Eterno canto: Capítulo 11 – Contos de Bruxa

Eterno canto: Capítulo 11 – Contos de Bruxa

No capítulo anterior:
Durante um temporal, Lucas e Débora recusaram ajuda de Zeca e fugiram para debaixo de uma ponte, onde ficaram amigos de um traficante do bem chamado Bruno Paçoca. Carla jogou seu charme para seduzir Valentina.  Conseguirá? 

 

Valentina se aproxima num tom de chamego e cheira seu pescoço.

– Posso saber o que princesa deseja?

Carla a observa forjando um ar de descontração, apesar de estar apavorada.

– Você é rápida no gatilho, hein? É assim também na cama?

E se vira, a detenta a agarra pelas costas, balbuciando em sua orelha.

– Por quê? Ficou com vontade de conhecer?

Carla se desvencilhou.

– Isso vai depender de você!

Valentina a encarou.

– O que isso significa?

A mãe riu.

– Quero que me ajude a sair daqui!

Closet no rosto surpreso da encrenqueira.

Débora terminava de arrumar o cabelo com as mãos quando Bruno chegou da padaria trazendo assados. Ela fica sem graça.

– Que isso, Bruno? Eu não pedi nada disso!

– Eu sei, mas achei que fosse gostar.

Ela pega um pão de queijo.

– Claro que eu gostei, gostei até demais, mas eu não tenho como pagar isso!

Ele fica encantado com a humildade da menina.

– Não esquenta com isso, foi só uma surpresa.

E guarda as caixas de leite que comprou. Ela vai atrás.

– Me desculpe, mas eu não posso aceitar!

Nesse instante, Lucas que dormia, acorda e ao perceber o alimento, rouba da mão da irmã.

– Comida!

Ela se irrita.

– Lucas!

Precipita para impedi-lo de comer, porém, Bruno a impede.

– Deixe o garoto, ele está com fome!

Ela tenta entender a situação.

– Olha Paçoca! Foi genial o que fez pela gente nos permitindo dormir aqui, mas não vamos abusar.

Ela arranca o pão de queijo das mãos do menino e devolve para o homem, esbaforida.

– Estava te esperando acordar para irmos para a rodoviária, agora que Paçoca nos disse o caminho.

Ele voltou-se para o traficante e percebeu que seu semblante estava triste.

– Posso ao menos me despedir dele?

Débora vendo que não tinha outra escolha.

– Está bem! Mas rápido!

Lucas o abraçou forte e sutilmente o jovem colocou o saco de assados dentro de seu casaco. O garoto o olhou e ele fez sinal de silêncio, devolveu-o um sorriso de gratidão.

– Lucas! Vamos!

Ele ouviu o chamado da irmã e foi junto, despontado.

Carla a olhou tentando manter-se firme e despojada.

– Foi isso mesmo que você ouviu! É isso ou jamais te deixarei me tocar!

Valentina se descontrolou e a enquadrou na parede.

– Que papo é esse agora? Se eu quiser te pegar, eu irei!

Carla a empurrou.

– Para que todo o nervosismo? Até parece que quer me provar alguma coisa!

Valentina sentiu-se contrariada. Carla continuou.

– Escute aqui querida, se você se acha a espertalhona daqui, saiba que está com seu território ameaçado.

A detenta a apertou.

– Você sabe com está falando, sua biscate?

Carla gargalhou. Surpreendera com sua própria atuação.

– Estou lidando com Valentina Bravo, a chefona daqui antes da minha chegada. Você não chega aos meus pés no requinte de crueldade. Posso ser muito pior do que pareço. Agora saia de cima de mim, se não quiser amanhecer com a boca cheia de formigas.

A mulher a soltou e uma policial invadiu o local.

– Está tudo bem aqui? O que as duas estão fazendo sozinhas?

Valentina amarelou. Não queria ganhar uma surra.

– Ora, o que poderíamos estar fazendo? Estávamos usando o banheiro!

Carla arrumou sua franja.

