A Dama Negra Nocturna III – Descobrindo as Sombras.

A Dama Negra Nocturna III – Descobrindo as Sombras.

Nocturna III

Descobrindo as Sombras

Uma semana antes da virada do milênio…

Gianni andava pelas ruas cabisbaixo, sair de perto de Lya lhe custara muito, fora por pouco que não desistira, afinal olhava-a ali ao seu lado e queria ficar, estava preso definitivamente a ela. No entanto, a raiva lhe fez levantar da cama na noite seguinte e partir.

Precisava voltar a Roma ou avisar que ainda estava vivo. Vivo? Se aquela existência poderia ele chamar de vida. Detestava-se a cada minuto, sentia nojo de si todas às vezes que o desejo de sangue vinha e fazia a garganta secar. Correu entre pessoas, passando por becos escuros para evitar que vissem seus olhos vermelhos. Ratazanas, gatos e cachorros de rua fora o que conseguira para temporariamente acalmar aquela maldita sede. Procurou o hotel onde havia se hospedado, lá soube que, como não havia voltado, seus pertences foram entregues à polícia. Pensou, enquanto se encaminhou ao local em uma boa desculpa para recuperar seus pertences, porém contar a verdade estava fora de questão. Vampiros, quem daqueles humanos “normais” acreditariam? Somente os caçadores acreditariam, no entanto temia procurá-los e ser morto por eles. Não que isso fosse de todo ruim, afinal viver daquela forma era repugnante para si. Devido a isso, havia jurado fazer da existência de Lya um inferno para pagar por tudo, pagar pelas mortes de seus amigos e pagar por ele, por tê-lo feito decair àquele patamar de besta amaldiçoada.

Ao entrar na delegacia ficou apreensivo, o local estava muito agitado e muitas pessoas falavam ao mesmo tempo, isso irritava seus ouvidos aguçados, fazendo-o ele procurar um lugar mais escondido para esperar sua vez de ser atendido. Policiais entravam com humanos algemados, prostitutas gritavam com seus cafetões e gesticulavam irritadas enquanto os policiais tentavam acalmar os ânimos de todos. Gianni observava tudo notando cada respiração e cada pulsar de coração, seu olfato aguçou e mesmo ali no canto, longe do tumulto, ele sentia a sede apertar novamente a garganta. Para o ex humano, era uma batalha interna feroz, manter a mente calma diante de tantos atrativos. Ser aquela criatura com tantos instintos aguçados deixava-o por algumas vezes desnorteado. Inspirou fundo e prendeu o ar nos pulmões mantendo a face fechada. Cruzou os braços sobre o peito e encostou-se na parede do lado direito da entrada da delegacia.

Pouco mais que meia hora de pé, chegou a sua vez e uma policial aproximou-se dele, olhou-o de cima a baixo e levantou a prancheta para anotar algo que possivelmente seria perguntado ao homem à sua frente.

– Boa noite – Gianni começou adiantando um passo se afastando da parede e indo até ela. – Meu nome é Gianni Salvatore e vim buscar meus pertences deixados aqui pelo dono do hotel onde havia me hospedado a pouco mais de um mês atrás. – olhava-a um tanto nervoso pela proximidade e o cheiro dela não ajudava muito, afinal era cheiro de sangue, possivelmente vindo de um ferimento que exalava fortemente o aroma ferroso.

– Boa noite, sou a oficial Honyl. – Falou sem olhá-lo, pegou a prancheta e virou algumas folhas. – O departamento de achados e perdidos fica naquela porta.

– Obrigado oficial Honyl. – Gianni se afastou e caminhou para o local indicado.

– Espere. – Ela virou uma folha e depois voltou-se a ele, daquela vez olhando em sua face. A jovem policial de cabelos loiros presos em um coque e uniforme bem alinhado estava analisando-o. – Quem você disse que é mesmo? Salvatore?

Ele voltou o corpo para ela e confirmou com a cabeça, naquele momento seus instintos lhe alarmaram, ela havia mudado a postura para uma mais tensa. A policial desceu a mão para a arma em sua cintura.

– Vamos conversar, Sr. Salvatore?

Do outro lado, próximo a eles, um homem tatuado e algemado observava toda a cena, e sorriu no canto dos lábios quando a oficial fez menção de sacar a arma para o outro que estava de pé à sua frente.

