A Dama Negra Nocturna IX – O quanto dói a verdade?

A Dama Negra Nocturna IX – O quanto dói a verdade?

Nocturna IX – O quanto dói a verdade?

Mesmo que ele tentasse enxergar, aquela fumaça impedia de ver o que acontecia em meio àquele tumulto de vultos correndo e gritos, uns eram de pavor e outros de fúria. Sentia os olhos arderem lacrimosos, esfrego-os com as pequenas mãos para enxergar mais nítido na fumaça. Olhou para si mesmo não entendendo o que ocorria, era um menino.

Um pesadelo?

De repente se viu sendo agarrado por braços femininos que falavam-lhe para fugir. Não viu nitidamente o semblante daquela mulher, mas havia a sensação de que a mesma lhe era familiar, sentia proteção vindo dela. Correu entre a fumaça até ver labaredas surgirem pelos corredores do que ele podia deduzir ser uma residência. As vozes desesperadas pouco a pouco eram silenciadas, apavorada a mulher tomou-lhe nos braços e fez ele agarrá-la enquanto corria por entres as labaredas, fugia de algo ou alguém. O pequeno menino chorava e tossia conforme ingeria a fumaça.

Pode notar que a mulher por vezes gemia de dor, estava ferida e com algumas partes da roupa queimada. O incêndio destruía o lugar, todos que tentavam escapar eram mortos por seres de negro encapuzados. Agarrado na cintura da mulher o menino sentiu o ar frio da noite atingir seu rosto e pode respirar melhor, tentava olhá-la, ver seu rosto, mas os longos cabelos negros balançavam no ar conforme o vento forte lhes atingiam. Estava frio e ventava muito, a mulher olhava para todos os lados tentando descobrir uma rota de fuga, até sua atenção ser chamada por um homem que se aproximou rápido e puxou-a pelo braço arrastando colina abaixo entre as árvores no meio daquela mata. O menino olhava ao longe as chamas consumirem o lugar, sua morada desaparecia conforme desciam a colina na noite fria daquele lugar obscuro.

“Todos os dias ao me deitar os pesadelos vem, sou atormentado pelas vozes desesperadas e olhares apavorados, minha mente confusa procura sempre uma saída dessa tormenta. Desde que fui jogado nesta nova condição, ser como eles, sou perseguido pelos pesadelos mais cruéis. Ainda me pergunto se seria essa minha punição. Desviei do meu verdadeiro propósito, desviei da minha fé e crenças, curioso que não percebi que me perdia em seu olhar, perdia a minha mente na sua voz e envolvido achava que ela era como eu.

Quero findar minha existência, já diversas vezes nesses meses pensei em tirar a vida que vivo, no que me tornei. Sou como ela? Possivelmente sucumbirei à besta que loucamente grita por sangue dando a mim o desejo irracional de procurá-la. Fugir desse instinto e não agir como animal é uma luta que minha mente trava a cada anoitecer.

Lya…

Sou prisioneiro dela, quero matá-la, mas cada vez que a vejo meu peito dói, cada vez que nos encontramos não resisto ao seu olhar, seu cheiro e seu gosto. Como se algo maior nos ligasse ao ponto de ser inevitável. A sede só passa quando tomo de seu sangue, a sede que arde a garganta só é aplacada pelo sangue da maledeta.

Lya…

Vem à mim… Faça-me com que esqueça a sede, faça-me esquecer a dor dos meus fracassos, já que não tenho como fugir do destino que criei para mim. A dor grita a fraqueza de minha mente. Sou responsável por tudo, sou o culpado por meus irmãos sucumbirem, essa é minha eterna culpa. Culpa que carregarei para sempre até que chegue a hora que finalmente ‘morrerei’…”

Na noite seguinte, conforme a irmã Maria havia dito, retornou à residência onde Gianni estava hospedado com os demais seres noturnos. Mesmo a contragosto do “vampiro” ela não iria desistir, por ele e por sua amizade ajudaria, não iria desamparar o ex-padre que muito lhe dera palavras de conforto e fizera aumentar a sua crença em Deus.

