A Dama Negra Nocturna V – Ritorno al passato Parte I

A Dama Negra Nocturna V – Ritorno al passato Parte I

Nocturna V

Ritorno al passato Parte I

“Existem momentos em que só a embriaguez

da alma suporta o nosso dito viver.

Sobrevivermos a tudo o que nos derrotou.

Continuamos em frente e, um dia,

percebemos que viver com consciência

torna-nos não mais fortes,mas mais humanos.”

Aquela tarde em Roma seria a decisiva para sua vida, estava prestes a descobrir um mundo que no futuro próximo não saberia lidar. Seria assim que o padre chegaria ao seu limite, que sua fé ruiria.

Gianni estava certo de sua vocação, seu desejo era servir a Deus, vivia somente para tal missão, no entanto, haviam pouco lhe falado das tradições e segredos de sua família que, após a morte prematura de seu pai quando ainda era menino, foram deixados de lado por sua mãe. A mulher repudiava o clero e sempre falava ao filho que deveria seguir outros caminhos, talvez a mãe soubesse o terrível destino ao qual ele estava prestes a enfrentar.

Ele levara a ferro e fogo o desejo de servir a Santa Igreja, mesmo com as queixas de sua mãe, que todos diziam ter enlouquecido com a perda do marido. Mesmo assim, ele entrara para o seminário, começara seus estudos cedo, mal havia entrado na adolescência. Foram anos de servidão e estudos religiosos afastado de sua mãe. A mulher surtava quase sempre e seus surtos resultaram em uma internação no sanatório da cidade. Avisado do estado de perda de lucidez, Gianni, que acabara de completar 18 anos, deixara o seminário e voltara a sua casa.

A viagem de encontro com a sua mãe seria um teste para suportar a dor do passado, recordando do dia que o pai havia falecido, o dia que sua mãe perdera a lucidez.

Quando era criança, Gianni era muito arteiro. Quebrava desde objetos de vidros até portas e janelas, mas quase sempre era por descuido e distração. Apenas queria brincar e, quando percebia, algo já estava quebrado. Um dia, o pai, irritado consigo por ter derrubado os livros de uma estante, estante essa que sequer chegara a tocar, colocou-o de castigo sentado em uma poltrona que ficava do lado de sua cama. Como sentiu raiva de seu pai, desejou que morresse, como muitas crianças desejam ingenuamente em momento de raiva a seus pais. O filho dormira sentado na poltrona e pouco tempo depois fora acordado por usa mãe, entrando no quarto desesperada, gritando aos prantos. Ao que parecia, fora ela que constatara o pior: o seu pai morrera dormindo.

Ainda hoje, depois daquele trauma, Gianni ainda escutava a voz dele enfurecido e mandando-o para o “castigo” por algo que sabia que não fizera. Lembrara-se que ele nunca o tirara do castigo e de como ficava irritado com o filho quando esse levantava sem a sua autorização. Autorização essa que nunca teria. Às vezes se perguntava se estava ficando louco em ouvi-lo mandando-o ficar de castigo, ou se ele morrera tão enfurecido consigo que ainda o queria de castigo. Por precaução, quando ainda morava em sua casa entrava naquele velho e abandonado quarto e se sentava na poltrona, torcendo para a voz de seu falecido pai vir de algum lugar lhe dando permissão para que finalmente visse livre daquele castigo.

Preocupado com o estado mental de sua mãe, deixara seus pertences naquela velha casa e fora até o sanatório, onde estava internada.

– Gianni, mio figlio. – Ela sorriu estendendo os braços para recebê-lo.

– Mama…- Desperto daquelas antigas lembranças ele abraçou-a afagando suas costas, sentia saudades dela. – Como se sente? – Ajeitou-se sentando ao lado dela.

– Gianni, figlio escuta tua mama, deve deixar a Igreja, vá para longe, muito longe. – Ela olhava para os lados, falando baixo com medo de ser ouvida. – Os monstros vivem e virão buscá-lo, eles prometeram se você fosse para a Igreja. Gianni, ouça tua mama, vá para muito longe. – Ela tocou o rosto do filho com preocupação.

Gianni inspirou fundo e sorriu gentil, apesar de está muito preocupado com o estado de sua mãe. Havia piorado conforme lhe relataram. Segurou sua mão e em seu íntimo orou por ela.

