Eterno canto: Capítulo 21 – Filhos de Vênus

Eterno canto: Capítulo 21 – Filhos de Vênus

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

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Lucas explode e parte para cima de Matilde a derrubando nos equipamentos da sala de cirurgia. Ele puxa os cabelos da mulher que grita por ajuda.

– Você veio aqui tripudiar, caçoar da memória da minha irmã! Não é sua satanás, sua cabra velha desgraçada! Eu vou acabar com tua fuça.

E a estapeia com gosto, uma, duas, três, quatro, cinco vezes.

– Me larga, seu louco, seu louco!

Lucas berra:

– Sabe quando eu vou ir embora com você? Nunca, nunca! Sua toupeira assassina, monstro! Foi por sua culpa que ela morreu, por ter nos entregado naquele reformatório podre com aqueles psicopatas no comando, você destruiu a vida uma adolescente, eu te odeio, te odeio com todas as minhas forças! Sabe o que você merece?  Experimentar do próprio veneno, sua bandida!

E pegando uma seringa com um medicamento qualquer sobre uma bancada, aplica na babá sem dó, a mulher se desespera. Ele a imita com uma voz caquética.

– Cede ela, está muito agitada!

A face da maldosa começa a enrijecer, para surpresa dela, o medicamento continha substância botulínica, sua boca pende para um lado totalmente caída e paralisada.

Nesse instante, ouve-se um tossido, todos se viram para maca, Débora abre os olhos. O médico se felicita e manda os enfermeiros correrem, a segurança retira as pessoas da sala cirúrgica e Lucas sorri para a situação, enquanto Matilde resmunga.

– Ah não, não acredito numa coisa dessas. A pirralhinha estava a um passo de conhecer o rabudo e voltou na última hora!

Lucas a esmurra com vigor, levando a mulher ao chão.

– Cala boca, sua infeliz!

Letícia o contém juntamente com Laila e Robson. Na recepção, eles comemoram a virada do quadro de Débora.

***

André escuta uma conversa de sua mãe ao telefone, sabendo da notícia do ressuscitar de Débora e vai correndo dar a novidade para Malva. A megera paga o rapaz pela novidade e chama Elisabeth a sua sala para acertar uns detalhes.

– Mandou me chamar? Irmã Malva!

A mulher é direta.

– Mandei sim! Queira se sentar temos um assunto sério a conversar.

A beata obedece meio desconfiada. Malva dispara.

– A situação é o seguinte, minha cara, estamos fazendo uns ajustes no nosso orçamento e em uma discussão com meus sócios, percebemos que não necessitaremos mais dos seus serviços, inclusive, vamos fechar o cargo de vice-diretoria, logo estou dispensando seus serviços. Mas não se preocupe, todos os seus direitos garantidos pela nova legislação de leis trabalhistas serão cumpridos.

Elisabeth se apavora. Estaria desempregada, o que seria dela dali em diante? Como iria promover seus encontros sexuais com os defuntos que gostava? Abaixou a cabeça e segurou as mãos da patroa.

– Por favor, não faça isso comigo, dê mais uma chance, pode reduzir meu salário, mas não me jogue na rua, eu te imploro.

Malva sorriu e retirou da gaveta uma pistola. A outra amedrontou.

– Que isso, Malva, vai me matar?

A diretora riu.

– Imagina se eu ia perder minhas preciosas balas com você, sua inútil! Vou te emprestar para fazer um servicinho sujo para mim, servirá de avaliação para analisar a sua competência ao cargo, mas olha só, quando souber quem eu vou querer que você mate vai concordar comigo, já que ele te ferrou, entregando tudo sobre seus gostos mórbidos na cama para mim em troca do seu cargo.

A mulher se chocou.

Malva completou.

– Isso mesmo, querida, Marcio Guerra entregou sua cabeça pela sua vaga. Se matar ele, te mantenho no cargo e mais, ainda aumento seu salário.

Elisabeth não pensou duas vezes e pegou a pistola.

– Pode deixar que eu vou dar um jeito nessa situação. Ainda hoje.

E saiu sozinha da sala, Malva gargalhou.

– Agora eu quero ver quem vai ganhar essa parada! Uma verdadeira rinha de galo, diga-se de passagem, do jeito que eu gosto! Não vou perder nenhum momento dessa disputa e você leitora querida que está aí, vai perder?

