A Dama Negra – Nocturna XII – O começo do fim… 2ª. Parte

A Dama Negra – Nocturna XII – O começo do fim… 2ª. Parte

“Quando se é anunciado o fim é que reavemos o começo.

O começo de tudo desde o inicio do mundo, da nossa vida por aqui. Nascer, crescer, sentir…

Amor incondicional, irracional, desproporcional e sem fim.

Estradas percorridas, lutas vencidas, batalhas vividas,  ruínas sofridas, desgaste ruim. 

Seja qual for o intuito na vida a questão está resolvida. 

Tudo tem um inicio, um meio e indiscutivelmente um fim.”

-Ellen dos Santos-

Lya estava sentada na beira da cama, olhava seu quarto com os pensamentos perdidos enquanto aguardava o retorno de seus servos, sentia aquelas pontadas agudas na cabeça e na mente estava a imagem de Gianni. Ele estava em perigo, tinha certeza daquilo, no entanto não fazia ideia de onde ele estaria e como o encontraria.

Rodney e Michael chegaram à residência e conforme foram instruídos se dirigiram aos aposentos de Lya, ao baterem na porta receberam a permissão para entrar. Rodney se aproximou e cruzou os braços sobre o peito, postado de pé a frente dela. Estava aparentemente irritado.

Lya levantou e parou ao lado dele, estendeu a mão e tocou seu ombro, aparentemente compreendendo a sua irritação. Michael estendeu a ela o envelope pardo que havia pegado na sede da Sociedade de Caçadores. A puro o recebeu e olhou o envelope falando suavemente a ambos.

– Eu sei que nessas últimas semanas temos vividos situações arriscadas. Ainda não posso garantir que teremos dias mais tranquilos, coloquei ambos em perigo e devido a isso nesse exato momento estou revogando o laço que temos de servo e senhora. – Lya afastou de ambos e colocou sobre a mesa de centro o envelope.

Michael olhou-a sem acreditar naquelas palavras e começou a negar veemente com a cabeça e se curvou a ela.

– Não, eu não sairei de seu lado.

Rodney ainda mantinha-se de costas para ambos na mesma postura que tinha ao entrar naquele quarto, ao ouvir tais palavras rosnou baixo e fechou os olhos como quem desejasse conter sua ira.

– Mic, meu alado sevo e amigo, meus dias possivelmente serão piores que os últimos que passamos, os que me perseguem não desistirão de possuir meu coração, não quero que se arrisquem por mim já que foi eu que os obriguei a serem meus servos. – Tocou e afagou o rosto de Michael, preocupada. – Está livre…

– Lya, eu sei que nas circunstancias atuais temos riscos a correr, mas eu vejo o que vê e sinto o que sente, não quero deixá-la sozinha arriscando-se sem ao menos te ajudar. – Michael falava nervoso.

Lya sorriu a ele e acariciou o rosto novamente, afastou a mão e virou para pegar o envelope.

– E pensar que você era o mais arisco comigo, não quero que se machuque, Mic.

Rodney se virou e em passadas ligeiras parou perto dela bufando e rosnando.

– Não pode simplesmente agir assim como quer e depois nos descartar. – Ele falava entre as presas olhando a puro com olhos estreitos e vermelhos.

Lya não temia aquela fúria, sabia lidar com o grandalhão, ela fechou os olhos e inspirou profundamente até abri-los e olhá-lo com calma com certo brilho de compreensão nos mesmos.

– Não estou descartando-os, simplesmente quero que ambos fiquem seguros e longe de mim. – A voz da puro era suave, porém ao mesmo tempo havia um tom de comando. – Estão livres do enlace que os me fazem servir, quero que cuidem de suas vidas e não se preocupem comigo, ficarei bem.

Rodney sentiu o peso daquelas palavras, a puro havia lhe dado uma ordem de comando a qual nem se fosse enlaçado por ela conseguiria evitar. O grande vampiro afastou dois passos e ajoelhou em uma só perna curvando a cabeça.

Michael fez o mesmo, havia sido ordenado aquele afastamento, detestava ter que fazer aquilo sob a voz de comando da puro, resmungou baixo e mesmo curvado queria gritar com ela que não sairia de seu lado.