Gianni atendeu a porta, após vê-la parada no lado de fora pelo olho mágico, suspirou baixo um tanto contrariado, já que não concordava com o envolvimento da freira nesse mundo a qual ele ainda desconhecia. Poderia não ser forte o suficiente para protegê-la, no entanto concordou a fim de aos poucos convencê-la a desistir e retornar a Roma.

– Boa noite… – Ela entrou sorridente carregando a pequena mala que trouxera. – Pronto, estou aqui. Agora podemos conversar e descobrir o que está acontecendo, e sobre o seu suposto assassinato. – Colocou a mala em um canto da sala enquanto tagarelava.

Gianni olhava para ela e depois para a mala, franziu as sobrancelhas e por fim resmungou algo em italiano um tanto reprovador.

– Você nem sonhe em ficar aqui, essa residência é praticamente um ninho de vampiros, então desista dessa ideia…

Ela levantou a mão o interrompendo.

– Calma, Gianni, eu trouxe a minha mala, somente isso, não pretendo ficar aqui com todos vocês, não sou tão imprudente assim. – Sorriu abaixando a mão vendo ele expressar alívio com suas palavras. – Bom, isso por enquanto, claro.

Gianni olhou-a insatisfeito, mas ao menos ela não iria ficar naquela residência com eles.

– Não dormi bem, ainda não tenho ideia do que fazer. – Andou pela sala sentando no sofá e passou as mãos nos cabelos um tanto impaciente. – Preciso voltar à Roma, porém, como estou oficialmente morto, não tenho recursos para isso, o dinheiro que tenho já está acabando.

Maria olhava-o pensativa, por fim falou com certa empolgação:

– Eu tenho algumas economias, podemos usar.

– Não, não irá usar suas economias comigo. – Resmungou com ela. – Vou arrumar um trabalho noturno, talvez. Segundo o Sr. Botan, há como conseguir documentos para passar por humano “normal” e trabalhar de noite.

– Pretende juntar dinheiro para a viagem?

– Essa é a ideia.

– E quanto a ela? – Maria perguntou com receio, sabia o quanto ele ficava abalado em falar de Lya.

Gianni fechou a face em uma expressão irritada, não respondeu logo de inicio, parecia ponderar o que falaria para a freira.

– Irmã Maria, não posso dizer ainda como será e o que acontecerá entre eu e a maledeta… – Comprimiu os lábios demonstrando a sua irritação a qual tentava controlar. – Eu seguramente posso dizer que, depois de descobrir sobre meu assassinato, irei exterminar Lya. – Engoliu seco e virou o rosto olhando para a janela do apartamento.

Irmã Maria abriu os olhos angustiada ao ouvir aquelas palavras.

– Essa é sua intenção, morrer junto com a vampira. – Engoliu seco.

Gianni olhou-a pelo canto dos olhos e inspirou chateado.

– Não quero “viver” desta forma, sede e desejo de atacar ficam atormentando-me o tempo que fico acordado. – Engoliu seco. – Agora mesmo esses instintos monstruosos gritam para avançar e atacá-la, tomar o sangue. -Virou o rosto tentando evitar olhá-la.

Quando irmã Maria ia retrucar, o outro vampiro adentrou na sala dançando e cantando alto um sucesso tocado nas rádios All Star da banda Smash Mouth, que ouvia em seu walkman com os fones no último volume. Aquela cena acabou aliviando o clima tenso entre Gianni e Irmã Maria que olharam Greg e sorriram um para o outro.

– Como é?

– O que? – Gianni olhou-a tentando entender a pergunta.

– Como é estar com vampiros? Olho o Sr Greg e o Sr William e ambos são até gentis comigo.

– Gentis até a página dois… – Gianni olhou o vampiro tatuado que ainda dançava desengonçado e cantando.

– Eu já havia me acostumado com a presença de um vampiro e desde que me tornei um…

– Desde quando? … – Ela sentou no sofá enfrente a ele. -Digo, como assim acostumado?

Gianni sabia o que ela faria diversas perguntas.

– Pode perguntar, irmã Maria, afinal está ajudando, nada melhor que saber a verdade.

Ela estava receosa, ponderando se iria ou não questionar, inspirou fundo e falou pausado e suave .

– É verdade que recebia as visitas da vampira na igreja ?