– Eu já estava de saída, policial. E quanto a você, pensa com carinho. (disse dirigindo a Valentina)

Quando passou pela porta acompanhada da segurança, soltou um suspiro de alívio. Tomara que seu plano desse certo.

Depois de muito caminharem sobre o sol quente, enfim chegaram à rodoviária. O local estava lotado, filhos agarravam na veste das mães assustados com o motor barulhento dos ônibus. As lojas de conveniência e lanchonetes bloqueavam a passagem pelo corredor estreito, até que avistaram do outro lado, afastado das plataformas, um grupo de idosos jogando xadrez, aproximou com o irmão, era a oportunidade de começarem a sair dali.

– Com licença!

Eles pararam. Uma idosa percebeu a intenção, fez uma careta quando enxergou as vestes sujas.

– Não temos esmola, sinto muito.

Lucas tentou ir embora, mas Débora o puxou.

– Na verdade não é bem esmola, nossa mãe foi presa e precisamos de dinheiro para voltar para a casa.

A mesma senhora soltou um comentário.

– Deus amado! Provavelmente por mexer com droga pesada e ter matado por aluguel. Você pode nos deixar em paz, garota, não vê que está atrapalhando nosso jogo?

A menina abaixou a cabeça, mas um homem se compadeceu.

– Que isso Filó, isso é a maneira de tratar as pessoas? Hey menina, de quanto precisa para ir embora?

Débora o olhou meio sem jeito.

– 354 reais!

A velhaca se espantou.

– Não dê Remo! É para comprar droga! Revender órgãos!

A adolescente interveio.

– Como você é hipócrita! Diz-se temente a Deus, veste essas roupas formais, mas para quê? Se não tem nada aí dentro! Como diria Nietzsche precisa de muletas para se aceitar, desconta nos outros os seus próprios problemas, por que tem medo de encarar as pessoas e enxergar um espelho com seu reflexo lá dentro, te olhando de volta. Vamos Lucas!

– Esperem! – Disse o homem.

Débora voltou.

– Eu não tenho essa quantia toda, mas já é um começo. Tome uma nota de cinqüenta.

Ela o agradeceu e observou a mulher pela última vez que começou a maldizê-la baixinho.

Já passara a hora do almoço quando a carcereira veio anunciar o banho: Era sua vez. Carla enrolou-se em uma toalha antiga que havia por lá e aguardou um dos chuveiros desocuparem. A segurança já havia se virado para folhear um jornal e não percebeu que deixara a janela ao fundo aberta. A matriarca terminava de se ensaboar quando entrou na água para lavar e foi pega de surpresa ao abrir os olhos e encontrar Valentina nua dentro da cabine. Ela tentou gritar, mas a fortona tapou-lhe a boca.

– Fica quietinha! Prometo que não vai doer nada!

A dona-de-casa mordeu-lhe os dedos, ela urrou.

– Por que você fez isso, sua puta?

Carla se irritou, balbuciando.

– Eu já disse que não admito que me trate dessa maneira! Eu não sou dessas garotinhas que você pega, assustadas, amedrontadas, loucas para sanar o fogo. Sou carne de primeira, colega! Propus-te um trato e não vamos ter nada até você conseguir alguma coisa.

Valentina tentou se explicar.

– Mas isso que está pedindo é uma loucura, gata! Nunca fiz nada parecido! Tudo bem que conseguimos traficar celular para aqui dentro, até droga em alguns casos, mas uma fuga é praticamente impossível! O sistema de segurança daqui é muito…

Carla não a deixou terminar e jogou-a contra a parede, beijando-a, a mulher ficou nas alturas, fazia tempo que não era dominada.

– Que beijo é esse, princesa?

– Eu não disse que era diferente? Isso foi só uma prévia para te provar que não brinco em serviço, agora cai fora daqui, vai! Nos encontramos na janta!

A mulher pegou suas roupas e saiu toda iludida, enquanto Carla cuspia de nojo, lavando a boca com sabão pelo o que acabara de fazer.