– Não sintam raiva de mim por isso, apenas quero que fiquem seguros, darei um jeito em tudo e quem sabe um dia possamos nos ver novamente. – Ela caminhou até a porta e abriu. – Rodney e Michael, sou imensamente grata pela ajuda nesses anos todos que convivemos, adeus!

Rodney levantou e olhou-a ainda com a expressão fechada e olhos estreitos, saiu rapidamente sem esperar por Michael. O outro vampiro andou até ela e parou diante da porta aberta, suspirou baixo e voltou a olhar a puro com olhos desesperados, implorando para não sair de perto dela.

– Obrigado por tudo… – Ela tocou novamente o rosto dele. – Cuide-se! – Afastou a mão e esperou ele sair.

Logo ambos os vampiros estavam fora da residência de Lya e possivelmente voltando às suas vidas, ela havia lhes deixado bem financeiramente e isso já os daria um novo rumo a qual ao lado da vampira não havia garantias de sobrevivência.

Lya caminhou pelo quarto e pegou o envelope, abrindo-o e olhando os papéis nele contido. Um relatório feito sobre um vampiro antigo, a puro estava certa que os seus perseguidores vinham a mando de Magnus. Conhecia bem a crueldade daquele monstro e depois de ter certeza precisava manter longe todos que poderiam ser feridos ou mortos por ele.

O telefone tocou e despertou Lya daquela leitura, ao atender ouviu a voz familiar de Vincenzo, o tom calmo e alegre dele lhe fez suspirar de alívio.

– Olá, “papa”, como anda tudo? – Perguntou sem demonstrar abalo na voz.

– Olá, minha bela, está tudo bem na medida do possível. – Ele deu um leve sorriso que ecoou em seu tom de voz, mesmo sem ser visto pelo telefone. – O motivo de minha ligação, além claro de saber como está, é te contar o que andei descobrindo sobre seus perseguidores.

Lya sorriu junto com ele, porém sua expressão mudou quando ouviu aquela informação, apertou o telefone apreensiva e falou sem mudar o tom de voz ao “pai”.

– O que descobriu, Vincenzo?

– Adolph Magnus, esse nome já lhe diz tudo, certo? – Ele mudou o tom da voz ficando mais sério. – Acreditava que ele havia lhe esquecido, porém ao que parece não desistiu de chegar a ti. – Fez uma breve pausa. – O tiro na estação das balsas que acertou o padre caçador fora encomendado por ele, aquela bala tinha magia de matar vampiros, fere humanos do mesmo jeito. – fez outra pausa e Lya pode ouvir a respiração apreensiva dele pelo fone. – Ele nunca irá desistir. Afinal, o que ele deseja?

Lya ouvia as palavras dele e inspirava lentamente tentando disfarçar a irritação sobre as descobertas de Vincenzo. Todavia, ficou ainda mais apreensiva pelo fato de Vincenzo estar investigando tudo, aquelas investigações poderiam chamar atenção para ele e Lya tinha certeza que logo Magnus descobriria algo para atacar o “pai”.

– Vincenzo, tenho um pedido a fazer, aliás, um pedido não, uma ordem. – A voz dela se tornou séria.

– Ordem?! – Ele ficou mudo e depois falou chateado. – Lya, não. – Ele se irritou. – Irei desligar, não vou ouvir sua voz de comando. – Ele encerrou a chamada, chateado com ela.

– Vincenzo, espere…

Tu, tu, tu

A puro bateu o fone no gancho e balbuciou em siciliano algumas palavras irritada.

– Droga, Vincenzo, arriscando-se assim. – Ela pegou o celular e discou para ele, fez várias tentativas e não foi atendida.

Andou pelo quarto de um lado para o outro irritada por estar preocupada com o humano, ele estava se arriscando e Magnus acabaria por usar aquilo, usar o pai contra ela. A situação somente se agravava, além de Gianni agora havia o pai em risco. Parou diante da janela e os primeiros raios de sol brotavam sonolentos no horizonte. Estava frio, era inverno e aquela pouca luz de sol lutava entre as nuvens negras pesadas de chuva, para surgir.

No final da noite, a voz de Thor ecoava pela sala de estar de sua residência. Sua filha não estava, Sophia aparentemente havia saído e todos os empregados não sabiam informar onde havia ido. Ele balbuciava furioso e preocupado com a garota, ela deveria tê-lo esperado na estação de trem conforme o combinado.

