Eterno canto: Capítulo 27 – Instável

Eterno canto: Capítulo 27 – Instável

Capítulo escrito por; Charlotte Marx

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– Sinto muito, mãe! Mas você não tem o direito de se meter na minha vida dessa maneira. Eu já sou muito grandinho para te dar satisfação sobre o que quero ou não fazer. Se escondi alguma coisa de você e do papai é por que nunca iriam aceitar que eu me envolvesse de novo com essa história, porém, vocês se esquecem que isso é o meu passado, é minha sina, não tem como apagar.

Elvira se irrita.

– Vamos ver se essa aventura de amadores vai longe. Segurança! Segurança!

Ezequiel desata a correr, fugindo com a pasta, esbarrando nos passageiros. O mocinho se vira para mãe e a segura pelos braços enquanto ela denuncia seu amigo para a segurança.

– Tá satisfeita com o que fez? Não vou mais viajar. Ezequiel foi embora. Você não tinha esse direito!

Elvira rebate.

– Como não tinha? Se tinha dinheiro para pagar aquele ladrãozinho de quinta é por que conseguiu trabalhando num melhor dos hospitais desse país e tudo isso pela sua excelente formação que eu e seu pai bancamos.

– Bancaram por que a USP foi privatizada por aqueles palhermas que mataram meu pai. Mas essa situação vai acabar! Não tem problema a senhora me impedir! O que é deles está guardado!

– Larga disso Lucas! Larga disso! Vereador de uma cidade de interior? Aonde isso vai te levar? Acha mesmo que conseguir depor um por um? Eles possuem costas quentes, não vão cair! É uma organização criminosa! Uma quadrilha! Se você for para lá, meu filho, quem vai cair morto é você! Será que não percebe isso?

O jovem bate o pé irritado e a deixa falando sozinha, ela vai atrás carregando sua mala.

***

Jesus entra no quarto de Débora e percebe que a garota está fechada no banheiro, ele bate na porta.

– Débora? Está tudo bem aí? Quer que eu chame alguma enfermeira para te ajudar?

Mas a menina não responde. Ele bate mais uma vez chamando pelo seu nome e novamente o silêncio predomina. Um enfermeiro escuta os berros do médico e se precipita para o quarto.

– Doutor Jesus, aconteceu alguma coisa?

– Estou batendo na porta, ela não responde. Estou preocupado, o último coquetel foi muito forte, não sei se agüentaria em pé por muito tempo. Como pode ver a cadeira de banho está ali, ela não usou!

Marcão esmurra a porta e novamente nem um sinal. Ele então a arromba com um ponta pé e Jesus se desespera ao vê-la desacordada, caída no piso do chuveiro, ele abraça-a desesperado.

– Débora, Débora, fala comigo! Rápido Marcão chama ajuda, vamos levá-la para a ressonância imediatamente!

***

Lucas entra pela porta da sala e a bate, Elvira que chegava atrás é atingida.

– Chega né? Já deu seu showzinho lá na estação da Luz, agora sossega o facho. Poderia ter me machucado com essa batida!

Lucas a encara.

– Esse é o seu maior problema! Sabia? Você se acha a dona da verdade, da razão! Se intromete na vida dos outros sem sentir vergonha. Vem cá, sua vida pessoal deve estar muito ruim mesmo para você ter tempo de atazanar a dos outros!

Elvira joga sua mala a um canto. Depois o crava nos olhos.

– Se para você te proteger é sinônimo de atazanar, o que eu posso fazer?

Lucas ri.

– Deixa eu te avisar uma coisa: eu já tenho 25 anos! Não preciso que me protejam, sei muito bem me cuidar!

Elvira o ridiculariza.

– Sabe tanto que estava dando dinheiro para um marginal que roubava seus brinquedos na infância!

– Isso é problema, meu. A senhora não tem nada haver com isso! Ele já me pediu desculpas! Mas também você quer o quê? Ele vive numa sociedade que o amiguinho de classe tem mais poder econômico que ele, isso cria um ambiente sedutor a criminalidade, pois gera competição, necessidade de ter.

– Então você está querendo justificar o roubo, é isso? Era só o que me faltava para constatar de vez o seu despreparo para apreensão de mundo! É um fedelho ainda! Um novato!