Débora e o irmão pararam para lanchar em um dos camelódromos e Filomena os observava de longe ao celular.

– Isso mesmo que você ouviu, filha! Tem duas crianças abandonadas aqui na rodoviária, pedindo esmolas!

Com a chegada de uma nova detenta, transferiram Fabiana para outra cela cuja ocupação continha Carla. A matriarca observava o pátio central, saudosista. Como estariam seus filhos? Matilde teria os mandado para um orfanato? Hoje, depois que souberam de tudo, achavam-na uma estranha. Tinha certeza! Se pudesse voltaria ao passado e nunca teria entregado George! Nunca teria matado Talita! E Juliano, pobre homem! Perdera o grande homem de sua vida! Deveria ter pedido ajuda quanto ao vício, às vezes a possuía tão forte que era incapaz de reagir! Deu-se conta de que Fabiana a observava.

– Ai que susto, mulher!

A expressão séria a deixou mais contrariada.

– Que foi Fabiana? Por que está me secando desse jeito?

A mulher a agarrou pelos braços.

– Pelo seu próprio bem, se afasta de Valentina! Ela é muito perigosa, não ache que vai conseguir dobrá-la!

Carla riu.

– Que nada! É só uma mosquinha teimosa com medo de ser morta!

A detenta pressionou.

– Carla, por favor. Não queira bancar a corajosa daqui, muitas tentaram fazer isso e acabaram mortas por ela.

A matriarca se preocupou.

– Que história é essa?

– Havia uma prostituta presa por não pagar a pensão do filho aqui, no ano passado, tentou bancar a engraçadinha para cima de Valentina e foi encontrada enforcada no teto da cozinha do refeitório. Por favor, Carla, pare com essa história enquanto é tempo.

A dona-de-casa cambaleou, uma vertigem de medo a usurpou. Nesse instante, uma carcereira apareceu, chamando-a para a sala de visitas.

Ao chegar ao local, estranhou quem a estava esperando, ela simplesmente não o conhecia.

– O senhor, quem é?

Ele foi direto.

– Estive com seus filhos ontem de tarde, sou Zeca, pai da proprietária que a despejou.

Closet no rosto álgido da protagonista.

Débora pediu dinheiro a mais uma viajante que passava e o que conseguiu foi uma nota de cinco reais. Sentou-se cansada na guia e acariciou os cabelos do irmão.

– Fique assim, não, maninho! Nós vamos conseguir sair daqui!

Lucas protestou.

– Como Debby? Não arrecademos nem cem reais hoje! Onde vamos dormir? E se a polícia nos pegar e levarmos de volta para aquele orfanato? Estou com medo, muito medo.

Ela o abraçou.

– Nada vai nos acontecer! Eu juro!

Um carro estacionou em suas frentes e o vidro negro abaixou, revelando ser Matilde.

– São eles! São eles mesmo! Depressa!

As crianças se desesperam, desataram a correr pela rodoviária, mas os seguranças do orfanato foram atrás. Eles acabaram tropeçando numa pilha de caixas encostadas a um canto, sendo capturados e levados de volta a babá.

– Por que está fazendo isso com a gente, Matilde?

Ela sorriu com aquela voz infernal e aveludada de sempre.

– Não sejam ingratos, meus amores! Quero dar uma vida confortável a vocês.

Débora a contradisse.

– Nos entregando a um orfanato neofacista?

A mulher olhou pelo sobrolho.

– Ah não! De novo com esse papinho furado! Tá vendo como precisam de uma reformulação urgente na cabecinha de vocês? Só falam asneiras! Precisam de uma educação rígida e potente, transformar esses valores petistas, algo que os prepare para o mercado de trabalho que irão enfrentar, mais realista, patrocinado pelo nosso querido Pedro Taques!

Débora gritou de desespero.

– Não!

Lucas tentou impedir.

– Você não vai fazer uma lavagem cerebral na gente, sua bruxa! Eu não vou deixar!

Matilde aprumou seu lenço.