– Mama, quero que fique boa logo, cuidarei da senhora. Mas para isso precisa tomar os remédios e logo irá comigo para casa. – sorriu novamente.

A mulher de cabelos longos castanhos que caiam em ondas até a cintura, inclinou a cabeça e ficou com olhar perdido no nada.

– Gianni?!…Você viu meu Gianni? – Olhou-o.

– Estou aqui mama.

A pobre mulher mal reconhecia o filho, seu semblante era apático e o olhar perdido no nada. Começou a cantarolar uma canção de ninar e murmurar palavras sem sentido.

Gianni estava tenso e preocupado com a mãe. Logo após falar com os médicos deixou o sanatório e voltou ao seminário para continuar seus estudos religiosos. Visitava a mãe uma vez por semana quando lhe era permitido e a cada visita notava que seu estado mental só piorava. Fora quase dois anos internada sem melhoras, até ela vir a falecer, segundo laudo, de infarto. Sua família agora se resumia a ele, não havia mais nenhum Salvatore.

Gianni se tornou diácono aos 25 anos, formando-se em Teologia. Continuara seus estudos a fim de servir mais e mais a Igreja, saíra em missões em alguns países do terceiro mundo para levar acalanto e a palavra de Deus aos que haviam perdido a fé. Após, passarem alguns anos, voltara a Roma e fora convidado para congregar em uma igreja na Rione Sant’Angelo, cidade conhecida como o gueto de Roma, alguns quilometros do Vaticano. Seus esforços e dedicações eram vistos pelo alto clero da Igreja, afinal o jovem padre exercia seu sacerdócio com fervor. Uma fé inabalável, diziam muitos dos seus amigos de congregação. Amigos esses que o consideravam mais que isso, eram como irmãos e quase sempre viam os três juntos.

Padre João e padre Miguel haviam estudado com Gianni desde a juventude, e como receberam missões diferentes separaram-se alguns anos. Com 28 anos, nomeado padre Salvatore, já firme na sua congregação, fora chamado a comparecer a sede do Vaticano naquela tarde de fim de estação, a tarde que sua vida mudaria para sempre.

Ao entrar na sala do Arcebispo Dom Emanuel, encontrou seus dois melhores amigos, fora uma surpresa agradável e o trio estava alegremente conversando sobre as missões e trabalhos durante o período que ficaram afastados.

– Caro amigo, ficamos felizes em voltar a revê-lo, eu e padre Miguel estávamos em missão nos países mais pobres há alguns anos. – Padre João apontou o lugar e os três sentaram para conversarem enquanto aguardavam o arcebispo. – Lembrávamos muito de ti, padre Salvatore. – Sorriu.

– Eu sempre recordava de nossas conversas e sentia saudades daquele tempo no seminário. – Gianni estava feliz e sorria junto com eles. – Estive em missão na África por alguns anos, até ser chamado para retornar a Roma.

Padre João, apesar de sorrir e concordar com todos, tinha um olhar analítico para Gianni.

– Soubemos, chegamos até cogitar procurá-lo na África, mas por diversos problemas não tivemos oportunidade em lhe visitar. – Miguel olhou João notando que estava avaliando Gianni.

– Seria uma boa visita, fiz um bom trabalho lá, a vila em que fiquei é muito pobre, mas com ajuda conseguimos diversos recursos e ao menos deixei esperança àqueles cidadãos, e, claro, a fé reforçada.

– Padre Salvatore, você acredita em monstros? – Padre João foi direto, olhava-o sério.

Gianni olhou-o um tanto confuso com a pergunta fora do assunto, pestanejou até que respondeu.

– Eu acredito que possa haver pessoas capazes de monstruosidades. Lá na África, presenciei algumas das atitudes e até crendices que faziam eles cometerem atos monstruosos em nome de tradições e cultura. – Sorriu sem jeito. – Instigou-me a pesquisar mais sobre a história da evolução do homem e do mundo, religiões e, claro, o que a ciência diz sobre psicológico e físico em um contexto geral, atualmente sou quase formado em Antropologia, falta um semestre.

– Muito bom, sabemos o quanto é curioso e, claro, sua dedicação ao conhecimento é o que faz de sua fé ser inabalável. – Padre Miguel enaltecia o esforço do amigo.

– Eu fico contente em saber, mas a minha pergunta é bem aquém disso, o que quero saber é se acredita em monstros. Vou ser mais específico. – Padre João abriu seu paletó e tirou do bolso seu caderno de couro do tamanho de sua mão e abriu mostrando a Gianni alguns de seus textos.