Lucas se irrita com aqueles xingamentos e a estapeia na cara. Elvira fica pasma com a audácia do rapaz, o menino chora e sai correndo para o quarto, onde se tranca. Sozinha ali, a matriarca se recupera.

 

AMANHECE…

 

Bruno Paçoca termina de se arrumar na frente do espelho, quando o carcereiro lhe chama. Durante sua caminhada pelo corredor das celas; ele é ovacionado, aplaudido, vaiado; porém, mantém seu olhar fixo naquilo que realmente era importante: sua liberdade pelo bom comportamento prestado. Assim que sai pela grade de ferro, ela se fecha em suas costas com estrépito.

***

Sam acorda com o abrir da cortina em seu quarto, ele retira seu blackout, envolvido pelos braços do amado e mira o despertador na sua cabeceira, repreendendo a empregada com um salto na cama.

– Sua toupeira humana! Olha o horário que me chamou? Não vai dar tempo de chegar ao colégio, antes do primeiro sinal! Ai que ódio! Vou contar tudo a minha mãe dessa sua folga, estaferma! Pode ter certeza que isso será descontado do seu salário de merda! E tudo isso por causa a droga desse despertador está quebrado!

Ele chama Robson que se assusta e cai da cama. O vilão se desculpa.

– Não foi minha intenção, amor! Mas estamos atrasados!

Eles correm para uma ducha juntos, o flautista até tenta fazer algumas brincadeiras sacanas, mas Sam é enfático.

– Agora não! Controle seus feromônios, meu amor!

Ele puxa sua toalha felpuda, enxuga depressa o corpo e corre para o closet, onde põe seu colete em estilo mais social e passa pó de arroz, passando o delineador e um batom mais discreto. Do lado de fora, Robson que já vestira uma camiseta qualquer e um short xadrez avisa que está descendo para o café. Antes de terminar, o mauricinho se olha no espelho.

– Esses ativos não entendem nada de metrossexualidade, é por isso que não passam de um capacho de nós: bichas rainhas! Mia sua felina gostosa! Miau, miau! (gargalha) Perfeito!

Ele desce e encontra sua mãe e sua irmã acompanhadas de seu namorado na mesa. Robson termina de comer uma fatia de bolo de fubá, reclama ainda de boa cheia:

– Caralho, você demorou demais! Nem sei para quê se embonecar todo!

Sam o fita achando graça.

– É por que vocês homem não entendem nada de vaidade! Somos, nós aqui que temos que esfregar as suas costas, limpar os seus umbigos, por que se for deixarmos para vocês! Tornam uma sujeita só!

Fernanda ri.

– Então quer dizer que você não é homem, filho?

Sam senta-se a mesa e pede a geléia Light de damasco a Dalila, sua irmã mais nova, jogando sua franja para cima do olho.

– Lógico que sou se não teria mudado de sexo, não acham? Quando me refiro a ele como homem, o que quero dizer é que existe uma cultura de gêneros pela qual não compactuo. Sou homem por que tenho epidídimo, saco escrotal, glande, contudo, não me considero masculino cuja denominação implica em adotar tais valores de ordem moral. Identifico-me muito mais com o feminino, afinal encaixo-me na categoria bicha louca!

Todos riem. Fernanda pergunta ao genro.

– E você Rob, o que acha disso?

Ele emprega sua opinião.

– Tirando pelo “louca!”(riso) Penso que quando nós gostamos, amamos alguém de verdade, não importa a que variante ele pertence. Eu, por exemplo, sempre me identifiquei em ser mais discreto, em atender alguns valores que a sociedade julga ser de homem, no entanto, não sou machista como muitos são. E é esse misto de sensações, de comportamentos que faz um ser, ser humano. Pegue outro exemplo: adoro participar de manifestações LGBT, por mais que Sam me alerte que muito dos ativistas de seus movimentos padronizam o ideal de comportamento de um homossexual, exigindo menos trejeitos afeminados e uma postura mais séria. Eu gosto de seguir, de participar, assim como seu filho gosta de se produzir, de ser delicado. São maneiras distintas de expressar sua essência, podemos não aceitá-las, mas devemos respeitá-las. E eu amo seu filho assim, do jeitinho que ele é.

Sam sorri e completa.

– Sem contar que muitos desses gays que pagam pose de sérios, você encontra se pegando no primeiro ponto de ônibus quando sai para caminhar. Há muita hipocrisia no meio dos manifestantes, é por isso que desencorajo a participar!

