A Dama Negra Nocturna VI – Tornare al passato – Parte II

A Dama Negra Nocturna VI – Tornare al passato – Parte II

The dance of the black Swan

Nocturna VI
Tornare al passato – Parte II

Venho de um lugar onde o sangue impera,
onde o desespero reina,
onde os sentidos enganam.
Ouve-se o voraz ranger de dentes,
vindo de almas perdidas,
as quais seguem minhas ordens.”


A melodia ecoava pelo enorme salão daquele castelo, a música clássica ampliava a melancolia daquelas paredes frias e cinzentas, A Morte do Cisne, clássico do balé mundial, tocava o ambiente enquanto a saia girava no ar entorno do corpo esguio de Lya. Postura delicada, ela rodopiava no salão amplo nas pontas dos pés. Encostado na parede o vampiro alto e forte observava todos os seus movimentos suaves e graciosos naquela dança perfeita. Lya executava sem dificuldades e por muitas das vezes a sensação era de que a vampira voava a cada passo nas pontas dos pés. No momento seguinte um corvo apareceu voando atravessando a enorme janela que estava aberta e pousou em um pedestal, grasnou algumas vezes e bateu as asas. Lya continuou dançando graciosamente sendo observada por ambos.

– Michael…- Ela estendeu a mão e o corvo voou até ela, pousou em seu braço e Lya ficou afagando.

– É um folgado mesmo… – Rodney ainda encostado na parede grunhiu baixo, tinha os braços cruzados sobre o peito e somente observava, estava ali para protegê-la pronto para atacar qualquer um que lhe tentasse fazer algum mal.

– Não implique com ele, eu adoraria ter um dom assim, voar e ter o céu livre para desbravar. – Olhou Rodney e caminhou até ele tocando seu rosto sorriu e se afastou olhando o corvo. – Mostre-me o que descobriu Mic.

O corvo bateu as asas e ficou imóvel. Ambos se olharam e, assim que fizeram a conexão, Lya viu uma rua pouco movimentada e uma pequena paróquia. O voo do corvo, adentrando o lugar que do alto observou o alvo do mais novo desejo de sua senhora, o padre Salvatore. Desfez a conexão e agradeceu ao vampiro.

– Ótimo, acho que esta noite irei à missa. – Caminhou feliz para seu aposento, soltou no ar o corvo e seguiu sendo observada por Rodney e Michael.

– Maravilha, se interessou por um padre… – Rodney rolou os olhos e saiu do salão pela outra porta.

Naquela manhã padre Salvatore acordara sentindo todo o corpo doer, realmente na prática não fora tão bom como na teoria. Apesar de treinar e estudar todas as táticas, deixou os medos e receios tomarem a frente naquele momento, o que quase custou a vida. Considerou sua primeira caçada um desastre, assim ele passou o dia analisando tudo que ocorreu, mesmo nas suas obrigações na paróquia não parava de lembrar da vampira, as sensações do encontro com ela o marcavam de tal forma que chegava a se questionar se não seria aquela influência que havia lido que os vampiros podem ter em alguns humanos.

Algumas noites depois, preparava-se para celebrar a última missa do dia quando ao entrar no salão da sua pequena paróquia arrepiou-se. Ali, no lado esquerdo sentada na última fileira, os cabelos loiros quase brancos escorrendo feito véu pelos ombros dela destacavam-se contra suas vestes negras. Ela virou o rosto e os olhos claros em tons azul esverdeados encontraram com os dele e ficaram presos algumas frações de segundos.

Gianni engoliu seco e seus olhos foram desviados pelo coroinha que lhe chamou atenção, virou o rosto a ele e mandou prosseguir até o altar. A face do padre foi elevada para imagem de Cristo na cruz e fez o sinal da cruz virando para os fieis que aguardavam o inicio da missa, que logo iniciou. Fora a missa mais longa que fizera, apesar de ser no tempo normal de 1 hora de celebração, porém fora longa e cansativa, já que estava tenso com a presença dela quase não pode focar no rito da mesma. Vez ou outra durante a missa virava o olhar para ela, a vampira sorria a ele o que o constrangia fazendo desviar o olhar.

Quando finalmente encerrou a missa, passou a atender como de costume alguns fieis até que toda a igreja aos poucos foi se esvaziando, os coroinhas terminaram de arrumar e guardar tudo na sacristia e padre Salvatore estava falando com a última beata despedindo dela lhe dando a benção. Observou a mulher idosa sair da igreja e depois seus olhos vagaram para a vampira que estava ainda no mesmo lugar sentada observando tudo atenta a cada movimento dele. Os coroinhas voltaram e se despediram dele, passaram pelo corredor central e olharam para a mulher de negro cochicharam entre si, algo do tipo como era bela a garota.

Padre Salvatore ficou a olhando um tempo, estava tenso e ajeitou sua batina indo até o final do corredor, parando ao lado do banco ficou em silêncio esperando por algo, talvez um ataque. Dentro da sua batina, ele tinha uma arma de matar vampiros.

La sua benedizione… Padre… – Ela olhava o altar vez ou outra inclinava delicadamente a cabeça de lado focando na imagem de Cristo pregado na cruz. – Gostei de sua celebração, suas palavras são acolhedoras.

Padre Salvatore inspirou fundo e olhou para o altar pensativo em como sair daquela situação, se ela o atacasse estaria sozinho para defender-se e já que sabia como ela controlava as sombras. Resolveu responder a ela, talvez conseguisse que a mesma partisse sem lhe fazer algum mal.

– Procuro celebrar aquilo que acredito e colocar um pouco de acalanto nos corações sem esperança. – Voltou a face para ela. – Eu realmente estou surpreso, me questiono se está aqui para me atacar ou simplesmente…

– Assistir a missa. – Ela o interrompeu. – Eu vim assistir a missa, ou é proibido? – Virou o rosto a ele e levantou, caminhou suavemente até parar perto dele.

Gianni ficou na defensiva e deu um passo atrás, porém preferiu não tomar nenhuma decisão precipitada a qual poderia lhe colocar em risco.

– Não é proibido, porém curioso ver alguém como vós assistindo uma missa. – inspirou baixo afastando um pouco mais. – Afinal és um… – parou de falar por cautela, precisava ser cuidadoso nas palavras.

– Vampiro? – Ela completou. – Um ser amaldiçoado pelas trevas, monstros ou demônios… – Ela parou olhando-se. – Não gosto de ser comparada a demônios, eles são asquerosos e sem um pingo de controle. – Olhou-o abrindo leve e gracioso sorriso. – Eu sendo quem sou posso gostar de vir a missa, apesar que faz tempo que não entrava em uma igreja. – Caminhou ao torno dele notando o volume no bolso da batina. – Sr. cacciatore, não precisa usar essa arma, não vim aqui para lhe atacar, se quisesse isso, teria feito. – Parou novamente na frente dele. – Padre Salvatore, só quero conversar, não é a função dos padres acolher aqueles que buscam conforto e esperança usando a palavra de Dio?