Gianni fitou-a uns segundos e depois, parecendo um tanto constrangido, contou -lhe das visitas de Lya à igreja e que no começo tinha medo dela, com o tempo ficara tão a vontade que já não a via como alguém diferente dele. Enquanto o ex-humano relatava sobre as conversas, havia um pouco de entusiasmo e seus olhos algumas vezes brilhavam como quem se lembrasse de algo bom.

Irmã Maria ouvia tudo calada e atenta a cada palavra, começou a notar aquele entusiasmo até perceber que o contato do ex-padre com a Dama Negra era maior e vinha antes dele ser ligado a ela por laço de senhora e transformado. A jovem freira inspirou baixo sem saber se ficava chocada ou se continuaria a ajudá-lo. Lya tinha, de certa forma, poder sobre ele. Talvez eles nunca mais tivessem paz, e Gianni viveria nessa eterna disputa de sucumbir a ela ou fugir de algo que nem ele mesmo conseguia aceitar.

Apesar de jovem Maria não era tão ingênua, e muito menos ficar trancada em um convento lhe deixara alienada do mundo. Ela percebia algo entre ele e a vampira além do que até mesmo Gianni imaginaria sentir, eram sentimentos fortes e isso a incomodou ao ponto de se perder distraída em seus pensamentos e não notar se chamada pelo amigo e o outro vampiro que parara de cantar e estava de pé com expressão intrigada olhando- a.

– Irmã Maria…? – Gianni falava perto dela preocupado. – Esta sentindo algo? Chamei-a várias vezes.

Irmã Maria sorriu sem jeito e balançou a cabeça negando.

– Estou bem… É que… Me perdi aqui em umas coisas que lembrei que tenho que fazer… Desculpe, Gianni, eu ouvi o que disse, é compreensivo e…

– Compreensivo?! – Ele levantou e chateado andou pela sala. – Padre Miguel e Padre João foram mortos por minha culpa, eles estavam tentando cumprir a missão e eu não, por estar justamente preocupado em ajudar uma vampira. – Gianni andava feito um animal encurralado de um lado para o outro falando em italiano e gesticulando, vez ou outra passava a mão nos cabelos. – Não deveria ter deixado ela se aproximar.

Irmã Maria levantou e fazia gestos com a mão para ele se acalmar.

– Não fique assim… Vai conseguir resolver tudo. – Ela se direcionou para porta. – Eu realmente lembrei que deveria ter entregue algo ao Arcebispo de NI, então amanhã à noite venho.

Greg os olhava e voltou a por o fone nos ouvidos dando de ombros, mesmo assim ficou tagarelando algo a Gianni.

– Melhor deixá-la ir… Vamos ter que sair e ao lugar que vamos com certeza ela não poderá ir. – direcionou-se para o corredor que levava ao seu quarto.

O ex-humano parou perto da porta e em silêncio concordou com a cabeça, abrindo-a em seguida.

– Existe uma situação que preciso resolver, então peço que não volte aqui até que eu lhe mande uma mensagem.

Irmã Maria olhou-o um tempo. Certo que ela retrucaria, já havia preparado um bom argumento para convencê-la de que era a melhor solução se manter longe daquele lugar, mas foi surpreendido com ela concordando.

– Tudo bem, vou esperar sua mensagem. – Despediu-se e saiu deixando o lugar, a jovem freira estava com uma estranha sensação.

Que lugar é esse que eu não posso entrar? Possivelmente algum reduto de vampiros ao qual, certamente eu sendo humana, serei um chamariz perfeito e até virarei refeição se for com eles.”

Durante o percurso até a sede católica onde iria encontrar o arcebispo, ficou analisando os fatos sobre Gianni e Lya, tomara o táxi e o trânsito aquele horário ainda era intenso, levaria mais que o dobro da hora até chegar à catedral de Nova Iorque. Enquanto estava no veículo, questionamentos começaram a surgir, dúvidas sobre a conduta de Gianni como padre ao receber Lya naquele período na paróquia a deixavam tensa e preocupada.

Ele se afeiçoou a ela, mesmo antes de ser transformado, a recebia na igreja dando atenção como se ela fosse mais uma fiel como aquelas beatas.”