***

Por mais que Débora tivesse voltado à vida, ainda precisava ficar no hospital fazendo alguns exames e se recuperando melhor, afinal a cirurgia fora recente. Lucas, junto à galera voltaram ao colégio dos Sonhos para descansar. No exato momento que Joaquina apresentou-os a seu filho, Lucas sentira algo ruim no ar, uma espécie de sombra, uma energia carregada, André não lhe causara uma boa impressão.

Passado as cordialidades, Lucas foi apresentado a sua nova cama no dormitório masculino do colégio de Joaquina e se felicitou com a mudança, agora ele a irmã poderiam ter uma educação de verdade com profissionais que amavam aquilo que faz. Depois de agradecer a todos pela ajuda, ficou sozinho no quarto, não percebendo a presença de Robson.

– Não sabe como me sinto sabendo que está feliz, é tão bonito ver esse sorriso estampado no seu rosto, eu te disse que as coisas iram se acertar, não disse?

Lucas dá a volta na cama, afofando o travesseiro e sorrindo ao perceber sua maciez.

– Sim, você disse! Queria ter acreditado de primeira, mas você sabe, as coisas estavam encaminhando para o pior, a situação da minha irmã é delicada.

Robson abaixar a cabeça meio tímido.

– Eu entendo e não estou cobrando nada, longe de mim, mas a gente nunca pode perder a esperança, cara, é essa força que nos move, alguns chamam essa força de Deus, outros de trabalho, estudo, há até aqueles que o fazer o bem para a família é a sua motivação. Por mais que a ciência seja a mais ouvida hoje, ela não deixa de ser uma crença, tudo é crença, é fé, o que muda é o agente dela.

Lucas sorri curioso.

– Isso me fez lembrar o filósofo Nietzsche, ele dizia que todos os filósofos antigos baseavam muito na idéia do pirronismo, que seria buscar o ceticismo, a tal dúvida hiperbólica de Descarte, isto é, deveríamos duvidar de tudo que nos é apresentado para chegar a uma verdade absoluta. Mas o que eles não perceberam é que alcançar essa verdade absoluta pressupõe num primeiro momento a considerar que existe uma verdade incontestável, um patamar que não gere mais dúvidas, ou seja, eles se contradizeram, tornando a ciência que é baseada na dúvida uma crença também.

Robson completa.

– Sabe que eu sempre quis um parceiro para debater, para filosofar e nunca encontrei, a maioria das pessoas cansam disso, não gostam de refletir, preocupam-se apenas com a vaidade, status, você é o primeiro a demonstrar que se interessa pelo assunto, é incrível perceber sua desenvoltura, a maneira como conduz a discussão, é muito além da sua idade.

Lucas ri.

– Nem vem mano! Você também não é antigo assim para dizer, é um ano mais velho que eu apenas, é outro garoto com espírito de velho como os intelectuais adoram se chamar.

Robson ri alto. Lucas termina de desfazer a cama.

– Pronto, agora assim, está dormível!

O outro contrapõe.

– Dormível? Desde quando essa palavra existe no português?

Lucas cruza os braços, fingindo estar bravo.

– Acabei de inventar, dá licença! Isso é preconceito lingüístico! A época da censura já ficou lá para trás! Mentira! A televisão aberta continua o legado! Mas finjamos que vivemos numa democracia por formalidades! E não entendo esse seu incômodo todo, ilustres autores da literatura brasileira como Guimarães Rosa eram mestres nisso, ou você se esqueceu do famoso “enxadachim” do conto Espelho dele, referindo à luta de enxadas.

Robson ficou boquiaberto.

– Você já leu Guimarães Rosa? E entendeu, com toda aquela linguagem rebuscada e regionalista dele? Tiro o chapéu para você, nunca entendi muito bem as obras dele. Não disse que é muito a frente de sua quadra?

Lucas não entendeu.

– Quadra?

Robson explicou.

Quadra é sinônimo de idade! Vai mentir agora que não sabia?

Lucas confirmou.

– Nunca soube disso! É novidade para mim! Tá vendo como você também não fica para trás? É muito mais inteligente do que eu.

Robson riu.

– Deixa disso! Perco feio! Mas já que é um intelectil do ramo, veja só, também crio palavras novas, quero te mostrar minha pequena biblioteca que montei no meu castelo.

O menino se surpreende.

– Castelo?

Ele confirma e o puxa pelas mãos.

– Vem ver!

***

Mãe Joaquina chega com André até a secretária do seu colégio para anunciar sua decisão.

