Eterno canto: Capítulo 2 – Sob Centímetros

Eterno canto: Capítulo 2 – Sob Centímetros

 

– Malditos ratos imundos, mataram meu pai e agora querem fazer o mesmo com meu irmão, mas eu não vou deixar!

Débora correu atrás do carro desesperada a fim de conseguir enxergar a placa, mas não teve sucesso.

Carla tentava reanimar o filho, totalmente apática. Alguns manifestantes aproximaram para ajudar a chamar o resgate, quando a menina se ajoelhou e se aliviou ao ouvir os batimentos do caçula.

– Ele está vivo! Calma mãe, nada de mal vai acontecer com ele, eu te prometo.

A mulher esperançosa abraçou-a.

***

As paredes brancas antes embaçadas, aos poucos foram se tornando nítidas. Aquele cheiro peculiar de éter. Estaria em um hospital? Escancarou os olhos e mal teve tempo de confirmar, logo foi acometido por uma dor terrível, berrou. Débora estremeceu. O que estava decorrendo com seu irmão mais novo? Carla tentou acalmá-lo e nesse ínterim um ortopedista invadiu o quarto acompanhado de enfermeiras.

– Cedem o paciente, 50 mg de Morfina intravenosa !

Carla não entendeu a situação:

– O que foi Doutor? Por que meu filho está precisando de um anestésico tão forte?

O homem foi sucinto:

– Infelizmente pelos resultados da ressonância, a queda do atropelamento fraturou uma vértebra T12, a lesão atingiu parcialmente a medula espinal, se não operarmos urgentemente ele corre o risco de ficar paraplégico.

A mulher gelou:

– Mas então o que estão esperando para fazer essa merda de cirurgia?

Gilberto explicou:

– Acontece que o convênio de vocês não cobre essa operação, precisamos do pagamento para iniciar.

Débora mordia os lábios de aflição. Após o irmão adormecer, ela voltou-se ao profissional dando suporte a sua mãe:

– Quanto custa? Doutor!  Quanto custa o procedimento?

O ortopedista proferiu:

– Cinquenta mil reais.

Carla soltou um grito, incrédula. Volta para a face da pré-adolescente chocada.

***

A matriarca exasperou:

– Como assim cinqüenta mil reais? Nós não temos esse dinheiro!

Débora se recordou de algo:

– Mãe, aquelas economias na poupança do papai. Ele me levou semana passada ao banco, está na casa dos cinqüenta e dois mil.

Carla contestou:

– Será que você não entende? Como vamos nos alimentar, como vamos pagar o aluguel da casa? Eu não trabalho, era o seu pai que cobria tudo, sozinho.

Ela se volta para o médico:

– Será que o senhor não pode diminuir os custos? Qual a razão para esse procedimento ser tão caro?

O profissional balançou a cabeça negativamente:

– Eu até poderia se a cirurgia não requeresse uma sofisticação de instrumentos. O hospital não tem aporte para essa operação, o material virá todo de fora. Entenda, o caso é muito grave e delicado, qualquer perda de tempo pode ser crucial para seu filho. Fico aguardando sua resposta. Agora, com licença.

Ele as deixou no quarto a sós, Carla pôs a mão na cabeça num tom de apreensão, sua filha a abraçou.

***

O crepúsculo já adumbrava o horizonte de forma senil semelhante às marcas de preocupação que endurentavam na face daquela mulher perdida na paisagem no fundo da lanchonete. Uma jovem se aproximou:

– Mãe, a senhora não comeu nada desde que chegou do enterro! Precisa fazer um esforço, trouxe essa empada.

Carla recusou e se afastou. Débora foi atrás, até uma mesa, onde se sentaram.

– Eu não quero nada, não vê que não estou com cabeça para isso.

A menina protestou:

– Desde quando se alimentar requer algum raciocínio? Vamos mãe, é para o seu bem.

Carla pegou o assado pestanejando.

– Como se isso fosse resolver o caos que estamos vivendo. Tentei voltar para aquela casa, mas depois da cerimônia não consigo olhar para os porta-retratos. Um homem tão valente, o pai dos meus filhos, assassinado daquela maneira tão cruel. É o fim dos tempos.

Débora se emocionou:

– Tornou-se um verdadeiro mártir. Lembra dele todo animado quando conseguiu aquele emprego na universidade? Agora sim, vou tirar esses meninos da alienação, fazê-los enxergar a política do pão e circo que a mídia tanto fomenta. Meu velho amigo como você fará falta. Um eterno pai.

Carla chorando, pegou nas mãos da filha:

– Um grande companheiro. Você falando desse jeito me fez recordar da época que eu o conheci. Ele me seguindo no colegial, todo dia, quando eu voltava a pé para casa. Aquele andar desajeitado e ao mesmo tempo tão sincero, conquistando minha mãe com flores. Ele me chamava de senhorita eufemismo, por que segundo ele o meu gosto poético misturava com a sensibilidade que eu tinha pelas coisas, vendo sempre o lado mais doce. Como eu o amava.

Débora sorriu:

– Tenho certeza que ele te fazia feliz. São fatos que não entendo como podem acontecer. São nesses momentos que começo a duvidar na existência de Deus. Como pode existir um todo-poderoso que permita que essas injustiças aconteçam?

Carla a observou por um momento em silencio e respondeu:

– Talvez ele exista sim, o que acontece é que ele sempre escreve certo por linhas tortas. Sua noção de justiça vai muito além da nossa vã filosofia, ela requer um aprendizado, chego a pensar que ele tem muito a nos ensinar sobre a brevidade da vida, do quanto somos insignificantes perto de seu poder.

A menina torceu o nariz, não era dessas de fé, acreditava na realidade como ela é. Não chegara a idade das muletas e já ultrapassara a fase dos velórios.

– E quanto ao Lucas, decidiu o que vai fazer?

A viúva respirou fundo

– Acho que sim.

***

Decidira pela realização da cirurgia. Era um quadro de riscos, não podia perdurar muito tempo, depois dava um jeito no resto. Na manhã seguinte estava operando e para sua felicidade tudo ocorreu bem. Ficou mais alguns dias no hospital até poder voltar para casa a partir da tomada de um ônibus.

Já haviam descido no ponto e Débora esboçou seu contentamento pela melhora do irmão.

– Nem sabe como estou feliz por poder te ver de volta andando, maninho. Dessa vez aquela classe podre não conseguiu nos derrubar.

De supetão, Lucas foi tomado por uma lembrança no dia fatídico ao seu atropelamento, antes de cair desacordado, gravara a chapa do carro.

– Eu me lembrei, eu me lembrei.

– Lembrou do quê? Meu filho!

O menino disparou enfaticamente:

– Lembrei-me da placa do veículo que me atropelou.

Débora se felicitou, puxando a mão do irmão.

– Então vamos agora à delegacia, denunciar!

Carla revelou suas reais intenções e segurou o braço da filha brava:

– Não! Vocês vão ficar aqui! Vocês ficaram malucos de mexer com essa gente!

A menina surpreendeu-se. Lucas peitou a mãe:

– Que gente, mãe? Não estou te entendendo. Do jeito que você está trêmula parece que está escondendo alguma coisa. Que foi, mãe? Você sabe, não é? Quem matou o papai?

Débora a encarou. O rosto da mulher esmoreceu.

 

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.