Eterno canto: Capítulo 4 – À tona

Eterno canto: Capítulo 4 – À tona

Débora perdeu o controle:

– Mas o que essa bruxa está fazendo aqui? Era só o que faltava você dizer que veio em defesa da moral cristã sendo que seu marido quando foi prefeito daqui desviou verba de merenda escolar infantil. A senhora não tem vergonha na cara não?

Carla pediu para a filha não continuar aquela discussão. Ivette envergonhada rebateu:

– Tudo balela da oposição invejosa! Mas me admira muito, uma garota da sua idade já metida com a guerrilha do narcotráfico. Vejam só como o comunismo educa nossos filhos, assassina suas mentes desde muito cedo. Vamos deixar, minha gente, a nossa bandeira ser vermelha, vamos?

Débora a empurrou em meio os gritos de apoio da multidão para com a proprietária:

– Cala essa sua boca nojenta, sua hipócrita. Para de querer sair nas ruas vestida com a camisa da seleção brasileira enquanto pessoas da sua família deitam e rolam no dinheiro dos nossos impostos. Sua estelionatária vagabunda! Parabéns para vocês, seus bandos de otários. Defendem um Impeachment fraudulento de uma presidente eleita democraticamente, nossa primeira mulher no poder e permite que uma parasita da quadrilha daquele golpista esteja aqui hoje, expulsando uma mulher honesta da sua residência. Isso é um absurdo. Vocês merecem ser governados por políticos corruptos, mesmo. Merecem sofrer o pão que o diabo amassou com um estado mínimo e uma plutocracia sociopata concentradora de riqueza.

Uma mulher saiu do meio da multidão e deu um tapa na cara da jovem que cambaleou e foi ao chão, seus lábios sangravam. Aquilo era demais. Carla partiu para o ataque.

– Três meses, certo? Para deixar esse endereço. Pois está certo. O recado foi dado, agora vaza, sai daqui seus ogros neofascistas.

Bolonha sorriu e antes de sair com seus advogados cuspiu no chão sobre aplausos da multidão. Lucas correu para debaixo da escada e pelo celular relatou o que estava acontecendo para Juliano que prometeu em instantes resolver o problema. Após isso se precipitou para a despensa, onde pegou a caixa de primeiros socorros, cuidando da irmã, enquanto a mãe tentava expulsar os conservadores a vassouradas.

– Eu já mandei saírem, seus defensores do golpe de 64! Bolsomitas de meia tigela!

Mas ninguém se mexia, todos encaravam irônicos para Carla. Uma mãe de família gritou em um canto:

– Cria vergonha na sua cara! Petista assassina!

Um homem mais velho gritou em outro, rindo:

– Quando é que vai nos confessar seu envolvimento com o Lula? Por que só um homem como aquele para querer algo com você ou será que você prefere um cheiro de couro, tipo Dilmão?

Um adolescente rebelde ousou subir em cima do sofá, manchando o estofado com suas botas imundas:

– Olhando para sua cara, fico com medo de pegar uma DST, bicho feio!

Uma idosa pareceu estourar quando deu a cara a torcer:

– É por sua culpa que meu neto morreu. Eu acendi muita vela para que seu marido esteja no quinto dos infernos. Terrorista das famílias! Transviada manipuladora! Obrigada anjo Bonner por nos mostrar a verdadeira face dessa demônia.

Débora chorava sentada na cozinha, enquanto seu irmão ajudava com os ferimentos.

– Eles vão matar a mãe, se não fizermos alguma coisa, Lucas.

– Calma! Já liguei para Juliano. Não deve demorar!

O delegado bateu a porta da viatura e irritado perguntou para as pessoas o que estavam fazendo ali? Uma dona de casa saiu esbaforida limpando-se no avental.

– O senhor precisa fazer alguma coisa! Não pode permitir que uma prostituta dessas continue nessa cidade subvertendo nossas crianças!

Carla que já o tinha visto chegar retribuiu a altura:

– Escuta aqui, minha senhora. Eu não sou prostituta nenhuma, a senhora me respeita que está dentro da minha casa. Mal amada! Por que não vai dar para seu marido e me deixa em paz!

A mulher explodiu:

– Mas quanta ousadia! Eu te arrebento os dentes, égua daninha!

Ela tentou partir para cima, mas Juliano impediu.

– Por favor, quero que saiam todos daqui. Agora!

A mulher tentou protestar:

– Mas o senhor não pode permitir que uma criatura dessas esteja solta por aí. Eu exijo sua prisão!

Débora chegou nesse momento, pedindo apelo:

– Ah é? Pois eu exijo que você saia daqui, sua vaca! Por favor, Juliano, você precisa nos ajudar, essa multidão invadiu nossa casa, uma mulher me agrediu. Faz alguma coisa!