– Eu já comuniquei ao governador a minha escolha de reabrir a vice-diretoria fechada há algum tempo. Desde que Irmã Nora faleceu e Irmã Letícia recusou o cargo, a qual julgou exigir uma responsabilidade que ela não possuía, eu decidi cuidar dos negócios, sozinha, mas já que meu menino está vivo, acho competente e justo colocá-lo ao cargo, será de grande valia para mim e minhas crianças tê-lo como nosso vice-diretor.

A secretária Betina felicita com a decisão e trata de arrumar os papeis para sua admissão.

Ao contrário do reformatório de Malva Rosa, o colégio dos sonhos não era mantido por investimentos privados das famílias dos internos, era do estado e contava com verbas da produção de orgânicos e reciclagem elaborada pelos próprios alunos com auxílio de mãe Joaquina.

***

Mais tarde na diretoria do reformatório, André revela a novidade para a tia que vibrara com a decisão da irmã.

– Essa lagarta velha é uma tapada mesmo! Mal sabe o que estamos planejando! Já conversei com alguns amigos nossos do governo federal e estadual juntamente com latifundiários da região e eles conhecem muito os juízes favoráveis a nós, esses que podem ser comprados por uma boa grana e vão dar um jeito de afastá-la da diretoria, numa espécie de impeachment, então você assumiria e teria total liberdade para mudar a regra naquela instituição idiota que não educa ninguém, afinal crianças precisam de violência, precisam ralar por uma refeição para criar valores honrosos. Depois disso quero ver se a mocreia ainda pensa em me entregar. Mas sabe que seria melhor se ela cometesse algum crime de responsabilidade, uma espécie de investimento ilegal, assim conseguiríamos acelerar esse processo. Mas a mulher é mais honesta do que o Papa Francisco!

Nesse instante Matilde invade a sala com seus advogados. Elisabeth tenta se desculpar pelo ocorrido.

– Perdoe-me Irmã Malva, eu pedi para ela esperar lá fora, mas ela não me ouviu!

Matilde retruca esbaforida.

– Como queria que eu ficasse esperando naquela sala sem ar-condicionado, minha filha? Agüentando seu cheiro execrável? Essa situação é desesperadora. Veja só o que fizeram com meu rosto! A senhora precisa fazer alguma coisa Malva Rosa, confiei a guarda deles em você. Que raio de diretora é você que permite aquele pestinha e a irmã bastarda circularem por onde bem entenderem? São duas crianças rebeldes que não sabem o que querem da vida! Eu exijo que tome uma providência imediata a esse caso, se não serei obrigada a tomar medidas mais drásticas.

Malva ousou perguntar.

– Que medidas, posso saber?

A babá não pensou duas vezes.

– Denunciar essa instituição por incompetência e é claro que os métodos um pouco agressivos da sua educação, a qual adora jogar embaixo do tapete na visita dos avaliadores, será escancarada nas primeiras páginas dos jornais.

Malva se apavora com a ameaça.

***

Robson que tampara os olhos de Lucas com as mãos, agora as soltara.

– Pode abrir, agora!

O menino abriu e ficou encantado com a casa na árvore que se revelara bem a sua frente. Era muito bem construída. Ninhos de sabiás rodeavam o telhado. Engraçou por uma chaminé que se erguia a um canto, logicamente não era real, ligada a uma lareira ou coisa do tipo, mas só a criatividade já o impressionava. O pôr-do-sol assolou suas faces, os olhos de Robson brilhavam com certa felicidade que Lucas não sabia bem ao certo do que era, mas fazia o sentir familiar, acolhido, seguro e além do mais gostava de vê-lo assim.

– Não vai subir Professor Guimarães Junior?

Lucas riu com o apelido e subiu atrás de Robson, escalando a árvore até chegarem à casa de madeira.

O local só tinha um cômodo, era pequeno, mas muito bem arrumado, não foi difícil encontrar sobre o feno, a estante que Robson chamava de Biblioteca, apaixonou ao perceber obras primas de Machado de Assis, Clarisse Lispector, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Ruth Rocha até mesmo Dostoievski com o clássico Crime e Castigo ele possuía, era realmente fascinante.

– Fico só imaginando onde o senhor arrumou grana para conseguir todos esses livros!

Robson confessou descaradamente.

– Ora eu roubei da minha antiga dona!

Lucas ficou surpreso.

– Não tem vergonha de confessar isso, moço? Roubar é uma coisa muito feia!

Robson explicou.

