Eterno canto: Capítulo 25 – Segunda-feira

Eterno canto: Capítulo 25 – Segunda-feira

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

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O ano de 2032 mal havia começado quando Lucas já formado em Cardiologia recebera dos pais adotivos o maior presente que um médico recém-formado poderia receber: um consultório particular.

– Eu não estou acreditando nisso! Vocês montaram para mim, durante o último ano da residência? Olha só para essa recepção, é extremamente aconchegante, ar condicionado de primeira, sem contar da máquina de chocolates e refrigerantes. É sensacional! Muito obrigado, obrigado mesmo. Eu amo vocês!

Pedro recusou o abraço do filho, estava de posse de uma chave nas mãos.

– Um Lord como você! Formado na USP não pode sequer cogitar a possibilidade de um abraço, sem antes, ver a sua sala que te espera!

Ele entrega para o filho que não consegue esconder sua ansiedade, suas mãos entregam seu estado trêmulo. Elvira ordena.

– Faça o favor, mocinho! Abra já essa porta e seja feliz de uma vez por todas!

Ele riu dos dizeres da mãe. Girou a chave na fechadura e empurrou a porta branca, ficando de queixo caído ao mirar seu consultório, era um típico duplex dinamarquês, com rosas secas na entrada, um tapete persa ao centro, macas, equipamentos de ponta, bancada de vidro transparente, televisão de plasma no teto, janelas de borda fina de vista para o centro com os tais prédios antigos. Era simplesmente fascinante.

Ele agradeceu os pais, abraçando-os forte. Tirou a tiara e arrumou seus fios, jogando-os para trás até o ombro. O celular de Pedro tocou e ele se desculpou.

– Chegou acionistas lá no Laticínio, vamos definir nossa novo cooperativa, depois da falência da Bom Sucesso. Que bom que gostou, filho! Feliz em saber disso!

E beijando-o o jovem na testa, desapareceu no corredor daquele edifício comercial. Sozinho, Elvira acariciou o cabelo de seu caçula, enquanto ele falava.

– O Pai trabalha muito, não é? E olha que ele é empresário, imagina se fosse carregador ou operário na linha de produção, então podia esquecer vida familiar, por que é exatamente o que acontece. Os pais chegam cansados em casa, não tem tempo para se dedicar para os filhos e eles são doutrinados por essa mídia neoliberal e desgraçada. Mas se Deus existe, um dia essa palhaçada vai acabar.

Elvira relata.

– Eu pensava exatamente como você na minha juventude, era revolucionária, idealista, mas de nada adiantou, eu e minha turminha não conseguimos mudar o mundo, é muita utopia, meu querido, acreditar numa justiça, igualdade para todos, o ser humano é competitivo por natureza.

Lucas a contesta.

– Acontece que essa competição na natureza, normal há todas as outras espécies, é para sobrevivência meramente, não é para organização salafrária e elitista. A direita republicana defende o discurso hobbesiano que sempre existiu desigualdade, isso é mentira, só olhar para nosso modo de produção antes da revolução neolítica, denominado por Marx como comunismo primitivo, tínhamos funções estabelecidas, mas prevalecia a coletividade tribal.

Elvira debocha.

– Se não fosse a Revolução Neolítica, morreríamos de fome. Entenda meu filho, hierarquia precisou existir para evoluirmos. É utopia esse seu discurso do amor ao próximo! A ausência de estado nunca vai vingar, precisamos de moral estatal para dar sentido aos nossos valores, a nossa vida.

Lucas ri.

– Concordo com você que sem a revolução neolítica e agrícola, morreríamos de fome, já que ela foi responsável pelo sedentarismo e pela tecnologia arcaica de cozimento de alimento. Mas a hierarquia não precisou existir para evoluí-la, foi uma conseqüência infeliz seguida. Conhecimento gera evolução e esse só obtém êxito quando compartilhado. Evoluímos sim, mas muito pouco pelo que podíamos ter feito, isso se deveu ao controle da informação, inicialmente pelos paters, líderes religiosos, nobres e clero. Quanto à utopia, discordo totalmente. O que diferencia o ser humano dos outros animais é sua capacidade cognitiva de pensar e, portanto apaziguar conflitos, porém, tudo isso passa antes pelo campo da imaginação, dos sonhos, da utopia. O que somos hoje, essa sociedade hoje construída é fruto de uma lógica e isso deriva antes de um sonho. É a utopia que nos move, mãe. Se não pudemos ter o mínimo direito de acreditar e executar, então a vida vira um grande vazio, está fardada ao fracasso.