Gianni pegou e olhou-os atento lendo cada página, vez ou outra olhava ambos, primeiro com ceticismo e conforme lia foi despertando a curiosidade.

– Eu suponho que isso não seja alguma brincadeira de ambos, certo? – Engoliu seco entregando o caderno de couro ao padre João.

– Queríamos nós que fosse uma brincadeira, mas não é. – Miguel se ajeitou na poltrona da saleta onde os três esperavam.

– Essas criaturas existem e caminham entre nós desde que o homem existe e a igreja tem um clero que vive para exterminá-las do mundo, erradicar esse mal é nossa missão. – Padre João estava bastante sério enquanto contava sobre a real missão dos dois.

– Vampiros… – Gianni ainda não podia dizer se acreditava, mas claro que poderiam existir, afinal a existência do mal como demônios era fato, ele havia estudado até para poder realizar exorcismos. – Eu fico até curioso sobre essas tais missões, seria essas que fizeram nesses anos que ficaram fora?

– Sim, íamos caçar vampiros, treinamos e desenvolvemos várias habilidades. Porém, essas habilidades somente são restritas a um grupo especifico, existe uma ordem do clero que somente quem faz parte das antigas famílias de caçadores pode entrar. – Padre João confirmava explicando a Gianni.

– Concluindo o que padre João quer dizer, esse tipo de missão é somente para escolhidos, minha família tem tradições e a de padre João também… – Olhou para João e depois Gianni. – E a sua, padre Salvatore.

Gianni olhou ambos surpreso e em seguida ficou pensativo.

– Então devo concluir que estão aqui para isso, informar que sou um dos escolhidos para caçar vampiros?

Ambos balançaram a cabeça confirmando.

– Arcebispo Dom Emanuel é o que comanda essa parte do clero que é designada a caçar as bestas, ele vem observando-o a um bom tempo e acredita que agora está preparado para a missão. – Padre João confirmou o interesse do arcebispo.

Gianni inspirou fundo e olhou-os tenso, afinal lidar com conflitos de tribos no Congo era demasiado complicado, imaginava agora com aquelas criaturas.

– Eu não sei se realmente estou pronto para tal missão, afinal o que sei sobre essas criaturas não passa de filmes e livros, esses aos quais só ouvi falar, nunca me interessei em ler ou ver. – Apertou o rosário entre os dedos e os olhou novamente. – Claro que ouvirei o que o arcebispo tem a me falar, mas…

– Padre Salvatore, nós sabemos que é muita informação para assimilar de imediato, óbvio que não iremos colocá-lo de frente a essas criaturas sem preparo, por esse motivo que estamos aqui, viemos a pedido do arcebispo para lhe auxiliar na aprendizagem e treinamento.

Gianni concordou com a cabeça. Apesar de ainda estar tenso com toda aquela informação, aguardou o arcebispo enquanto ouvia mais detalhes de seus dois amigos, relatos de caçadas que participaram e que logo Gianni começaria os estudos e treinamentos até poderem sair a campo para uns testes.

O arcebispo entrou na sala e chamou o trio, Dom Emanuel estava sorridente e muito confiante com a escolha de padre Salvatore, sabia que a família dele era uma das mais antigas e que a linhagem de caçadores era passada de geração a geração.

– Padre Salvatore. – Estendeu a mão e segurou a de Gianni com um semblante satisfeito, ele tinha um sotaque oriental carregado ao falar em italiano, denunciando sua nacionalidade japonesa. – Espero que não esteja assustado com as informações que lhe foram passadas. – Soltou a mão dele e apontou as cadeiras de frente a sua mesa onde os três sentaram.

– Arcebispo Dom Emanuel, realmente confesso que ainda estou surpreso e até ansioso com toda essa informação.

– Eu posso imaginar. – Dom Emanuel pegou umas pastas de dentro de uma gaveta e colocou-as sobre a mesa. – Eu pedi que padre João e padre Miguel viessem para lhe ajudar, nada melhor que seus irmãos para explicar algo que possivelmente seria surreal. No entanto, para toda lenda sempre há um fundo de verdade, é proposital que a “lenda” dos vampiros continue lenda. – Abriu a pasta onde tinha um relatório de toda linhagem dos Salvatore. – Veja, esta é a história de sua linhagem e de como serviram a Igreja na caçada a essas criaturas. – Entregou ao padre.