Um silêncio prevalece após sua fala e Dalila retoma a tônica.

– Eu acho que está generalizando, Sam. Se for assim então, vou te julgar fascista já que possui pôsteres e mais pôsteres do Bolsonário na parede do se quarto. Álias, quando vai tirá-los? Prometeu-me depois do vídeo que te mostrei!

Sam termina de comer sua torrada integral de mel e aveia, cortando um pedaço da ricotta.

– Quem disse que vou tirá-los? Eu prometi que ia pensar a respeito! Mas o considero um excelente candidato! Por mais que as pessoas adorem distorcer suas mensagens. É a única maneira de acabar com aquela cambada de corrupto, fechando o congresso e instalando um governo autoritário!

Fernanda discorda.

– Eu discordo completamente! Você acha mesmo que a parte da elite desonesta não vai apoiar o governo? E ele não vai começar a atender seus pedidos? Não vale mão abrir mão de uma democracia mesmo que frágil por causa da insegurança em sermos roubados.

Dalila a apoia.

– Isso mesmo! Se tem alguém melhor para assumir o país, esse alguém é a Luciana Genro, sua proposta para Nova Esquerda é fantástica! O foco não pode ser economia, tem que ser as causas sociais. Nós! Mulheres! Precisamos ter situações justas! E além do mais o Bolsonário é homofóbico, estaria indo sua própria orientação, irmão!

Sam ri.

– Menos, comunista! Sem economia um país não se desenvolve, não pira! Quanto ao Bolsonário, ele não é homofóbico, ele só não concorda com cartilhas para crianças pequenas, o que está coberto de razão já que não possuem capacidade para discernirem o que querem da vida. Bom, deixem nos ir, vamos correr para não perder a segunda aula, let’s go meu amor!

Eles trocam selinhos, o vilão se despede de todos e os dois saem.

***

Lucas termina de arrumar seu material para ir para o hospital, quando Cristiano bate em sua porta. Ele abre e o jovem evita abraços.

– Você pode me dizer, Lucas, o que foi aquele tapa na sua mãe? Ela me contou! Você ficou maluco? Sempre foi tão sensato em suas ações, juro que não te reconheci!

Closet no rosto do mocinho contrariado.

***

Débora acorda e estranha ao estar na UTI, Jesus que chega a sala nesse momento e se felicita ao vê-la de volta a si.

– Que susto nos deu! Achei que a queda de pressão fosse demorar mais algum tempo!

Ele senta ao pé da cama e ela se preocupa.

– O que aconteceu comigo? Lembro-me de meu nariz e meu ouvido sangrarem.

Ele explica.

– Você teve epistaxe posterior! Uma hemorragia na tuba auditiva- nasal! E pode voltar a qualquer momento! Por isso estamos te monitorando aqui na UTI! Eu acredito ser um simples rompimento de artéria etmoidal, mas pode ser um novo tumor. Sabe se tem Doença de Von Willebrand?

Ela fica confusa.

– Nunca me disseram nada! O que é isso?

Ele tenta ser didático.

– É uma doença hereditária e bem rara, é devida a falta de uma glicoproteína responsável pela coagulação do sangue. Estamos fazendo um cariótipo para identificar se seu cromossomo 12 produz o gene que a codifica. Mas demora um pouquinho, pois temos que repeti-los algumas vezes para não dar margem para erro.

Ela balança a cabeça.

– Só falta mesmo, além da Leucemia eu ter isso! Será que nunca vou sair daqui?

Ele a conforta.

– É claro que não, sua boba. Estamos fazendo de tudo para que possa voltar para a casa o mais rápido possível. Não pode perder a esperança! Promete para mim que não vai desistir de lutar?

Ela pega em suas mãos.

– Você é tão bondoso comigo! Não estaria perdendo seu tempo? O que sua família? Sua namorada não devem pensar!

Ele ri.

– Deixa de asneira, Debby. Não tenho namorada, ainda não surgiu uma pretendente bacana e minha família é de Doce Recanto, interior de Espírito Santo, logo mora longe, fica difícil ir para lá todo dia, não acha?

Ela se surpreende.

– Doce Recanto? Nossa! Como esse mundo é pequeno! Eu e meu irmão nascemos lá. Só falta você dizer que também nasceu!

Ele nega.