– Algo errado oficial Honyl? – Gianni preferiu manter a calma até entender o que estava acontecendo, porém sabia que possivelmente ele fora dado como desaparecido e isso precisaria de boas explicações.

– Queira me acompanhar, Sr. Salvatore. – Ela o esperou se aproximar.

Gianni assim o fez e ela o seguiu levando-o até a mesa do delegado.

– Chefe, esse é o Sr. Salvatore. – ela chamou o homem negro sentado na cadeira, que estava analisando algo na tela do computador.

Ele olhou-a e depois o ex-padre.

– Salvatore?

A oficial apontou a cadeira de frente à mesa e Gianni sentou-se ainda mantendo a postura calma, estava até surpreso consigo mesmo em conseguir não expressar nervosismo já que por dentro sentia tremores de apreensão.

– Salvatore, o caso do hotel Palace. – Ela estreitou os olhos e depois girou na órbita para o “homem” sentado na frente do delegado.

– Hum, entendo… – Ele mudou a postura assim como ela e ficou analisando Gianni. – Sr. Salvatore, afinal de contas é uma surpresa está aqui.

– Eu posso entender que seja, já que eu deixei o hotel e não voltei mais…- falava suave e firme dando ainda mais credibilidade ao que falava. – Eu sofri um acidente e fui internado no hospital geral, acordei do coma há poucos dias e me deram alta, fui direto ao hotel e lá soube que meus pertences foram entregues nesta delegacia.

O delegado olhava-o atento a cada palavra. Quando terminou de falar, levantou os olhos à oficial que estava de prontidão atrás de Gianni com a mão na arma.

– Uma boa história, Sr. Salvatore. Se realmente for verdade, então devo dizer que o Sr. renasceu, certo? – o delegado falava com certo ar de desdém ao que ele contou.

– Se considerar sair de um coma depois de um acidente, sim, renasci. – Continuou a falar de forma firme e calma.

O delegado olhou a tela do computador e digitou alguma coisa. Rapidamente encontrou o que queria e virou a tela para que Gianni visse o que havia pesquisado.

Gianni virou o olhar para o monitor e leu rapidamente o que era a ficha dele, lá dizia que havia sido assassinado e seu corpo fora encontrado no mar perto das docas.

– Impossível, Sr. Delegado. Estou aqui diante de ti, não fui assassinado. – Respondeu vacilando um pouco no tom de voz, mas logo recobrou a postura – Deve ser outro, talvez um indigente, afinal eu mesmo estava internado sem nenhum documento.

O delegado olhava-o atento e virou o olhar a policial de pé, que provavelmente não acreditava na história.

– O relatório do caso consta que foi reconhecido o corpo, confirmaram arcada dentária além de uma testemunha que viu o crime. – O delegado por fim colocou a arma dele sobre a mesa, porém não a soltou. – Olha rapaz, não faço ideia dos motivos que estão o fazendo falar que é o tal Salvatore, então, quer começar a contar a real história ou posso começar a cogitar que talvez tenha participação no assassinato desse homem que era padre?

O delegado olhou a oficial e Honyl sacou a arma esperando de pronta para agir.

Gianni assustou-se com aquelas informações, Lya fizera aquilo? Ela esconderia sua existência daquela forma? Aquela criatura passara dos limites e, no entanto, agora ele estava ali sem saber o que fazer para se livrar daquela situação.

– Deve ser algum engano, Delegado. – Gianni já não conseguia manter a postura calma e olhou por cima dos ombros para a oficial, engoliu seco olhando rapidamente em volta, talvez achasse uma rota de fuga. Sair dali era agora seu principal objetivo, porém, como sairia era outros quinhentos.

– Vai começar a me contar a verdade ou terei que chamar alguns dos meus oficiais e fazermos um interrogatório na cela? – Pressionou.

No exato momento em que começava a pressionar Gianni um tumulto começou na delegacia, as pessoas no local, que antes já estava demasiado agitado, começaram a gritar e falarem ainda mais alto. O tumulto piorou quando policiais de plantão tentava apaziguar a situação. O delegado levantou apontando a arma para o homem sentado e falou à oficial que estava em alerta.

– Olhos nele, vou ver o que está acontecendo. – andou até a porta e ao abrir ficou irritado com a cena. – O QUE… – mal começou a falar e um tiro foi disparado para o alto.

