Eterno canto: Capítulo 14 – Despedida

Eterno canto: Capítulo 14 – Despedida

No capítulo anterior

Carla e Valentina fogem pelos fundos do edifício após o defenestramento de Zeca. Débora e Lucas se juntam ao grupo de Paçoca para assaltarem uma mansão atrás de esmeraldas gregas. Ivette Bolonha não se conforma com a morte do pai e procura o delegado. Valentina estupra Carla, mas ela não deixa barato e na manhã seguinte a compacta a sangue frio no asfalto passando a roda por cima( muitas vezes). No fim, porém, o crime havia sido visto por Janaína, amiga íntima da presidiária morta e numa entrega de maconhas, Carla é brutalmente assassinada. 

***

Foi inevitável não se recordar da infância. De costas, com aquele avental remexendo uma tigela com a colher de pau. Quer provar, filha? Estou fazendo brigadeiro! Juntas com seu pai a praça, ensinando-a a andar de bicicleta sem rodinha. E a fada dos dentes, então? Quando seu primeiro dentinho de leite caiu! Ela estava lá em todos os momentos. Na platéia do recital de balé dando-lhe motivação, encorajando. Quando Tico, o pardal faleceu ao ser comido pelo gato da vizinha e teve a primeira noção da morte. Quando quebrou o braço ao cair da árvore e acordou no hospital, percebendo que estava em seu quarto, segurando sua mão! A primeira menstruação! Eram tantas lembranças! Fora uma péssima filha nos últimos tempos, mas o que podia fazer? Decepcionara com as verdades à tona.

– Mas o que essa pentelha está fazendo aqui, Janaína?

A chinesa mostrou impaciência com a cena e apontou o revólver. Paçoca e outros garotos entraram de uma só vez, armados.

– Não faça isso ou vai se arrepender! – O traficante avisou.

– Eu paguei para vocês saírem e ainda foi muito por essa faxina mequetrefe, olha só quanta poeira! São uns inúteis mesmo!

Lucas chegou ao pavimento superior e desmontou ao ver a irmã agarrada no corpo da mãe morta. Não conteve a exasperação e se jogou para junto, em choque pelo ocorrido.

– Mamãe, morta?

A menina teve compaixão do irmão e o abraçou forte.

Paçoca pediu um tempo para retirar à amada.

– Vamos, Debby!

Ela revoltou-se.

– Como pode ser tão frio? Respeita nossa dor! Essa desgraçada disparou contra nossa mãe, pois eu vou acabar com tua raça, sua assassina!

E partiu para cima da mulher que se defendeu com o revólver. Mas isso não foi o bastante para a comunista parar, elas rolaram no chão e a arma disparou, até Paçoca intervir e neutralizar, pegando o revólver e segurando a amada. A empresária disparou:

– Pode espernear o quanto quiser sua mãe não volta nunca mais!

Num furor de injustiça, Débora a estapeou. Janaína mostrou-se armada. Paçoca foi racional.

– Vamos embora daqui!

– E a minha mãe? Eu não posso deixá-la aqui!

E agarrou novamente o corpo, Bruno a retirou e pediu aos meninos que levassem Carla dali. Lucas virou-se fora de si para a chinesa.

– Se pensa que essa história vai terminar assim, está muito enganada! O que é seu tá guardado! Mal pode esperar!

– Tá me ameaçando, pirralho?

Ele a enfrentou.

– Estou.

Paçoca o puxou para fora do galpão.  Do lado de fora, ouvia-se apenas o desespero dos irmãos que precisavam ser contidos para não fazerem nenhuma besteira. Um ciclo terminava ali. A cena apagou.

***

Ivette e o delegado analisavam as imagens junto com dois peritos na cabine de segurança do prédio e em uma das câmaras localizam o momento que duas mulheres fogem pelos fundos. Will a reconhece.

– É essa mulher aqui que seu Zeca trouxe para ficar aqui!

Ivette confirma suas suspeitas. Era realmente Carla, sua antiga inquilina, que estava por trás de tudo.

***

Com o dinheiro da venda das esmeraldas, Bruno conseguiu com a sua parte comprar uma pequena cova no cemitério central da cidade e lá enterraram a dona-de-casa. Débora ainda estava abatida. Ele a abraçou.

– Eu nunca esperei Paçoca! Que fosse enterrar minha mãe desse jeito! Por mais que ela tenha se revelado uma bandida recentemente, ela era a minha mãe! Pensei que nosso amor fosse durar para sempre!

Ele a consolou com palavras sinceras.