Gianni ficou calado uns segundos e olhou para os lados receoso, ponderou ouvi-la e assim talvez ela fosse embora sem grandes alardes.

– O que quer conversar? Precisa de palavras divinas para lhe confortar?

– Lya Frantini Merelin. – Estendeu a mão a ele. – Primeiro apresentar-me corretamente.

Padre Salvatore olhou a mão estendida alguns segundos até segura-la. Arrepiou-se com aquele breve contato e soltou rapidamente. Fora estranho e começava a incomodá-lo.

– Pois bem, signorina Merelin o que busca na casa de Dio?

Ela olhou para a sua mão e ficou analisando o contato que tivera com ele, sorriu baixo como quem estivesse acabado de constatar algo e levantou os olhos claros olhando por baixo dos finos cílios.

– Eu gostaria de saber mais padre Salvatore, conhecê-lo e entender a visão que tem sobre os “monstros” que dizem que somos. – Voltou a sentar-se na ponta do banco esperando-o falar.

Padre Salvatore não sabia por onde começar, o que diria a ela? Realmente acreditava estar diante de um monstro que, apesar de estar sob a face de uma jovem e aparentemente frágil garota, sabia bem que não era páreo para ela em caso de ataque. Decidiu por fim ser direto, se morresse ali ao menos não seria amedrontado como estava sentindo.

Signorina Merelin, sinceramente falando, sim, considero-os “monstros” e não vejo o sentido disso, conversar, saber minha opinião… Está brincando comigo antes de avançar no meu pescoço e devorar-me? – Falou sério e nitidamente trêmulo.

Lya ficou olhando sem expressar por alguns segundos uma reação, deixando padre Salvatore mais tenso do que já estava. No instante seguinte o silêncio que se instalou entre ambos foi quebrado pelos risos da vampira aparentemente divertindo-se com aquelas palavras.

– Padre Salvatore, és impressionante a sua falta de senso ou seria exagero dizer que está sendo sincero demais? – Ela ajeitou-se no banco e passou a mão nas mechas loiras. – Eu vejo que não se preocupa tanto com sua vida, um conselho: nunca fale assim com um vampiro se não quiser morrer de imediato, ou ao menos se garanta sair vivo da situação. – Abriu os olhos e rolou-os em volta. – A não ser que seja o caso aqui, deve ter alguma armadilha de prender vampiros nessa paróquia, isso quer dizer que estou presa? – Olhou-o curiosa.

Padre Salvatore inspirou fundo, pensando na postura dela e realmente tinha que concordar, fora imprudência falar daquela forma, ao menos ela riu o que quer dizer que não o mataria, pelo menos não naquele momento.

– Eu acredito que falei algo sem pensar, ou a situação tensa me fez agir dessa forma. – Andou de costas e acabou sentando no banco lado oposto ainda de frente para ela. – Ao que parece além de fracassar na primeira caçada ainda provoco risos a um vampiro… stupido! – Passou a mão na testa.

– Sua primeira caçada?! – Exclamou surpresa. – Não veja dessa forma, a prática leva a perfeição, acho que nas próximas se sairá melhor.

Ele deu um sorriso um tanto sarcástico e virou o rosto a ela intrigado.

– Naturalmente, mas é estranho ouvir tais palavras de uma criatura que tenho que caçar, não concorda? – Ele já se sentia mais a vontade com ela.

– De fato, sim, estranhamente surpreendente, no entanto, há vários tipos de “monstros” e nem todos nós agimos como um. – Ela voltou o olhar ao altar e sua voz e semblante suavizaram. – Entenda padre, nem todos os “monstros” o são, há aqueles que somente querem viver pelo mundo, livres e sem caçadores na sua cola. – Levantou e caminhou até o altar, parou olhando a imagem de Cristo pregado na cruz. – Eis algo que acho um tanto mórbido, um humano pregado em agonia na cruz isso sim é estranho.

– Essa imagem representa o sacrifício… – Levantou indo cauteloso até ela.

– Sacrifício de nosso pai diante do pecado do mundo ao seus filhos, para redimir e serem perdoados. – Novamente o interrompeu. – Não adiantou muita coisa o que ele fez, olha o mundo padre, tão mau e destrutivo como antes.

– Estamos aqui para mostrar o contrário, mostrar esperança, é para isso que pregamos a palavra. – Baixou o olhar e ficou pensativo, o que aquela conversa lhe mostraria? Sua curiosidade foi desperta e lembrou que alguns no convento costumavam usar os vampiros capturados para conhecer e estudar mais a fim de aprender a como eliminá-lo com eficácia. Seria então, uma oportunidade conhecer mais daqueles vampiros mais fortes que eles evitavam caçar sozinhos? Decidiu aproveitar o momento. – O que pensa dos humanos? – Fez aquela pergunta para entende-la melhor.

Ela virou o rosto novamente, surpresa por perceber que ele lhe dera atenção. Os olhos brilharam tão intensos que o padre ficou surpreso consigo ao encantar-se com ela, sendo preso aquele olhar.

Ficou apreensivo e desconcertado voltou a face ao altar, engoliu a saliva e inspirou fundo para manter a mente focada, não podia esquecer que ela era a predadora ali e ele sua presa vulnerável.

– Respondendo a sua pergunta padre, o mundo está tão violento que os humanos tornaram-se seres frios, e ser vampiro tornou-se algo romântico. – Fez uma breve pausa. – Eu até entendo que pensem que somos monstros, porém os humanos assumiram atos tão monstruosos que, diante deles, parecemos os mocinhos!

Gianni franziu a testa ao ouvir aquelas palavras, ela estava comparando algo que não havia como ser comparado, as bestas eram eles, os vampiros, que matavam por sangue, porém, fazia sentido ela dizer que humanos assumiam atos monstruosos quando se tratava de ganância e poder.

Signorina Merelin, pode ser que alguns humanos tenham passado dos limites, mas ainda assim os de sua espécie ainda tem dons que ao meu ver lhes dão vantagens sobre os humanos.

Lya ficou pensativa e por fim fez um questionamento a Gianni.

– Então padre, supondo que ambos os lados podem ser cruéis e maus, o que difere exatamente ambas as espécies? – Caminhou afastando do altar. – Acredito que nesse atos monstruosos não somos tão diferentes assim, pense nisso, o que nos faz ser monstros tanto humanos como vampiros? – Ela virou e se afastou do altar caminhando para a saída da paróquia. – Apreciei nossa conversa, espero poder voltar a falarmos outras noites. – Saiu sumindo nas sombras da noite deixando no ar o som de sua voz sua suave despedindo-se dele. – Buonanotte, padre Salvatore.

Lya sumiu e deixou o padre parado olhando para a porta ainda sem acreditar naquela conversa e como tudo ocorreu, mesmo depois de não ver mais sua silhueta ficou uns segundos parado, tentando recompor-se daquele encontro, por fim foi até a porta e fechou-a. Aquela noite não conseguiu dormir bem pensando nela, nas palavras dela e na sua presença.

