Eterno canto: Capítulo 6 – Grãos de tristeza

Eterno canto: Capítulo 6 – Grãos de tristeza

Carla forjou rápido uma expressão de disfarce:

– Ai, amor! Você nem sabe o que aconteceu!

E subiu o declive, dando as costas para o homem

– Terminei a roupa antes do previsto e resolvi sair para a cidade para procurar emprego.

Ele estranhou:

– A essa hora ?

Ela sorriu indo novamente ao seu encontro:

– Pois é! Pensei em boate como barwoman ou recepcionista de uma cyberteca, lanhouse. Mas infelizmente só me fecharam as portas. No caminho de volta, fui surpreendida por uma forte luz na estrada e percebi que se tratava desse farol (e aponta), fiquei fascinada, nunca pensei que pudesse existir, dei um pulo aqui.

Ele esboçou um gesto de surpresa e voltou-se para ela:

– Mas e o lençol, por que o jogou em alto mar?

Ela riu tentando controlar a pressão interna pelo interrogatório.

– Então… Antes de vir aqui, dei um pulo em casa, pensei que talvez fizesse frio pela maresia e resolvi levar. Mas me perdoa tá? Acabei enroscando no largo das pedras, o lençol ficou preso, tentei puxar, ele acabou rasgando, então o abandonei. Se quiser me tirar algumas refeições para pagar a coberta, eu acho muito justo.

Ele se compadeceu e a abraçou

– Que isso, amor! Esquece isso! Foi um acidente! Jamais faria isso contigo!

Lucas gritou:

– E então, vamos dar uma volta de barco, padrinho?

Antes de Juliano responder assertivamente que sim, Carla interveio amedrontada.

– Na verdade filho, não acho uma boa idéia.

Débora que estava marrenta pela decepção com o final do filme apoiou a mãe:

– É claro que não é uma boa idéia. Imagina, se vou ter cabeça de entrar na água depois daquele final infeliz. Sinceramente, como puderam fazer Vitória matar Diego e jogar o filho no poço? Eu esperava no mínimo um final decente.

Juliano sorriu meio sombrio:

– Mas foi original. Isso tem que reconhecer! Ela enganou a todos com aquela fachada de cordeiro, inclusive, nós, telespectadores.

Débora o abraçou, irritada. Carla continuou a justificativa:

– Eu estive no largo, nem consegui parar para visitar o farol, a maré tá muito alta. Acho melhor, voltarmos outro dia.

Juliano observou a paisagem e reconheceu a fala da amada. No fim, foram embora.

Na volta para a residência, Juliano que estava dirigindo observava Carla, no banco do visitante e quebrou o silêncio.

– Sabe que por um momento eu desconfiei que estava ali por outro motivo !

Ela paralisou. Respirou fundo e o encarou:

– O que está querendo dizer com isso? Acha que eu menti para você?

Ele negou gargalhando, beijando sua testa.

– Isso não tem graça, Juliano!

– Calma! Amor! Se tá muito tensa! Foi só uma brincadeira! Vem cá! Sei muito bem como te relaxar.

Ela desviou de suas investidas.

– Ah não, Juliano! Não gostei da brincadeira! Por que você fez isso?

Ele se explicou:

– É por que achei estranho você dizer que nunca tinha visto ou estado naquela praia, se eu mesmo te levei semanas atrás para conhecer. (Por um momento, ela gelou) Mas depois pensei, ela deve ter dito isso por causa do farol, que estava desligado na época, não deve ter reparado.

– Claro! Claro que foi isso! Eu estou com a cabeça fervilhando com esses problemas financeiros e de estadia. Acha que eu tenho tempo para lembrar-se de um farol velho? Só quero descansar um pouco, ver a cara do meu travesseiro. Amanhã será um novo dia, senhor!

Ele a acompanhou, tentando descontrair:

– Aleluia!

Carla se remexia na cama, não conseguindo dormir. A imagem da menina se rebatendo na banheira desesperada, pedindo por socorro, suas vestes encharcadas e ela empurrando sua cabeça para baixo até soltar bruscamente e a jovem se levantar em carne viva.

– O que você fez comigo, mamãe? – Um timbre meio robótico.

Ferida, rapidamente agarra seus braços, queimando-os como brasa, puxou-a para a banheira também, de uma só vez.

Gritou e acordou suando. Juliano despertou também. Sua respiração estava ofegante.

– O que foi, meu amor?

Carla calçou seus chinelos, fechou a camisola

– Não foi nada, apenas um pesadelo.

Dirigiu-se a suíte, fitou o próprio reflexo no espelho e este a encarou de volta. Acendeu a luz e abriu a torneira, lavou o rosto. O que fizera com uma pobre dependente química? Era um verdadeiro monstro. Uma assassina da pior espécie! Uma forte vontade de se matar a invadiu. Chorou desesperada e largou-se na bancada, caindo ao chão. Juliano surgiu.

– Mas o que está acontecendo? Levanta daí! Meu amor, eu to aqui.