– Coincidência mesmo! Não. Mudamos há cinco anos para lá, quer dizer, eles mudaram, por que já tenho apartamento próprio aqui em Sampa. Somos de Volta Redonda, Rio de Janeiro!

Elvira bate no vidro e o oncologista sorri.

– Veja só quem chegou para te ver! Vou deixá-las a sós!

E sai, abrindo a porta para Elvira que corre para abraçar a filha.

***

– Cala boca, Cristiano! Você nem sabe do que aconteceu!

O advogado fica incrédulo. Contrapõe:

– Ela queria te proteger da maior burrada de sua vida e o que você fez? Bateu nela, na sua própria mãe!

– Escuta aqui, Cristiano! Eu errei sim em ter partido para violência física, mas ela está redondamente enganada. Ela sabe muito bem o quanto essa investigação na cidade onde eu nasci é importante para mim! Mas ela se faz de sonsa, de desentendida, acha que é a dona da verdade e que pode atrapalhar meus planos, sem sofrer conseqüência! Eu estou farto, Cristiano, farto das pessoas defenderem uma atitude invasiva como essa! É um direito meu e da minha irmã descobrimos quem matou nosso pai!

– Mas isso tem que se dar pelos meios legais, Lucas!

O mocinho fica boquiaberto com tamanha ingenuidade.

– Legais? Faça-me rir! Você sabe muito bem como é a justiça nesse país! Além de lenta, é adulterada com o molhar de mãos daqueles lá de cima! Ou você acha o quê? Eles simplesmente vão cair na real de que defenderam uma quadrilha poderosa, por que o papai do céu mandou e com muito amor e arrependimento vão botar os próprios irmãos, sobrinhos, cunhados, amigos de infância na cadeia! Óbvio que não! A luta tem que vir de baixo, de nós proletários! Ou você acha que ser classe média também não é ser escravo deles? Poupe-me né?

– Se você pensa que vou ignorar o que você fez, está muito enganado. Esse seu espírito messiânico tem que acabar! Está tomando medidas desproporcionais. Se não for por bem, terá que ser pelo mal!

Lágrimas escorreram pelos olhos do cardiologista.

– Me admira muito, o cara que era para me apoiar, para estar do meu lado prefere se rebelar contra mim mesmo sabendo que isso é um desejo de infância. Cansei de fingir que nada está acontecendo, Cristiano, de tentar tapar o sol com a peneira, há muito tempo não te vejo como um parceiro, o sentimento se esvaiu sabe?

 

O outro se choca com a revelação, seus olhos se encharcam.

– O que quer dizer com isso?

Lucas dispara trêmulo de vagido.

– Que está tudo acabado entre nós!

E o deixa sozinho, em seu quarto, levando seus acessórios para o carro, sem olhar para trás. Quando vai puxar a porta do carro, dois seguranças surgem e o impedem de entrar.

– Mas o que significa isso?

Pedro, seu pai adotivo, revela-se vindo do jardim.

– Sinto muito, Lucas! Mas a partir de agora eles e mais alguns te acompanharam para qualquer lugar que for! Eu e sua mãe chegamos nessa conclusão, após o ocorrido ontem à noite.

O rapaz fica inerte com o anúncio.

***

Paçoca que pegara carona na boleia de um caminhão, agradece ao chegar à entrada da cidadezinha de Santa Helena. Passado alguns minutos a pé, entra em um famoso bar local: Dom Ratom. Um homem lavando louça, não percebe quando ele se aproxima.

– Bonito bar, amigo!

O outro levanta a face e se felicita ao vê-lo solto.

– Bruno Paçoca!

– Rato! Quanto tempo, cabra!

Eles se abraçam com tapas nas costas e o comerciante logo arruma uma mesa para eles sentarem, puxando uma cachaça e cubinhos de parmesão.

– O que me conta de novo, mano velho? – Pergunta o recém-libertado.

– Faz tanto tempo que não te mando uma carta, muita coisa aconteceu desde que fui liberado, conheci uma pitel de mulher, mano do céu, uma verdadeira musa. Banquei o jovem inconseqüente e acabei engravidando-a, mas não me arrependo não, esposei e hoje temos um casal de filhos: Pietra e Fael.

– Nossa cara, corajoso hein? Eu no seu lugar teria picado a mula depois de buchá-la.

– E você? Ainda com aquela idéia de reencontrar sua amada?