Elvira olha pelo sobrolho.

– Okay, filho. Vamos parar essa discussão por aqui, você ainda tem muito que aprender sobre a vida, sobre política, vou te dar uma brecha.

Lucas rebate.

– Quem tem que rever os preconceitos é a senhora!

Elvira dá de ombros. Lucas revela sua preocupação com a irmã.

– Ai, mãe. Não consigo parar de me preocupar com a Debby, passei no leito dela para vê-la, está um caco, os cabelos começaram a cair, está sendo muito difícil para ela encarar a leucemia. Ela definitivamente não merecia isso, não merecia.

A matriarca abraça o jovem.

– Nem me fale! Tudo isso nos pegou de surpresa. Ela estava tão feliz dando aula de balé, realizando um sonho que sempre quis e agora destinada à quimioterapia. É inacreditável como os golpes da vida são injustos. Torço muito para que ela se recupere logo! A doença não pode vencer, não pode.

Lucas beija as mãos de sua rainha.

– O caso dela é muito sério. Não pegamos em estágio inicial, já está ocorrendo metástase. Peço muito a Deus que ele nos ajude.

Elvira muda de assunto, desviando dos pessimismos.

– Vamos falar de coisa boa! Que jóia linda, ele te deu em noivado, não foi? Diamantes! Ficou perfeita em seu anelar direito. Ele te ama muito, filho. Confessa aí, já marcaram a união civil e não querem me contar?

Para sua surpresa, Lucas expressa seu descontentamento.

– Foi muito precipitado, isso. Não tem cinco anos que nos conhecemos. Cristiano é uma excelente pessoa, é o homem que pedi aos céus, companheiro, leal, me aceita do jeito que sou, mas não estou feliz, mãe. De uns tempos para cá, não sei, os papos estão ficando muitos enjoativos, sem contar aquela mãe dele que não me aceita por eu abrir os olhos dele com a chantagem que faz com o próprio coitado. Marcamos de sair, ele desmarca por causa de casos criminalistas urgentes para resolver, eu entendo que é trabalho dele, mas puxa, planejamos há semanas e ele ficando dando calote, uma hora cansa.

Elvira se preocupa e beija a cabeça do rapaz.

– Nem sempre temos tudo que queremos meu amor. Essa é a lei da vida. Perdemos em alguns pontos para ganhar em outros, nada é perfeito. Se estiver pensando em dar um tempo, peço que reconsidere essa proposta. É tão raro encontrar uma pessoa que nos ame, não jogue isso fora por nada, se não talvez jamais tenha outra experiência dessas em sua vida. (seu celular vibra). Nossa, tenho manicure em Santa Isabel, estou atrasadíssima. Aproveita seu escritório, meu querido. Fique bem.

E o beijando na testa vai embora. Sozinho, o protagonista fala para si mesmo.

– Antes fosse apenas essas decepções, mãe. Eu preciso voltar para o Espírito Santo, preciso investigar quem matou o meu pai biológico! Esses burgueses sanguinários têm que pagar pelo que fizeram, um por um!

Ele vira sua cadeira e disca para um comparsa.

– Ezequiel! E ai, mano, como anda minha vaga para vereador, aí em Doce Recanto? Pretendo partir ainda essa semana para o Espírito Santo!

***

Débora passa mão em seus cabelos e fica horrorizada com o tufo de fios emaranhados que saem suas mãos. Ela tenta se abaixar para pegar o frasco para vomitar e acaba caindo da cama. Nesse momento, Jesus Van Gogh, seu oncologista que lhe faria uma consulta, acaba se desesperando e a ajuda a levantar.

– Você está bem?

Débora fica feliz por ele estar ali, mas não consegue evitar o vômito em seu frente, tossindo até sair à última gota de mal-estar. Ela balbucia com uma rouca voz.

– Desculpe fazer você assistir a isso, juro que não queria!

– Imagina Débora. Sou seu médico, não posso me incomodar com um efeito-colateral do seu tratamento. Vem, vou te ajudar a voltar para cama.

Ela se escora nele e ele a ajuda a subir de novo. Passado isso, senta ao pé da cama. Ela pede.

– Você pode arrumar um cabeleireiro para mim? Os fios estão caindo lentamente, não quero sofrer todos os dias com isso, quero raspar logo de uma vez.

