Edgar Morim e os sete saberes necessários a educação do futuro

Edgar Morim e os sete saberes necessários a educação do futuro

 

Com o presente capítulo inicio uma série de seis dedicados a grandes educadores, psicopedagogos e sociólogos da educação. No verão de 2013, em “As Aulas no Cinema”, tiveram importante espaço, por próprios merecimentos, educadores destacados como Froebel, Steiner, Dewey, Claparède, Piaget, Wallon, Vygotsky, Freinet e os pedagogos brasileiros da Escola Nova. Reservei para o presente verão de 2014 capítulos da minha série para Edgar Morin, Howard Gardner, Tagore, J. B. de La Salle, B. F. Skinner e Carl Rogers, sobre os quais irei falando cada semana até o mês de setembro próximo.

O grande educador e pensador Edgar Morin, pseudónimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris a 8 de julho de 1921 e, felizmente, ainda vive. Destacou também como antropólogo, sociólogo e filósofo. É um judeu de origem sefardita. Foi pesquisador emérito do CNRS. Formado em Direito, História e Geografia, realizou assim mesmo estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. É autor de mais de trinta livros, entre os que destacam: O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro.

OS SABERES QUE CONDICIONAM O ENSINO DO FUTURO:

O número 7 teve sempre um senso redondo e de perfeição: os 7 dias de cada uma das fases luares, os 7 dias da semana, as 7 maravilhas do mundo, as 7 colinas de Roma, os 7 tonos da escala musical, o candelabro judeu das 7 lâmpadas, os 7 olhos de Javeh que dominam toda a terra, e até os 7 anõezinhos do famoso conto Branca de Neve. O pensador galo Edgar Morin escolheu também o número 7 para condensar o que ele acredita que hão ser os saberes importantes e necessários a ter em conta no ensino do futuro. A sua proposta é o resultado de uma sua investigação que lhe encarregou fazer no seu momento a Unesco. Sobre o tema de um futuro viável para a educação do mundo. O pensador galo opina acertadamente que não se pode desenvolver uma autêntica educação se está não se apoia na justiça, na democracia verdadeira, na igualdade e na harmonia com o entorno. Para levar um modelo assim à prática Morin pensa, e eu comparto plenamente seu pensamento, que sete hão ser os saberes necessários à educação do futuro, que já tinham que ser do presente, e que a seguir resenho:

 

 

Edgar Morin esquema 7 saberes01.-Um conhecimento capaz de criticar o próprio conhecimento: As cegueiras do conhecimento são o erro e a ilusão. Cada pessoa está condicionada pelo seu próprio mundo emotivo, pelas suas percepções da realidade, pelo seu mundo cultural e por influências sociológicas. As teorias científicas não estão para sempre imunizadas contra o erro. Resulta difícil entender que tenhamos uma educação que visa transmitir conhecimentos e seja cega quanto ao que é o próprio conhecimento humano. Sem aprofundar sobre os seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que “é conhecer”. Temos, por tanto, que introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

2.-Discernir as informações chave, tendo claros os princípios do conhecimento pertinente:Os estudantes têm que saber escolher os pontos clave dentro da abundância atual de informação. É preciso escolher o prioritário e analisar os contextos dos problemas e das informações. O que antigamente, utilizando uma bela metáfora, entendíamos como “saber tirar o grau da palha”. Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais ou locais. A supremacia do conhecimento, fragmentado de acordo com as disciplinas, impede frequentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade e seu conjunto. É necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo. O que pode fazer-se baseando-se sempre no método científico de pesquisa, nas relações causa-efeito e no uso nas aulas do método didático integral da globalização e interdisciplinar.

3.-Ensinar a condição humana: Reconhecer a nossa humanidade comum em que vivemos. E, ao mesmo tempo, a diversidade da nossa condição humana. A humanidade é uma e diversa. Compreender que o “humano” é sempre físico, biológico, psicológico, social e cultural, e essa unidade complexa da natureza humana é totalmente “desintegrada”, não entendida, porque foi artificialmente dividida ou desligada, na educação atual, pelas várias disciplinas. Tomando isto como base, devem levar-se os estudantes a compreender a unidade e a complexidade do ser humano. Utilizando a Didática interdisciplinar.