Irmã Maria tinha quase certeza que algo além acontecera, possivelmente justificaria muito dos fatos que levaram àquele possível assassinato forjado de Gianni. Será que fora por aquilo que o Arcebispo Dom Emanuel preferira cuidar da missão ele mesmo? Eram questionamentos que surgiam a cada minuto que ela tentava inutilmente ligar os pontos.

A questão maior, no entanto, vinha dela mesma. Estava perdida, apesar de ter afirmado que ajudaria Gianni, até mesmo enfrentando vampiros, depois do relato dele confirmando as visitas da vampira à igreja que ele congregava, depois daquela confirmação, não tinha certeza se era correto ajudá-lo. Receosa, ela ficara novamente distraída e perdera a noção de que o tempo passara rápido e que o taxista, um indiano, chamava-a alertando-a que chegaram à catedral.

Rapidamente a jovem freira pagou a corrida e desceu do carro, olhou a sua volta e suspirou baixo sem tem ideia do que faria. Se iria adiante e continuaria ajudando Gianni ou se esqueceria tudo aquilo e voltaria à Roma e cuidaria de suas tarefas, além de sua nova equipe de caçadores. Entrou enfim na catedral e foi procurar o Arcebispo com a encomenda para lhe entregar.

Gianni estava preocupado com a pressa da freira, apesar de entender que precisava mantê-la afastada por enquanto de si. O fato de o tal Regente querer falar com ele deixava-o apreensivo. Iria até o covil dos vampiros que viviam em Nova Iorque e possivelmente saberiam quem ele fora, não podia ir até lá, seria seu fim. Confuso, precisava decidir que rumo tomar. Willian havia lhe prometido contornar a situação, porém, e se ele não conseguisse? Tinha que ter outra saída, desaparecer da cidade? Fugir daquele lugar e conseguir se reorganizar para poder voltar a Roma era uma ótima escolha. Foi até seu quarto e pegou os pertences para guardar na sacola de viagem que trouxera, foi ajeitando tudo com certa pressa. Deixaria uma mensagem para Maria, precisava fazer com que ela não o procurasse mais, após enviar pelo celular a mensagem, pedindo para não o procurar já que iria sumir da cidade, voltou a guardar seus pertences. Pegou a carteira e verificou que ainda tinha algum dinheiro, ao menos para alugar um quarto longe e ficar ali na tentativa de arrumar meios para se sustentar até voltar para Roma.

Greg passou pelo corredor bocejando e resmungando algo do tipo de está entediado em ficar preso naquele apartamento por tantos dias, esperava por Willian sabendo que ele estava na sede da Regência. O vampiro ouviu o barulho no quarto de Gianni e bateu na porta, abrindo em seguida sem esperar a permissão do caçador para entrar. Deparou-se com a mala pronta sobre a cama e o sombrio no canto escuro vendo a carteira.

– Ei…? O que pretende fazer? – Andou até ele, apontando para a mala que estava sobre a cama. – Vai fugir, sombrio?

Gianni ergueu o olhar a Greg, calado e parecendo ponderar antes de falar com o vampiro tatuado.

– Sr. London, fugir não seria a palavra correta, porém preciso ter meu caminho e, sinceramente falando, já abusei demais da hospitalidade do Sr. Botan. – Andou até a sacola e colocou a carteira no bolso da jaqueta que vestia. Pegou a peça de roupa e colocou-a pendurada pela alça atravessada nas costas. – Estarei pela cidade, avisarei assim que me estabelecer em um lugar.

– Olha cara, Will falou para a gente não sair e esperar ele voltar da conversa com o Regente. – Greg se colocou entre Gianni e a porta do quarto.

– Sr. London, acredita mesmo que o Sr. Botan vai livrar minha “cara” ? – Olhou-o por um momento. – Eu sou ex-humano e caçador do Vaticano, consigo usar poderes das sombras e segurar uma arma que mata vampiros, o que acha que farão comigo se eu for falar com o Regente? – Fitou-o sério alguns segundos até forçar a passagem para sair do quarto.

Greg coçou a cabeça, ficou pensando no que ele falara e resmungou baixo dando a entender que o ex-humano estava certo, foi atrás dele pelo corredor estreito chegando à sala.