Por que a vampira o afetava tanto? Ela era a criatura que tinha que caçar, mas, ainda assim, tinha sensações que por mais que tentasse e orasse para não sentir, estavam fervendo dentro dele. Adormeceu quase com o dia raiando, no entanto, fora apenas poucas horas de sono, no dia seguinte deveria fazer todos os afazeres do dia.

Padre Salvatore estava finalizando a última missa daquele inicio de noite, por sorte a vampira não voltara e o deixou um pouco mais tranquilo, aquela noite teria que ir ao convento, havia algumas missões a serem realizadas e combinara com os padres Miguel e João que voltaria a sair em campo com eles, daquela vez estaria mais preparado para enfrentar aquelas criaturas.

Logo a semana passou tão rápida que mal pode notar, no entanto, todas as noites olhava para o último banco da fileira da esquerda imaginando que ela poderia estar ali, mas não estava. Assim, no final daquela semana ele recolhia as bíblias dos bancos tranquilamente, já despreocupado com aparição da vampira, apesar de vez ou outra pensar nas palavras dela sobre o ser humano e toda aquela conversa sobre a natureza humana e vampírica. Ao parar próximo ao banco que ela esteve sentada e pegou uma bíblia e sentiu um arrepio subir -lhe a espinha, engoliu seco ao ouvir o som daquela voz com sorriso suave quebrar o silêncio do lugar.

– Sua benção, padre. – Ela estava ali de pé no meio do corredor segurando algumas bíblias na mão, havia juntado do outro banco a fim de ajudá-lo.

Padre Salvatore virou o rosto e ergueu o corpo postando-se de frente a ela, seus olhos a fitaram por instantes, incrivelmente sentiu um sentimento de estranho por vê-la, surpreendeu-se ao notar que gostou de vê-la novamente Repreendeu-se mentalmente por tal sensação.

Caminhou sem respondê-la, tomou rumo da sacristia sendo seguido pela presença, com olhos brilhantes e um doce sorriso nos lábios, olhava-a por cima dos ombros quando abriu o armário para guardar as bíblias. Virou para ela e pegou-as de sua mão.

– Obrigado. – inspirou baixo e virou novamente guardando-as e trancando o armário. – Achei que não voltaria mais. – Falou sem olhar para ela e foi até sua mesa.

– Eu pensei em voltar na noite seguinte, porém tive alguns contratempos que me impediram de vir até então, porém hei-me aqui, tentei chegar cedo para assistir a missa, não consegui, peço perdão. – Ela foi para a mesa e olhou-o. – O que foi? Não está olhando para mim, fiz algo errado? – Ela inclinou o corpo para frente tentando fazer ele olhá-la.

Signorina Merelin… Eu…- Virou o rosto para olhá-la e engoliu seco, pensativo em que dizer a ela. – Não fizeste nada. – Sentou e apontou a cadeira da frente para ela.

“Convidando-a sentar? Devo esta ficando louco.”

– Obrigada. – Ela sentou satisfeita e fitou-o um tempo, por fim quebrou o silêncio. – Eu gostaria de que tivéssemos um clima mais ameno, sinto-o tenso.

Padre Salvatore franziu a testa, afinal de contas o que ela queria? Claro que estava tenso, afinal de contas estava recebendo-a na casa de Dio sem o conhecimento dos demais padres e do arcebispo.

– Vamos ser coerentes, eu caço os da sua espécie e estamos aqui nos falando, mesmo a desconhecimento dos meus superiores, óbvio estar tenso, certo?

Lya se mostrou pensativa por um momento e depois abriu os lábios em um suave sorriso.

– Eu fiquei curiosa, não falou sobre mim aos outros padres, por quê?

Padre Salvatore passou a mão no cabelo e voltou a olhá-la, essa era uma pergunta que ele mesmo não tinha a resposta, afinal por qual motivo ainda ficava com ela dentro da igreja? Também não falara do dia que fora salvo por ela e muito menos que estava recebendo visitas aos padres seus amigos, também caçadores. Desconversou.

– Posso lhe fazer algumas perguntas? – Vencido resolveu ouvi-la. – Diga-me, sobre o que quer conversar dessa vez?

– Qualquer coisa, sou bastante curiosa, responda-me padre o que gosta de fazer quando não está caçando ou cuidando da paróquia? – Satisfeita em ter atenção dele começou a enchê-lo de perguntas.

– O tempo é curto, mas costumo usar para aprender, ler e ter mais conhecimento.

– Ah que interessante, achava que os padres só liam a bíblia. – Ela ficou ainda mais curiosa.

Foi mais que duas horas entre ela perguntando e ele respondendo, eram quase sempre perguntas sobre o próprio padre, seus gostos e pensamentos. Nesse período, ele acabou por relaxar e preparou chá para ambos, olhava-a beber do líquido e despertou ainda mais sua curiosidade.

Signorina Merelin, come alimentos normais? – A esse ponto já estava mais curioso sobre ela do que temeroso como antes, afinal ela tinha bastante conhecimento até pelo tempo de existência, segundo ela lhe relatara que era do século XVIII.

– Sim, acredite a grande maioria come, anda de dia, bebe… Enfim, não sou uma morta viva, não decaí a nível bestial. – Tomou um gole do chá e murmurou baixo que estava saboroso.

– Bestiais? – Sentou na cadeira ao lado dela esperando que ela contasse detalhes a ele.

– O que sabe sobre nós são meramente pequenos fragmentos, mas somos bem mais organizados que imagina, a igreja tem fatos que não são de todos reais sobre nós vampiros. – riu um tanto divertida. – Imagina dormir em caixão, não… Eu me sentiria abafada… Prefiro minha enorme cama com lençóis macios e mantas quentinhas. – Virou o olhar a ele gostando da curiosidade que ele demonstrava. – Os bestiais são carniceiros, feras que não pensam mais, simplesmente matam por sede seguindo seus instintos, agem misturando-se entre os humanos para arrastá-los a becos escuros e matá-los, esses seguem o mesmo padrão. – Encostou na cadeira – Não saem ao sol, não comem nada, somente bebem sangue, seus corpos já não tem vida, não bate coração naquele ser… Esse é o vampiro que muitos chamam por ai, os mortos vivos.

– Eu vi alguns deles, sei que sua espécie se divide entre si, mas alguns detalhes mais simples passam por despercebido, então, Signorina, pode andar de dia?

– Bastante protetor solar e uma dose extra de sangue humano, ando de dia normalmente, mas prefiro evitar, ao grupo a qual pertenço afeta e deixa-nos mais fracos, fazemos isso para nos misturar, quanto mais parecido com os humanos, melhor o disfarce.

Gianni gostava das informações que ela lhe dava, aquilo era muito útil até mesmo para caçar, ele parou de perguntar, olhou o avançar da hora, eram quase meia noite.

– A hora… Preciso levantar cedo amanhã… – Olhou-a, levantando e ficando de frente a ela. – Devo confessar que apreciei essa conversa e isso já me levanta uma questão: não teme que use essas informações contra a Signorina?

– Não… Acredite, sei reconhecer alguém que tem bom senso em separar o certo do errado. – Levantou em seguida e pegou a mão dele. – Agradeço pela conversa e ter me ouvido, boa noite padre.