Ele se abaixou e a abraçou forte, ela firmou em seu braço, apertou.

– Eu sou um monstro, Juliano! Uma mulher horrível! Aquela mulher tava certa, meu lugar é na cadeia, atrás das grades.

Ele contestou:

– Para com isso! Seu lugar é aqui, conosco. Como pensa em ser presa e deixar a mim e aos seus filhos?  Nem sonhando vou permitir uma coisa dessas. Escute, você é uma mulher incrível (ele a olhou no fundo dos seus olhos), o amor da minha vida. Uma mulher batalhadora, guerreira, super mãe, linda, uma dona-de-casa de mão cheia, temente a Deus. O que mais posso querer?

Ela se emocionou e tocou em seu queixo:

– Será que não enxerga que não te mereço? Eu já estou suja, Juli, suja para sempre. (ela se levantou). Você que é um homem bom, companheiro, raro nos dias de hoje.

Ela pegou em suas mãos e o ajudou a levantar, olhando nos seus olhos, profundamente, tentou conter as lágrimas que escorriam pelos seus.

– Eu só espero que quando souber de toda verdade, um dia, consiga me perdoar pelo que fiz.

Abaixou a cabeça e apagou a luz do banheiro, deixando-o pensativo no cômodo.

Jogou a panqueca pelos ares, recebendo-a com a chapa quente. Despejou o mel por cima. Juliano estava preocupado.

– Amor, você viu a Talita? Ela não dormiu em casa!

A mulher virou assustada, deixando o conteúdo cair no chão.

– Oh, meu Deus, o que eu fiz?

Ela se abaixou e Juliano submeteu a ajudá-la.

– Amor, você está tremendo. Calma, foi só um acidente!

Ela berrou:

– Não foi só um acidente! Eu destruí a minha vida, será que não percebeu?

E saiu esbaforida. Ele trocou olhares com seus afilhados que ansiosos, esperavam pelas panquecas em cima da mesa.

– Que bicho, mordeu ela? – Proferiu Juliano.

Débora respondeu sucintamente:

– Bem que eu queria saber!

Quando passou da hora do almoço, o policial começou a ficar preocupado e saiu com as crianças à procura de sua filha que para ele deveria estar em algum boteco qualquer, largada a álcool e a drogas.

Carla se despiu e foi até a suíte de Juliano, mas ao ligar o chuveiro, a água não saiu.

– Será que acabou a água da caixa?

Girou o registro, mas nada. Tentou o da rua, mas esse começou a sair uma água de cheiro estranho. Desistiu. Quando tava passando pelo largo da sala, virou-se para a porta do banheiro central. Será que havia acabado água na casa toda? Empurrou a porta que rangeu. A banheira estava lá, ao fundo, branca como sempre. Misteriosamente, um corvo começou a piar, tentando entrar pela janela do banheiro, correu para fechá-las.

– Sai daqui, seu agouro!

A ave piava cada vez mais alto, tentando medir forças com o vidro que a mulher pressionava, começou a bater as asas caoticamente, aquelas penas batiam nas mãos dela que enojada tentava fechar, até que fechou e chocou-se com sua força. Um rastro de sangue manchou o vidro, a pancada tirou sua vida. Talvez não seja uma boa idéia ficar ali! Virou-se para sair, mas a porta bateu em sua face. Voltou-se apavorada e encarou mais uma vez o objeto de banho. Quem estava ali? Pensou melhor. Deveria ter sido o vento! Mas já que estava ali, não deveria ter medo, era só um banho inocente! Abriu as torneiras e esperou a banheira encher. Ajoelhou-se no chão.  Surpreendentemente sentiu uma mão agarrar seu pescoço, olhou para trás e era a menina, sedenta por vingança, ela pressionou sua cabeça para dentro da banheira, tentou debater, mas não adiantava, gritou de pavor, até que deu conta que estava surtando e percebeu que a banheira transbordava. Desesperou, tratou logo de fechar as torneiras e respirar um pouco. Arrancou rapidamente o ralo, deixando a água fugir pelo ralo, totalmente pálida, abraçou a banheira num tom fúnebre.

Já passara das dezenove horas quando depois de rodar na cidade toda e nas vizinhanças por notícia de sua filha, saiu da delegacia preocupado com a possibilidade de más notícias, mas pelo menos seus amigos agora estavam nessa. Débora que junto ao irmão tomava conta do carro correu ao seu encontro.

– Calma! Nós vamos encontrá-la, não se preocupa. Trouxe esse suco de maracujá, acabei de comprar ali na lanchonete.  Tome um pouco, vai te acalmar.

Ele se alegrou pela doçura da menina, aceitando a bebida.

– Você é um anjo, sabia. Tenho certeza que seu pai tinha muito orgulho de você.

Ela sentou-se ao seu lado nos degraus da delegacia.

– Posso? Com licença. Meu pai era um grande homem, acho que a maior herança que deixou, não só a mim, mas a todo humanidade, foi que não precisamos de várias selfies curtidas em nosso perfil social para ser feliz Basta apenas ter paz interior! E como conseguimos isso? Sendo seres éticos e políticos. Em busca da tão eudaimonia aristotélica.