– Mas nada é para sempre, minha linda. Nem mesmo o sol com toda sua grandiosidade em fornecer energia para os processos vitais é infinito. O melhor que podemos a fazer por nós mesmos é aceitar logo de uma vez nossas perdas, dar um jeito de deixar apenas as boas lembranças e seguir em frente, por que o grande mal do luto é sua capacidade feroz em atrair tudo que está ao seu redor, paralisar o tempo, mas temos que relutar, relutar e seguir em frente, ainda há flores no jardim, lembre-se disso!

Débora se emocionou.

– Isso foi tão profundo e ao mesmo tão tocante, amor! Mexeu aqui dentro de alguma forma, confortou-me. Obrigada!

Ele a beijou.

– Só quero te ver bem, senhorita Paçoca!

Ela sorriu. Mas voltou-se para a paisagem, observando-a por um momento.

– Às vezes, chego à conclusão que eu não queria crescer. Era tão boa a minha infância, acreditar nas cores do mundo, bem que você podia me levar para a terra do nunca, uma ilha mágica, onde só há espaço para a felicidade. Não quer ser meu Peter pan?

Ele completou.

– Só se você for a Wendy!

Ela o abraçou forte rindo. Nesse instante, deu-se conta que Lucas não estava ali. Havia fugido!

***

Matilde evitava se mexer na espreguiçadeira da frente, ainda machucada com a bala que levara no nariz, quando Macabéia veio lhe avisar que tinha visitas. Ela recebeu-os na saleta ao fundo.

– E então, em que posso servi-los? Se não for demorar muito, agradeço. Ainda estou me recuperando do atentado que eu sofri!

– Que mal lhe pergunte Dona Matilde, mas quem fez isso com a senhora?

– Um marginal encapuzado! Protegia dois pestinhas, sobrinhos da falecida, mas eu ainda ponho as mãos naqueles trastes lulistas!

– Por acaso, chamam-se Lucas e Débora?

Matilde gelou.

– Como sabe disso?

Ivette revelou, acompanhada do delegado:

– Mas isso é muito simples! Foi a mãe deles que ao sair da prisão, matou o meu pai!

Matilde berrou incrédula.

– Carla saiu da prisão?

***

Lucas caminhava atordoado sobre a chuva pelas ruas de Santa Helena lembrando-se de quando sua mãe costurara seu ursinho de pelúcia em um dia de trovoada, na qual ele tinha medo. Fizera-o sair debaixo da cama e entregara o brinquedo, deitando com ele, envolvendo em seus braços num gesto maternal. Protegendo-o do temporal. E agora tudo isso acabara! Ele iria se vingar de cada dor que ela havia sentido com os tiros! Ah, ia! Voltou ao galpão, em chamas por dentro, quando pusesse as mãos naquela maldita! Empurrou a grade e se adentrou no local, aparentemente estava vazio, subiu as escadas e fitou por alguns segundos o lugar onde havia sido baleada, os pingos de sangue ainda estavam lá. Sentou-se no chão tentando se lembrar de algum detalhe, alguma pista, quando lhe recorreu sobre a natureza do pingente que Janaína usava, já o tinha visto em algum lugar, tinha certeza, mas onde? Fixou o vazio e se lembrou.

***

O delegado chegou com Ivette e Matilde ao seu escritório e descobriu pelo seu escrivão que uma mulher estivera ali para fazer retrato-falado de uma gangue que invadiu sua propriedade, dentro os quais se lembrara de dois: um jovem e uma garota. Quando recebeu as folhas, tentando identificar, Ivette e Matilde reconheceram Débora no ato.

– É ela, delegado! É essa pestinha, a filha da megera. – Gritou Ivette.

***

Lucas chegou a vitrine, onde estava o acessório em exposição quando Zeca parara com o caminhão para abastecer naquele posto adiante, do outro lado da rua, logo que fugiram do orfanato. Jamais conseguiria esquecer aquele pingente, ele reluzia de onde estivesse. Entrou na loja, prestes a fechar e a recepcionista ligou para a dona que desceu dos fundos disposta a expulsá-lo dali, suas vestes entregavam sua condição.

– Saia daqui, garoto! Não temos pão velho!

Ele percebeu o desprezo, mas transformou o tom em comédia, precisava retirar aquela primeira impressão se quisesse obter mais informações sobre a mulher que comprou o pingente.

– Eu não estou com fome, não moça! Nossa, como a senhora é bonita, realmente muito bela, 26 anos, certo?

Sacara que ela era uma pessoa carente. Sabia que ela tinha por volta de uns cinqüenta anos, tudo fora uma jogada. Ela se pompou toda se achando.

– Que isso, também não é para tanto! Mas reconheço que minha genética é espetacular.