– Escuta, Gianni, vou com você…- Fez um gesto para ele esperar.

– Greg… Não!

Greg parou no meio do caminho e rolou os olhos, chateado.

– Não pode ir comigo, se me pegarem serei exterminado, posso ser caçado tanto pelos vampiros quando pelos próprios caçadores, se vier atrás acontecerá o mesmo com você. – Foi sério e firme naquelas palavras.

Greg resmungou algo em russo e empinou o nariz.

– Escuta aí, sombrio, não manda em mim, eu vou e não falamos mais nisso… – bufou e voltou a andar para o quarto.

Gianni ficou sério e tenso, não iria levar aquele vampiro estranho consigo, aquilo era certo, então seguiu-o até o quarto dele e o viu pegar uma mochila e jogar roupas dentro. Gianni entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Pouco depois, o ex-padre saiu e andou até a sala abrindo a porta. Saiu, fechou a porta e ao passar pela portaria deixou as chaves do apartamento com o porteiro e um envelope para o Sr. Botan.

A rua estava praticamente deserta, era inverno e muitos escondiam-se do frio. Gianni tomou um ônibus e se dirigiu até a estação ferroviária da cidade, embarcou no trem que levava para fora da cidade, já havia feito anteriormente algumas pesquisas. Migraria para o interior do país, cidades remotas e de poucos habitantes seria bom para se refugiar e assim decidir o que faria dali em diante.

No carro, Lya olhava pela janela. Estava tensa e preocupada com Gianni, precisava descobrir onde ele estava se refugiando, para poder dissuadi-lo a ir com ela para seu refúgio. No entanto, não havia como fazê-lo convencê-lo, Gianni estava ainda muito arredio e provavelmente não iria aceitar. Naquele momento o seu celular tocou e a vampira olhou a tela estranhando o número, não o conhecia. Atendeu receosa, no entanto não falou nada, apenas aguardou.

– Srta. Merelin?

A voz fora reconhecida de imediato, Solomon Stracker estava entrando em contato com ela. Aquilo a deixara surpresa, ainda não era a noite marcada para o encontro deles na biblioteca.

– Solo?! Que surpresa, nunca imaginei que…

– Realmente, caríssima amiga, não estamos na noite de nosso encontro, no entanto obtive informações preciosas que irão possivelmente irá mudar o rumo dos fatos que está passando com seu transformado. – Ele fez uma breve pausa. – Estou na Biblioteca lhe aguardando. – Encerrou a chamada em seguida, sem esperar que ela confirmasse que iria encontrá-lo.

Lya desligou o celular e ficou ainda mais tensa, olhou para Rodney que estava sério sentado no banco do carona, ao lado de Michael que dirigia. Virou olhar ao seu motorista e falou baixo a ele.

– Leve-me à biblioteca nacional, Michael, estão me aguardando…

Michael olhou-a pelo retrovisor e estranhou, porém não questionou, mudou o rumo e entrou na rua que levava à biblioteca. Pouco depois pararam de frente ao majestoso e antigo prédio que à noite era bem iluminado, dando destaque ainda maior a sua belíssima arquitetura.

Rodney saltou do carro e abriu a porta para ela fazer o mesmo.

– Aguarde-me no estacionamento. – Lya ordenou à dupla que se curvaram brevemente e voltaram para dentro do carro, saíram em seguida para estacionar e esperar a volta dela.

O lugar estava fechado naquele horário, mas como havia alguns servos de Solomon que trabalhavam no lugar, um deles abriu a porta para ela entrar. Logo depois estava no corredor que levava para a sala de encontro com o vampiro ancião. E, pela primeira vez, era ele que esperava-a chegar.

– Solo… – Aproximou-se.

– Lya… – Ele se levantou e a cumprimentou formalmente esperando-a sentar. Assim que ela se sentou, ele sentou de frente à ela, a mesa estava com alguns livros muito antigos, alguns eram até amarelados e pareciam que se fossem tocados iriam desmanchar, estavam dentro de sacos plásticos para se manterem conservados. Ela olhou a mesa intrigada. Notando a sua curiosidade e ar preocupado, foi direto ao ponto. – Não farei rodeios, fiz as pesquisas que me pediu, deparei com descobertas de alguns fatos e conforme vou falando preciso que me diga alguns detalhes, pois o que eu descobri não faz muito sentido.