– Não se você for explorado por uma cafetina. Eu e Luana somos primos, quando o pai dela morreu, ela veio morar comigo e minha mãe, morávamos com nossa avó, essa tal cafetina, minha mãe dava conta dos clientes dela, era uma das meninas de ouro que a velhaca adorava dizer, porém, quando minha mãe faleceu as coisas complicaram.

Lucas se sente envergonhado por ter feito narrar aquilo.

– Não foi minha intenção fazê-lo mencionar isso, sinto muito, deve ser algo terrível para vocês dois, imagino o quanto ela os explorou.

Robson nega.

– Não chegou a fazer isso. Por um milagre, o primeiro cliente de Luana era um padre de uma igreja que se infiltrou no meio, pois já desconfiava da atividade ilícita da minha avó, ele fingiu que ia passar uma noite com a menina e a levou para uma delegacia, Luana não poupou e entregou o local, aquela nojenta foi presa e fomos levados para a igreja, ficamos lá por algumas noites até conhecermos Mãe Joaquina, freira e amiga desse padre, ela nos acolheu em seu colégio.

Lucas percebe a coragem e determinação do rapaz que mesmo vendo a mãe sendo explorada, um trauma que poderia mexer com a cabeça dele, uma criança na época, cresceu uma pessoa de caráter, que conseguiu com muita força deixar suas mágoas para trás e seguir em frente.

– Eu sinto pelo que te aconteceu! Você deve ter sofrido muito.

Robson constata.

– Sofri, sofri muito. Mas faz parte da vida passarmos por essas provações, é a partir dela que aprendemos como sobreviver em meio a barbárie. Mas não vem fazendo de modesto não! Você também deve ter uma boa história para contar, ninguém que chega aqui teve uma infância feliz, somos vencedores!

Lucas confirma.

– Nem me fale, há tanta coisa em minha vida, decepção com minha mãe, assassinato impune do meu pai, pessoas que a sociedade adora julgar revelando verdadeiros heróis, enquanto os elogiados são monstros, é difícil sobreviver quando não se pode afirmar nada sobre as coisas, esse descobrir a cada dia, viver sobre essa insegurança nos mata, o que é certo e o que é errado? Julgar é muito relativo.

Robson contesta.

– Acho que a maioria das coisas são relativas, mas aquilo que se trata de ética não é. Por exemplo, matar, roubar quando aquilo é muito importante para vítima, ressaltemos isso (e riu), maldizer os outros sem provas, tudo isso infringe o ser ético e, portanto é errado.

Lucas gostou do que ouviu. Fez-lo recordar outro filósofo, dessa vez mais remoto: Aristóteles, o qual ao retratar um plano de governo para a Grécia, a tal república de Platão, fez ressalvas e incrementou a idéia de eudaimonia, nada mais do que a harmonia entre política e ética, duas ciências cruciais para a vida, tanto no plano individual quanto no público.

***

Já anoitecera quando Joaquina visitara Débora, a qual adormecia sobre os olhares do médico. Prontamente a isso, chamara o profissional para uma conversa a um canto.

– E então, Doutor, o quadro dela ainda persiste grave?

– Felizmente não. Ela mostrou uma recuperação surpreendente para o estado que apresentava antes da insuficiência respiratória na cirurgia. Algo até milagroso perante o que passara. Mas me preocupa o seu psicológico, por mais que cuidemos da infecção, agora respondendo aos antibióticos, ela vai ter um grande desafio de auto-aceitação daqui para frente não só pela dificuldade física em mastigar, deglutir o alimento, de preferência líquido e pastoso, mas a rejeição social, discriminação farão parte de sua vida, será um dilema de sua rotina.

– Mas não há uma maneira de reverter esse quadro? Maneira de suplantar esses dentes arrancados a crueldade?

O doutor confirmou, arregalando os olhos.

– Ter até tem, mas não vejo com um custo tão acessível assim. O implante dentário, melhor opção para o caso, considerando o material mais indicado que é o titânio e uma coroa de porcelana, mais a restauração gengival e óssea, comprometida pela inflamação sairia em torno de uns cento e cinqüenta mil reais já que é a arcada inteira e não um ou outro dente isolado.

Joaquina se desespera. Não tinha aquela quantia toda, a menos que pegasse dos recursos do colégio e depois repusesse com o tempo, com juros logicamente, mas ainda estava indecisa, queria ajudar, mas e as outras crianças? Não sentiram a falta de investimento? Poderia tentar conversar com elas, explicar a situação e votar a melhor opção. Sim! Era o mais honesto a se fazer! Agradeceu o Doutor e voltou para seu colégio!

