Eterno canto: Capítulo 23 – A grande guerra

Eterno canto: Capítulo 23 – A grande guerra

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

Classificação indicativa: 

 

O impulso de Débora é correr até os policiais tentando conter a prisão de Mãe Joaquina.

– Larguem ela! Larguem ela! Ela é uma heroína, fez isso para me ajudar, todos votaram, foi justo a decisão. Não podem culpá-la, muito menos prendê-la por isso, foi um ato de amor.

Malva se enfurece com a petulância da menina.

– Saia do caminho, sua pentelha insuportável!

E a empurra ao chão. Robson corre para ajudá-la e dá um murro na cara da bandida.

– Se você pensa que vamos aceitar esse golpe de poder imundo e fraudulento, a senhora está muito enganada, sua demônia! Aqui você não governa nada, nada! Ouviu bem?

André os alcançou.

– Mas eu governo! Sou o vice. É o que as regras do jogo falam. Quem assume a partir de agora sou eu!

Joaquina se retorce de raiva nos braços dos policiais.

– Eu sofri todos esses anos com a sua morte, ingrato. Você não sabe como eram as minhas noites, relembrando o momento de terror que passei quando soube que tinha morrido naquele acidente há vinte anos?

André a enfrenta.

– Isso é mentira, é mentira. Você me esqueceu, nem contratou um detetive para melhor investigar a minha morte. Que mãe que se preza enterra o filho sem ao menos vê-lo antes de partir? Era só ter aberto a porra do caixão para verificar que tudo não passava de uma farsa!

Joaquina se explica furiosa.

– Eu fiz isso, por que essa larapia aí (e aponta o dedo para Malva) me convenceu junto com aqueles médicos, que ela comprou o diploma na sarjeta, de que o melhor para a saúde emocional de todos da família era não abrir o caixão por que o corpo estava carbonizado e poderia nos desestabilizar.

André riu.

– Pois aí está! Você trocou a minha vida por meia dúzia de gato pingado, tudo com prazo de validade vencido e já evacuando descontroladamente em fraudas!

Joaquina saiu de si, deu-lhe outro tapa.

– Nunca mais repita uma coisa dessas de seus avôs, nunca mais!

Ela é afastada por policiais e funcionários públicos, que passam com dificuldade por entre as crianças, as quais tentam barrar que a levem para fora do portão. Lucas que assistira a tudo corre até seu quarto a fim de pegar as fotos que desmascaram Elisabeth, guardadas ao fundo de sua mochila, mas nada encontra. Teriam sido roubadas?

Nesse instante, uma voz surge pelas suas costas, é Luana que entrara no quarto.

– Procurando as provas? Queridinho! Você não vai encontrar! Nem essas, nem que as que você mandou cada um: Serelepe, Batista, Laila, Robson guardarem. Confisquei todas e entreguei para Malva que as queimou na minha frente. Foi em vão aquele nosso trabalho no motel, uma aventura com um final trágico. Que decepção!

Lucas perde a cabeça, partindo para cima dela.

– Sua desgraçada! (e a estapeia) Como pode agir de maneira tão baixa? Sua traíra! Lacraia! Serpente!  (e a estapeia de novo)

No terceiro tapa, ela segura seu pulso e torce seu braço o jogando na cama.

– Acabou! Sua bicha! Reconhece que perdeu! Agora que André assumiu a direção desse colégio, as coisas vão melhorar, eu tenho certeza! Sabe por quê? (ela se abaixa e o encara friamente nos olhos), por que romance gay estará proibido, se você e o meu namorado não terminarem, ambos vão parar num campo de concentração, como pior exemplo da humanidade, queimados nus, a ácido sulfúrico. Por ele não, mas saiba que por você, eu adoraria te ver nessa situação, para você pagar tudo que eu sofri quando fazia questão dele te beijar em público!

Lucas a observa em silêncio. Ele havia se acalmado.