– Uma escola boa, meu rapaz! É uma escola sem partido, livre de qualquer ideologia. Agora, podem os levar!

Nesse instante, no meio da multidão, surgiu uma gangue de meninos mascarados.

– Parado aí, tia! Larga as crianças! – Disse um dos rapazes.

Matilde os notou com desdém.

– O que está acontecendo aqui? Que ultraje é esse de falar comigo? Seus borra-botas! Ponham-nos para dentro.

O menino explodiu.

– Eu mandei você soltá-los! – E deu um tiro na cara da mulher que caiu urrando de dor, apavorada ao ver seu rosto encharcando-se de sangue. Débora e Lucas foram puxados por dois rapazes encapuzados e uma troca de tiros começou. Uma bala de raspão pegou as costas do mandante que mesmo perdido, subiu em uma das motos zarpando-se dali. Matilde não parava de chorar pelo nariz destruído.

Já fazia alguns minutos que estavam fugindo quando os irmãos descobriram o destino. O mandante agradeceu os comparsas quando se voltou para casa e retirou a máscara. Era ninguém menos que Bruno Paçoca. Débora se irritou.

– Por que você fez isso?

Ele riu.

– Já está marrenta de novo?

A menina não achou graça.

– Agora eles vão te perseguir e te prenderem por assassinato!

Ele pegou um álcool e gazes guardados ao fundo de uma caixa.

– Se refere à coroa? Ela vai ficar bem. O tiro não foi suficiente para matá-la, disparei no centro da face. Mas não sei por que se preocupa tanto! Pelo que eu vi, ela iria jogá-los naquele camburão e levar para ser escrava no orfanato, por que é isso que eles fazem com as crianças de lá.  Isso quando não violentam sexualmente.

Débora se revoltou.

– É claro que não estou preocupada com ela, aquela vadia merecia coisa muito pior! Ao invés de estar cuidando do meu primo, está torrando a herança da minha tia com essa escolta Wolfsschanze!

Paçoca estranhou.

– Wolfnhonquê?

Ela explicou.

– Wolfsschanze! Mais conhecida por Toca do Lobo! Era um dos quartéis generais de Hitler.

Ele cerrou os lábios num tom de seriedade, mostrando falsamente impressionado.

– Mas vem cá! Se não estava preocupado com ela, estava preocupado com quem? Sabia que eu estava abaixo daquela máscara?

Ela desviou o olhar. Ele riu.

– Sabia, sim! Que foi? Ficou preocupada comigo?

– Você é um tolo, sabia? Um babaca machista! Não sabia nada! Tinha como saber?

Ele urrou de dor ao tocar na ferida e sentou-se. Ela se compadeceu.

– Pode deixar, eu faço isso para você!

Lucas já estava dormindo quando Débora aproximou-se de Paçoca que tomava uma cerveja num ar de preocupação, sentado na beira da plataforma.

– Que foi? Por que não está dormindo?

Ele a olhou.

– E por que a senhorita não está?

Ela respondeu.

– Perdi o sono, acho que por causa da emoção que passei!

Ele sorriu e bebeu mais um gole, ela o observava.

– Eu não disse nada desde quando chegamos… Mas Obrigada, Paçoca, obrigada por ter salvado nossa vida!

Ele sorriu grato e observou a ponte vazia, já fazia alguns minutos que nenhum veículo passava por ali. Percebendo que ele a estava ignorando, levantou-se tênue, mas ele a chamou.

– Débora!

Ela retornou.

– O que foi?

– Queria te dizer uma coisa!

– Claro! O que é? – Abaixou-se de volta.

– Isso! – E pegando-a pelos braços, roubou-lhe um beijo, ela entregou-se ao ato, estava gostando dele, não podia mais evitar.

– Mas o que está acontecendo aqui?

Eles pararam afoitos. Da sombra de um caminhão surgiu uma mulher acompanhada de Zeca. Era Carla.

– Mãe? – Escapou dos lábios da menina.

Closet no rosto austero da dona-de-casa. Como ela havia sido libertada? Pensou sua filha.

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.