Ele sorriu. Ela tornou-se receptiva.

– Por favor, Camila, feche o caixa! Irei recebê-lo em minha cozinha. Pode subir meu rapaz, minha casa é por aqui!

Ele agradeceu e a seguiu, totalmente irônico. Quando chegaram ao andar superior, servi-o uns biscoitos amanteigados e chá.

– A decoração da sua cozinha é maravilhosa. Aquela ali é a Deusa Vênus, não?

A mulher surpreendeu com o repertório do rapaz.

– Vivendo e aprendendo. Quem diria que um menino como você teria um olho sensível a estatuetas gregas?

Ele riu.

– Não venho da rua, até pouco tempo estudava, mas minha mãe decidiu mudar-se para cá, acabamos brigando e eu e minha irmã mais velha fugimos de casa.

A anfitriã concebeu o motivo da visita.

– Receio então que tenha me procurado por que não saiba como voltar para a casa, eu posso ajudar se você quiser…

Ele a interrompeu.

– Antes fosse isso, moça! Quero uma informação apenas!

Ela sorriu.

– Sério? O que é?

Ele afirmou.

– Sim! Sobre aquele pingente que estava na vitrine no começo da semana, eu o vi e fiquei curioso para saber quem pode tê-lo comprado. Na época eu ainda estava com minha mãe, ela se interessou, talvez queira fazer uma contraproposta para a mulher que o levou-se.

A dona alegrou-se.

– Mas isso é fácil de descobrir, vou ligar o laptop e olhar os registros.

Lucas felicitou-se.

***

Débora terminava de tomar banho de mangueira em uma bica escondida, ainda preocupada com o irmão, quando se vestiu. Chegou à ponte de Paçoca e o viu sentado na plataforma.

– Você deveria ter me deixado, ir! Ele é meu irmão, caramba!

Bruno explica.

– Não ia adiantar nada, essa emoção não iria fazer nada bem a você. Já teve muito por hoje, não acha?

Ela senta ao seu lado em lágrimas.

– Antes fosse apenas isso, Paçoca! Não tem como não ser emotivo, humano, depois de tudo que estamos vivendo. Atentados terroristas na Europa, posse de um presidente conservador nos Estados Unidos que não respeita os direitos das mulheres, dos gays, dos negros, dos imigrantes. Um avião que cai próximo a Paraty, com um ministro do supremo precursor das investigações da Lava- Jato, a mídia noticiando um acidente, sendo que está na cara que foi proposital, por que agora quem vai dar o aval para o próximo é ninguém menos do que o próprio mandante, e as pessoas não enxergam isso, estão cegas, o mundo está doente, Paçoca! Totalmente doente!

Ele a põe em seu colo, beijando-a na testa.

– Calma, minha justiceira! . Vai ficar tudo bem! As minorias não vão deixar que isso aconteça, estão cada vez mais se organizando.

Ela estreitou o abraço.

– Tomara Paçoca! Tomara!

***

Enquanto a mulher procurava no sistema o nome da compradora, Lucas precipitou-se até a pia da cozinha e obteve a posse do rolo de massas. Acertou-a em cheio, ela desmaiou. Tendo entrada no sistema, procurou o endereço da mulher entre o cadastro e encontrou. Era agora que ele ponha fim a essa história!

***

Um homem colava nos postes o papel de procura-se os dois a partir do retrato- falado e da confirmação de Matilde e Ivette. Débora e Paçoca que estavam afoitos a procura de Lucas que não prestaram atenção quando foram a padaria lanchar. A menina ficou de fora do estabelecimento tentando encontrar o irmão, quando uma mulher empurrando o carrinho com seu bebê avistou o aviso de recompensa e chocou-se ao deparar com a menina a porta da padaria.

***

Lucas apertou o botão da campainha do casebre, quando Janaína atendeu, ele a agarrou pelos cabelos, saltando em seu colo tentando derrubá-la.

– Aiiii, me larga, seu marginalzinho!

Ele a desequilibrou no sofá e pôs um canivete em seu pescoço.

– Você vai me dizer agora, onde está aquela chinesa assassina! Se não, eu te mato!

A mulher o encarou com medo.

***

Eles voltaram para a ponte abraçados. Paçoca resolveu pegar um livro velho para passar o tempo, mas não conseguia ler. Débora percebeu a dificuldade do rapaz e se prestou a ajudar.

– Você não sabe ler, amor?

Ele avermelhou e balbuciou.

– Achei que fosse questão de tempo, eu sempre vi os adultos lendo. Mas não consigo.

Ela sentou ao seu lado e o abraçou, beijando-o no rosto.

