Eterno canto: Capítulo 5 – Queima de arquivo

Eterno canto: Capítulo 5 – Queima de arquivo

Carla estremeceu.

– Por favor, Talita! Não conta nada para meus filhos!

Talita mordeu a maçã num gesto irônico e sentou-se de perna aberta no sofá.

– Isso vai depender só de você! Tô ligada que se tá sabendo do meu lance com as pedrinhas. Pois é só você me bancar, que está tudo certo!

A matriarca relutou:

– Mas onde que eu vou conseguir grana para te sustentar? Você sabe que vim para cá por que não tenho onde ficar! Se seu pai descobrir que me meti nas suas malandragens, ele me entrega!

A menina se levantou, apontando o dedo para ela:

– Eu acho que você ainda não entendeu a situação! Eu não tenho diploma de otária! Não nasci ontem como suas negas! O homem tá de quatro por você, só você balançar a coleira que ele abana o rabinho e vai correndo, assim, para você! Acorda! Não é qualquer um que sabe o que você fez que te apoia, não Madame ! Aquele ali é corno manso! Ou você prefere que eu abra essa porta e conte ao mundo que por trás dessa fachada de boa samaritana mora uma leoa e das brabas. Vamos lá, é você que escolhe!

Sem escolhas, Carla corre para sua grana alocada num fundo falso da mala. Talita observa e tripudia:

– Tá vendo! Tu é esperta, que eu sei. É das minhas!

Carla entrega-a algumas notas e ela pede mais algumas. A garota sorri.

– Por hoje dá para fazer a festa! Amanhã, eu quero mais!

Ela ameaça sair, mas volta e segura o rosto da mulher num tom agressivo:

– E nem pense em fugir da cidade. Eu descubro onde você se meteu, num piscar de olhos, meus amigos são de confiança, além do xilindró, vai ganhar uma surra das boas.

Ela a larga num tom brusco e sai jogando a maçã no lixo. Sozinha, Carla chora, apavorando-se:

– E agora? Senhor! O que eu faço para me livrar desse encosto? Dá-me uma luz. É sua filha que está te pedindo! Eu te imploro!

O sol no zênite não enganava, acabara de passar do meio-dia. Famintos, o trio de pescadores abriram a porta da sala e de longe sentiram o cheiro da macarronada. As crianças precipitaram-se, mas Juliano fez em um tom paternal que primeiro deveriam lavar as mãos, sem saída, eles foram ao lavabo. Silenciosamente, Juliano chegou por trás e envolveu a amada que terminava de pôr o queijo ralado sobre o molho, mas percebeu que estava em lágrimas.

– O que foi?

– Foi a cebola, tava picando – Disse em um tom conclusivo.

Ele insistiu:

– Você nem usou cebola. Por favor, se abre comigo.

Ela se desviou, mas ele foi atrás.

– Foi algum problema com a Talita?

Ela se virou num tom amedrontada. Nesse instante, suas crianças entraram, exigindo almoçar.

– Calma aí, garotada! Um de cada vez!

O menosprezo a sua pergunta deixou o delegado desconfiado.

Sentada na sua penteadeira de frente para a janela do quintal, observava Juliano cochilar com um pedaço de palha na boca. Deveria contar tudo o que aconteceu? Ele disse que a amava e estaria sempre do seu lado! Penteou com mais força seus fios, alguns enroscaram na escova. Não! A menina era sua filha! O instinto paternal falaria mais alto e além do mais, ela ameaçou contar tudo a polícia e o pior aos seus filhos que caso soubessem disso, jamais iriam perdoá-la. Jogou a escova no chão. Esmurrou para valer o colchão. Imaginou seus filhos virando as costas para ela. Acusando-a de assassina. Ela, terminando sozinha, largada num asilo após a morte de Juliano. Abafou o choro com o travesseiro. Quis berrar. Estava em chamar por dentro. Ela não podia deixar aquilo acontecer, não podia!

– Amor! Acorda amor!

Despertou de supetão. Percebera que dormira aos pés da cama, sentada no chão e Juliano a chamava, olhou no relógio da cabeceira, já eram oito da noite. Permitiu se levantar.

– O que houve? – Perguntou fanhosa.

– Você dormiu no carpete! Que foi? Estou te achando muito estranha desde hora do almoço! Está acontecendo alguma coisa?