– Eu tenho pena de pessoas como você, pena. Você precisa estar com ele, ser namorada dele para se sentir valorizada, não existe sem ele. Mas a culpa não é sua, é do próprio sistema que forçou você a criar vínculos muito possessivos, por que desde muito cedo aprendeu a valorizar exageradamente o pouco que tinha já que os momentos de glória para você foram poucos, não é? Ver a tia fazendo programa para sustentar a casa, a sua avó. Não é fácil! Imagino. Mas isso não dá o direito de você descontar em gente inocente, que não tem nada a ver com peixe, a sua raiva, o seu rancor. Será que não percebe que pessoas como a sua avó, cafetina, só existem por que não há outro meio de ganhar a vida? Ou você vai dizer que ela poderia procurar um emprego decente, de sei lá, tricotar roupas por encomenda? Você sabe que não é fácil ganhar a vida quando as portas estão fechadas para nós. As pessoas não nascem más, elas se tornam más, por causa desse sistema injusto que as exclui, exclui os mais pobres, marginaliza-os. O seu inimigo não sou eu, não é a Mãe Joaquina, são eles, eles que estão levando a pobre coitada daqui, eles que não sabem amar e que por isso fazem os outros sofrerem. O que aconteceu aqui, Luana, foi uma simulação do que aconteceu na política do nosso país que prova a cada dia que é antidemocrática, censitária, corrupta. Uma pessoa que peita tudo isso, que quer fazer o bem, na maneira do possível tornando as coisas mais iguais, mais justas, é arrancada do poder, é arrancada da direção de nossas vidas, por que uma lei mudada lá é uma lei que nós vamos sentir. Nosso colégio, nossa educação foi tomada por golpistas que nada mais se preocupam do que com seus próprios interesses. O André vai depenar o colégio, com desculpas econômicas de sanar o investimento que Joaquina fez para ajudar a minha irmã. E depois nos entregar para a barbárie de Malva, uma fascista nojenta que não entende outra palavra a não ser espancar, judiar. Acha isso justo? Responde com todas as letras, essas crianças inocentes merecem passar por isso? A nação brasileira merece ser governada por pessoas assim?

A menina se desmonta com o discurso forte do rapaz. Não consegue conter as lágrimas. Lucas continua.

– Não tem resposta, né? E sabe por que você não tem, por que o que eu disse é a verdade, a qual você e todo mundo não quer enfrentar. Alguns até ousam dizer que política tem que ser esquecida para ter sucesso na vida, mas se esquecem que a forma como nós agimos depende dela. Se hoje existir uma lei de extermínio aos gays, por exemplo, todos os planos que essa população tinha, de tocar a vida, de adotar filhos, de estudar numa universidade, vão terminar num grande vazio. Quer outro exemplo? Uma senhora de quase sessenta anos com problemas cardíacos, os quais a impossibilitam de fazer esforço e ela trabalha numa linha de produção dentro de uma indústria. Esse problema cardíaco é genético, de família, não foi causado pela empresa e o programa de auxílio-doença já capengo, foi cortado pelo governo dentro do programa de recessão inventado pelo mesmo para poder perdoar dívida de empresário. Além disso, a previdência aumentar para 65 anos e o horário de almoço e descanso poder ser flexibilizado pelo patrão, se ele quiser só meia-hora, será só meia-hora. Quais serão as chances dessa mulher sobreviver? Se também o SUS já em situação de falência for privatizado com uma taxa alta de conveniado? E o transporte de ônibus que a levava até duas quadras de casa for sobre tarifado? Ah sim, a prefeitura! Calçadas esburacadas! Problema de enchente! Vacinas contra febre amarela, zika e vírus da gripe faltando até mesmo para ser comprada. Que esforço ela vai fazer, não? Será que o coração dela vai suportar? Sua família é um bando de individualistas, seus filhos então, nem se fale, desde que se endireitaram na vida, sumiram no mundo, é o que sistema ensina: o mundo é dos espertos. Precisam correr atrás das oportunidades! O que será dessa pobre mulher? Diz-me, Luana! Desembucha! São 55 milhões de brasileiros que sofrem todo ano com esse problema!

A menina explodiu pondo as mãos no ouvido.

– Para de me torturar, para! Por favor! Eu não agüento mais!

Lucas berrou.

– Eu sabia. Sua Covarde! Covarde!

E disparou, saindo do quarto, enquanto a menina tremia em caos por ter saída da zona de conforto que a alienação midiática a inserira.

De volta ao refeitório, Lucas constatou que já haviam levado Mãe Joaquina, Débora chorava intacta ao chão, no centro, sobre o colo de Robson que tentava acudi-la. O mocinho correu para junto dela, abraçou-a forte, lamentos escorreram pela face. O que seriam deles agora? O que seriam de todas as crianças? André foi ao palco, pegou o microfone sobre vaias. Suas sobrancelhas estavam mais arqueadas do que nunca.

