogas, por quê? Minha mãe nunca ligou para mim, eu não tinha amigos, sentia-me um nada, tive que dar um jeito de me encontrar! Eu não tenho medo da morte, seu Juliano, se puder aproveitar ao máximo enquanto estiver aqui!

Voltou-se para o corpo. Ela não estava ali parada, imóvel, já havia voado há muito tempo, ido embora. Voltado ao pó como diria Débora. Como ele daria tudo para não voltar sozinho para a casa. Seu próprio corpo se rachava por dentro, queimava como larva vulcânica, como ácido. Esgueirou para a beira, chacoalhou a grade, era apagado pelo próprio destino. Os ares do oceano tocaram seu semblante maltratado. Olhou a filha e de nada humano encontrou. Ela já tinha partido há tempos. Ele não podia aceitar, precisava encontrá-la e… Quem sabe recomeçar em outro lugar, ser um verdadeiro pai para que ela nunca precisasse ter partido para suas dependências, ser um exemplo. Oh, minha linda, me absolva! Que eu já estou indo te ver! Com um gesto rápido se jogou. Sua alma subiu ao céu e seu corpo desceu ao mar.

 

                                               

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.