Chamou os seguranças e lhe deu ordens de vasculharem a cidade nos lugares que a garota gostava de frequentar para descobrir onde estava, feito aquilo voltou a fazer chamadas no celular da menina, que eram sempre direcionadas para caixa postal. Encaminhou diversos sms para ter algum retorno, o que não ocorreu.

Já irritado, ele foi ao quarto e iria trocar a roupa para sair em busca da garota quando recebeu uma mensagem. Aflito, assim que abriu o flip do celular se deparou com a mensagem de Sophia. Não entendeu a mensagem e estranhou decidiu, fazer a chamada a ela.

– Sophia! – Foi falando assim que ouviu a voz da governanta. – Sophia, onde está? Nicolly não retornou, fui encontrá-la na estação de trem e nos desencontramos.

– Eu vim visitar uma amiga, mas que estranho, ela me ligou dizendo que havia chegado cedo e como não apareceu ia pegar um táxi para casa e te esperar. – A voz da governanta estava alarmada, o que deixou Thor mais apreensivo.

– Não está aqui, algo aconteceu, venha logo para casa vou sair com o pessoal para procurá-la. – Thor desligou a chamada sem esperar a resposta dela, foi direto para o banheiro para trocar a roupa e sair em busca de Nicolly.

No carro com Lucian, Sophia desligou o celular muito nervosa, olhava o irmão de seu patrão com medo, ela tinha ciência que tudo poderia piorar e falou trêmula a ele:

– Thor está irritado e pelo tom de voz desesperado para achar a Nicolly seria melhor mudarmos o plano, e-eu… Não sei se dará certo, Lucian.

Lucian olhou-a irritado com olhos amarelos.

– Não temos como voltar atrás, Sophia, agora já é tarde. – Ele falava entre os dentes para ela enquanto dirigia pela rua perto do Central park.

– Podemos fugir da cidade, a garota…

– NINGUÉM IRÁ FUGIR! – Gritou freando bruscamente.

– Calma… Tudo bem, fique calmo… Está certo… – Ela encolheu-se no banco gaguejando apavorada.

– Escuta, mulher, sei que quer dar para trás, mas agora não tem mais volta e você vai até o fim com o plano, vamos nos livrar de todos e eu serei o novo alfa da “Tribus”. – Acelerou com o carro e seguiu para o portão da entrada norte do parque.

Sophia estremeceu e baixou a cabeça concordando e calou-se esperando chegarem ao destino. A próxima noite seria a decisiva e se Lucian conseguisse realizar o seu plano, seria ele o novo líder da Tribus. Ela inspirou para controlar o medo que sentia, imaginando que possivelmente ela também seria alvo do lobisomem ao seu lado.

– Thor vai rodar a cidade toda e não encontrará a filha, isso o deixará ainda mais furioso, no ponto certo para provocar uma batalha. Quando ele encontrar a cria ferida pelo vampiro começará uma disputa. – Ele falava enquanto desligava o carro parando de frente ao portão do parque. – Agora, vamos mandar uma mensagem anônima ao Regente dos vampiros, a primeira alertou-o que poderia haver brigas na cidade e agora a segunda irá informar que um vampiro está atacando um lobisomem ferido.

Sophia olhava-o pelo canto dos olhos, ainda estava apavorada com ele e não ousou responder, somente imaginava uma forma de falar com Thor e alertá-lo daquele jogo sujo que o irmão caçula estava lhe fazendo.

Ambos saltaram do carro e caminharam para dentro do parque, tomando o rumo do lago que estava congelado naquela época do ano devido ao inverno. Olharam os primeiros raios de sol tocarem algumas folhas congeladas das árvores, o sol lutava para brilhar em meio a nuvens pesadas de chuva.

Na noite seguinte, Benjamin fez uma chamada para Lya. Não foi atendido, enviou por fim uma mensagem para saber se estava bem. Pensativo sobre tudo que ocorrera, percebeu que Lya não era uma vampira comum, ela era mais e sua presença denunciou plenamente quem era na verdade. Uma sangue puro, isso de alguma forma o intrigou, por qual motivo ela não deixou que todos soubessem de sua real natureza? Precisava esclarecer o quanto antes, já que devido as circunstancias do caso dos lobisomens e o seu suposto irmão envolvido, teria que descobrir as suas reais intenções.