– Caros alunos desse colégio! É com muito orgulho a que venho anunciar novos tempos, tempos melhores, mais transparentes, mais eficazes. Anuncio então nossa primeira emenda de reforma administrativa: a horta de orgânicos será extinta, o motivo é a baixa lucratividade que a atividade promove e, nem menos importante pelas condições precárias que a instituição se encontra devido ao desvio inconstitucional da ex-diretora para com nossos investimentos. Desse modo, justifica-se também a redução das jornadas de refeição, as quais de quatro passaram apenas para duas: almoço e jantar. Não devo ressaltar que estão proibidos namoros ou qualquer tipo de incitação a violência. Correto? A oposição ao novo regime terá seu direito garantido por meio de uma caixa centralizada no pátio, poder-se-ão escrever de próprio punho a crítica e avaliaremos sua coerência. Além desse fato, nosso sistema de segurança será reforçado com a mesma equipe oriunda do Reformatório da Irmã Malva Rosa e passaremos também a adotar um sistema educacional similar, ou seja, com 15 horas diárias de aula. Ah, sim! Atividades extracurriculares serão incrementadas a grade para melhor condicionamento físico de nossos alunos como carregamento de metal pesado a fim de ajudar à vizinhança a melhor despejar esses materiais radioativos, além dos pequenos reparos que nossa instituição precisa como pinturas e limpezas diárias, afinal trabalho dignifica o homem. Quaisquer dúvidas dirijam-se ao sobrinho do inspetor Marcio Guerra: Laurindo Atômico cuja função será similar por aqui. Tenham um ótimo dia!

Lucas espumava de revolta.

– Que merda de reformas são essa? Ele tá achando que nascemos ontem? Que equiparamos a elite de São Paulo que deseja federalismo? Quer transformar o nosso colégio naquele cenário de terror nazista que é o reformatório! Carregar material radioativo? Ele só pode estar brincando! Não é possível que depois de tudo que Mãe Joaquina nos ensinou, com sua mensagem de amor e compaixão, vem um bosta desse e acha que pode mandar aqui! É muita cara-de-pau desse vigarista! Para piorar ainda usa mesóclise que nem o outro! Eu vou acabar com essa palhaçada agorinha mesmo!

E desata a correr para o palco, impedindo que o outro desça.

– Escuta aqui, seu filho da mãe, você não vai mudar nenhuma regra do colégio, ouviu bem? Se não eu te arrebento!

A galera vibra com a coragem do mocinho.

André gargalha.

– Se toca pivete, você não passa de um bebê perto de mim! Estou a três décadas na sua frente se bobear. E para sua informação, eu não vou mudar, eu já mudei. Aprenda uma coisa! A gente não lida com quem é a maior que o nosso tamanho, é perca de tempo. Todo esse drama vai ser em vão! Sou o novo diretor dessa porcaria! A vaca da sua mãe está presa, isso não vai mudar! Aprenda a fazer alianças, reconheço sua popularidade por aqui, posso até te poupar dos castigos se você me ajudar a controlá-los.

Lucas não acredita no cúmulo que acabara de ouvir. Não pensa duas vezes antes de partir para cima dele, mas Laurindo, um negro de dois metros aparece para conter a desordem e o agarra pelas golas, elevando-o nas alturas. André se felicita por ter o poder nas mãos e saboreia a aflição do garoto, lambendo os beiços. Ordena:

– Pode soltá-lo!

E o homem arremessa o menino no chão com força. Lucas quebra a bacia, berrando de dor.

Um minuto de silêncio assola a multidão de alunos, escandalizados diante da violência que nunca presenciaram antes. Robson se desespera.

– O que você fez com ele? Seu marginal!

Débora encarava os outros alunos e percebe algo inesperado, algo grandioso. Toca o cunhado pelo ombro e devolve um olhar irônico a André. Não chega a passar um segundo, quando toda a multidão dos mil e trezentos alunos voa para cima dois, contornando Lucas e massacrando-os num ímpeto de justiça sem limites. André grita quando é pisoteado por mais de vinte ao mesmo tempo. Débora e Robson vão acudir Lucas que sorri ao assistir a cena. Desejou do fundo do coração que todo Brasil entendesse aquela mensagem. Sem eles, a elite não é nada. Aqueles alunos eram diferentes, eram excepcionais, a educação de Mãe Joaquina foi tão carinhosa, tão cheias de valores, tão forte, que eles não aceitaram se submeter a nenhum tipo de doutrinação de direita barata, era espetacular o ativismo dos internos.

Laurindo ainda resistiu por mais alguns segundos antes de tombar ao chão, foi outro a morrer linchado. Lucas até tentou precipitar para ajudá-los, mas sua coluna ardia pela fratura. Débora e seu amor impediram-no de entrar na revolução, afastaram-no em um banco fora do refeitório. E por mais que os outros seguranças se aproximassem armados, a garotada era mais rápida, teve uma menina ruiva de óculos, no meio, que chegou a levar um tiro na perna, mas ergueu-se sangrando e ainda agarrou o pescoço de seu agressor, levando-o ao chão.