Gianni pegou a pasta e olhou curioso todos aqueles relatórios, ficou em vários momentos boquiaberto por descobrir que até seu pai fora um caçador, porém era ligado a outro grupo fora da igreja.

– Dom Emanuel, isso tudo, todos esses relatórios sobre minha família, nunca soube desses fatos. – Virou o olhar aos dois padres que estavam curiosos com o conteúdo da pasta, depois voltou a falar com o arcebispo. – E o meu pai, ele não servia a Igreja? Então, essa Sociedade de Caçadores não está ligada ao Vaticano?

– Realmente, existe outro grupo de caçadores que não são ligados a Igreja, eles usam de outros métodos e claro seguem um acordo feito com vampiros. – Olhou sério Gianni. – Seu pai era um ativista dessa Sociedade e seguia as regras estipuladas por eles.

– São muitas informações, realmente precisarei de um tempo para assimilar tudo isso. – Olhava para a pasta e lia por alto alguns textos sobre a origem de sua linhagem.

– Não se preocupe, terá tempo para conhecer tudo e logo estará preparado para assumir a missão, os padres João e Miguel estarão juntos para lhe auxiliar nessa fase de aprendizagem. – Olhou os três. – Posso contar com sua ajuda, padre Salvatore?

Gianni olhou a pasta e depois o arcebispo, estava ainda muito tenso com toda aquelas informações.

– Não se preocupe, padre Salvatore, eu e Miguel iremos lhe auxiliar. – João falou sério.

– Está no seu sangue, vai ver que não terá tantas dificuldades conforme for aprendendo e treinando. – Miguel estava empolgado.

– Vou precisar realmente de auxílio. – Voltou a face ao arcebispo. – Toda missão em nome de Deus é válida, claro que ajudarei.

Satisfeito, o arcebispo sorriu e levantou de sua cadeira dando a volta na mesa. O trio de padres e os dois caçadores ficaram de pé, e de frente a Dom Emanuel selaram aquela nova empreitada, auxiliar o novo caçador de vampiros.

Dom Emanuel, informou para os padres mostrarem o arquivo, o material e livros para que Gianni estudasse sobre aquelas criaturas noturnas. Ao pegar aquele material, ele voltou a sua pequena congregação e passou a estudar aqueles relatórios, livros e arquivos sobre os vampiros e caçadas. Pouco tempo depois fora levado pela dupla a um convento fora da cidade, local onde os caçadores da igreja treinavam. Lá conheceu as armas forjadas para eliminar vampiros, assim como estilos de luta, estratégias de caçada e rituais para aprisionar as bestas em itens sacros afim de domesticá-las. Como haviam previsto, estava no sangue de Gianni, ele aprendia com muita facilidade chegando até a surpreender os mais experientes dos caçadores com sua agilidade e perspicácia. Criava estratégias de ataque e captura, além de ter desenvolvido bem as habilidades de luta.

Finalmente após dois anos fora liberado para fazer pequenas caçadas de reconhecimento, saía sempre acompanhado dos padres Miguel e João. Ele já havia visto muitos vampiros durante o tempo de treinamento, alguns eram horrendos e praticamente feras irracionais. Outros tinham uma postura bem altiva e se camuflavam portando-se praticamente como humanos. Porém, ainda assim cometiam crimes e assassinatos pela sede de sangue, eram caçados e exterminados, outros levados para o convento para serem estudados, depois eliminados quando não havia mais interesse da Igreja em mantê-los vivos.

Gianni algumas das vezes questionava a finalidade de manter aquelas criaturas presas, porém a justificativa era sempre a mesma, estratégia para aprender mais sobre as feras sedentas e assim poder eliminá-las com maior eficácia.

– Padre Salvatore, primeira noite em campo, como se sente? – Miguel estava terminando de guardar suas armas por baixo do longo casaco negro quando viu Gianni entrar no vestuário.

– Ansioso. – Sorriu tenso e fez o mesmo, guardou as duas armas e alguns itens para prender vampiros por dentro do casaco pesado, aquela noite estava fria e eles teriam que entrar em uma ruína antiga.

– Padre Miguel sempre fica eufórico com uma caçada. – João riu ao entrar no lugar e pegar uma sacola com armas para levar ao carro. – Vamos logo, quero chegar em casa e comer um maravilhoso ravióli.

