Eterno canto: Capítulo 1 – A Reviravolta

Eterno canto: Capítulo 1 – A Reviravolta

 

 

“Se hoje luto é em memória de meu pai que teve seu sangue derramado pelos mais oprimidos”

A chuva era o fósforo para o clamor daquela multidão cada vez mais sedenta por igualdade. Estudantes, professores, intelectuais, artistas, vizinhos, amigos de infância, familiares; finalmente o grande povo parecia ter se despertado para a ameaça letal que estava no poder não só no país, mas no mundo, um poder que usava a fachada política, mas no fundo seu êxtase dava-se na economia, algo invisível, descaradamente pueril, especulado, financeiro. Deixado há muito tempo de ser concreto, uma espécie de sistema maldito, totalmente desterritorializado, manipulador das massas, de tentáculos consumistas, trajado com gel barato no cabelo, terno abatido com talco, um verdadeiro culto ao falo, conservador nos valores, aberto nos fluxos de mercado. Eis aí o tal do Neoliberalismo.

Logicamente a classe plutocrata com ajudinha de telejornais populistas de aspirações neonazistas denunciava escândalos de corrupções de uma fraca esquerda com pretexto de promover a desordem nos anseios políticos dos proletários, revivendo alguns lendários apelidos tidos como sujo: Seu petista! Comunista selvagem!  Nossa bandeira jamais será vermelha! Mas não adiantava, as bibliotecas haviam sido invadidas há meses, muitos tiveram acesso a trajetória de Marx, acesso a verdade escondida pelos nossos falsos irmãos há séculos: NUNCA EXISTIRA DEMOCRACIA !

Um pouco distante da praça central, um professor escutava os gritos das manifestações que pretendiam invadir o palácio do planalto, a nova bastilha seria tomada, mas ele precisava terminar de arquivar aqueles papéis digitados às pressas na máquina de datilografia com algumas instruções para os novos possantes do poder, um verdadeiro curso de sociologia, diga-se de passagem. Ainda nas salas dos professores naquela antiga universidade pública, George contava os minutos para a guerra terminar, queria ver os olhos daqueles mendigos no leito da morte pela inanição brilharem quando recebessem dinheiro para sustento de suas famílias. E seus filhos? Será que Carla já os pusera para dormir? Não era hora deles estarem fora da cama, ainda era muito novos para saberem da realidade !

Foi então que ouviu um bater de porta. Aquela hora? Virou-se para o corredor escuro:

– Quem está aí?

O máximo que ouvira fora seu eco. Olhou para a escuridão e ela o encarou de volta. Ousou ir até a porta para ligar o disjuntor, mas nada aconteceu. Alguém havia desligado! Mas quem faria uma coisa dessas? Queriam-lhe pregar peças? Correu para sua mesa e envelopou seus papeis, guardou-os na mochila. Aproveitou e ascendeu à lanterna iluminando o estreito, uma brisa gélida tocou-lhe a face. Escutou o ressoar de pingos de gotas que caiam sobre certa poça, lentamente e… Brutais! Provavelmente fora uma goteira derivada do temporal. Adentrou no corredor, firmando a luz nas mãos, os pingos pareciam tornarem cada vez mais acelerados. Ao fundo, o caminho para a esquerda refletia uma réstia de luz advinda da rua. Era do lavabo dos faxineiros. Avançou e sentiu um molhar nas bainhas da calça, percebeu a inundação corrente que transbordava do cômodo em questão e precipitou-se apressado, as pias pareciam sangrar de tanta lama que as entupia, as torneiras abertas ao máximo pareciam rir daquela situação. Impressionado, não deu tempo de parar e perceber que a pessoa mascarada o aguardava com um machado nas mãos atrás da porta. Esquartejou-o.

***

Acordou de repente. Sua irmã que dormira no quarto ao lado abriu a porta preocupada.

– O que aconteceu? Você estava gritando!

Ele a olhou transtornado:

– Papai…. Morto.

Débora sentou e puxou uma toalha da gaveta, secou seu suor.

– Calma maninho, já vai passar. Foi só um pesadelo.

Carla chegou ao aposento, possuía um terço nas mãos.

– O que está acontecendo? Ouvi sua voz lá do meu quarto, Lucas.

O menino abaixou a cabeça, envergonhado e fugiu procurando os óculos. De posse, colocou-os e disparou:

– Estou preocupado com o papai, mãe. Ele disse que voltava para o jantar, mas nada. Eu e Debby sabemos que ele está metido nas manifestações. Do jeito que a polícia entende os fatos, é capaz de ele correr perigo.