– Eu estou surpresa com seu chamado, nunca o vi fazer isso… Mas sim, seja então direto, pois agora estou apreensiva. – Ela debruçou os braços sobre a mesa e olhou novamente os livros antigos.

– Esse seu elo, tem certeza que ele era humano? – Perguntou.

– Sim, Gianni era humano como lhe relatei, era padre e caçador do Vaticano. – Lya estranhava aquele questionamento.

– Gianni Salvatore, ex-humano, quando ainda era da raça fora padre e seguiu os mesmos caminhos do seu pai, que era caçador de vampiros que servia à Sociedade de Caçadores, opostos aos caçadores do vaticano. – Ele relatava pensativo. – Salvatore, sabia que há milênios atrás havia um clã de sangue puros chamado de Salvatore?

Lya abriu os olhos surpresa com aquela informação, balançou leve a cabeça negando ter tal conhecimento.

– Claro que não teria como saber, eles foram todos extintos, não restou nenhum, até mesmo no lado humano. – Solo fez uma pausa e abriu um daqueles livros antigos. – Veja, esse livro não se encontra nas bibliotecas humanas, são do acervo de Mortis. Nele relata todos os sangue puros que andam pela terra, os que não estão adormecidos, os que estão em torpor e os que foram extintos. – virou o livro para ela ver a página onde falava do clã Salvatore. – O idioma é arcaico, mas eu sou linguista e conheço a grafia, esse texto relata que esses vampiros dominavam a região de Roma e de uma noite para outra desapareceram sem rastros, concluiu-se que foram extintos.

Lya olhava o texto que falava do clã Salvatore e ficava cada vez mais intrigada.

– Continue…

– O clã Salvatore tinha descendentes humanos, alguns deles partiram para longe do clã tomando o rumo mais ao sul da Itália e por lá se estabeleceram. Segundo o relato, um humano nascera com o dom de caçar vampiros e por medo de ser morto, a cria humana fora levada para longe.

– Está querendo dizer que Gianni é descendente de sangue puros, mesmo sendo humano? – Lya afastou o corpo de perto da mesa e encostou na cadeira boquiaberta com a novidade.

– Calma, tem mais fatos que possam ser esclarecidos, acredito que seu elo é um descendente desse caçador, isso mostra que ele tem o dom de segurar armas e até enfrentar um vampiro inclusive um sangue puro, mas há possibilidade dele ter correndo na sua linhagem, sangue de um puro.
– Solomon fechou o livro e fitou-a um tempo. – Onde está esse seu elo, Srta. Merelin?

Ela balançou a cabeça ainda surpresa com a revelação, negando.

– Não sei, ele de alguma forma vem a mim, chega sem que eu perceba e depois parte sem deixar rastro de onde esconde-se. – Franziu a testa. – Ele pode ter dons que consegue enfrentar-me e até mesmo evitar que o encontre?

– A linhagem for confirmada, possibilidade é alta de ser por esse motivo que o seu elo consegue evitá-la. – Pegou outro livro. – Veja bem, os Salvatore eram sombrios, manipuladores perfeitos de magias antigas, as possibilidades são inúmeras dele ter adquirido conhecimento mesmo estudando com os Vaticanistas. – Solomon chamava dessa forma, aliás, todos os vampiros chamavam assim os caçadores do Vaticano. – Agora veio-me uma questão, se ele for realmente da linhagem de caçadores e tiver esse sangue puro nas veias, quando o transformou despertou isso, possivelmente não irá ter controle sobre ele como deseja, e aos poucos esse vampiro poderá ser um perigo para todos nós.

Lya se alarmou com aquelas palavras, havia sim aquela possibilidade, Gianni estava odiando sua nova condição e alegava que iria por um fim exterminando-a

– Solo, eu agora estou ainda mais perdida, com isso Gianni sempre será uma ameaça e o que eu temo ainda mais é que se o Regente tomar conhecimento desses fatos, poderá pedir a cabeça dele. Eu não posso permitir, quero vê-lo de volta, na sua vida de padre, cuidando da igreja e dos necessitados. – Inspirou baixo pondo a mão delicadamente na testa. – O que farei?