– Pecado da gula, padre João… – Miguel provocou.

– Gula? Não, somente aprecio o que temos de bom, é bem diferente. – Saiu sorrindo, deixando ambos terminarem de se preparar.

– Ei, padre Salvatore, vamos fazer dessa forma, sigo na frente e você atrás, padre João nos dará cobertura, está tudo bem?

– Por mim tudo bem, vamos…? – Terminou de se arrumar e saiu, sendo seguido por Miguel.

Entraram no carro e pouco tempo depois estavam nas ruínas da antiga Roma, lá saltaram do veículo e entraram em busca de um possível ninho de vampiros. Após pouco tempo de caminhada encontraram vestígios de que haviam realmente feito daquele lugar um refúgio.

– É um grupo pequeno, já que estão concentrados somente nesse lugar. – Analisava João. – Vamos marcar o lugar, deixar uma surpresa para eles. – João preparou uma armadilha fincando pequenas estacas de metal nas pedras, formando um círculo em torno do lugar. – Assim que um deles pisar aqui vai ficar preso sobre o rito de enlace.

Gianni sacou sua arma e olhou em volta com a mira apontada para dar cobertura ao padre que preparava a armadilha. Miguel fazia o mesmo no lado oposto quando ambos notaram movimentos vindos da entrada das ruínas. Fez um gesto com a mão para Gianni, que concordou em segui-lo. João foi logo atrás deles dando cobertura.

Entraram nos labirintos de pedra daquele lugar, usavam óculos de visão noturna e aparatos para proteção do pescoço e braços, geralmente as regiões atacadas, que evitavam as mordidas e repeliam as bestas.

De repente um rosnado alto chamou atenção do trio que rapidamente se preparou para o ataque. O rosnado enfurecido vinha de fora e João sorriu no canto dos lábios.

– Pegamos um. – Sussurrou aos dois. – Vamos. – Apontou com a cabeça para continuarem.

Novamente rosnados foram ouvidos, daquela vez vindo de dentro das ruínas. E conforme eles caminhavam puderam notar que havia sons de briga, possivelmente entre os vampiros. Quando se aproximaram de um local mais aberto esconderam-se para ver o que estava acontecendo. Havia no centro do espaço uma disputa, três vampiros contra outros três se enfrentavam, possivelmente uma disputa territorial.

– Disputa, possivelmente de território, o grupo dos três machos estão perdendo. – Falou a ambos os padres. – Vejam, vão começar… – Virou o rosto para o centro daquela disputa.

Haviam três vampiros machos de um lado, dois deles estavam feridos e o terceiro a frente deles ao que parecia protegendo-os. No lado oposto, dois machos e um terceiro que não era possível identificar no momento já que vestia um sobretudo longo e capuz. Presumia-se ser mais vulnerável que os outros dois, já que a silhueta era mais fina e a criatura mais baixa que os demais. O vampiro negro partiu para o ataque com um bastão e golpeou o outro que havia se distraído tentando ajudar os feridos, um dos feridos usou seu dom e conjurou fogo apontando para o de capuz, que imediatamente usou sombras para se proteger. O terceiro vampiro que protegia o que usava capuz, avançou para os demais para o ataque corpo a corpo. Aquele que havia usado as sombras como proteção afastou-se lentamente, porém um dos vampiros feridos o que não estava na luta direta com os demais, rastejou rápido se transformando em uma serpente atacando aquele de capuz. Imediatamente usou o braço para se proteger, no entanto fora mordido e um grito de dor ecoou nas ruínas denunciando aos padres que o de capuz era uma fêmea. Os vampiros que estavam lutando voltaram seus olhos para ela, rosnaram enfurecidos e finalizaram com golpes certeiros no peito de cada um que lutavam fazendo-os virarem pó. A serpente que atacava enroscou-se na fêmea tentando esmagá-la e foi agarrada pelo vampiro negro esmagou com uma mão abaixo da cabeça e apertou arrancando-a com a outra mão. O outro vampiro ajudou a fêmea a tirar o resto do corpo da serpente de si e amparou tirando-a daquele lugar. Os três entraram novamente no labirinto e sumiram nas sombras.

– Menos três para nós. – João afastou-se e chamou ambos os padres para segui-los. – Esses vampiros são fortes, principalmente aquele maior, o negro, ele esmagou com uma mão o que virou serpente.

