Eterno canto: Capítulo 3 – Lençóis quentes

Eterno canto: Capítulo 3 – Lençóis quentes

Carla deu de ombros, tentando disfarçar:

– Que isso, meu filho. De onde você tirou uma história dessas?

Débora a enfrentou:

– Não pense que vai nos enrolar. Diz logo, mãe, por que a senhora não quer deixar a gente contar a verdade a polícia? O que você sabe sobre a morte do nosso pai?

Carla beijou a testa a filha tentando acalmá-la.

– Anda vendo muito seriado policial na televisão, eu te digo que não é indicado para sua idade.

Ela puxa a chave da bolsa e abre a porta, mas Lucas corre em sua frente impedindo que suba as escadas.

– Você não vai fugir, ouviu bem? Eu sofri um atentado, caramba. Poderia ter ficado aleijado para o resto da vida.

Débora passa por debaixo do braço da mãe, escorado na parede e fecha o tempo cruzando os seus, reforçando a barreia do irmão.

– Lucas está certo! Se não nos contar tudo que está acontecendo, a gente te entrega para a polícia também.

Os olhos da menina faiscavam de cólera. Carla estava encurralada.

A mulher pensou um pouco e consentiu.

– Está bem! Vocês venceram, vou contar tudo que sei.

Os irmãos comemoraram quando ela os pediu para sentar no sofá.

– Não era para eu estar comentando nada com vocês, são duas crianças…

Débora se irritou:

– Deixa de embromação. Fala logo o que sabe. Desembucha.

A matriarca se ofendeu:

– Que maneira é essa de tratar sua mãe, garota? Deixo-te de castigo por uma semana no quarto, hein? Não brinca comigo. Abusada!

Lucas troca olhares com a irmã de reprovação. Débora se desculpa:

– Tá certo. Perdoe-me, não foi minha intenção. Agora poderia nos dizer, por favor, o que sabe.

Carla confessa:

– A realidade é que eu recebi uma ameaça de morte quando estava cuidando da papelada do velório de seu pai, um capanga de uma dessas famílias poderosas que lideram o país me cercou e pediu-me para entregar todo o plano documentado para tomar o poder e eu me neguei por isso que ele deve ter te atropelado. Perdoe-me meu filho, a culpa foi minha.

Lucas a observou desconfiado. Débora quis saber mais detalhes:

– Que famílias são essas? Quem é esse homem que te abordou? Mãe será que não percebe se não denunciarmos isso, eles vão continuar te ameaçando.

Carla termina a conversa:

– O combinado éramos eu contar e vocês se calarem, pois eu cumpri minha parte, agora façam a sua. Vou subir, estou com uma tremenda dor nas costas. Filha, por favor, me chama as cinco, passo café e vou para manicure.

A mulher desapareceu degraus acima e Lucas puxou a irmã para um canto.

– Como assim, você acreditou nessa história? Não vê que não faz sentido nenhum…

Débora o interrompeu, surpreendendo-o:

– Eu fingi. Claro que não faz sentido. Acho que ela se esqueceu do detalhe que a perícia nos contou sobre o roubo dos tais documentos no ato do crime.

Lucas completou:

– E agora o que vamos fazer? Vamos a polícia, não é?

– Lógico! Mas não agora, vamos esperar ela sair para a manicure. Depois procuramos Juliano.

No alto da escada, Carla ouvia tudo preocupada. Balbuciou:

– E agora, Meu Deus! O que eu faço? Eles nunca vão me perdoar se souberem da verdade. Já percebi que vou ter que gastar cada artifício que tenho para enterrar essa história de uma vez por todas.

Juliano terminava de colocar a gravata de frente para o espelho, quando a campainha tocou. Era Carla trajada em um sobretudo escuro que ela fez questão de abrir e revelar o vestido decotado vermelho escuro que possuía por baixo. Suas mãos enluvadas puxaram um Black do bolso e com a outra revelou um isqueiro, bastou um toque e seu cigarro estava em chamas. Tragou e deixou a fumaça sair suavemente pelos seus lábios selvagens rosa berrante.

– Não vai me convidar para entrar ?

Juliano estava paralisado com aquela beleza. Sempre fora apaixonado por Carla desde a época do colégio, mas George ganhara essa parada. Já tinha perdido as esperanças quando ela aparecera daquele jeito em sua porta. Estaria sonhando ?

– E então, vai ficar aí parado ?

O delegado despertou do transe, meio gago.

– Por favor, entre. Fica a vontade, a casa é sua.

Ela entrou triunfante, beijando de leve o rosto do homem. Rapaz, que perfume era aquele ? Damas da noite caíam-lhe tão bem.

– Nossa que cafofo maneiro! Quem diria Juli que seria promovido a delegado federal!

Ela observa os pertences na sala de estar, tendo a liberdade de sentar no braço do sofá, cruzando a perna e alisando o cabelo. Ele se aproximou eufórico.

– Que devo a honra da visita ?

Ela o olhou maliciosamente aprumando o decote e pôs o dedo em seus lábios em gesto de silêncio.

