Eterno canto: Capítulo 16 – Batina do mal

Eterno canto: Capítulo 16 – Batina do mal

Robson atravessou a mata fechada com o menino passando mal em seus braços.

– Seja firme, prometo que não estamos longe!

Por mais que estivesse praticamente desacordado, Lucas sentiu seguro ao ouvir aquelas palavras. Ele dizia com uma voz tão determinada que o fizera tão bem, um bem que não sentia desde a morte de seu pai.

Ao pular a cerca de propriedade, no entanto, não contavam com Marcio Guerra que acionara outros seguranças quando vira a fuga pelas câmaras espalhadas no jardim. Ordenou:

– Peguem os garotos!

Robson tentou relutar, mas foi inútil. Enquanto eram levados para o reformatório, ele gritava:

– Não o machuque, ele está muito ferido!

Mas não deram-lhe ouvido, arremessaram Lucas dentro de um armário no vestiário e o trancafiaram, depois arrastaram Robson até a sala de Malva Rosa. A freira não entendeu nada, quando adentraram.

– O que está acontecendo aqui? Marcio Guerra eu lhe dei ordens expressas para não invadir a minha sala essa hora da noite!

Ele explicou.

– Acontece Irmã Malva que esse pilantra estava tentando salvar um de nossos alunos.

Ela encarou o jovem com uma superioridade sombria.

– Quem? Propriamente!

O homem revelou.

– Lucas Carvalho.

Ela explodiu.

– Elisabeth me passou tudo que esse marginal fez com Isaltina! Como pôde pirralho, tentar libertá-lo?

O menino a enfrentou.

– Essa metodologia de ensino de vocês é cruel demais, ele estava agonizando naquele jardim!

Ela e os outros riram.

– Agora quer me ensinar como comandar a minha instituição, pestinha? Não acha que é muito jovem para isso?

Ele a peitou.

– Posso ser jovem, mas tenho algo que não possui: amor. Tenho compaixão pelo próximo, como Deus pediu para sermos na bíblia. Sou amado pelas pessoas, não temido. Minhas relações são verdadeiras.

Aquilo mexeu com o ponto fraco da malévola que conteve para não chorar. Até que identificou um cheiro no ar.

– Esse perfume! Como eu não suspeitei disso antes? Esse vagabundozinho é da escola de Joaquina! Aquela descarada descumprindo nosso acordo de respeitar as fronteiras, se metendo com as crianças dos outros! Mas eu vou mostrar para ela o que acontece quando resolve fingir que não existo. Levem-no para a câmara sete, e o outro garoto também, tenho certeza que vão adorar!

E jogou o cabelo com sordidez enquanto ouvia os gritos do rapaz serem abafados pela distância.

Débora sofria ao presenciar aquele odor de decomposição misturado ao tato com os cadáveres ali presentes. O local era fechado e úmido. Um rato saiu de um dos buracos da parede e passando pelo tórax de um dos alunos e arco zigomático de outro, subiu pelo uniforme da menina até chegar ao seu pescoço, ela se arrepiou aos berros ao sentir os bigodes tocarem-lhe a nuca. Correu desesperada para o outro lado e esbarrou na parede descascada, uma verdadeira chuva de tinta esfarelada caiu sobre sua cabeça, fazendo a tossir desesperada.

Lucas foi retirado do armário com brutalidade, pelo pouco que conseguia falar, implorou para não o levarem para mais um castigo, mas Marcio Guerra fingiu que não escutou, empurrou com rudeza para dentro de uma câmara escura, onde o jovem se apavorou ao ver sobre uma cadeira fosforescente, no centro, Robson amarrado. Quando se aproximou para ajudar o garoto, faíscas voaram para todos os lados anunciando a ligada daquilo temia: era uma cadeira elétrica. O garoto estremecia descontrolado, batendo os braços de forma babélica, debatendo-se pasmo contra a eletricidade que o queimava por dentro. Lucas começou a gritar desesperado, quando tudo cessou e Robson desmaiou, fumaças efundiam pela sua pele. Mal teve tempo do protagonista conferir o estrago feito, quando uma porta se abriu e dela um leão feroz saiu a rugir a todo vapor em sua direção, gritou correndo de um lado para o outro. Na sala de comandos, ao lado, Marcio Guerra e Isaltina riam da cena, comendo pipoca.

O dia amanhece….

Serelepe desce da casa da árvore de Robson e percebe que o rapaz não dormiu por lá. Ele começa a caminhar pelos vales estratificados até chegar a cerca que separa as duas propriedades e se choca ao encontrar a flauta do menino quebrada.

– Mãe Joaquina, Mãe Joaquina!

Desata a correr de volta para o colégio.

O poço é aberto e jogam uma corda para Débora que frágil pela fome e sede agarra desesperada, subindo com dificuldade. Ela é levada para o pátio central com a escola inteira assistindo e tripudiando. Pendurado nas alturas, Lucas encontra-se desacordado, fora saco de pancada dos veteranos depois de passar aquele horror psicológico com o leão, controlado com luzes fortes e domadores competentes. Ao seu lado, Robson também se encontrava desacordado. Ela correu para perto deles, mas Marcio a puxou de volta.

– Não me obrigue a ter que te deixar uma semana naquele poço fedorento!

No palco, Isaltina encontrava-se terminando de aumentar as notas dos valentões que espancaram os meninos, passariam com êxito em sua matéria. Débora foi jogada ao chão de joelho aos pés da anciã para pedir perdão, beijando os pés da mulher que havia os mergulhado numa bacia lotada de estrume. Malva Rosa continha o farfalhar de alunos que cobiçavam feito abutres verem a cena.

– E então, menina, o que está esperando para beijar os pés? Isaltina quer logo seu pedido de perdão!