Posto entre eles, Lucas abraçou forte a irmã.

– Tá vendo, sua boba. E você diz que Deus não existe!

O menino chorava de emoção. Seu parceiro o abraçou por trás, fechando os olhos de alegria sobre o tecido de algodão da roupa do rapaz.

***

Malva terminava seu banho de hidromassagem com massagistas profissionais quando Elisabeth arromba sua porta de tanto bater, Luana conseguira fugir e a deixara a par de tudo. A megera escondera sua nudez por trás de uma folha gigante que usavam para abaná-la.

– Mas que atrevimento é esse de invadir a minha suíte dessa maneira? Se a vida não ensinou-lhe modos, Elisabeth, eu irei ensinar!

Luana chega ao aposento. Malva fica pasma.

– O que essa jamanta está fazendo aqui? Quem te deu ordens para trazê-la cá?

Elisabeth perdia-se na própria respiração.

– Ela tem um comunicado crucial a fazer! Aconteceu um imprevisto letal no colégio dos Sonhos.

Os massagistas ajudaram-na se vestir, bloqueando a visão das duas.

– Eu sei! André tomou a liderança e está implantando medidas urgenciais para educá-los de forma rígida e eficiente. Aquela toupeira humana não passava de uma inútil que se entrega aos meros caprichos daqueles piolhos abandonados!

Luana a surpreendeu com a revelação.

– Não! A situação reverteu! Os mais de mil alunos mataram tanto ele quanto Laurindo, massacrados de tanto pisar e agora estão vindo para cá, derrubá-la, sobre comando da menina que você retirou a arcada dentária.

A beata se choca.

***

O dia estava nublado, chovia serenamente, porém, Débora agora controlava o movimento rumo ao Reformatório de Malva. Indicando com o dedo o caminho para os alunos que gritavam: “O povo unido, jamais será vencido”. Ela dava apoio.

– Isso mesmo, para frente e avante! Vamos destruir quem acabou com nossa mãe!

Na medida do possível, Robson ajudava o namorado a caminhar juntamente com os manifestantes.

Acuada, a ordem inicial da freira do mal foi soltar seus cachorros. Contudo foi em vão, os jovens de oito a dezessete anos estavam armados com a munição dos seguranças que mataram, atiraram sobre as feras sem pestanejar.

As crianças dos dormitórios do reformatório escutaram os protestos e ao invés de criticá-los, aplaudiram pela janela os gestos, afinal estavam fartos de tamanha injustiça que sofriam naquela instituição. Inclusive, alguns até se aprontaram disposto a participar do movimento.

Desesperada em sua sala, a diretora caminhava de um lado para o outro sobre os gritos de pânico de Elisabeth. Luana observava tudo sentada. Malva se irritou.

– Cala essa boca, sua girafa histérica! Ao invés de gastar energia mugindo, deveria me ajudar a pensar num plano para conter a baixada amazonense. Já sei! Vou dar ordem para nossos homens atirarem!

Apesar de bem preparados, o clamor dos estudantes era mais forte, alguns morreram para desespero de Débora, mas prosseguiram, ainda com mais fúria, contornando o cadáver e atirando contra os opositores. Malva assistia tudo de sua sala, embasbacada.

– Esses moribundos estão destruindo nossos exércitos! Isso é o fim do nosso reformatório, a menos que, sim, preciso dar minha última cartada!

Ela precipita para o corredor e tranca as duas lá dentro. Ambas se desesperam, pedindo para abrir a porta, Luana até corre para janela verificar o andar e se choca com a altura. Não daria para pular, estavam ferradas!

Malva abriu com um chute sua dispensa e pegou os galões de gasolina com dificuldade, despejando-o com gosto sobre os aposentos do reformatório, se eles queriam invadir o local, tudo bem, mas virariam carvão para pagar a estadia.

***

Débora finalmente chegara à madeireira com os manifestantes e indicava a entrada para o prédio principal. Os alunos da instituição logo desceram para se juntar a multidão, a qual quebrava vidros, arrombava portas, um por um, se adentraram dispostos a se vingar da vilã, todavia essa já se encontrava afastada a uns metros do colégio, terminando de jogar o conteúdo do último galão de gasolina. Pegou um isqueiro do bolso e gargalhou.

– Adeus passado!

E atirou-o no chão. As labaredas ferozes cresciam monstruosamente por toda trilha de combustível, o reformatório logo se cercou de um incêndio macabro com as crianças presas e morrendo queimadas.

 

CONTINUA…

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.

Close