– Shiii. Nem me fale, velho. Não penso em outra coisa, desde que saí da prisão. Hoje ela deve estar mais bonita que antes, uma moçona feita! Acho jamais vou esquecer aquele olhar dela, tinha uma profundidade que nunca vi na minha vida, uma intensidade de ternura e compaixão! Ela me ensinou a ler! Depois pratiquei em alguns livros quando tive na prisão! Hoje estou muito melhor! Quero mostrar a ela, quero tê-la em meus braços, cuidar como um dia ela cuidou de mim. Sou gamado na Débora, cara. Eu a amo demais!

 

MAIS TARDE…

 

Lucas termina de atender um paciente no hospital que fraturou a perna e orienta uma enfermeira. Ele vai para o próximo leito e lê a ficha ao pé da cama.

– Dor de barriga? Aqui no pronto socorro?

Ela puxa a cortina e se choca ao ver Ezequiel. O mocinho cochicha.

– O que você está fazendo por aqui cara? Se eles te pegarem, você tá frito! Meu pai pôs segurança por todo lado de fora do hospital!

O amigo faz sinal para eles conversarem. Lucas o leva até uma saleta de limpeza.

– O que você quer? Não se preocupe em me devolver o dinheiro! Sem problemas quanto a isso!

Ezequiel nega.

– Pelo contrário, vim aqui dar seqüencia ao combinado. Sou lá homem de quebrar promessas! Tenho aqui algo um pouco mais radical a te oferecer, mas se der certo, você está livro para sempre.

Lucas o olhou encabulado. O amigo retirou um frasco transparente da mochila com um líquido amarelo-pardo. Disparou.

– Isso aqui vai diminuir seus batimentos cardíacos, por algumas horas, de maneira que nem mesmo o melhor estetoscópio possa ouvir. Em estado de latência, você será dado como morto e será velado, só que eu darei um jeito de te desenterrar e assim poderá recomeçar na sua cidadezinha com sua nova identidade! O que me diz?

Lucas fica pasmo, procura obter mais informações.

– Eu nunca vi nada parecido! Que tivesse esse poder! Que substâncias esse líquido possui?

Ezequiel dá de ombros.

– Disso eu não sei! O médico daqui é você! Só sei da eficácia disso, o comparsa meu que fabrica isso é de extrema confiança, já vi funcionar na minha frente em muitos cablocos.

Lucas renega.

– Mas isso é loucura! Não posso ir ingerindo algo que não conheço e se tiver algum antígeno que me provoque alergia! Quem é esse comparsa?

Ezequiel respira fundo.

– Continua o mesmo teimoso de sempre! Será que não percebe só possui duas opções: fazer isso ou abandonar para sempre seu plano de vingança? Quer saber? Eu já falei o que tinha para falar com você! Está aqui o produto! (e coloca sobre uma bancada) Agora me deixe ir, antes que alguém me veja e sintam sua falta.

Lucas chama o rapaz de volta, mas o homem não o escuta. Ele se vira para o frasco e o guarda rapidamente em seu jaleco.

***

Sam recebe sua prova de antropologia brasileira com nota máxima e mostra para seus melhores amigos: Fátima e Hector.

– Tá vendo, bebês! Aprendam comigo!

Fátima se encanta.

– Como você consegue sempre tirar a maior nota?

Sam ajeita o cabelo.

– Tsc. Tsc. Coisa de profissional, nem preciso estudar tanto para me destacar, é o brasão da família.

Ele se vira para mostrar ao seu namorado, sentando em outra fileira e percebe que Luana não para de encará-lo, balbucia.

– O que essa naja pensa que está fazendo secando ele assim? Será que ela não se tocou que o boy, priminho dela é meu! Falta de tapa naquela cara!

Hector o acalma.

– Você não vai armar barraco, não é migo? Sempre foi uma pessoa discreta nessas questões, friamente calculada. E seja sincero não é de hoje que percebe isso, ela sempre esboçou ter uma quedinha por ele. Espera e planeja o pior para ela, depois execute.

Sam respira e repensa.

– Você tá certo, Hector! Para tirar essa diaba do meu caminho, um barraco é pouco. Ela mal perde por esperar.

Fátima concorda dando lhe tapinhas nas costas.

– Isso mesmo, garota! Essa é a marvada que conheço!