– Eu não sei o que decidirá, mas pense bem antes de agir ou irá se colocar em uma situação onde poderão descobrir quem és. Então, minha cara, não será somente o ex-humano que irão caçar, sua cabeça irá a prêmio a pedido do Regente. – Solomon estava preocupado com amiga.

– Eu sei, preciso chegar em Gianni antes que descubram sobre ele. Pelo que fui informada, ele envolveu-se em uma rixa com os lobisomens e pode ser sério.

– Lobos?! – Abriu os olhos surpreso. – Entendo, ter rixas com eles não é uma boa opção e possivelmente o Regente quer evitar uma catástrofe.

– Estava indo à sede da Regência para ver o que posso fazer para evitar essa situação, mas confesso que não sei o que dizer para ajudar ou mesmo encobrir o que aconteceu. – Bufou baixo preocupada.

Solomon ficou pensativo até que lhe ocorreu uma ideia.

– Irmãos… – Ele falou. – Alegue que ele é seu irmão por parte de pai humano. – Ficou quieto deixando ela analisar aquela possibilidade.

– Como provarei isso? – Ela já parecia menos desesperada aceitando aquela possibilidade. – Como convencer o Regente?

– Posso forjar alguns documentos, não irão associá-lo aos Salvatore e sim à família Frantini.

– Faria isso? – Ela sorriu. – Eu poderia alegar que ele chegou recente a cidade.

– Terei tudo pronto em uma hora. – Solomon levantou, juntou os livros, fez um gesto e um senhor de terno antigo entrou no lugar e pegou os objetos levando-os embora.

– Obrigada… – Ela levantou e sorriu. – Mais um que vou ficar devendo.

– Não se preocupe, geralmente não cobro um preço tão alto… – Sorriu no canto dos lábios. – Mas lembrarei de algo que possa ser feito como retribuição a mais esse favor. – Saiu deixando-a na sala.

Uma hora depois Lya saiu da biblioteca satisfeita, apesar de ter sido alertada com um questionamento de Solomon.

– Antes de realizar esse plano, cara amiga, pense se realmente vale a pena se arriscar. Sei que ele é seu elo, porém, mesmo assim pode ser um risco muito grande. – Ficou sério. – Será mesmo que o Sr. Salvatore é de confiança? – Perguntou-a.

– Eu acredito na integridade e no caráter de Gianni. Ele é bom, gostava de ser padre e cuidar dos necessitados. – Ela estranhou a postura do amigo.

– Espero que esteja convicta disso, afinal sabemos que muitos puros escondem-se sobre a forma humana e que quando se veem em uma situação de risco mostram-se como são, não estou certo…? – Chegou perto dela sussurrando. – Minha bela puro spectral…?

Lya olhou-o e sentiu um leve arrepio quando ele mencionou aquela palavra.

– Eu estou convicta… – Respondeu tão baixo que mal se pode ouvir a voz. – Obrigado pela ajuda, Solomon. – Curvou respeitosamente a cabeça e saiu deixando-o na sala.

Já no lado de fora, no estacionamento, entrou no carro e ordenou à dupla de vampiros que a levasse à sede da Regência.

No apartamento, Willian retornara da sede acompanhado por uma das trigêmeas a pedido do Regente para buscar Greg e Gianni e levar até ele para conversarem, o vampiro conseguira convencer que foram os lobisomens que começaram aquela disputa e que ambos os amigos somente se defenderam do ataque na delegacia. Fora uma conversa tensa, porém, como Will havia dito a ele que tinha como provar que Greg e Gianni somente se defenderam, foi ordenado que ambos teriam que estar na sua presença ainda naquela noite.

Willian andou pelo lugar, farejou discretamente procurando pela presença de Gianni e de Greg, localizou o vampiro que estava em seu quarto, porém não sentia a presença do ex-humano. A vampira olhava o lugar com certo olhar de desdém e o seguiu conforme ele entrava pelo corredor indo ao quarto de Greg.

– Greg… – bateu na porta. – Estou entrando… – Abriu a porta e entrou vendo o vampiro sentado na cama com a mochila cheia de roupas. – Greg?! – Chegou perto e notou que ele estava estático olhando fixo para frente. – Greg, você está bem? – Olhou em volta e depois para a vampira que estava encostada no batente da porta do quarto com seus olhos amarelos de serpente.