Gianni fez um gesto com a cabeça agradecendo e novamente a viu partir pelo corredor da paróquia sumindo pela porta nas sombras.

Noite após noite, a vampira vinha, assistia a missa e aguardava para ter seu momento de conversa com o padre Salvatore. Algumas das noites esperava-o voltar de alguma caçada e outras vezes o seguia pelas sombras observando-o junto com os dois padres caçadores de vampiros. Aquelas semanas foram agitadas, havia alguns bestiais caçando em Roma, sempre quando chegava a época de grande festividades na cidade e o turismo aumentava, os bestiais surgiam. A igreja enviava seus caçadores para eliminar as feras que perturbavam a ordem, exterminar todos que fizessem algum mal aos humanos.

Em uma daquelas caçadas, Lya seguiu Gianni e o encontrou em um prédio abandonado, os outros padres faziam as buscas pelos corredores enquanto Gianni limpava o ninho. Lya surgiu das sombras na frente dele e olhou o lugar apertando o nariz reclamando do odor.

Signorina Merelin, tem que ir embora… Padre João e Padre Miguel voltam logo. – Padre Salvatore ficou tenso, afinal de contas, havia omitido que recebia constantemente visitas de Lya e agora ela estava ali junto a ele podendo denunciar aquela omissão.

– Não se preocupe, não vão me ver… – Ela caminhou até perto da janela. – Eles não saberão de nós. – Sorriu.

Gianni estremeceu com aquele sorriso, ainda estava tenso com a caçada, preocupado em ser visto com ela, quando chegou perto da vampira.

– Já pedi para não me seguir nas caçadas.

– Eu fico preocupada contigo, sabe que pode haver vampiros mais fortes, posso te ajudar. – Ela cochichava para ele.

– Não preciso, já tenho apoio e além do mais não sou tão fraco assim, ou será que não reparou? – Voltou ao local onde preparava um rito de selagem para prender vampiros.

Ela andou até ele e abaixou vendo preparar aquela armadilha.

– Isso deve doer… Claro que reparei, mas, Gianni, há vampiros muito mais fortes até mais que eu, temo por sua segurança, já que gosto de vós.

Gianni olhou-a, inspirou baixo e depois finalizou armadilha deixando preparada. Ele ainda estava tentando se acostumar a ouvir ela chamá-lo pelo nome, afinal insistiu muito por isso e para tal acabou deixando ela chamá-lo assim.

– Fico contente com sua preocupação, agora vá, por favor…

Ela levantou e ainda olhando-o sumiu nas sombras, porém não partiu como ele havia pedido, ficou no alto do prédio vizinho olhando todas as movimentações que os três caçadores faziam. Rodney estava descascando uma maçã e comendo alguns pedaços sentado no parapeito do prédio, e Michael olhava de cima da caixa d’água esperando alguma ação.

– Que tédio! – o corvo resmungou.

– São somente bestiais fracos, nada que os três não deem conta. – Lya sentou no beiral e continuou a observar.

Naquele mesmo instante reparou em outro grupo de vampiros se aproximar do prédio pelos fundos, olhou Rodney e Michael que rapidamente se postaram para observar melhor no beiral do prédio.

– São vampiros que servem à regente Bragatti. – Michael estranhou aquele grupo chegando e mexendo no carro dos caçadores. – A regente interferindo numa caçada de bestiais? – olhou Lya.

A vampira estava tensa e seus olhos tinham um brilho predador.

– Vai até o padre? – Rodney não precisou muito para ter sua pergunta respondida.

Lya sumiu nas sombras voltando ao prédio.

Rodney rosnou chateado e foi atrás descendo aos saltos pelas escadas de incêndio, Michael fez o mesmo e logo estavam entrando no prédio pelo lado oposto ao grupo de vampiros da regente.

Dentro do prédio Lya ficou olhando de longe Gianni junto com os outros padres, o trio conversava enquanto finalizavam aquela missão, naquele momento ouviram barulhos e preparam as armas, saindo pelo corredor do prédio abandonado. Atentos apontavam as armas caminhando para uma área mais aberta.

Lya os seguia de longe pelas sombras e atenta para o outro grupo de vampiros que entraram no prédio. Naquele momento ouviu os padres falarem em se separarem para investigar, era o momento que ela queria para se aproximar e logo que viu Gianni sozinho chegou por trás.

– Eles estão aqui, há outros, mais fortes…- ela sussurrou a ele.

Gianni virou para ela e inspirou fundo.

– Pedi para ir embora. – Estava com a arma preparada para atirar e mirou a frente enquanto caminhava pelo corredor.

– Eu estava indo, mas vi três vampiros entrarem no prédio, eles servem a regente de Roma, Bragatti, estranhei o fato deles mexerem no carro de vocês caçadores. – Ela continuava atrás dele sussurrando.

– O que querem? – Gianni estranhou, haviam lhe falado no convento dessa regente, mas que aparentemente não interferia em nada referente à Igreja e muito menos nas caçadas, a própria Lya confirmara outra noite a ele.

Lya deu de ombros, havia se questionado os motivos, no entanto não iria permitir que fizessem mal ao padre. Caminhou à frente dele quando sentiu o odor de um vampiro se aproximar, fez um gesto para Gianni esperar e seguiu sumindo no corredor.

Rodney e Michael estavam no salão perto das escadarias quando viram os outros dois padres e um terceiro de pele tão clara que reluzia, destacando-se naquela batina escura, o trio falava algo sobre o padre Salvatore. O padre albino apontou a eles uma pasta e continuou a falar, os dois ficaram intrigados ouvindo-o e de repente mesmo surpresos concordaram com a cabeça. Ambos os padres Miguel e João saíram deixando o padre albino sozinho. Rodney estranhou e fez um gesto para Michael se afastar e ambos saíram na surdina subindo as escadas até o andar de cima.
Bernard caminhou entre aqueles corredores abandonados encontrando dois dos três vampiros que havia levado consigo, tinham um objetivo e iriam cumprir as ordens de Bragatti. Apontou a ambos a direção para onde o padre Salvatore havia ido e ordenou que o trouxesse até ele.
Lya andava pelas sombras esgueirando até ver no final do corredor o vampiro de longos cabelos negros vasculhar o lugar onde havia sido preparado pelo padre Salvatore as armadilhas místicas para prender vampiros. Ela caminhou de volta a Gianni e fez um gesto para voltarem pelo corredor, logo que passou por uma porta ambos entraram em outro cômodo. Ela sentiu o cheiro de Rodney e Michael chegarem e juntarem-se a eles.

– Eles são meus aliados.

– Eu lembro de ambos.- Gianni curvou um pouco a cabeça para cumprimentá-los.

– Lya. – Aproximou dela e cochichou . – Eles querem o padre. – Rodney apontou com o rosto para Gianni.

– O que? – Ela estranhou. – Por que Gianni? O que querem? – Ela foi até a janela procurando uma rota de fuga para o padre. – Precisa sair do prédio, fugir deles.