 

ANOITECE…

 

Débora se vira, deitada, para a porta e percebe que é seu irmão, ela se felicita, chamando-o com a mão.

– Maninho, que surpresa boa!

Ele a beija na testa.

– Como você está? Debby! Soube pelo Jesus de tudo que te aconteceu. Se eu tivesse cumprido minha promessa de ontem, de vir te ver antes de tentar partir com Ezequiel, quem sabe tudo não teria acontecido.

Ela acaricia seu rosto.

– Para de se culpar! Você acabou esquecendo no meio da correria! Acontece! E além do mais já estou melhor!

Ele beija as mãos da irmã.

– Você é um doce, sabia!

Ela, no entanto, percebe um clima no ar.

– Posso ser doce, mas hoje isso não está funcionando, estou vendo certa tristeza no seu olhar, o que foi?

Ele é direto.

– Ezequiel me procurou no hospital, tem um novo plano em mente!

Débora se surpreende.

– Outro plano? Mas… Como ele veio para cá? E a segurança?

Lucas ri.

– Nem me pergunte como ele entrou no hospital sem ser visto, aquele lá sabe se virar melhor que gato de rua!

Débora o encara.

– Como é esse plano? Fugir de novo?

O mocinho balança a cabeça negativamente.

– Não. É algo que diminui e muito a margem de erro, mas é muito arriscado, estou com medo.

– O que é? Fala Lucas!

Ele dispara mostrando o frasco.

– Tá vendo esse líquido aqui! Pois bem, segundo ele, diminui os batimentos cardíacos para uma taxa irreconhecível pela tecnologia médica e forja uma morte.

A menina esbugalha os olhos.

– Você está pensando em ser dado como morto? Mas como vai ser isso? Explica melhor!

Ele continua.

– Depois que eu estiver em estado de latência e for enterrado, Ezequiel vai me desenterrar e a partir de então terei outra identidade! Roberto Camargo para ser mais exato. Só que estou confuso, o que acha que devo fazer? Eu não sei nada sobre a composição disso! Porém cada tempo que eu perco é valioso para as investigações!

Débora pensa em um minuto de silêncio e o devolve.

– É um plano ousado sim, mas você não tem escolha, nós não temos. É o único jeito de tirar a segurança que nossos pais colocaram em você e também vai servir de camuflagem para sua identidade! É algo que pode dar certo sim, é muito eficiente, mata dois coelhos com uma só cajadada. Por que não arriscar?

– Você é a favor então do plano?

– Lógico! Olha maninho. Eu tenho certeza, certeza absoluta que isso não vai te fazer nenhum mal, Ezequiel jamais falhou contigo, até quando ele roubou aquele seu brinquedo, por você mesmo já não teria doado o Buzz Lightyear? Pois então! Confia, irmãozinho! Senhor George Carvalho deve ter muito orgulho seja onde ele estiver dessa artimanha! Precisamos vingá-lo.

Lucas prometeu que ia pensar e despediu-se da irmã. Passado alguns minutos, decidiu.

Após o expediente, avisou os seguranças que iria passar no consultório no centro da cidade que seus pais haviam lhe construído para começar a arrumá-lo já que pretendia em breve inaugurá-lo. Ninguém desconfiou de suas intenções, afinal por mais que Ezequiel tivesse lá dentro, não teria como ele fugir, o prédio comercial possuía câmeras nos corredores e não havia saídas que não pudessem ser vigiadas.

Abriu seu consultório e fechou a porta, sentou-se no divã. Respirou fundo e retirou o frasco do bolso, sem pensar duas vezes, virou-o de uma só vez, a substância tinha um gosto terrivelmente amargo.

Cristiano ainda não acreditando no término, resolveu lutar pela sua relação e ficou sabendo por Elvira, a qual obteve o conhecimento a partir de um segurança, que Lucas estaria no seu consultório particular. Zarpou para lá, cumprimentando os homens e entrando no local.

Quando empurrou a porta branca da sala do cardiologista, desesperou-se ao vê-lo no chão se retorcendo, tentando abrir a gola da camisa.

– Meu Deus, amor! Você está enfartando!

Ele tentou ajudá-lo, mas foi em vão, depois de umas tossidas, Lucas morreu em seus braços. O advogado berrou seu nome e este ecoou pelo cômodo inteiro.

 

CONTINUA…

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.