– Já já…você vai saber.Agora, tem alguma bebida por aqui ? Acho que temos muito a conversar.

Que avião era aquele, pai do céu ? Correu, atordoado para o armário buscar a bebida, tropeçando no que via no caminho. Ela soltou um risinho de graça.

Ambos saíram de baixo dos lençóis transpirando de tanta pegação. Ela tateou o chão em busca do seu celular e se assustou com o horário. Era quase cinco horas, tinha que voltar correndo para a casa. Ele tentou evitar, mas ela disse que estava atrasada.

– Ah não, fica mais um pouco. Deixa-me fazer valer mais a pena a sua viagem até aqui.

Ele tentou lascar um beijo, mas ela esquivou.

– Não dá. Se as crianças perceberem que estou fora do quarto vão vir correndo para a delegacia e é melhor que esteja lá para fazer tudo que a gente combinou. Está comigo, não é cara ?

Ele balançou a cabeça em sinal afirmativo enquanto ela vestia a roupa de pé.

– Sim…sim. Pode contar comigo ! Vou proteger seus filhos dessa história, fazê-los esquecer essa investigação. Agora, vem cá, quando você vai poder voltar aqui, não sei por quanto tempo vou agüentar.

Ela tornou a subir na cama em um gesto de ferocidade e acariciou sua cueca, deixando-o maluco.

– Prometo que se o mocinho aí se comportar, não tardo a demorar.

Ele deu um tapa em seu traseiro e ela saiu feliz até passar pela porta e esboçar sua náusea.

Felizmente conseguira voltar há tempo e dobrar seus filhos que acharam estar no comando da situação. Assim que ela saiu para a manicure, eles zarparam para a delegacia em busca de Juliano. Ele estava de costume em seu escritório. Abriu a porta com felicidade.

– Ora ora… Se não são meus afilhados prediletos. Vem cá, qual o motivo que os trouxe aqui ?

Débora não fez rodeios :

– É o seguinte ! Desde a morte do meu pai, o clima lá em casa não foi o mesmo.

O homem fingiu estranhamento :

– O que quer dizer com isso ?

Lucas interveio :

– Quer dizer, Juliano, que a mãe tá muito misteriosa. Quando sofri aquele atentado, ela ficou toda preocupada comigo, até retirou todas nossas economias para pagar a minha cirurgia, mas não sei se todo aquele sentimento era por isso, ela está escondendo alguma coisa e algo muito grave.

Juliano levantou em um tom falsamente sério, andando pela sala :

– Algo como o quê por exemplo ?

Débora virou-se sentada, para ele :

– Nós não sabemos. O que ocorreu de fato é que ela nos impediu de vir prestar queixas da placa do carro que Lucas se lembrou de tê-lo atropelado, tentando nos enrolar com uma conversinha fiada de que um capanga a ameaçou no velório de meu pai em busca dos papeis que ele escreveu para instruir os manifestantes, mas isso é uma mentira deslavada, por que a própria perícia confirmou que eles foram roubados na hora da morte.

Juliano olhou para as crianças :

– Realmente é muito estranho. Por que ela faria uma coisa dessas? Vamos fazer o seguinte, deixem tudo comigo, vou anotar a placa do carro e mandar meus homens hoje mesmo investigar. Mas vocês têm que prometer que não vão mais interrogá-la, nem procurar saber sobre isso, a polícia vai cuidar e eu tratarei de informá-los como posso.

Assim que eles saíram, o delegado apagou o boletim de ocorrência feito, inclusive o pedido para as investigações, dizendo para si mesmo:

– Só espero estar fazendo a coisa certa !

Os jovens desceram do ônibus. Enquanto Débora parecia convencida de que tudo daria certo, Lucas desconfiou das intenções do delegado.

– Sei lá. Aquele papo de nos deixar de fora de investigar foi muito esquisito.

– Impressão sua ! Só está preocupado com a gente !

Mas não tiveram muito tempo para trocar idéias. Ao virarem a esquina, chocaram ao ver sua casa tomada por uma multidão. Correram, pedindo licença por entre as pessoas e ouviram vaias quando chegaram à sala de estar. Sua mãe estava encurralada pelos familiares das vítimas mortas no enfrentamento da polícia. Uma mulher dava um safanão em Carla.

– A culpa foi sua e daquele seu marido terrorista que levou o meu filho para o mau caminho. Agora ele tá morto, seus petistas de merda ! Bora linchar essa ramera dessa cidade, meu povo. Miseráveis ! Destruidores das famílias brasileiras.

A multidão alienada tentou arrastar Carla, mas os filhos imploravam para que nada fosse feito, jogando-se no meio. Até que uma criatura de obesidade mórbida invadiu a casa acompanhada de seus advogados. Era a proprietária. Srta. Ivette Bolonha.

– Isso não será preciso ! Senhoras e senhores, defensores da moral cristã venho anunciar que a renovação do contrato não será feita, eles tem três meses para abandonar a residência. Aqui está a ordem de despejo.

Carla ficou petrificada. Os irmãos trocaram olhares, mas a face da mulher parecia irrefutável com aquele sorrisinho de deboche.

 

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.