– Preciso encontrar com padre Miguel e padre João.

– Eles já saíram, devem ter voltado para o carro. – Michael falou olhando Rodney, sabiam que os padres haviam deixado aquele para trás, certamente seguindo ordens de Bragatti, já que o albino era servo dela.

Gianni estranhou, porém poderia ser o fato deles não conseguirem voltar, então resolveu ir até o carro encontrá-los.

– Melhor partir. – Foi até a janela e olhou para a escada de incêndio, abriu e saiu, mas antes de ir voltou a olhar para Lya. – Tenha cuidado. – Virou os olhos a Rodney e Michael e saiu descendo as escadas rapidamente, e logo já estava na rua subindo pelo beco para o lugar onde estava o carro.

Lya olhava-o de longe e assim que o viu sumir no beco, voltou para a dupla.

– O que sabem? – Ela sabia que eles não queriam falar mais nada perto de Gianni.

– O padre albino que serve a regente, ele falou com os dois padres, ao que parece deixaram para trás o “seu” padre, o tal Salvatore. – Rodney falava com certo desdém o relato, não estava muito contente com o fato de Lya se arriscar tanto. – Lya, melhor não se meter com a regente, estamos de passagem por Roma e criar atritos com regente Bragatti, não é coerente, afinal você mesma disse que não tem interesse em Roma.

– Concordo com Rodney, pela primeira vez disse algo sensato. – Riu no canto dos lábios. – Vamos embora e evitar esse desconforto com a regente.

Lya ouvia ambos, mas estava intrigada com o interesse de Bragatti pelo padre Salvatore.

– Ele é meu… Não pretendo deixar a regente capturá-lo. – Olhou os dois servos e saiu pelo corredor em seguida indo de encontro a Bernard que vinha subindo as escadas juntamente com a dupla de vampiros guardas da regente. Assim que ambos os trios se encontraram, Lya parou no alto da escada e friamente olhava para Bernard.

Bernard não parecia se intimidar com ela e os seus servos e continuou na sua pose altiva e seria. Fez um gesto a dupla de guardas que o seguia para esperar.

Signorina Merelin, quanta honra em revê-la, nossa regente ficaria feliz em recebê-la, mas segundo soube esta somente de passagem pela cidade. – Cortez, porém com certo sarcasmo na voz ele elegantemente curvou-se a ela.

– Diga a regente que estou realmente só de passagem, sua senhora pode ficar despreocupada, não desejo atritos e muito menos disputas. – Manteve a postura. – Diga-me, Sr Bernard, o que a regente deseja com o padre Salvatore? – foi direta.

Ele ergueu as sobrancelhas estranhando a pergunta, pelo simples fato dela saber algo sobre eles estarem atrás do padre.

Signorina Merelin, os desígnios da regente não são questionados, simplesmente, cumpridos. – Olhou-a altivo novamente. – Aliás, algo que não lhe interessa certamente.

Lya desceu as escadas e parou uns 5 degraus acima dos dele.

– Diga a regente que Padre Salvatore me pertence. – Ela deixou transparecer seu poder de tal forma que ambos os vampiros recuaram sentindo a força poderosa que vinha da vampira.

Bernard sentiu o mesmo, no entanto manteve a pose mesmo estando trêmulo por dentro.

– Eu transmitirei vosso recado, Signorina Merelin. – curvou a cabeça e desceu de costas os degraus, fez um gesto para os dois vampiros e saíram do prédio.

Rodney negava com a cabeça nervoso e resmungou com ela.

– Comprou briga com a regente por causa desse padre? – Bufou baixo irritado.

– Ele é meu… – olhou-o no canto dos olhos repreendendo-o.

Rodney estremeceu e ficou na defensiva curvando a cabeça para ela.

Michael deu um toque aos dois e chamou-os para partirem, já estava prestes a amanhecer.

Lya queria ver Gianni, ordenou aos dois vampiros que fossem para a residência e voltou à paróquia para esperar pelo padre. Gianni voltou quase amanhecendo o dia, estava um tanto chateado, afinal padre Miguel e padre João não lhe deram uma explicação plausível por tê-lo deixado para trás.

Guardou seus pertences na sacristia e foi se recolher em seus aposentos. Depois de tomar um banho relaxante, foi para seu quarto e ao acender a luz levou um susto, ali deitada na sua cama Lya adormecera de roupa e tudo. Olhou-a preocupado, aproximou e sentou na beira da cama.
Signorina Merelin… Signorina Merelin… – chamou-a. – Lya, acorde… – Resmungou o fato dela estar dormindo em sua cama.

A vampira estava imóvel, mas sabia que estava apenas dormindo, ele convivia tanto com ela que já estava acostumando com seu jeito, ela sempre dava um jeito de ficar mesmo ao amanhecer e Gianni vencido deixava dormir na paróquia, com desculpas de não ter levado protetor solar e roupas adequadas, além de guarda sol para poder andar de dia.

Gianni sabia que aquelas desculpas eram as mais furadas, porém acabava permitindo. No entanto, nunca havia entrado em seu quarto e sentia-se um pouco preocupado com isso, aliás sentia-se incomodado não só por ela estar ali em sua cama, mas pelo que sentia, estava gostando de ver ela ali. O que o fazia permitir aquela aproximação? Meses assim, permitindo-a que ficasse ao seu lado, noites e noites seguidas. Ele omitia dos seus amigos aquela “amizade”, omitia até a ele mesmo que sentia tantas sensações com ela que preferia não pensar muito a respeito. Ele gostava da presença dela, gostava de ouvir ela falar do que vivera e vira no passar dos anos de sua longa existência. Então a vampira, monstro segundo a igreja, era para ele alguém digno de ser ouvido tanto quanto um humano. Loucura, ele pensava naquilo, no fato dele ver aqueles vampiros com outros olhos. Uma visão simples, talvez ingênua de que podia haver um bom convívio com aquelas criaturas.

Quanta bobagem, tais pensamentos eram tolos e utópicos. Não existia tal coisa, feras vivendo entre os cordeiros indefesos que eram os humanos? Impossível, no entanto, ao olhar para Lya deitada em sua cama, sua mente relaxou e seu olhar suavizou. Estava gostando dela e queria vê-la segura e bem. Inspirou fundo levantando da beira da cama, pegou um jogo de lençol e travesseiro indo para o outro quarto, o que sempre deixara ela dormir, e adormeceu cansado, aquela manhã como sempre que saía para caçar não abria a paróquia para poder descansar da noite de caçadas.

No castelo da regente, Bragatti recebia alguns vampiros aliados da cidade para uma comemoração, Bernard havia lhe informado sobre o ocorrido no prédio abandonado e da interferência de Lya. A puro não gostara daquilo, porém preferira aguardar uma oportunidade de conseguir o que queria.

Noite seguinte a puro chamara seu servo e lhe entregara uma carta para ser entregue ao arcebispo que comandava os caçadores do Vaticano. A carta continha informações sobre Lya e revelava que estava na cidade, deveriam enviar caçadores para capturá-la. Sugeriu que o grupo responsável pela caçada fosse dos padres Salvatore, Miguel e João.