4.-Ensinar a identidade terrena: A revolução tecnológica permitiu voltar a unir o que antes sempre esteve disperso. A pátria comum é a Terra, por isso temos que lograr um sentimento de pertença à mesma, embora existam diferenças essenciais. É necessário ensinar aos jovens alunos a história da era planetária, iniciada com as navegações portuguesas, seguidas das castelhanas, francesas, inglesas e holandesas, que puseram em comunicação todos os continentes a partir do século XVI. Para o bem e para o mal, o mundo interligou-se. A problemática atual é planetária, porque todos os seres humanos têm problemas e um destino comum.

5.-Enfrentar as incertezas: O século XX derrubou a preditividade do futuro. Caíram impérios que pensavam perpetuar-se. A educação deve ir já unida à incerteza e às reações e ações impredizíveis. Temos que ensinar aos estudantes a estratégia que leve a pensar o imprevisto, pensar a incerteza, intervir no futuro através do presente, com as informações obtidas no tempo e a tempo. É preciso aprender a navegar um oceano de incertezas. O futuro é aberto e incerto, mas temos dados para, pelo menos, tentar minorar as dificuldades.

6.-Ensinar a compreensão: Devemos melhorar a nossa compreensão dos demais, o respeito pelas ideias dos outros e os seus modelos de vida, sempre e quando não atentem contra a dignidade humana. Há que entender os outros códigos éticos, os ritos e costumes. Não marcar ninguém com uma etiqueta. Evitar o egoísmo e o etnocentrismo. Caraterístico este das ditaduras, o nazismo, o estalinismo e o fascismo. Compreender que a compreensão é meio e fim da comunicação humana mas, infelizmente, a educação para a compreensão não se faz em quase que nenhum lugar. Precisamos de compreensão mútua. Precisamos de estudar a incompreensão, o racismo, a xenofobia, o dogmatismo. Para isso temos que desenvolver em todas as aulas e estabelecimentos de ensino de todos os níveis a “Educação para a Paz e a Não Violência”. Como faziam Tagore e Gandhi.

7.-A ética do género humano: Ensinar a verdadeira democracia é um dever ético. Mas também necessita diversidade e antagonismos: a democracia não consiste numa ditadura da maioria. À que soem tender os governos que conseguem nas eleições maiorias absolutas. Os nossos estudantes têm que compreender a natureza “trinitária” do ser humano: indivíduo-sociedade-espécie. A ética indivíduo-espécie consiste no controlo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, por meio de uma democracia autêntica. A ética indivíduo-espécie implica, no presente século, a construção e efetivação da cidadania terrestre ou planetária.

TEMAS PARA REFLETIR E ELABORAR:

Depois de olhar o documentário, organizar um debate-papo ou tertúlia, sobre os diferentes aspetos que sobre a figura de Edgar Morin aparecem no mesmo, assim como as opiniões que ele manifesta de viva voz. Refletir sobre o seu pensamento educativo e comentar, dando alternativas concretas, sobre como se poderia pôr em prática hoje nas nossas escolas uma didática prática para desenvolver entre os estudantes os 7 saberes necessários na sociedade e mundo atuais do século XXI.

Elaborar uma monografia, procurando informações em livros e na internet, sobre Edgar Morin e o seu pensamento educativo, incluindo na mesma as experiências práticas de escolas que hoje funcionam em diferentes países que desenvolvem modelos didáticos que, em grande parte, tratam de pôr em prática as propostas do pensador galo. Com fotos, textos, cartazes, retalhos de imprensa e materiais elaborados, poderia organizar-se nas escolas exposições sobre a sua figura e o seu pensamento pedagógico, incluindo as suas obras mais importantes.

Tomando como base o livro de Morin Os sete saberes para a educação do futuro,organizar um“Livro fórum” para comenta-lo e debater sobre as palavras, ideias educativas e propostas práticas que o pedagogo e pensador galo faz no mesmo.

Esboçar um projeto de atividades didáticas a desenvolver nas salas de aulas e estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis educativos, que tenha presente a proposta de Morin dos 7 saberes a conseguir nos nossos estudantes. Poderia tomar-se como base do mesmo o que Draper Kauffman entende pela importância de lograr entre os estudantes, durante a sua escolaridade obrigatória, habilidades e técnicas básicas como: habilidade para conseguir acesso à informação com as antigas e novas técnicas, habilidade para razoar com claridade, habilidade para comunicar com eficácia, habilidade para compreender o entorno, habilidade para compreender a sociedade e habilidade para conseguir o desenvolvimento pessoal.

 

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.