– Claro. Mando a enfermeira te trazer a lista dos nossos parceiros.

– Obrigada.

– Não tem de quê! Agora me responda o que está achando da nova dieta da Patrícia, está fazendo um esforço para se alimentar?

Débora revela.

– De que jeito? Aquelas sopas e cremes verdes são bem insossos! Eu que sempre fui acostumada a temperos fortes. Sem contar na falta de sobremesa, adoraria um sorvete de creme com frutas vermelhas!

Jesus ri.

– Você é hilária! Mas acho que o sorvete de frutas vermelhas terá que ficar para depois, a terapia vai te deixar fraca e enjoada de muita coisa! Essas refeições contêm tantos os nutrientes naturais quanto os essenciais, reunidos para restaurar a sensação de vitalidade e disposição, abortada pelo coquetel.

Lucas que já vestira o seu jaleco branco para atender plantões no hospital resolve fazer uma visita surpresa para a irmã. Ao ver Jesus, o cumprimenta com um aperto de mão e uma batida no ombro.

– Tudo bem, brother! Como você está?

O outro faz o mesmo.

– Tudo certo, irmão! E contigo? Passei para verificar como está sua mana! Se acredita que ela exigiu sorvete de creme com frutas vermelhas? Pelo visto não está nem um pouco gostando da dieta da Paty.

O cardiologista ri.

– Comigo tá tudo sussa. Tá exigente, né? Pode deixar ela comigo, vamos ter uma conversa séria! Não é mesmo, mocinha?

Débora disfarça o olhar como uma criança pequena. Jesus os deixa a sós e o mocinho senta ao pé da cama, cochichando.

– É impressão minha ou o Jesus está pagando maior pinta para você?

Débora dá um soco no ombro do caçula, segurando o riso.

– Você me respeita senhor Lucas Carvalho! Para de viajar na maionese! Ele é apenas o meu médico!

Lucas ri.

– Sei! Apenas médico!

Débora não consegue segurar o riso.

– Para Lucas! Eu vou torcer seu pescoço! Você é muito safado, vê malícia em tudo, eu hein?

O jovem gargalha. Ela o questiona.

– E ai como anda os negócios com Ezequiel? Ele conseguiu arrumar aquela vaga para você?

O recém-formado confirma.

– Sim. Mas terei que usar uma identidade falsa, Doce Recanto é uma cidade pequena, se eu aparecer com o sobrenome Carvalho, por lá, aquela ninhada de sociopatas vai desconfiar. Amanhã vou para Manaus numa feira comunitária para a população ribeirinha e devo rever Mãe Joaquina. Porém, até fim de semana devo voltar e no máximo até segunda-feira, estou embarcando para o Espírito Santo.

Débora abraça o irmão, emocionada.

– Vai dar tudo, certo. Eu tenho certeza! Não sabe como sinto representada nesse seu ato heróico de achar o assassino do nosso pai e fazer justiça. Quinze anos se passaram e não temos nenhuma pista sobre esse monstro! Quando a justiça estatal falha, temos que nos recorrer à selva, a barbárie de agir com nossas próprias mãos! Só tenha cuidado, por favor!

Lucas acaricia o rosto da irmã.

– Não se preocupe Debby! Devo passar para te ver antes de partir para Recanto, bom, agora eu tenho que ir, o hospital está lotado, pronto-socorro nem se fala, estão precisando de mim. Amo-te, maninha.

Ele a beija na testa. Ela devolve.

– Também te amo querido.

Assim que ele fecha porta, ela vira de lado e tenta adormecer.

 

***

Ruth está fazendo faxina no quarto de Lucas quando encontra uma pasta estranha dentro de um fundo falso no guarda-roupa, ela abre e se choca ao encontrar uma grande quantidade de dinheiro. Elvira que voltara da manicure é surpreendida pela empregada que lhe revela o que descobriu. De posse da pasta, a matriarca se desespera ao ler o nome de Ezequiel em um bilhete junto às notas.

 

ANOITECE…

Lucas termina de atender o último paciente, jogando o palito lingual no lixo e retirando as luvas de borracha.

– Bom, seu Orlando! Temos uma amidalite.

O velhaco se assusta.

– Isso é grave?

Lucas o acalma.