O arcebispo, conforme o trato, chamou o trio em sua sala.

– Essa missão é uma das mais perigosas que vou lhes ordenar. – começou falar um tanto sério, além do normal. – Encontra-se na cidade um trio de vampiros, fortes e capazes de grandes estragos caso resolvam começar a caçar. – Pegou a pasta e entregou a padre Miguel. – É de suma importância que capturem esse trio, no entanto, irão precisar de armas mais apropriadas para pegá-los. – Foi até um armário maior ao lado direito de sua mesa e abriu, pegou vários pentes de balas para carregar as armas dos padres. – Essas balas contem um líquido que ao contato do corpo do vampiro o paralisa de imediato, eles não virarão pó conforme acontece com os bestiais, até porque são mais fortes.

Enquanto falava, padre Miguel abriu a pasta e foi lendo a ficha de cada vampiro, primeiro de Rodney onde dizia que ele tinha uma força descomunal ao ponto de derrubar paredes, passou a ficha ao padre João que leu e entregou a Gianni. Em seguida, leu de Michael que era conhecido por virar corvo e entregou a Gianni e por fim a de Lya que fora o que surpreendeu todos.

– Nós vamos caçar uma sangue puro? – padre Miguel ficou apreensivo.

Gianni olhava as fichas nervoso e preocupado, sabia desse trio na cidade há vários meses, no entanto, eles estavam sob controle, não praticavam nada contra os humanos. Quando ouviu Miguel falar de Lya, estremeceu.

– Sangue… puro? – Ele mal conseguia falar.

– Sim, já estudou sobre eles… – padre João estranhou a postura dele. – Ela é uma das mais poderosas, conhecida por Dama Negra, a sombrio mestre das trevas. – Ficou analisando a postura dele. – Pomposo demais, vários adjetivos para uma criatura que mais parece um anjo e que na verdade é um demônio. – Apontou a ficha dela. – Veja, diz ai que desde o final do século XVIII ela pratica diversos genocídios contra humanos.

Gianni estava pálido e sentou olhando as fichas e lendo a dela com mais atenção. Ele sabia que ela poderia ser capaz de muitas coisas ruins, viu-a em ação várias vezes e naqueles meses de convívio ajudou-o a capturar alguns dos vampiros bestiais que caçavam. No entanto, a ficha dela era aterrorizante e ele não sabia se contava, aliás contaria a eles sim, era seu dever relatar isso, quando começou a ensaiar falar a verdade do período que convivera com ela na paróquia, foi interrompido pelo arcebispo.

– Não preocupem-se tanto, essas balas especiais são exatamente para isso, capturar a sangue puro. – Entregou a eles as caixas com os pentes de balas para carregarem as armas deles. – Eu gostaria que a trouxessem viva.

Gianni calou-se e nervoso pegou alguns dos pentes e guardou na sacola assim como ambos os padres. Padre João ainda observava-o e notou a mudança de comportamento.

– Padre Salvatore, está tudo bem, apesar de ser uma sangue puro, ela não é imune a essas balas, vamos capturá-la. – Adiantou-se saindo da sala do arcebispo, Miguel terminou de receber as instruções e saiu seguindo a dupla logo em seguida.

Receberam além das fichas as instruções e o endereço do refúgio onde ela ficava com os demais vampiros, teriam que armar uma estratégia à distância, capturá-la e levar à sede onde mantinham os vampiros presos. Segundo foram informados, havia uma cela preparada com ritos para ela não fugir nas sombras.

Prepararam-se e logo tomaram o rumo para fora da cidade, o bando estava escondendo-se em um castelo voltado para o interior de Roma, porém não muito distante da cidade. Pouco mais que uma hora de carro e chegaram no local.

Gianni por todo caminho lia e relia aquelas fichas e tenso preferiu não falar nada, primeiro tentaria encontrá-la antes dos padres o que naquele momento era algo quase impossível. Outra era que possivelmente enfrentariam aquela dupla de vampiros que eram guardiões de Lya. Cães de guarda fortes e muito leais que se colocariam frente a ela para evitar que a capturassem.

Saltaram do carro em uma distância que não chamassem atenção e seguiram o resto do caminho a pé, às escondidas e sorrateiramente foram até o mais próximo do castelo sem que fossem descobertos, prepararam uma camuflagem e entraram no local. Padre João preparou armadilhas nas possíveis rotas de fugas na parte baixa do castelo, sendo ajudado por Miguel. Gianni lhe dava cobertura, preferiu ser ele a fazer já que tentava falar com Lya antes que ambos os padres a capturasse. Olhou todo o perímetro com a arma engatilhada.

“Onde você está Lya?”

Padre Miguel voltou a falar com João e sinalizou que terminara sua parte, apontou a entrada lateral do castelo e fez um gesto que iria entrar. Padre João foi atrás e orientou a Gianni que ficasse ali dando cobertura e avisasse caso alguém se aproximasse do castelo. Mesmo a contragosto concordou para não levantar suspeitas sobre ele, precisava contar à dupla a verdade, mas não daquela forma e não naquele local.

Dentro do castelo, a dupla andava sorrateira pelos corredores e vasculhavam cada cômodo, com armas em punho eles apontavam a mira afim de atirar em qualquer um que aparecesse. Assim, chegaram às escadarias que levavam ao andar superior e ali do alto Lya estava observando-os. Rodney e Michael estavam um em cada lado dos corredores do castelo e aguardavam as ordens dela para atacarem a dupla que se aproximava sorrateira. Lya acendeu as luzes e olhou-os dali do alto.

– Quanta honra em receber caçadores em minha residência, digam-me padres, a que se deve o motivo de tal visita? – Olho-os friamente e as sombras oscilavam a sua volta.

– Lya Frantini Merelin, em nome da Santa Igreja, estamos lhe prendendo, sob a ordem do Papa deverás vir conosco. – Padre João apesar de estar apreensivo, declarou a ordem de captura e cárcere da vampira.

– Por qual motivo estou sendo presa? – Ela sorriu a eles.

– Genocídios, assassinatos e transformação de humanos em vampiros. – Padre Miguel declarou os crimes da vampira e apontou a arma.

Ela desceu as escadas em passou suaves sorrindo divertida para eles.

– Eu declaro não aceitar tal sentença, afinal a Santa Igreja não segue o tratado da Sociedade de caçadores com o Vampiro Rei, devido a isso irei solicitar que respeitem o tratado. – Ela parou e olhou a dupla, lembrava bem das palavras de seus servos que ambos haviam deixado o padre Salvatore, Gianni, para ser capturado pelos lacaios da regente Bragatti. – Digam-me padres, padre Salvatore sabe que foi deixado na caçada ao prédio abandonado para ser capturado pelos lacaios da Regente? – Foi direta e mortífera nas palavras.

– O que?! – Padre João surpreendeu-se com as palavras dela, engoliu seco a engatilhou a arma.

– Lya Frantini Merelin , esteja presa ou iremos usar a força para levá-la, seja por bem ou por mal. – Ameaçou-a padre Miguel.