Todos olhavam ansiosos pela humilhação de Débora, mas essa surpreendeu. Quando se aproximava para beijar os pés, agarrou a bacia com as duas mãos e atirou o conteúdo na fuça da professora.

– Toma sua fascista de merda! Agora você está parecida com o que é de verdade, um monstro! Eu nunca vou beijar seus pés, sua velha porca!

Malva se enfureceu com a petulância da jovem e agarrou-a com um beliscão no braço, a menina foi ágil e a empurrou contra Isaltina, ambas caíram no chão, escorregando no estrume para o riso da garotada. Débora montou em Malva e esfregou sua cara no conteúdo que sobrara nas bacias.

– Ditadora desgraçada, experimenta do seu próprio veneno! Toma!

Marcio Guerra a agarrou por trás tendo contê-la, mas ela chutou suas bolas, desatando a correr até que um segurança a conteve. Malva saiu espumando de cima de Isaltina e deu um tapa bem dado na cara da jovem.

– Eu quero essa putinha na sala de operações! Precisa de um corretivo urgente! Vou te ensinar, sua pirainha comunista, quem é que manda nesse colégio, ouviu bem? – E espremeu suas bochechas com as mãos imundas de bosta de cavalo.

Serelepe chega ao quarto de Joaquina desesperado.

– Que foi, meu filho, o que aconteceu?

Ela terminava de assistir televisão. O menino disparou.

– Pegaram o Robson! Mãe Joaquina!

A freira do bem se chocou.

– Meu Deus! Você tem certeza? Quem foi?

Ele concluiu.

– O pessoal da Irmã Malva Rosa!

A senhora gelou.

Débora fora posta com força sobre uma maca, na qual ela esperneava desesperada sendo contida por outros homens fortes. Marcio Guerra apertou a queimadura na cabeça, fazendo-a parar por dor.

– Tá vendo esse símbolo aqui ! É para você honrar, sua peste.

Ela gritou.

– Eu nunca, nunca foi idolatrar Hittler, meu herói é Marx, ouviu bem? Marx!

Ele a esmurrou com vontade, a menina vomitou sangue.

– Vou te ensinar a falar menos e a ouvir mais. Tragam a anestesia!

Um enfermeiro entrou com uma seringa enorme e eles aplicaram no braço da menina que se retorcia. Marcio Guerra avisou.

– Essa quantidade é só para te deixar sossegada, ele age em seu nervo motor, mas não vai tirar sua sensibilidade, quero que sofra quando arrancarmos todos os seus dentes a marteladas e depois fazermos você gargarejar com sal!

Ela se desesperou, tentando se desvencilhar, mas foi em vão, não tardou muito para os sedativos impedirem seus movimentos.

Um homem trajado de avental branco que mexia com corte de gado, um verdadeiro açougueiro, o mesmo sujeito que raspara o cabelo de Lucas, entrou minutos mais tardes na sala, acompanhado de Isaltina que já tomara banho. Os olhos da professora de aritmética enalteciam com o futuro da menina. Ela se aproximou da menina e escarrou em sua face, limpando os lábios.

– Espero que sobreviva para nos grunhir sua história! Aprenda uma coisa, minha querida, não mexa com pessoas que são muito maiores do que você, que são vencedores, puros de sangue, por que a corda sempre tende para o lado mais fraco. Barnabé faça as honras!

O homem se aproximou e sem esterilizar as mãos, abriu a boca da menina, totalmente apavorada com o que estava acontecendo, no entanto, paralisada.

– Que dentes bonitos, moça! O estrago vai ser grande, dona!

Mas Isaltina não poupou.

– Pode mandar ver!

Ele executou, pegando um martelo enferrujado e quebrando os dentes da menina com afinco. Ela berrava sobre olhares realizados de Marcio e Isaltina. As raízes eram deixadas mortas para inflamar, um verdadeiro cenário de horror.

Malva ainda com seu roupão de banho terminava de brincar com seus Rottweilers no jardim quando Elisabeth anunciou que Joaquina e o pessoal do colégio dos Sonhos estavam se aproximando.

A freira depois de se trocar, dirigiu-se com a segurança e Marcio Guerra até a frente de sua instituição, onde há menos de pouco metros estava Joaquina com suas crianças e seus seguranças. Malva ordenou.

– Larguem o garoto!

E eles o jogaram para frente, Joaquina correu ao encontro de Robson totalmente machucado.

– O que vocês fizeram com eles? Animais! Responde para mim, Robson! – E dava-lhe toques no rosto afim de que ele reagisse, mas o menino estava muito fraco. Malva ousou declarar.

– Esse seu filho insuportável invadiu nossa propriedade, tentou resgatar um de nossos alunos, quebrando totalmente a regra de intocabilidade entre as duas instituições, o que meu o direito de dar-lhe uma boa surra.

Joaquina levantou-se transtornada, correu ao encontro de Malva, mas seus seguranças se aproximaram.

– Sua Cretina, desgraçada! Eu pedi para você ficar longe de minhas crianças! Ao invés de ter me telefonado para eu vir buscar o menino, você fez o quê? O que sempre faz, passando por cima de quaisquer limites éticos e achando no direito de agredir os outros.

Malva protestou.

– Mas você queria que eu fizesse o quê? Ele estava fugindo com meu aluno!

Joaquina berrou.

– Isso não interessa! Quem anulou as regras aqui foi você! Pois agora não existe mais acordo nenhum entre a gente! Acabou a mamata! Eu vou te entregar, sua cachorra sarnenta! Se é guerra que você quer ter, é guerra que você terá!

Malva arqueou as sobrancelhas num tom de surpresa. Joaquina bufava de raiva.

 

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.