– Vamos capturá-los? – Gianni questionou um tanto receoso.

– Não. – Miguel negou rapidamente. – Eles são fortes, você ainda não está pronto para enfrentá-los. – Voltou a face a João. – Esses três devem estar a pouco tempo na cidade.

– Possivelmente.

Saíram voltando pelas ruínas atentos para não esbarrarem com o trio, foram para o local onde João havia preparado a armadilha e ao chegar notaram que no centro do lugar havia um amontoado de cinzas. Ainda com a arma preparada ele olhou em volta apontando a mira preventivamente.

– Eliminaram nossa caça.

– Eles sabem que estamos aqui. – Miguel fez uma careta, irritado.

– Não vão atacar? – Gianni estava cada vez mais tenso.

– Possivelmente sim, acabaram de lutar e uma está ferida, vão querer sangue para recuperar as forças, preparem as armas. – João engatilhou a sua arma e apontou a mira para frente, olhando em todo lugar. – Vamos voltar para o carro e sair daqui antes que ataquem, mas cuidado pode vir a qualquer momento.

Voltaram para o labirinto de pedras, daquela vez tomando o rumo da saída até o carro, foi quando uma rajada de vento atingiu o trio com tanta força que os derrubou. Gianni mal conseguira levantar quando sentiu uma mão agarrar sua roupa e lhe arrastar com tanta velocidade que fora jogado longe e separado dos outros dois. Ele gritou assustado quando foi solto em um beco sem saída nas ruínas, puxou de dentro do casaco outra arma e apontou para frente. Estava apavorado, respirando rapidamente, seu coração batia tão forte que quase saia pela boca, acuado naquele beco apontou a mira para frente.

– Maledetto… – Viu um par de olhos vermelhos no fundo se aproximar e atirou, porém os mesmos sumiram antes de serem atingidos.

– O caçadorzinho está perdido. – A voz rosnada ficava tagarelando provocando Gianni.- O mais fraco de todos eles e vai virar minha refeição. – Riu alto se divertindo. – Venha até mim, minha presa. – Os olhos vermelhos na escuridão avançaram até Gianni.

O caçador começou atirar sem parar tentando acertar a criatura, até que a viu saltar sobre ele. Tentou se defender enquanto a besta rosnava enfurecida na tentativa de mordê-lo e bloqueou-a com a arma que já não havia mais balas para atirar.

– Tsc, tsc, tsc… – Uma voz baixa e suave veio de trás dele e a criatura parou de atacar Gianni, virando o rosto com uma expressão apavorada. – Bestie como ti dão-me asco… – As sombras moveram-se como serpentes até a criatura arrancando-a de cima de Gianni e envolvendo-a por completo.

Gianni levantou rapidamente e procurou a arma, encostou na parede de pedra nos fundos e inspirou forte assustado, viu as sombras engolirem a criatura, que se debatia desesperada e logo em seguida sumirem deixando no lugar somente cinzas.

A vampira ainda estava de capuz quando virou a cabeça e olhou-o por cima do ombro, era realmente pequena perto de Gianni. Quando baixou o capuz para vê-lo, ele pode notar a pele alva e cabelos tão claros que beiravam ao branco. Seus olhos claros cruzaram com o dele levando o caçador a estremecer.

 – Precisas ser mais atento, cacciatore, assim acabarás morto – Falava em um italiano mais arcaico. Sorriu e depois fez uma leve careta de dor e olhou para o braço que tinha um ferimento profundo, levou-o até os lábios e lambeu o lugar murmurando baixo sentindo a cada lambida o dolorido da ferida.

– Não… – engoliu seco, ainda estava tenso devido ao ataque que sofrera. – Não vai me atacar?

Ela parou o que fazia e olhou-o por debaixo dos cílios, sorriu em seguida farejando-o de onde estava.

– Seria gentileza sua, doares um pouco de seu nectar, já que salvei-lhe a vida. – Ela caminhou até ele, delicada farejando o ar, andava lento quase como quem flutuasse parando a poucos centímetros do padre. Ergueu a cabeça e olhou-o nos olhos sorvendo o ar a sua volta, quando os olhos mudaram de cor ficando vermelhos.

– Eu… – Gianni afastou-se, porém estava preso àquele olhar, seu peito quase arrebentava pelo coração que batia com força, deixando-o sem fôlego.