Juliano foi firme e deu um ultimato ao povo, a maioria se retirou decepcionada:

– Que país é esse? Nem mesmo com a justiça podemos contar, são tudo bandido, ladrão!

– Será que Lula comprou o diploma desse borra-botas?

– Para trás Brasil! Trocar o bem-estar de nossas famílias por um pedaço de carne de segunda. Onde vamos parar? Até o delegado virou petista!

Os que ficaram tiveram que experimentar spray de pimenta e bomba de gás lacrimogêneo. No fim, o ataque cessou.

Débora pôs a mão na cabeça, sentando na entrada, quando a última pessoa passou.

– Francamente! Se essa crise política continuar, eu nem sei o que vai ser do nosso país. Essa cultura ao ódio pelo PT está nos afundando. Sendo que nenhum desses abriu uma página do Manifesto Comunista de Marx para entender do que estão nos acusando. Era só o que me faltava PT comunista? É uma piada!

Juliano deu-a a mão para levantar e tentou acalmá-la:

– Nós não podemos cultivar esse mesmo sentimento, se não estaremos entrando no jogo deles. São alienados! É a única explicação. Você não viu aquela mulher aqui fora? Perdeu o completo juízo, a essa hora da noite na frente defendendo a invasão a propriedade. Claro que não concordo com esse sistema de terras, mas é uma lei. Nossos inimigos não são eles. (Ascendeu o cigarro) É a grande mídia que fomenta isso!

– Sim. Mas alguém precisa fazer alguma coisa para barrar isso!

Nesse momento, Lucas os chamou. Carla chorava desesperada em seu quarto, trancada. Juliano bateu na porta, mas ela só pedia para ele ir embora.

– Carla! Deixa-me conversar com você!

– Vai embora! Deixa-me em paz. Eu quero ficar sozinha!

Depois de mais algumas insistidas. Ele desistiu. Pediu aos filhos que cuidassem dela, amanhã voltaria.

No dia seguinte quando o delegado voltara por lá, ela lhe contara tudo sobre a ameaça da proprietária e ele compadecendo os convidou para ficar em sua casa quando saísse dali até que as coisas se acertassem financeiramente para ela. Ela se emocionou com o pedido e o abraçou, roubando dele um beijo. Discretamente, seu filho viu.

Carla tentou procurar advogados a fim de reverter à decisão de Bolonha, mas eles alegaram que nada podiam fazer, pois o cancelamento do contrato empregava a total quebra de compromissos da dona com o inquilinato e foi além, se entrasse na justiça, além do processo demorar, o que de nada adiantaria, sem sombra de dúvidas iria perder a causa, já que não tinha renda fixa e suas economias estavam escassas.

Três meses se passaram e teve que vender algum de seus móveis para conseguir se sustentar junto com a pensão pífia que seus filhos ganhavam do estado, pela morte de seu marido, esta ameaçada de ser cortada para recuperação econômica do país; que segundo especialistas neoliberais, isto é, defensores da fábula perversa; encontra-se quebrado. Não sei por que, mas estou sentindo um cheiro de ovos estragados. Deve ser o calor, não é mesmo? Ou será nossa piscina cheia de ratos? Continuando…

Carla acabou tendo que entregar a casa em lágrimas. Dera a última trinca na porta da frente, segurando sua mala de roupas.

– Vamos! Até que não é tão ruim assim!

Juliano apareceu de braços abertos, ele a acolheu. No carro do delegado, Débora cochichou para o irmão que também observava a cena:

– Acho tão linda essa amizade que ele nutre pela nossa família!

Lucas deixou escapar:

– A qual é de certa forma especial pela nossa mãe!

Ela se virou, curiosa:

– O que foi que você disse?

– Nada.

– Claro que disse. Falou que era especial pela mamãe. Maninho, o que você está sabendo?

Ele riu e contou-lhe baixinho. Ela soltou um grito histérico, voltando para eles.

– Esses dois!

Depois de almoçarem no centro, chegaram à casa do delegado. Mas para o azar, descobriram no ato que possuía uma filha de dezoito anos, roqueira, gótica, rebelde até o último fio de cabelo de codinome Talita. Bastaram trazer as malas para dentro, para que ela pudesse soltar suas grosserias ácidas.

– Qual é pai? Convidou a boiada para passar uma temporada aqui e nem me avisou. Sabe que o gás metano não me faz bem. Álias…

E arrotou alto na frente do trio. Juliano ficou enfurecido.

– Já para o seu quarto, garota mimada!

– Se não manda em mim, meu irmão. Não tem moral para mandar em nada. Desde que largou minha mãe por causa daquelas vadias que ficavam te cercando naquele cassino clandestino. Cês não sabiam, ele tinha um cassino de jogos e prostituição. Cuidado hein? A estadia aqui vai custar caro!