***

Depois de passarem a tarde lendo e filosofando, um esquilo apareceu por um dos buracos da casa, havia furtado uma noz de outra árvore por perto, eles o acharam fofinho e saíram atrás, perseguindo por uma pequena floresta que se iniciava, até que cansaram e com a gelidez do anoitecer dado pelo fenômeno típico da friagem, resolveram montar uma fogueira com gravetos e se aquecerem.

– É muito bonito estar aqui de certa forma, a lua cheia é bem visível perante a poluição do sudeste e centro-oeste! Digamos que parece um queijo delicioso por aqui!

Robson riu. O menino era poeta até naquela hora. Criou coragem e perguntou de algo que mexera consigo desde que o conhecera.

– Sei que pode parecer estranho perguntar isso, mas o que acha sobre os homossexuais?

Lucas virou-se para ele, a noite disfarçava sua timidez. Sentira que estava vermelho.

– O que eu acho? Bom… Acho que são pessoas muito corajosas diante o conservadorismo da sociedade em fazer questão que eles não existam. Algo que nunca vai acontecer, por que são dez porcento da população mundial que cada vez aumenta mais. Mas agora fiquei curioso, o que te levou a perguntar isso?

Robson tremeu, teria ido longe demais? Mas ao mesmo tempo reconhecia que Lucas era um menino muito além da sua própria idade, logo era maduro nos assuntos, aberto as discussões, não iria menosprezá-lo ou algo do tipo, resolveu contar.

– Por que eu acho que eu sou… Quer dizer, desde muito pequeno, eu sinto isso. Quando os amigos da minha mãe iriam visitá-la, héteros ou mesmo gays, eles me chamavam atenção, me cativavam de certa forma, uma espécie de atração, sabe?

Lucas sentiu-se seguro, por mais que estivesse um pouco incomodado em falar sobre aquilo, Robson parecia tratar de tudo de forma tão natural, acabou estendendo a conversa.

– É engraçado você dizer isso, cara. Eu nunca falei com ninguém sobre isso, mas sinto que acontece a mesma coisa comigo. Lembro de um jantar em casa, eram amigos do meu pai, um casal de homens, eles pareciam ser professores do mesmo colégio dele, debatiam sobre direitos da população LGBT e eu fiquei fascinado com eles, um tinha uma barba bem grossa, sabe? Aquilo que me chamava atenção e o outro os ombros largos, ambos mexiam comigo de alguma maneira.

O outro se emociona com a revelação. Lucas percebe que ele está chorando.

– O que aconteceu? Eu disse alguma coisa que te magoou? Se eu disse, por favor, me perdoe, não foi minha intenção, brother!

– Pelo contrário, Lucas! Você não sabe como foi bom ouvir isso de você.

– Como assim? – O mocinho sentiu o coração bater mais depressa.

– Desde quando eu te conheci, eu senti algo tão forte aqui dentro, uma espécie de renascer, florescer, é como se nada mais fosse à mesmice de antes, entende? É como se eu me redescobrisse dentro de mim mesmo numa espécie de sondagem, de análise profunda e percebesse que aquilo que completaria seria justamente sua qualidade. É algo um pouco confuso, hermético. Mas o que posso declarar com certeza é sobre meu sentimento por você Lucas Carvalho… (pausou uns segundos). Eu te amo com todas as letras!

O menino o encarou emocionado, fechou os olhos e desenhou a face do outro com as mãos, queria sentir se ele realmente existia, se estava ali. Ao final proferiu.

– Eu também te amo senhor ladrão de livros!

E puxou-o pela gola, beijaram de língua. Lucas se escorou na nuca de Robson e esse o envolveu pela cintura. Um jato de endorfina, ocitocina e adrenalina corriam pela suas veias fazendo suas pupilas se dilatarem, suas respirações ficarem mais ofegantes, perderem o controle sobre as artimanhas do corpo. O mais velho encaminhou para cima de Lucas e o deitou serenamente sobre o gramado enquanto namoravam apaixonadamente. Mas alguém viu.

Luana que chegara a floresta a procura dois chocara-se com a cena, não conseguiu conter as lágrimas, sabia que a partir dali perdera Robson para sempre. Deu meia volta e saiu correndo para o colégio. Entregaria os dois!

 

CONTINUA…

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.