Ela sorriu divertida para ameaça deles.

– Servem a regente pelo que entendi, assim como boa parte do clero do Vaticano, o que me deixa curiosa, por qual motivo dois amigos trairiam uma amizade para cumprir as ordens da regente? – Estreitou os olhos a eles dois dessa vez impondo as sombras que avançaram até ambos. – O que a regente quer do padre Salvatore?

– Você fala demais, besta…- Padre João irritado disparou contra ela. – Vamos levá-la nem que tenhamos que levar só as cinzas, sua maldita.

No lado de fora, Gianni estava apreensivo e olhava todo o local, até que ouviu os tiros, correu largando seu posto e entrou no castelo. Viu ao longo do corredor principal Padre Miguel assustar-se e algumas sombras atacarem ele. Correu e antes que chegasse perto foi impedido pelo vampiro negro que era guardião de Lya.

– Saia do caminho… – Gianni apontou a arma para ele.

– Não… – Ele rosnou baixo. – Entenda, padre, faço isso somente pela minha senhora. – Rodney avançou para ele e o encurralou antes que atirasse segurou o colarinho do padre, o ergueu com o braço e fez encará-lo. – Hora de dormir padre. – Os olhos dele ficaram vermelhos e Gianni parou de se debater ficando estático, entrando em transe.

Rodney arrastou-o para fora do castelo, enquanto deixava Lya cuidar da dupla no hall principal. Michael se aproximou da dupla por trás e manteve a postura altiva e impedindo ambos de fugirem de Lya.

– Eu não pretendo ir a lugar algum com ambos os padres, agora se me dão licença, quero que se retirem do meu refúgio, não são bem vindos aqui. – Ela ainda queria respostas, no entanto sabia que os caçadores do Vaticano eram bem treinados e não iriam falar nada a ela, nem sob tortura. – Mas podem ter certeza que padre Salvatore irá saber do conluio entre a Regente de Roma e a “Santa Igreja”. – Virou-se para subir as escadas enquanto as sombras envolviam ambos fazendo-os saírem do castelo enquanto Michael abria a porta para serem jogados para fora do lugar.

Michael parou na varanda principal vendo ambos os padres atirados no chão e sorriu enquanto entrava no castelo. Lya do alto da sacada olhou-os pela última vez antes de sumir nas sombras, sem antes deixar um recado.

– Não me sigam padres, poderão ter um triste fim…

Padre João estava irritado e levantou sacudindo a sujeira da roupa, padre Miguel olhava-a sumir enquanto pegava as armas.

– Eu vou capturá-la… Ainda essa noite, maledeta! – Padre João voltou ao carro decidido a cumprir a missão.

Miguel o seguia procurando por padre Salvatore.

– Onde ele está?

– Quem, homem de Deus? – João já engatilhava outras duas armas e pegava um colete de proteção.

– Padre Salvatore, quem mais seria? – Olhou-o assustado com a expressão de raiva do outro. – Vai encarar a situação sem apoio? Enlouqueceste? – Miguel segurou pelo ombro fazendo-o encará-lo. – Somos dois e possivelmente padre Salvatore tenha sido pego por ela, isso tudo é muito estranho, querem ele, mas por qual motivo?

João afastou as mãos dele e deu de ombros, armando algumas armas.

– Nossa missão tem que ser cumprida, não me interessa o que querem com Gianni, afinal tanto você como eu sabemos que ele estava tendo encontros na paróquia com a maledeta das sombras. – João estava irritado afinal, segundo informantes da própria regente, padre Salvatore estava acobertando a sangue puro. – Ele nos traiu, traiu a ordem, traiu a igreja… Vamos cumprir a missão, afinal de contas ele pode estar lá por vontade própria.

Miguel engoliu seco, não tinha mais argumentos para aplacar o coração furioso de padre João, mas ele ainda se questionava o motivo daquilo tudo, queria respostas, afinal, se padre Salvatore havia traído, o que fez então o arcebispo com os acordos a Regente Bragatti? Ele alegara ser um trato para manter a cidade sobre controle dos vampiros, principalmente os que invadissem os domínios da regente. Então, seriam os caçadores do Vaticano, servos da Regente e não da Santa Igreja como deveria ser e agora era somente uma fachaada para esconder a verdade? O clero de caçadores servia a sangue puro, governante de Roma?

Miguel seguiu-o apreensivo, queria falar com Gianni antes que algo pior acontecesse. Assim, a dupla entrou no castelo, daquela vez usando as armadilhas e dispositivos para estourarem e invadirem o lugar. Rodney estava no andar superior e olhou para Lya que estava com Gianni ainda em transe. Ela fez um gesto com a cabeça para ele atacar e defender o refúgio. Assim que o vampiro saiu, ela estalou os dedos e Gianni saiu do transe.

Confuso, ele olhou-a e levou alguns segundos para reconhecê-la.

– Como vim parar aqui? – virou o rosto em volta, notando o enorme quarto. – Lya, eles… Vieram levá-la. – Gianni ainda estava zonzo do transe.

– Eu sei, disse que não iria com eles, sei bem o que o clero de caçadores fazem com os vampiros, imagina o que fariam comigo. – Ela sorriu sem jeito.

Gianni ouvia a voz dela longe, porém retrucou um tanto ríspido.

– Pudera, não é? Depois dos crimes que cometeu contra a humanidade, tem que pagar por eles… – andou até uma cadeira e sentou, pondo as mãos no rosto e apoiando os cotovelos no joelho. Sentia uma forte dor na cabeça. – Eu deveria levá-la presa.

– Gianni, sei que fiz muitas coisas erradas. No entanto, atualmente já paguei pelos meus erros e hoje só quero viver em paz. – Ela se abaixou diante dele. – Não mato mais humanos, nem sequer os mordo, apesar de precisar do sangue de sua espécie para viver, na maioria dos casos recebo de bom grado, outras compro em bancos de sangue… – Ela se justificava a ele, queria que acreditasse nela. – O vampiro rei pune quem descumpre o tratado, mas se você mostra arrependimento ele lhe dá outra chance e foi o que me aconteceu.

Uma explosão e a porta do quarto veio abaixo junto com parte da parede e pedaços de pedras e cimento das paredes do quarto voaram para todo o lado, Lya usou as sombras para protegê-los e, ao afastar as sombras, recebeu o primeiro tiro de ataque de padre João.

Maledeta… – Ele atirava sem parar e ela recebeu o segundo tiro.

Lya caiu com o baque dos dois tiros, o primeiro acertou o ombro e ela grunhiu alto de dor, as balas eram preparadas para matar sangue puros, recebeu o segundo tiro na altura do abdômen, seu corpo agora sangrava muito e para se proteger usou novamente as sombras.

Gianni levantou assustado do chão e tentou ir até ela, mas parou ao ouvir o grito de padre João para não interferir.

– Para com isso, ela já está abatida é só prender. – Ele gritou de volta.

– Não… Ela teve a chance de ir por bem, não concordou e agora vou levá-la nem que seja morta. – Apontou a arma para disparar novamente.