Alguém bateu a porta do banheiro, mas a porta voltou alguns centímetros, a mulher se assustou.

– Não ligue, amor. É apenas a Talita. Pelo jeito voltou chapada da rua, só um banho para resolver. Vem cá, estou indo com as crianças a pé até o centro, vamos ao cinema e depois devemos passar no mercado. Quer ir conosco? Vai ser divertido!

– Não acho uma boa idéia, Juli. Tenho que lavar algumas roupas.

– Ah larga disso! Já te disse que não precisa fazer nada!

Ela insistiu:

– Eu sempre fui uma dona de casa, por favor, não queira mudar isso. É uma das poucas coisas que me faz sentir importante.

Ele brincou:

– Ah é? E o que me diz disso, senhorita Carvalho? (ele a beija profundamente). Isso também não te faz sentir importante?

As crianças chamaram-no apressadas para ir ao cinema que iriam perder a sessão. Ela lhe deu um tapinha bobo no ombro, riram e trocaram carícias novamente.

– Quando eu voltar vamos ter uma conversa, hein? De hoje a senhora não me escapa.

Ele saiu todo desajeitado, quase quebrando um vaso e ela riu.  Assim que bateu a porta, sentou ao sofá.

– Bom, vamos lavar essa roupa!

Olhou para o cesto cheio.

Já fazia dez minutos que começara a esfregar a peça no tanque quando ouviu um barulho de descarga. Mas não era da suíte de Juliano, janela mais próxima a sua atrás da casa, era do banheiro principal, a qual Talita usara para tomar banho. Lavou a última peça e pôs na máquina, ligando-a. Um estardalhaço rotatório começou.  Depois se dirigiu para a porta da cozinha fazendo a sineta em seu alto tocar. Sentou-se a mesa, exausta e se recordou da ameaça da garota mais cedo. Ela dizendo daquela forma tão cruel que iria contar para seus filhos e para a polícia tudo que soubera. Sentiu um gosto amargo na garganta. Correu para a pia e forçou vômito. Mas nada aconteceu apenas algumas tossidas, cuspiu e ligou a torneira, deixando a água corrente descer.

Estavam sozinhas. Isso significava uma oportunidade. Mas o que ela faria? Dar-lhe-ia um susto para nunca mais a perturbar? Uma lição de mãe que pelo jeito, a menina nunca tivera! Ou faria pior? Algo sem volta, definitivo, sem deixar rastros? Pegou uma faca no faqueiro e ergueu. Não ia doer nada! Bastava algumas para mandá-la para bem longe, garota insuportável! Não! Ela não era uma pessoa má, não era. Que idéia maluca era aquela? Como pode pensar numa coisa dessas? Largou o objeto em lágrimas, a gravidade o levou ao chão provocando um estrondo. Escorou no azulejo branco, tentando agarrar em alguma coisa para forjar uma filha desesperada que procura sua mãe para protegê-la. Era só ter uma conversa autoritária, nada mais! Correu até o banheiro, empurrando a porta e se chocou com o que viu.

A menina de olhos fechados estava com o corpo mergulhado na banheira, apenas o rosto de fora com os ouvidos a mercê de um fone que conectado a um celular imitia um som de rock metálico audível. Estava em uma espécie de meditação alucinógena, surto. Por um momento sentiu pena.