O “Pacificador” havia retornado e segundo as investigações havia descoberto qual fora o rumo que Gianni tomara, enviou dois emissários para localizar o paradeiro do vampiro e qual fora a estação que desembarcara. Retornou a sede conforme ordenado.

Naquele meio tempo Benjamin recebeu uma mensagem entregue pela sua assistente, que segundo a mesma fora deixada na portaria. O envelope com a mensagem continha imagens da delegacia com fotos da câmera de segurança de Gianni e do lobisomem que atacou o local, havia uma foto de uma garota.

– Sabe dizer quem deixou esse envelope? – Olho a assistente intrigado.

– Não, Sr Nortan, segundo foi relatado o mensageiro entregou diversos envelopes para os escritórios comerciais e esse estava direcionado para nosso andar.

Benjamin voltou a olhar as fotos e os papéis que tinham relatos de testemunhas, aquele dossiê era realmente intrigante, já que por ordem dele tudo fora apagado e destruído para encobrir os fatos, inclusive mentes foram apagadas para não relatar sobre o que viram naquela noite.

– Veja isso. – Estendeu uma foto ao Pacificador. – Se não me engano essa não é a princesa Lobo?

– Sim, ela mesma. – Entregou a foto.

– Segundo essa carta, a garota estava caçando os vampiros naquela delegacia, então possivelmente ainda esteja. – Benjamin ficou olhando um tempo em silêncio.

– O que pretende fazer?

Benjamin olhou a ambos e seus olhos estreitaram.

– Investiguem o Central Park, não quero que entrem, mas que observem toda movimentação do lugar quero ser informado de qualquer situação suspeita. – Encostou na cadeira e ficou observando os documentos e fotos na mesa.

– Enviarei um grupo para ficar de tocaia observando a movimentação do lugar. – O Pacificador curvou e se retirou da sala do Regente.

No momento seguinte o celular tocou um sinal, era um aviso de mensagem e, ansioso por achar que era Lya respondendo, abriu e leu o seu conteúdo. O mesmo relatava que havia uma movimentação dentro do Central Park, um vampiro estava em disputa com um lobisomem. Rapidamente o Regente levantou e foi atrás do Pacificador, conseguiu interceptá-lo perto do elevador e mostrou a mensagem.

– Descubra quem está por trás disso e traga o desgraçado para mim. – Ordenou. – Não vão fazer disputa dentro da minha cidade sem sofrerem as consequencias disso. – Voltou para seu gabinete e ordenou a assistente que fizesse algumas chamadas.

Logo o grupo foi reunido e todos seguiram o algoz do Regente para o local onde supostamente haveria uma disputa.

Thor não conseguiu encontrar a filha e na noite seguinte resolveu que a procuraria de outra forma, ou seja, como Lobisomem, já que seu olfato lhe diria a direção que poderia estar. Ele estava tão preocupado que não notara que sua governanta não retornara e após algumas horas recebeu uma mensagem dela pelo celular.

“Sr Armanzie, recebi uma mensagem da Nic e fui encontrar-me com ela, segundo a sua filha me relatou, está no central Park.”

Thor estranhou aquela mensagem, o que a filha faria no parque? Ele olhou a hora que a mensagem foi encaminhada e respondeu de imediato fazendo uma chamada para a governanta, porém não conseguiu ser atendido, o celular direcionava a chamada para caixa postal. Irritado, ligou para o chefe de seus seguranças e ordenou um grupo de buscas para ir com ele até o parque.

Pouco depois o grupo, já em frente aos carros, sob o comando de Thor entraram nos veículos e seguiram o carro do Líder tomando naquele inicio de noite rumo para o Central Park.

Lya passara um dia de sono turbulento e acordou exausta, parecia que não havia dormido. Esfregou os olhos para se acostumar à penumbra do quarto, acendeu por fim a luz do abajur e sentou na beira da cama. Ainda estava tensa e preocupada, pegou seu celular e viu que havia várias ligações perdidas e algumas mensagens na caixa de entrada do celular. Quando viu o remetente, resolveu deixar de lado, aquelas mensagens para saber se estava bem não lhe interessavam, queria saber se ele encontrara Gianni. Levantou e foi ao banho, depois de algum tempo voltou de roupão enxugando os cabelos, sentou novamente na beira da cama e pegou o aparelho para responder ao Regente e aproveitar para saber informações sobre o paradeiro de Gianni. Logo que enviou, recebeu a ligação de Benjamin de retorno.