Lya, mesmo coberta pelas sombras, ainda assim tinha perdido sangue e aquelas balas eram dolorosas demais, arrastou-se até a sacada.

Naquele momento Michael entrou no quarto e atacou padre João, que lutou com ele ainda com a arma nas mãos. Miguel estava no andar de baixo enfrentando Rodney.

– PADRE SALVATORE!!! VÁ CUMPRIR SUA MISSÃO E AJUDE PADRE MIGUEL, ELE ESTA SOZINHO, VAI AGORA!!!

Gianni olhava Lya e confuso pensava em ajudá-la, olhou para João e negou com a cabeça indo até a vampira e ajudou-a a levantar.

Michael desferiu socos contra o padre, que conseguiu desviar atirando em seguida contra ele acertando no braço, o vampiro gritou de dor e olhou-o furioso com o braço escorrendo sangue. Gianni ajudou Lya a ir até a sacada e parou de pé ao seu lado. De repente, saltando e parando de pé na sacada, um vampiro de capa escura e olhos negros olhou para ambos e retirou de dentro do seu sobretudo uma arma e apontou para dentro do quarto.

– Como ordenado pela minha senhora, Lya, irei acabar com esse impasse. – O vampiro disparou dois tiros dentro do quarto e virou para o casal na sacada. – Padre morto, minha senhora, conforme ordenado. – Curvou-se e saltou da sacada saindo em disparada pelo jardim.

– Não… – ela mal conseguia falar, a dor dos ferimentos eram fortes demais.

Gianni soltou-a e caminhou até a porta do quarto, seus olhos arregalaram-se ao ver o corpo de João estirado no chão com um tiro na cabeça.

– Não… João… por Dio… Não… – Andou até ele e abaixou. Tentava ajudar, mas já estava morto, fora um tiro fatal.

Michael estava se arrastando pelo quarto e olhou para Gianni, farejou o alto e foi até Lya que estava ao lado da porta da varanda que levava a sacada.

Rodney apareceu correndo e ferido, viu a cena e não se importou com eles, foi até Lya e a segurou levando-a no colo.

– Mataram o outro padre, vamos fugir… – Rosnou irritado para Michael que concordou.

– Não… Gianni… Eu mandei eles irem embora… – Ela já estava prestes a perder a consciência enquanto balbuciava aquelas palavras.

Rodney correu até a sacada e saltou com a pura nos braços sendo seguido por Michael. O trio sumiu na noite pelo jardim abandonando o lugar.

Gianni estava em estado de choque e mal raciocinava, ele falhou, falhou com seus amigos, falhou com a missão e Lya ordenara aquilo… Ela mandou matá-los. Sua cabeça girava e mesmo depois daquele estado ainda assim só tinha aquela visão do enorme vampiro de negro na sacada disparando contra o padre.

Os padres foram enterrados com cerimônia honrosa pela Igreja, o arcebispo estava muito sério e preferiu dar a padre Salvatore o direito ao luto de seus amigos, mas sabia que uma hora ou outra teriam que conversar. Passado aqueles primeiros sete dias e após a missa de sétimo dia da morte dos padres, chamou padre Salvatore para uma conversa.

– Entre, padre, acredito que agora possamos conversar. – Dom Emanuel olhava Gianni, que estava sério e mal falava depois do ocorrido. – Sente-se, padre, eu gostaria de lhe falar…

– Eu quero caçá-la. – Ele olhou-o sem uma expressão definida. – Preciso de recursos e um afastamento da Igreja, vou encontrá-la e trazer para o arcebispo. – Ele estava decidido.

– Padre Salvatore, vamos com calma e por partes, não pretendo perder mais um padres ao mandar caçar essa sangue puro. – Ele estava assustado com a expressão na face do padre.

– Dom Emanuel, irei caçá-la, com ou sem sua ajuda. – Levantou para retirar-se.

– Espere, padre Salvatore, não posso deixar que vá assim, deixe-me falar com alguns membros do clero sobre essa missão, aguarde aqui, por favor. – Dom Emanuel levantou e saiu rapidamente de seu gabinete.

Gianni continuava com sua expressão apática e uma mistura de ódio e dor.

“Não cumpri minha missão como deveria e agora eles morreram, padre João e padre Miguel, vou achá-la e fazer pagar nem que eu morra tentando, mas ela irá pagar.”

Gianni sentia-se traído por Lya. Descrente de sua fé, tudo que acreditava ruíra e ele só queria caçá-la para se redimir de suas falhas.

Dom Emanuel voltou minutos depois e parou diante de Gianni.

– Concordaram em apoiar com recursos e aparatos para sair em busca da Dama Negra. – Ele estava muito preocupado. – Tem certeza que dará conta? Podemos deixar uma equipe de apoio.

– Agradeço, Dom Emanuel, mas essa missão é única e exclusivamente minha, como disseste antes, não podemos mais perder padres atrás desse demônio. – Entregou a ele suas vestes de padre que estava na sacola. – Agora sou somente o caçador, o padre não existe até que eu traga-a para vós.

Dom Emanuel olhou-o e suspirou baixo, pegou as vestes e cuidadosamente colocou sobre a mesa.

– Somente posso desejar boa sorte e … – Pegou a pasta sobre a mesa – São todos os relatos que temos sobre a Dama Negra, segundo fontes de investigação, fugiu de Roma rumo à Paris, na França. – Triste ele estendeu a mão e deu a benção ao ex-padre. – Que Dio o acompanhe.

Gianni agradeceu e pegou a pasta saindo em seguida, mantinha a face inexpressiva e deixou o convento, pegou um táxi para ir à paróquia e se preparar para o começo daquela caçada. Era questão de honra acabar com ela de uma vez por todas.

No convento, Dom Emanuel estava olhando para o nada pensando em tudo ocorrido quando sentiu uma leve brisa passar pelo seu rosto, ao virar o olhar curvou a cabeça cumprimentando-a.

– Agistes muito bem, Dom Emanuel, fico satisfeita com seus préstimos e isso lhe garantirá status diante de todo clero. – Bragatti estava sentada elegantemente no sofá de frente a mesa do arcebispo que olhou-a insatisfeito.

– Não sei se realmente foi correto deixá-lo ir atrás da sangue puro.

– Claro que foi correto. – Ela levantou e andou de forma sedutora até a mesa do arcebispo. – Eles irão se digladiarem até que um tombe ou ambos. – Sorriu satisfeita. – Afinal de contas, eu quero ambos mortos e ver esses embates será muito divertido.

A vampira sumiu com a mesma brisa que a trouxe, deixando no ar o som de sua voz satisfeita pelo plano ter dado certo.

Tema do Episódio Slipknot - Snuff

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Andrea Bertoldo

    Muito esclarecedor e emocionante como sempre,Isa.Parabéns! Deu saudades do nosso rpg.rs ^^

    • Isa Miranda

      Revelações e mais mistérios rs Obrigado Dea fico grata por acompanhar. Eu também estou com saudades do RPG acho que semana que vem já dá pra voltar sem ter tanto corre corre …rs