– Não, não é! Popularmente é conhecida como inflamação na garganta. O mais indicado seria eu indicar uma benzetacil! Mas como sei que o senhor não gosta de tomar injeção, vou te passar Dipirona líquida, 30 gotas de quatro em quatro horas no episódio de dor e febre. Como antiflamatório que também vai auxiliar nesse processo analgésico: Profenid. Você compra a caixa de 200 mg e toma um comprimido há cada 12 horas. Agora o mais importante, Amoxicilina, esse sim vai curar desse mal, por que é antibiótico. Uma cápsula em oito, oito horas, ou seja, três vezes ao dia, de 500mg.

O mocinho assinou e carimbou duas folhas. Uma era a receita, a outra o soro.

– Sua letra é linda! Bem diferente dos médicos por aí!

Lucas riu.

– Valeu. Pedi para já medicarem você aqui com Dipirona e Profenid. Assim volta para a casa sem essa sensação de dor.

O homem o olhou grato, mas uma expressão de tristeza dominava-lhe a face. O rapaz percebeu, pois tinha uma sensibilidade à flor da pele.

– Aconteceu alguma coisa, seu Orlando?

O senhor abaixou o olhar, meio sem graça.

– Aconteceu sim! Não vou mentir para você, mas não quero que ache que sou interesseiro. Nunca tive filhos, sou viúvo e servi o Rio de Janeiro como professor de escola pública durante anos. Hoje, sou aposentado, entretanto, devido à crise do estado não ando recebendo minha quantia do INSS. Estou em situação precária, mal consigo pagar minhas contas e me alimentar, não sei se terei dinheiro para comprar os remédios.

Aquilo desmontou o coração do mocinho. Colocou-se, como sempre fazia, no lugar das pessoas, agora naquele homem e sofreu calado. Tudo por causa da maldita onda neoliberal que assolara o país, depois do rompimento da democracia em 2016. Venderam o pré-sal, principal mantenedor do Estado, a preço de banana, fazendo-o do nosso país uma puta velha para a Europa. Ele iria destruir toda aquela farsa maldita, cada um daqueles deputados, senadores, presidentes da república, todos, sem exceção a adotarem aquele modelo iriam pagar muito caro, cada centavo seria devolvido. Limpou as lágrimas e sentou em sua mesa, pegando seu talão de cheque. O idoso ficou impressionado quando ele lhe entregou cinqüenta mil.

– Pode passar no banco, amanhã mesmo! Mas vou te dar duzentos reais vivos para já comprar os remédios. Isso deve te ajudar por um bom tempo. Só me prometa uma coisa, por mais que seja da terceira idade, não desista de lutar contra essa gangue podre, não abaixe a cabeça e permita que eles roubem a sua dignidade. É a união do povo que vai acabar com esse pesadelo. Nenhum ser humano que se dedicou a vida inteira entregando os melhores anos para a educação, merece ser tratado assim!

Orlando o abraçou, chorava também.

– Obrigado filho, mil vezes obrigado. Eu te prometo que jamais vou abaixar a cabeça de novo para esses exploradores, vou batalhar pela minha dignidade.

Lucas sorriu e o homem agradeceu, desaparecendo pelo corredor da enfermaria. Ele tirou o jaleco e o dobrou, dirigindo para o vestiário, no caminho, o diretor do hospital o alcançou e o elogiou pelo atendimento, muitas pessoas fizeram questão de deixar registrado o quão bem recebidas foram.

– Que isso, Roger, não faço mais do que meu trabalho!

Aprontou-se para ir embora, quando foi surpreendido na saída pelo seu noivo: Cristiano Altto, o qual segurava um buquê de flores.

– Não retornou minha ligação, achei que tivesse muito ocupado, então resolvi fazer uma surpresa.

O jovem o olhou incrédulo de felicidade.

– Cristian, você realmente não existe!

E o beijou.

Decidiram jantar, ali mesmo, na lanchonete do hospital, porém, no meio da conversa, a mãe de Cristiano resolveu dar as caras, armando o maior circo, como de costume, para ferrar com o genro. Rogério se aproximou da algazarra, tentando controlá-la.

– Posso saber que balburdia é essa? No meu hospital!

Gumercinda disparou.

– Eu fui atendida por esse picareta e ele tentou me estuprar.

Cristiano olhou desesperado para a mãe. Rogério virou-se para Lucas, o qual observava a sogra, zangado. Ela passara de todos os limites.

 

 

CONTINUA…

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.