Carla se surpreendeu, tentou negar, não queria seus filhos envolvidos com aqueles burgueses bandidos:

– Foi a Débora que colocou essas caraminholas na sua cabeça, não foi? Eu já disse que isso não é assunto de criança! Seu pai só está terminando de corrigir as provas lá da faculdade.

Débora se levantou irritada, estava farta daquele teatro:

– Para de mentir, mãe! Eu ouvi uma conversa hoje, de manhã, lá na sala. Papai falava com alguém como se passasse instruções de como agir em caso de violência policial e de resistência dos deputados. Quer enganar quem? Eu tenho treze anos e Lucas fez dez. Já estamos mais que na hora de saber o que está se passando com nosso pai e com o país. Eu sei do ato heróico dele de querer salvar essas pessoas marginalizadas por essa ditadura invisível e parlamentar que estamos inseridos. Não vê que negar-nos informação é contribuir para o jogo de alienação deles?

Carla estacou diante do repertório da filha. Talvez estivesse subestimando-os, mas só queria protegê-los de uma possível ameaça promovida por essa gangue de empresários. Sentou-se ao pé da cama.

– Escutem. Eu nunca quis ignorar vocês. Só que essa gente é muito poderosa. Formaram uma classe muito unida e articulada, capaz de chacinar quantos bem entenderem. Eu não quero envolver vocês nisso, eu os amo demais. Não quero perder vocês!

Débora consentiu o recado e os três se abraçaram. Nesse instante, a campainha tocou.

A matriarca abriu a porta. Era Juliano, um delegado de polícia pró-marxista, muito amigo de George. Carla percebeu que seu semblante esboçava emoção, a qual ele tentava esconder.

– O senhor aqui essa hora? Aconteceu alguma coisa?

Ele pediu para seus homens esperarem lá fora e fez questão de fechar a porta. Carla o encarou assustada.

– Meus homens estavam fazendo ronda na Pereira Passos, a rua, onde seu marido… Trabalha. Receberam uma denuncia anônima que dizia ter ouvido uma discussão e troca de tiros no instituto em questão e veja bem… Eles foram até lá… O portão estava aberto. Encontraram seu marido, picado em pedaços. Morto. Eu sinto muito.

Ele começou a chorar e ela estava paralisada com aquela notícia. Débora gritara do alto da escada aos berros, implorando para que aquilo não fosse verdade, inconformada. Carla tentou correr atrás, mas não aguentou e tropeçando nos degraus, ficou ali, agachada em pranto de soluçar por tanta dor, enquanto os irmãos sofriam abraçados.

***

O enterro não demorou muito a ocorrer, contudo, poucos manifestantes puderam participar da cerimônia já que a tomada do poder fora um desastre e muitas pessoas morreram baleadas, vítimas da própria polícia, a qual tinha a função de protegê-las e garantir que a justiça fosse feita na luta contra os corruptos. Revelou-se no fim uma milícia antinacional, elitista com um falso discurso de integração. Como desculpa, a oligarquia descarada fora as emissoras parceiras fazendo um discurso moralizador, banalizando os manifestantes como vândalos e incrementando medidas de segurança nacional a fim de ter uma justificativa na redução de gastos com educação e saúde. Uma cachorrada sem tamanho! Diante do caixão, Lucas, ao contrário da irmã e da mãe não estava emocionado, já havia chorado demais, estava gélido, de face névoa para aquele acontecimento. Jogou sua rosa negra e abaixou para beijar o amadeirado, balbuciou:

– Esta história não termina aqui, pai. Eu vou fazer justiça. Nem que eu tenha que ir até o inferno, mas eu vou descobrir quem fez isso com você. Eu juro.

Uma marcha fúnebre começou a tocar e as outras pessoas se despediram como puderam. Na saída, Débora questionou a mãe:

– E agora, o que vamos fazer? Muitos tornaram órfãos hoje pelo o que aconteceu. Eu vou sentir muita falta do meu pai, do justiceiro vermelho, tentando convencer a todos da sua humildade, dos seus valores verdadeiramente cristãos e libertadores de todo esse sistema fajuto que estamos vivendo. Nunca vou esquecer aquele olhar meio torto, de acredite em mim, eu quero o seu bem. Siga-me. Por que as pessoas boas têm que morrem, mãe? Por quê?

Carla abraçou forte a filha, como ela a amava e não queria que estivesse passando por aquilo. Apertou-a num furor de empatia. Vai passar minha querida.

O instinto materno era tanto que a cegou. Não percebeu que Lucas já estava bem na frente totalmente perdido dando brechas para um atentado. Um carro invadiu a calçada a todo vapor, onde só foi possível ouvir o grito daquela mãe, petrificada com o corpo do filho estendido.

 

Charlotte Marx
Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.