– Minha bela, fico feliz que esteja bem. – Ele falou um tanto sério apesar de ser gentil nas palavras.

– Eu que agradeço vossa preocupação e ajuda, Sr Norton, tem boas notícias para mim? – Ela foi direto ao ponto, não estava disposta a jogos de manipulações.

– Bom, segundo investigações ele tomou o rumo para fora da cidade e embarcou no trem na noite passada. Ordenei que um grupo fosse até o local onde pode ter desembarcado. – Respondeu ainda com tom sério. – Logo encontraremos, fique despreocupada.

– Confio em suas palavras e aguardarei. – Ela fez menção em desligar, porém foi interrompida.

– Srta Merelyn, serei um tanto invasivo dessa vez, mas poderia me dizer por qual motivo esconde sua natureza de sangue puro? – Ele ficou em silêncio esperando ela falar.

Lya já esperava por aquilo, afinal na noite passada deixara-se transparecer devido a sua frágil situação de descontrole por sentir algo de errado com o amado ex-padre Gianni. Respirou fundo e falou suavemente sem se abalar pela forma que o Regente a questionora.

– Para evitar problemas, já que sabemos que um sangue puro na cidade é chamariz para os mesmos. – Ela ficou em silêncio um tempo, não queria explicar-se muito.

– Compreendo, afinal sua presença é muito forte e todos inevitavelmente se curvariam aos seus pés, como eu me curvei na balsa.

A puro sentiu a tensão na voz dele e inspirou profundamente antes de responder.

– Eu não tenho intenções de ser superior ao Regente, aprecio a sua forma de governar a cidade e prefiro manter meu anonimato quanto a minha natureza de puro.

– Aprecia? – Ele fez uma pequena pausa. – Fico contente em saber que gosta do que faço pela cidade. – Benjamin ofegou baixo ainda sobre o efeito da voz dela de puro tentou manter o foco da conversa. – Quero conversar pessoalmente com vós, posso passar em sua residência mais tarde?

Lya fechou os olhos e se irritou, porém não pretendia afrontar Benjamin.

– Sim, estarei lhe aguardando.

– Ótimo, assim que resolver algumas pendências irei lhe encontrar, boa noite. – Despediu-se encerrando a chamada.

Lya não tinha outra opção e aceitou aquela visita a contragosto, levantou da cama e trocou de roupa saindo do quarto para informar a empregada da visita de logo mais.

Gianni estava agitado, ainda desacordado mexia-se na jaula e gemeu um pouco ao abrir os olhos, piscou diversas vezes para focar a visão e identificar onde estava. Estava muito escuro e ele conseguiu sentar devagar e se encostar nas grade da jaula, foi quando notou que estava preso.

Rapidamente se recordou de que fora capturado pelos lobisomens na estação e que usaram uma adaga, que certamente fora de algum caçador preparada para ferir vampiros. Tocou o local onde fora atingido e sentiu o ferimento, uma dor aguda o fez se contorcer caindo de lado no chão. Respirou rápido para aguentar aquela dor, a adaga não estava mais ali, porém o ferimento era profundo e não havia cicatrizado. Logo que se acalmou, voltou a olhar em volta e notou um vulto negro do outro lado das grades, estava encolhido em um canto e murmurava baixo.

Dio mio… Aonde estou?” suspirou chateado e se sentou novamente.

Forçou a visão para tentar identificar quem estava na outra jaula.

– Ei?… Você está bem? – Arriscou falar com o outro, afinal, se estava preso na certa deveria ser tão ferrado quanto ele. – Sabe quem são os homens que me trouxeram para essa jaula?

Um silêncio se instalou entre ambos e ele não foi respondido. Gianni levantou com a mão no ferimento apoiando-se na grade e caminhou devagar até o outro extremo para ver de perto quem estava ali no outro lado no canto escuro daquelas grades.