As luzes da boate que freqüentara ainda estavam vivas em sua mente. Piscando fortemente com um efeito psicodélico. Aquele beco imundo de prostituição, seus amigos a um canto já fartos de um trago a chamaram para participar e ela sentindo de longe o cheiro de coca se aproximara e beijara a boca de um deles, mordeu-a até ele empurrar sua cabeça para sua calça, onde abrindo a boca sentiu melhor o odor de seus pelos íntimos, aquele suor doente era tão viciante, transmitia a substância para todo o seu corpo, tinha a mistura com a testosterona, lambeu seu saco, chupou seu pinto até o rapaz gozar. Puxaram-lhe pelos cabelos, jogaram na pista. Era uma mulher ruiva de seios enormes. Arrancou sua roupa e juntas desfilaram no quadriculado, se pegaram e trocaram selinhos quando o rock holl cantava a solto no salão. Mas o que estava acontecendo? Até que… Uma sombra invadiu tudo. Ela abriu os olhos. A face de Carla aparecera espumando de cólera e desespero em sua frente. Chorava. Tentou levantar a cabeça, mas as mãos da mulher foram para baixo e a firmaram até afundá-la. Seus olhos se escancaram, começou a se debater, mas Carla empurrou ainda mais sua face, começara a se engasgar com a água da banheira, de um salto tentou recuperar o fôlego, mas a matriarca se esforçou e jogou o antebraço para contê-la submersa, água começou a espalhar para todo o chão. Desesperada Talita ousou gritar, mas foi à pior coisa que fez, engoliu água e acabou se engasgando, ela bateu mais aflita seu braço e Carla se desdobrou para manter parada ali. O cabelo da menina ia de um lado para o outro num tom brusco, o líquido entrava em uma turbulência cada vez mais locomotiva, a rebelde se rebatia inutilmente e se afogava cada vez mais, mas o olhar fixo e escuro de Carla não piscava um só instante, agora que começara iria até o fim! Sutilmente, ficou roxa, agarrou os pulsos da dona de casa numa tentativa de fazê-la parar, mas não conseguia, não tinha forças, estava ficando fraca, cada vez mais, deu uma inspirada e levou água adentro, o pânico tomou conta, apertara ainda mais os pulsos, mas Carla não desgrudava. Imóvel, observava a cena como um deleite mórbido. Batera as pernas na banheira, joelhadas de um canto a outro, mas nada ajudava, Carla pressionou ainda mais. Estava fascinada com seu instinto de mãe. A menina começou a perder a sensibilidade, seus lábios adormeceram, encarou profundamente sua madrasta até não dar mais e entregar os pontos. Os movimentos foram parando gradualmente, afrouxou o segurar do pulso, deu o último suspiro e escureceu.

– Meu Deus do céu, o que foi que eu fiz?

Carla fitou o corpo da menina, morto. Aqueles olhos medonhos de piedade pareciam querer devorá-la pelo que acabara de fazer. Tratou-os de fechar com um gesto. Precisava livrar-se do corpo. Nesse tempo, um pulsar iluminou sua face pela janela do banheiro, aproximou-se e constatou um antigo farol. Recordou-se do largo das pedras e concluiu que era um ótimo lugar, a maré estava alta. Voltou à banheira e puxou o tampão, o ralo tratou de sugar toda água de forma feroz. Abriu a porta- mala do carro de Juliano e arrastou o corpo pela casa até a entrada. Não havia ninguém por ali. Ainda bem que o delegado havia adquirido uma propriedade isolada num bosque de araucárias. Correu para buscar um lençol e embrulhou o cadáver, com muita força, ergueu e guardou, batendo a porta.

Já fazia vinte minutos que estava dirigindo ao luar quando avistou por entre as árvores a curva para entrar na estradinha que dava a margem. Puxou o freio e saiu totalmente perdida. Deveria ter se controlado. E se alguém descobrisse? Coragem Carla! Você irá precisar, dizia a si mesma.

Pôs o corpo em um pequeno barco ancorado na areia. A luz do farol incendiou mais forte em seu rosto, agora ele parecia muito maior do que aquela vista no banheiro. As ondas do mar quebravam furiosas por ali, tivera que tomar cuidado ao puxar os remos, sua sorte fora que na juventude fizera um curso de rema. Tinha que torcer para lembrar-se de alguma coisa. Lentamente foi levando o barco até próximo ao largo das pedras, o qual dava acesso à pequena península, base do farol. Sem pestanejar, puxou o corpo.

– Eu jamais queria que isso tivesse acontecido. Me desculpe !

E jogou o lençol, o qual por um instante ficou enroscado por entre as pedras, mas logo afundou para junto do corpo que sumiu no meio daquela maré. Respirou fundo. Agora tinha que voltar.

O trecho correu bem, exceto por uma turbulência passageira que ameaçou derrubá-la na água. Mas para sua surpresa, ao chegar à margem, Lucas correu ao seu encontro pulando em seu colo. Filho? Débora se revelou meio entediada e Juliano apareceu para seu pavor.

– Estávamos voltando do mercado e resolvi mostrar para eles o farol. Coincidência de te ver remar. Por que mentiu para mim dizendo que iria lavar roupas? Álias te vi jogar nosso lençol novo no largo das pedras. O que aconteceu?

Lucas olhou curioso para a mãe. Débora cruzou os braços. O delegado estava desconfiado. Carla gelou.

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.

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