O homem sorriu. Ela continuou.

– Muitas meninas da minha idade vivem por aí andando de maquiagem, perfume caro, mas negam as próprias raízes, maltratam aqueles que lhe deram a vida. Podem me chamar de careta, mas eu respeito os meus limites, sem deixar de olhar para o outro. Meu pai cuidava da gente, mas sempre havia espaço para as pessoas em seu coração. Não era individualista como esse sistema maldito faz questão de reforçar todo dia. Ia numa linha contrária, a expansão desse amor por todos, com um senso de empatia de arrepiar, até dos empresários ele tinha compaixão, acreditava que eram doentes pelas notas de papel, como costumava dizer. Para ele não existia mal, o que existia era uma cegueira compartilhada, no fim até os líderes eram alienados. Esse amor pelo todo, panteísta, foi o privilégio da minha educação. Minha dívida com ele é eterna.

Começou a chorar, Juliano limpou com o polegar suas lágrimas.

– George era um grande homem, um amigo que vou levar para sempre comigo. Chego a pensar que talvez, ele com aquele sentimento imanente, irradiante, pudesse até ser o filho de Deus.

A menina riu.

– Fez-me lembrar da minha mãe, agora. Tolinho! O messias não é um ser único, ele é matéria e energia que se encontra dentro de cada um de nós. Viemos do pó e para ele voltaremos. O universo como um todo é um ser único, harmônico dentro de sua desordem minimamente decifrada pelo ser humano. Somos fragmentos dessa beleza, dessa célula-mãe que nos criou, é um processo mitótico de amor, estamos dentro de arkhé, mas ao mesmo tempo somos ele. Louco, não?

Ele riu de volta, fascinado com sua inteligência e sensibilidade.

Já dera meia-noite. Juliano estava atordoado no quarto sem notícias da filha, as crianças brincavam a um canto em um colchão no chão na sala e Carla encontrava-se com o terço nas mãos no centro do sofá. Agora que chegara até lá, não tinha mais volta! Olhou o horário no celular! Seria questão de dias para Juliano encontrar o corpo da filha no fundo daquelas pedras! Não podia ficar ali, não podia ficar ali mais algum segundo. Percebeu que um farol de carro se aproximava, olhou pela janela, era o táxi que chamara.

– Filhos, por favor, parem de brincar, quero que peguem suas malas no quarto de hóspede que estão, vamos embora!

Débora se levantou incrédula.

– Embora? Mas por quê?

Carla a olhou impaciente.

– Por favor, Débora colabore. O táxi já chegou, está nos esperando lá fora. No caminho, explico. Agora, por favor, os dois tratem de ir pegar as malas no quarto, por favor.

Lucas protestou.

– Mas por que, mas por que mãe?

– Faz o que eu estou mandando, menino. Se não vou dar uma surra em vocês dois. – Disse autoritária.

Débora olhou para o lado tentando compreender o que estava acontecendo e voltou logo em seguida.

– Pode, pelo menos, nos deixar nos despedir de Juliano? Ele foi tão bom conosco, não podemos sair sem…

A mulher a interrompeu.

– Faz o que eu estou mandando! Já para o quarto, pegue suas coisas!

Débora se irritou:

– Me desculpe mãe. Mas antes eu vou falar com ele, sim!

Ela saiu em disparate ao quarto do policial, seu irmão foi atrás. Carla os chamou, mas não conseguiu, indo buscar os pertences das crianças, no quarto.

A menina entrou chorando e respirou fundo. Juliano a percebeu.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa?

Débora foi direta.

– Mamãe já chamou o táxi, viemos nos despedir de você!

Ele não entendeu.

– Como assim se despedir?

Foi tomado pelo abraço da menina. Lucas explicou.

– Vamos embora, Juliano.

Ele o abraçou também. O delegado calçou seus chinelos, irritado.

– De jeito, nenhum! Vocês todos vão ficar! Que diabos deu na Carla?

Correu para a sala e a mulher puxava com força as malas para a porta de entrada. O homem a alcançou e exigiu uma explicação, ela tentou evitar constrangimento, dizendo que precisava ir embora, ele impediu, ela o disse que não amava e sentia-se uma megera o enganando daquela maneira. Ele negou dizendo que era mentira, declarou-se nas frentes dos filhos, até que a buzina tocou. Ela percebeu que não tinha escapatória, haveria de contar a verdade.

– Vão para o carro, filhos! Manda o motorista esperar, vou ter uma breve conversa o padrinho de vocês!

Ela o olhou profundamente nos olhos. Débora sentiu quando percebeu que não havia jeito e junto com o irmão, levou as malas para o veículo.

Sozinhos, Carla sentou-se na beira da cama de Juliano. Ele cobrou:

– Então, você vai me dizer o que está acontecendo?

Ela disparou.

– Eu matei a sua filha!

A face do homem se transformou. Ela, por sua vez, tremeu.

                                              

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.