– Ei, você está me ouvindo? – Ele segurou na grade e voltou a chamar. – Escute, se entende o que falo dê algum sinal para que… – Mal terminou de falar e um par de olhos amarelados surgiu das sombras e avançou para atacá-lo.

O susto fora tão grande que o ex-humano se jogou para trás afastando-se das grades, arrastando o corpo enquanto um braço peludo e com enormes garras tentava segurá-lo passando pelas grades enquanto rosnava alto e feroz.

Apavorado, encolheu-se no outro canto e olhou para fora tentando enxergar se havia alguém ou outro lobisomem. Engoliu seco quando os olhos se cruzaram com a criatura que urrava e babava perto das grades e suas garras arranhavam o assoalho.

– P-por favor, eu não quero confusão, se é por causa da garota, eu falei para ela voltar para casa. – Ele falava como que a criatura esperando que o entendesse. – Escuta, ela deve estar com o pai e bem, então não há necessidade de que eu fique aqui.

Gianni ainda estava muito assustado preso no olhar da fera, a criatura de pelugem negra era grande, porém demonstrava cansaço, pois logo e aos poucos parou de tentar atacá-lo. O vampiro foi aos poucos se acalmando, apesar de estar com muito medo ficou em silêncio um tempo, a criatura havia parado de rosnar e estava deitada com o braço esticado que passou pelas grades dentro de sua parte da jaula. Ficou ali algo mais que uma hora, até que ambos estavam em total silêncio, apenas vez ou outra trocando olhares.

Gianni estava tenso e voltou a olhar em volta, a criatura estava presa assim como ele, então do que adiantava falar da menina ou pedi desculpas? Entendera que possivelmente os lobisomens deveriam usar aquele lugar para prender os que eles capturavam. Voltou a olhar a criatura e reparou nos detalhes, notou a pelugem negra e os olhos amarelos, foi quando deu um estalo em sua mente e se lembrou de que era o mesmo lobisomem da delegacia que atirara, ou seja, era a Nicolly. Alarmado, passou a mão na cabeça e voltou a se aproximar cauteloso, notando que ela seguia-o com os olhos cansados.

– Nicolly? – Chegou mais perto. – Garota, é você mesmo? Sou eu, Gianni. – Parou perto dela, porém ainda numa distância segura. – O que te fizeram?

A criatura levantou o rosto e farejou o alto, sua expressão feroz mudou para uma mais branda e aparentemente reconhecera o vampiro, grunhiu baixo e virou a pata para cima, estendendo para ele.

– Eu acredito pela sua reação que me reconheceu. – Aproximou mais e ainda cauteloso esticou a mão e tocou a pata dela. – Você está bem?

Ela grunhiu e negou com a cabeça virando o focinho para altura da barriga, Gianni pode sentir pelo cheiro de sangue que ela estava ferida assim como ele, possivelmente por culpa dos mesmos lobisomens que o trouxeram até ali.

– Isso é ruim, se a prenderam aqui quer dizer que não conseguiu encontrar com seu pai. Pegaram-na antes, mas por que? – Ele não entendia o motivo. – Consegue voltar ao “normal”? – Perguntou. Afinal naquela forma ela não conseguiria ser compreendida por ele.

A criatura fechou os olhos e, como quem se concentrasse, foi aos poucos voltando a sua forma original e ele se encostou na grade amparando-a para que não batesse a cabeça ao inclinar para o lado. Nicolly estava seminua e encolhida ao lado da grade murmurando chorosa.

– Foi ele, me enganou, fez acreditar que estava ajudando… – balbuciava entre soluços de choro presos na garganta. – Ele me usou para pegar meu pai. – Falou chateada e temerosa.

– O que está dizendo? Quem a usou? – Afagou a cabeça dela.

– Meu tio, ele quer o lugar do meu pai como líder da Tribus, está fazendo isso tudo para conseguir o que quer. – Ela olhou Gianni. – E do jeito que estão as coisas, vai conseguir.

Gianni ficou alarmado com o que ela falara. Usar a garota? E por qual motivo ele estaria ali?

– Srta Nicolly, diga-me, por que estou aqui? O que querem comigo?

– Eu sinto muito por estar envolvido, mas ele quer usar você e culpá-lo por minha morte, assim quebrará o tratado entre os vampiros e os lycans, consequentemente tomará o lugar de líder do meu pai.