– Não fique assim! Já conversamos sobre isso! A culpa não é sua! Bandidos, corruptos! Sucatearam o quanto puderam o ensino público no passado e agora voltam com esse papinho de reforma, enxugando matérias como literatura e filosofia, cruciais para a fixação da leitura! Escolher o que estudar o escambal! Como vão saber o que optar se nem interpretar, sabem! É uma filha da putagem sem escrúpulos! Vem cá, Paçoca, vou te ensinar.

E começou a ler, pedindo para ele repetir em voz alta. Enquanto do lado de fora da ponte, à mulher que a vira, entregava-os para um dos telefones no anúncio.

***

Encontrou o edifício em que Janaína entregara. Era um prédio antigo, de muitos comércios nos andares mais baixos, mas tinha também belíssimas coberturas em cima e uma delas era da dita cuja. Do outro lado da calçada, Rato e os meninos o viram, dentro de um carro.

Lucas já havia apertado o botão do elevador quando avistou-a entrando em um restaurante, escondeu-se atrás de uma pilastra e precipitou-se para o local. Pelo vidro, era possível perceber o reflexo dos rapazes.

Entrou batido na cozinha e abaixara a um canto para os cozinheiros não o enxergarem, escapou por um buraco na parede, abaixo do fogão e chocou-se com um garçom trocando no vestiário. O homem o viu e tentou chamar ajuda, mas ele o deteve, apontando o canivete.

– Quero seu uniforme, agora!

A chinesa já havia pedido seu café e seus bolinhos de chuva quando Lucas disfarçadamente entrou no balcão, de costas para ela e recebeu sua comanda pelo dono que nem reparara em seu rosto. Ele percebeu que os bolinhos não estavam prontos o suficiente para servir e jogou-os no micro-ondas por mais alguns minutos, o café estava pelando. Passado isso, entregou-os na maior cara de pau, ela gritou ao queimar a ponta dos dedos.

– Mas isso aqui está fervendo!

Encontrou seus olhos e o reconheceu.

– Que foi, dona? Não está bom para você! Então experimente o café!

E atirou-o em sua face, queimando-a. Ela urrou, paralisada. Ele apontou o canivete em seu pescoço. O restaurante inteiro chocou-se.

– Você matou minha mãe, sua desgraçada! Agora você vai ter o que merece! Vou te mandar para um lugar muito melhor! Pode ter certeza disso!

Nesse ínterim, Rato e os meninos invadiram o local, tentando impedir que uma tragédia acontecesse, a segurança foi acionada e começou uma troca de tiros até que conseguiram fugir, dentro do carro. Danilo o repreendeu.

– Você ficou maluco, Lucas! Pirou?

Mas o menino não respondia. Estava tomado de raiva, ofegante.

***

A noite já havia caído quando chegaram. Débora que namorava Paçoca correu ao encontro do irmão.

– Você está salvo! Nem sabe como me preocupei contigo, maninho!

O apertava fortemente sobre os braços. Bruno agradeceu a turma, quando Juca, que não estava envolvido na missão, apareceu correndo, totalmente assustado.

– Descobriram chefe! Descobriram tudo!

Paçoca foi a sua chegada.

– O que você está dizendo, Juca?

O menino disparou.

– Um abaixo assinado de você e da menina, está espalhado por toda cidade, como cúmplices do crime da mansão!

Eles se desesperaram, mas não tiveram tempo, a ponte foi tomada por diversas viaturas e dentre elas estava Matilde acompanhada de Ivette. Débora se apavorou.

Antes que pudessem se armar, a polícia foi mais ágil e os conteve. Bruno foi algemado sobre os berros de Débora.

– Soltem ele!

Matilde agarrou a menina pelos cabelos e a arrastou. Ele tentou desvencilhar para salvá-la, mas levou um murro de um dos policiais, cuspindo sangue. Ivette agarrou Lucas e o jogou para dentro de uma viatura, batendo a cabeça do infanto no vidro sem controle.

– Quero saber onde está, sua mãe! Me fala, onde está a sua mãe!

Ele revelou.

– Ela está morta.

Ivette o soltou num êxtase sem precedentes. Sentiu que ele não havia mentido. Débora tentava fugir dos braços de Matilde até que a babá retirou uma seringa do bolso e fincou no braço da adolescente.

– Vê se dorme encosto! Fecha essa matraca de uma vez por todas! Para de dar trabalho!

A menina desmaiou e ela a jogou dentro de outra viatura. Entrou no banco do carona, ordenando ao policial.

– Vamos para o orfanato! Essa história termina hoje!

Congela em seu rosto decidido e gélido.

 

 

 

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.