– O que ele tem? – Ela falou com certa impaciência.

Willian negou com a cabeça sem entender.

– Greg… – tocou nele e o fez olhá-lo. – Greg, aconteceu algo? Onde está Gianni?

– Gianni? – falou finalmente. – Ele foi embora, disse que o porteiro iria lhe entregar uma carta e que eu ficasse aqui esperando-o chegar. – Greg olhava confuso para si e depois para Willian.

– O maluco surtou. E esse seu amigo, por qual motivo partiste? – A vampira serpente muito impaciente virou-se para Willian aproximando dele. – O regente não irá gostar de saber que um dos seus amigos “fugiu”.

– Ele não fugiu… Ele já estava com uma viagem programada, possivelmente seria hoje, já que eu sempre me esqueço de datas… – Willian estava tentando manipular a vampira.

– Não avisou para esperar? – Irritada deu de ombros. – Ah que seja, não é minha cabeça que irá rolar, vamos levar esse incompetente lunático para o Regente, ambos se expliquem a ele, só estou aqui para garantir que não fujam. – A vampira pegou o celular e realizou uma chamada, aguardou tocar e logo foi atendida. – Um deles fugiu, avise ao Regente, melhor mandar o Pacificador.

– Ei, sua… – Willian irritou-se com ela e chegou perto olhando-a sério.

Ela desligou a chamada e olhou-o sorrindo, sua língua de ponta dupla passou leve sobre seus lábios provocando o vampiro.

– Não deveria ter dito fuga, não foi isso que aconteceu e falarei com o Regente de sua atitude inconclusiva. – Virou e puxou Greg. – Vamos, idiota, não fique ai parado como um lesado, precisamos ir à sede da Regência.

Greg sacudiu a cabeça e esfregava um dos olhos até que deu um berro assustando ambos os vampiros, Willian soltou o braço dele e o vampiro tatuado começou a tagarelar sem parar.

– Minha nossa cara, Will, Gianni ele partiu, eu ia com ele, peguei a mochila para ir com ele e de repente tudo ficou em branco… – Olhou o rosto do amigo que balançava a cabeça negando.

A vampira andou até ambos e deu um sorriso de deboche.

– Ele viajou…? Sei… – Saiu do quarto andando de forma sensual que chamou atenção de Greg.

– Cara, que gostosa… – Virou para Willian e apontou a mochila. – Eu não entendo, estava decidido ir junto e de repente fiquei assim estranho e fiz o que ele mandou.

Willian passou as mãos no rosto, depois daquilo a situação pioraria. Não adiantava qualquer argumento, com Gianni em fuga o fato era que agora sim o trio estava perdido.

– Não temos escolha, vamos até o regente e seja lá o que o universo nos permitir, viver ou não. – O vampiro estava quase em desespero, precisava pensar em bons argumentos para mudar aquela situação e mesmo que usasse seu álibe para convencer, a fuga de Gianni piorara tudo.

Logo que saíram do apartamento e foram para a portaria, viu a vampira com o envelope nas mãos, ela havia se adiantado e pego com o porteiro.

– Entregarei ao Regente… – Virou e saiu do prédio sendo seguida por Greg e Willian.

Agora era questão de sorte para eles conseguirem passar daquela noite.

As Serpentis Trigêmeas


Lya uma vampira cuja a existência vem sendo perseguida pelo caçador Gianni que fora padre e abdicou de seu sacerdócio para caçá-la. Em uma eterna disputa de gato e rato, ambos se apaixonam e lutam contra, numa disputa interna de se deixar sucumbirem aos seus sentimentos ou simplesmente acabarem destruindo um ao outro.

Todos os Episódios: http://cyberseries.com.br/a-dama-negra/

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Andrea Bertoldo

    Cada vez mais interessante,Isa! Genial essa dele ser de um clã de sangues puros.Isso explica muita coisa…^^

    • Isa Miranda

      Pse … Tem muitos mistérios na vida de Gianni … Lya está encobrindo muitas coisas da sua própria vida … só tem tretas rs