O vampiro ficou tenso e bufou ao ouvir aquilo, estava sendo usado em uma rixa daqueles maledetos, não iria aceitar tal coisa, tinha que haver uma forma de escapar.

– Vamos sair daqui, procurar seu pai e contar tudo. – Ele ergueu o corpo e olhou em volta, estava muito escuro e a pouca iluminação que conseguiu ver era bem longe no fundo daquele lugar. – Sabe me dizer em que lugar estamos?

– Em um galpão abandonado perto do Central Park, reconheci o lugar quando acordei aqui nessa jaula e ouvi o plano de meu tio junto com a Sophia. – Ela lembrou da governanta e rosnou baixo irritada. – Ela traiu o meu pai juntando-se ao maldito do meu tio, foi me buscar na estação de trem dizendo que meu pai havia pedido, na verdade me doparam e trouxeram para esse lugar.

– Você está cercada de gente boa, minha nossa! – Ele resmungou sarcástico, voltou para perto das grades e as tocou, sacudiu para ver a intensidade do metal. Não que fosse forçar a saída arrebentando-as, podia ser um vampiro com poderes, mas não era nenhum super-homem.

– Precisamos escapar, porém será difícil com essas grades.

– Poderia arrancá-las facilmente se estivesse bem, mas perdi muito sangue e não estou legal. Precisaria me recuperar, tomar sangue para poder voltar a ficar forte e aí conseguiria arrancar as grades. – Ela falou baixo e pausado devido ao cansaço e esforço.

– Pode fazer isso? – Olhou-a assustado, não acreditando que ela teria tanta força. – E se eu lhe der um pouco do meu sangue, pode fazer isso realmente?

Ela balançou a cabeça confirmando e, apesar de ainda não acreditar, Gianni se aproximou das grades ao lado dela e estendeu o braço. A menina teve um brilho intenso vermelho nos olhos e segurou o pulso dele, as presas brotaram e ela fincou na pele e começou a sugar do vampiro. Gianni sentiu o peso daquelas presas, apesar dos pequenos lábios da menina tocarem sua pele a mordida era forte, isso devia ser devido a sua parte lobisomem.

Lya estava aguardando o Regente sentada no sofá da sala de estar vendo algo na TV, quando a campainha tocou e a empregada abriu a porta, era Michael que praticamente entrou sem falar nada e foi direto a ela se curvando na sua frente.

– Lya, por favor, sei que me ordenou que partisse, mas eu não poderia ir sem lhe informar algo que descobri. – Ele falava rápido.

Rodney apareceu na porta irritado, observava o outro calado e sério, negou com a cabeça aquela postura do outro diante de Lya.

– Eu descobri por um vampiro rastreador onde encontra-se Gianni Salvatore. – Ele olhou para Rodney. – Ele foi pego pelos lobisomens, levaram-no para o Central Park.

Lya levantou alarmada com a notícia e olhou para Rodney que mesmo com a expressão irritada confirmou com a cabeça que Michael estava certo.

– Fomos conferir a informação e vimos um carro preto estacionar em um galpão perto do Central Park e retirarem o seu “padre” de dentro e levá-lo para dentro. – Rodney fitou o outro vampiro.

– E vocês não o ajudaram? – Ela andou pelo lugar já subindo as escadas. – Vou me trocar e levem-me até esse galpão, preciso tirar ele de lá. – Não esperou eles falarem.

– Lya, espere, são um grupo grande de lobisomens, ao todo contamos uns três que chegaram e uns outros dois que já estavam lá dentro, ao todo cinco, quatro machos e uma fêmea. – Rodney se aproximou da escada. – Não há como enfrentar tantos ao mesmo tempo.

– Não vou deixá-lo lá para morrer nas mãos daquelas criaturas, o tirarei de lá de uma forma ou de outra. – Subiu as escadas os deixando esperando.

Pouco depois voltou já vestida de tênis, casaco pesado e calça escura.

– Não precisam ir comigo, esse assunto só diz respeito a mim, então fico grata pela informação, estão livres para irem. – Tomou o rumo da porta quando Michael parou e segurou-a antes que a vampira abrisse.

– Eu irei com você, não vou deixar que se arrisque assim. – Ele falava sério.