E saiu rindo feito uma hiena para rua, mas voltou rapidamente.

– Ae tia, maleta legal, essa sua? Trouxe camisinha, Né?

Juliano a expulsou furioso com a cinta nas mãos até ela bater a porta.

– Olha vocês me desculpem. Eu não sabia que ela iria reagir desse jeito.

Carla o acalmou:

– Sem problema. Eu tenho filhos, lembra?

Débora protestou:

– É… Mãe. Só que eu não sou nenhum pouco parecida com essa daí.

Lucas completou, cruzando os braços:

– Muito menos, eu!

Carla os repreendeu:

– Crianças, por favor!

Juliano cedeu:

– Deixe eles, Carla.  Não estão dizendo nenhuma mentira. Estão?

Ela o olhou meio sem jeito e voltou para seus filhos que faziam cara de contentamento.

Depois de tomarem um café expresso que a máquina mágica para as crianças sabia fazer, foram até o parque na cidade vizinha e Juliano fez questão de pagar os brinquedos para as crianças. Primeiro a montanha russa, Débora não parava de gritar e Lucas de rir do cabelo esvoaçante da irmã que o lembrara a Samara do O Chamado. Pararam para comer pipoca e voltaram a toda para a roda gigante. Lucas caçoou da irmã quando pararam lá em cima e para imitar filmes românticos, ousou se declarar, deixando-a brava. Riu horrores. Comeram algodão doce e curtiram carrinho do bate-bate, em que Débora mostrou-se uma perfeita motorista para dar choques frontais, adiante, trem- fantasma e a casa dos espelhos.

Carla ficava encantada, observando a alegria de seus filhos, quando Juliano se aproximou trazendo um algodão doce.

– Trouxe para você!

Ela se surpreendeu: – Obrigada.

– Imagina.

– Nunca vou esquecer o que está fazendo pelas crianças. Eu nunca fui muito de sair, foram criados extremamente fechados, acho que errei. Olhe só como estão se divertindo. Obrigada.

– Que isso Carla, não precisa agradecer nada, sabe que eu tenho o maior carinho pelos seus filhos, afinal sou padrinho deles. E além do mais, eu os vejo como meus filhos.

– Que isso! Não precisa…

– Escute Carla! Você sabe que desde muito tempo sou completamente apaixonado por você e nunca fiz questão de esconder isso, nem quando estava com George. Claro! Eu respeitava! Mas nunca te esqueci! Agora que está lá em casa e já que não tem para onde ir, eu pensei em adotá-los, que a gente pudesse formar uma família.

– Olha Juliano, acho que está confundindo as coisas, eu…

– Por favor, não diga nada, só me beija.

E eles se beijaram.

Mais tarde, quando todos já estavam dormindo. Ela dirigiu-se ao seu quarto e tiveram uma noite de amor. Ele com seu corpo forte a beijando e ela beliscando suas costas num êxtase sem limites. Depois ficam a conversar na cama, ele lhe relatou sobre o problema de Talita, que a garota estava viciada em cocaína e a mãe mandara desesperada para que ele fizesse alguma coisa; em dado momento ele a questionou sobre seu medo em querer arquivar a morte de George, por que estava na cara que o havia seduzido, ele a amava e não estava exigindo nada, mas queria ajudá-la. Ela acabou lhe confessando.

O dia amanheceu e Juliano levou Lucas e Débora para pescar, até convidou Carla, mas ela fez questão de ficar e ajudar na faxina. Tinha que ajudar de alguma forma! Depois de sua insistência, ele acabou permitindo e ela dirigiu-se a despensa buscar os equipamentos, iria começar pela sala.

Quando voltou se assustou ao ver Talita mexendo em sua mala, a garota mordia uma maçã num tom de ansiedade.

– Mas o que é isso, Talita, o que pensa que está fazendo?

A garota a encarou profundamente:

– Eu não penso Tia! Eu faço! Quero grana!

– Mas eu não tenho… Eu não tenho…

– Sei lá! Te vira ! Pede para o meu pai! Rouba se for preciso!

– Talita… Por favor, vamos conversar você está muito agitada…

Foi então que ela disparou:

– Para com esse papinho furado. Você pensa que engana, quem? Com esse seu jeitinho de santa? Pensa que eu não ouvi, ontem à noite você confessando para o meu pai que seduziu ele com medo que seus filhos e a polícia descobrissem que foi você que entregou seu marido para a morte, que foi você que deu a pista para os assassinos dele de onde estaria com as instruções da tomada de poder! A mim você não me engana! Sua traíra!

Carla gelou. A garota descobrira tudo. Estava perdida.

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.