– Il tuo sangue, tem um aroma tão bom… – A vampira levantou a mão e tocou-o na face com as pontas dos dedos. – Quem és tu, cacciatore? – Ela passou as pontas dos dedos desenhando sua face, chegou aos lábios e tocou-os.

– Eu… sou…- Gianni mal conseguia evitar o contato dela, aquelas sensações eram estranhas, estava assustado de fato, mas ao mesmo tempo sentia empatia. Uma famialidade com aquela presença, que apesar da adrenalina do momento, ainda assim, sensação de que não precisava teme-la. – Padre Salvatore.

– Padre? – Ela arregalou os olhos e afastou-se dele tão rápido que mal ele pode ver onde ela estava. – Tua benção, padre?

– Benção?! – Negou com a cabeça. – Não há como dar benção a criaturas malignas como vocês. – Gianni falou sem pensar, no automático.

A vampira rosnou baixo e quando ia avançar para perto dele foi chamada pelos dois vampiros que lutaram antes com ela. Ela olhou para eles que estavam no inicio do corredor, voltou a face para Gianni e puxou o capuz para cobrir novamente a cabeça.

– Não te esqueças, padre, foi uma creatura malvagia que poupou-lhe a vida. – Em seguida a vampira sumiu nas sombras e a dupla ao longe olhava Gianni alguns segundos antes de desaparecer na noite fria.

Gianni respirou aliviado e dobrou o corpo para frente apoiando as mãos nos joelhos, sobrevivera por um milagre, ou pior, com ajuda daquela vampira. Foi quando se deu conta de que ela poderia ter se alimentado dele e não o fez, mesmo ferida. Sentiu a palma das mãos doerem e olhou-o notando arranhões feitos quando fora arrastado pelo corredor e tentou se agarrar em algo para soltar-se da criatura anterior. Ferido era ainda mais atrativo para ela e, no entanto, não fora atacado. Surpreso pelo fato dela de certa forma respeitá-lo por ser padre, estranhou aquela situação, levantou e caminhou de volta pelos corredores das ruínas. Ouviu ao longe padre João e padre Miguel gritarem seu nome, respondeu em seguida.

– Padre Salvatore, graças a Dio, esta vivo! – Miguel chegou esbaforido e parou ofegante por ter corrido, porém aliviado ao ver Gianni bem.

– Tirando os diversos arranhões…

Padre João chegou logo em seguida analisando o estado do amigo.

– Sobreviveu, por Dio! Fiquei apavorado achando que tinha acontecido o pior. – Passou a mãos nos cabelos e bufou baixo. – Vamos sair logo daqui.

– Estou bem, só quero sair daqui e tomar um bom banho. – Gianni por algum motivo não queria falar nada, apenas voltar ao convento e se tratar.

O trio saiu rapidamente das ruínas e entraram no carro, logo estavam na estrada de volta ao convento.

– Padre Salvatore. – A vampira olhava do alto daquelas ruínas eles partirem.

– Lya, precisamos ir. – O vampiro negro chamou-a preocupado. – Seus ferimentos são graves, precisa se alimentar.

Lya virou o rosto para ele e sorriu um tanto animada. Fez uma leve careta para a dor dos ferimentos, porém ainda assim tinha um leve sorriso nos lábios.

– Lya sorriu? – O outro vampiro esboçou no canto dos lábios um sorriso sarcástico. – Isso é surpreendente. – O vampiro fechou os olhos e se envolveu em penas negras tornando-se corvo levantando voo, seguindo pela estrada rumo a cidade. A dupla de vampiros sumiram na escuridão, deixando para trás o lugar daquela batalha territorial.

Continua…

Música Tema GREGORIAN - THE SOUND OF SILENCE (ANGELS)

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Eduardo Moretti

    Episódio maravilhoso Isa. A batalha, Gianni e Lya se encontrando s2 Quero a continuação!!! Parabéns amiga.

    • Isa Miranda

      E vamos continuar rs Valeu amigo <3

  • Cleber Medeiros

    que lindo e apavorante o encontro dos dois, ou reencontro rsrsrs. Parabéns Isa, maravilhoso

    • Isa Miranda

      E ainda tem a continuação que está bem dark rs

  • Andrea Bertoldo

    Exccelnte como sempre.Flashback muito bom.^^

    • Isa Miranda

      Que bom Dea que curtiu, vem a parte II continuando o flashback rs