– Mic, por favor… – Ela olhou-o implorando para não ir com ela.

– Você disse que sou livre e que posso ir aonde desejar, então meu desejo é ir com você e lhe ajudar. – Ainda segurava a porta, decidido a ir junto. – Posso ser seus olhos à noite pelo ar e ver uma forma de tirar ele de lá examinando todo o galpão. Vamos, minha senhora, sabe que precisa de ajuda, não tem como enfrentá-lo sozinha.

Lya engoliu seco e suspirou baixo, olhou para ele e depois para Rodney, então concordou com a ajuda de Michael. Não podia pedir a Rodney, sabia que ele sempre fora contra a tudo aquilo desde o começo, então ao ver que Michael deu-lhe passagem saiu da residência sendo seguida por eles.

Michael foi direto assumir o volante e ela já iria sentar ao seu lado no banco do carona quando o enorme vampiro negro abriu a porta de trás do carro para ela e esperou a vampira entrar.

Lya olhou-o espantada, porém não demorou muito para entender que ele decidiu ajudar e entrou sentando como sempre no banco de trás do carro. Rodney fechou a porta e rapidamente deu a volta atrás do carro, abrindo a porta e assumindo como sempre o assento do carona e sua postura de segurança da sangue puro.

O carro partiu para a central das balsas que rumavam para a cidade de Nova Iorque, pouco tempo depois já estavam atravessando as ruas da cidade em direção ao galpão que havia sido relatado a sangue puro.

Thor estava apreensivo ao chegar com seu comboio no portão leste de entrada do Central Park, pelo tardar da hora o local já estava fechado a visitantes, assim entraram todos e estacionaram perto da saída. Saltaram e o líder dos lycans assumiu a dianteira, olhou todo lugar e voltou a olhar para os seus seguranças.

Confirmou com a cabeça e começou a se transformar, a noite escura e fria escondia a face dos lobos que transformados correram pelo local em busca de Nicolly.

– Encontrem-na e quem tiver com ela destruam. – ordenou correndo pelo parque e farejdo o lugar para localiza-la.

Alguns vampiros que estavam nas redondezas perceberam a movimentação e aproximaram dos portões e nas penumbras notaram o agito dos lobisomens. Afastaram rapidamente e comunicaram com o Pacificador, informando que os lobos estavam agitados no parque. Receberam a resposta que deveriam ficar de prontidão e aguardar a chegada dele que se direcionava para o lugar.

Gianni estava muito fraco, depois de perder sangue com o ferimento e de doar parte do mesmo à garota, caiu no canto da cela e ofegava com a garganta seca e a sede que apertava ainda mais. Estava tonto e sua visão ficava turva, notou que a garota assumira a forma de lobisomem, arrancara a porta da cela com as garras e logo em seguida fez o mesmo com a cela de Gianni, entrou e parou de pé a sua frente, rosnando com as presas a mostra.

O vampiro estremeceu e ergueu os braços.

– Srta Nicolly, não esqueça quem sou e não me ataque…- falou e tonto tentou se levantar.

A criatura o segurou pelo braço e o fez se segurar nela, grunhiu algo a ele e firmou a mão dele em seu ombro peludo, sugerindo que segurasse firme. Vendo que entendera o que ela fez, correu para fora do local e consequentemente para fora do galpão atravessando as ruas e indo para o beco mais próximo.

Ela sabia que andar pelas ruas com ele na sua forma de lobisomem chamaria atenção mesmo naquela hora, ainda havia alguns humanos andando pelo lugar, tomou então o rumo do Central Park e de lá iria ligar para seu pai.

Pouco depois, saltou as grades com o vampiro no dorso e voltou a correr pelas árvores embrenhando-se nas sombras daquela noite fria.

Continua…

Música Tema: Lacuna Coil I Won't Tell You

Todos os Episódios:

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Andrea Bertoldo

    Uau!! Super emocionante,Isa! Parabéns!!

    • Isa Miranda

      E ainda vem mais treta… Sente só lobisomens e vampiros no mesmo local … Apocalipse ? Kkkkk

      Batalha épica na 5a f com o final da temporada rs

  • Fabi Prieto

    Agora deu ruim!

    • Isa Miranda

      Pse … kkkkkkkkkkkkk