Cada vez mais aumentada os gritos das mulheres e o desespero de alguns presentes, policiais mandavam aquele que fazia o tumulto largar a arma. E no centro daquele tumulto, um homem magrelo e alto segurava uma criança em um dos braços e apontava a arma para os policiais.

– LARGUE A ARMA! SOLTE A CRIANÇA!- gritavam os policiais que estava mais perto do tatuado.

– Policial, está do meu lado, não precisa gritar. – O tatuado tinha um sorriso divertido apesar de aparentar nervosismo enquanto agarrava a criança com seu braço. – Somente quero ir embora, mas vocês cismaram que fiz algo contraventor… Vamos, me deixem sair. – Ele falava rasteiro e com sotaque forte, denunciando sua nacionalidade russa.

– Solte a criança Loudon. – O delegado chegou ao meio do grupo de policiais que estavam em torno do tatuado e a criança. – Vai ganhar pelo menos perpétua dessa vez, se fizer ela.

– Delegado, nos poupe desse papo furado, isso aqui não é uma criança, é cria do capeta e vai matar a todos se eu não fizer nada. – Loudon olhou pelo canto dos olhos a criança que estava imóvel apesar de toda a situação. – Vê, nem mesmo chorando ela está.- trincou os dentes para ela.

Na sala do delegado, Honyl ainda apontava a arma para Gianni, porém era nítido o nervosismo dela em querer saber o que se passava na delegacia.

– Oficial Honyl… – o ex padre a chamou em tom baixo de voz. – Eu posso assegurar que digo a verdade e que tudo isso é alguma espécie de complô contra minha pessoa.

Ela olhava-o séria e virava os olhos para a porta, estava tensa e apreensiva.

– Não estou aqui para julgar, apesar de todos os fatos deixarem bem claro que o senhor, sei lá quem, está se passando por outra pessoa. – Ela estreitou os olhos para ele, visivelmente repreendendo caso continuasse com aquelas palavras. – O padre está morto e você vem alegando ser ele, falsidade ideológica já é um bom motivo para prendê-lo, certo?

Outro som de tiros disparados soou e a fez tirar os olhos de Gianni, que tentou levantar para ver o que se passava, mas ela voltou a apontar a arma para ele.

– Vamos, estende os braços. Como disse, falsidade ideológica é crime e senhor está preso. – Ela não parecia querer esperar o delegado e algemou o homem, levando-o para a cela. Ao entrar no lugar, um guarda apareceu apreensivo e abriu rapidamente uma das celas. – Logo voltamos e teremos nossa conversa com o delegado, senhor sei lá quem. – Fez um gesto com a cabeça para o guarda tirar as algemas e fechar a cela.

Gianni preferiu não fazer nada a princípio, afinal, descobrir daquela forma o que realmente tinha lhe acontecido deixara-o muito intrigado. Lya poderia realmente ter encoberto sua existência forjando sua morte?

O barulho da confusão alarmou os guardas e a oficial saiu correndo para ajudar.
Na cela, alguns presos rodavam entorno de Gianni, havia um homem negro, alto e muito forte encarando-o parado ao lado dele. Ele tinha uma expressão agressiva e parecia querer realmente brigar.

– Ei, branquelo. Fez merdas e agora está na cela com negros… Ei?! – Encarrou Gianni novamente. – Estou falando com você, branquelo da porra.

Gianni olhou-o sério, tão sério que seus olhos avermelharam, uma aura pesada tomou o lugar e as sombras oscilaram pelos cantos. Outro preso olhou em volta e começou a esfregar os braços. Assustado, chegou perto do que encarava Gianni o ameaçando.

– Bronck, deixa quieto. – Olhava todos os lados – Que porra é essa? – Pegou no braço que do negro e puxou. – Deixa para lá.

O homem mal encarado ficou trêmulo com o olhar de Gianni, mas apesar de estar com medo preferiu se afastar ainda encarando-o. Gianni afastou-se e ficou em um canto, cruzou os braços e fechou os olhos, não precisava ver os presos junto com ele na cela, seus odores e batimentos cardíacos denunciavam a presença e proximidade. Dali, ouvia claramente as vozes no lado de fora, identificava a do delegado e da oficial. Aparentemente conseguiram conter um homem que havia provocado toda confusão.

– Vamos logo, Greg.- Honyl empurrou-o.

O homem alto, magrelo e tatuado, falava sem parar.

– Olha, eu avisei, aquela garotinha vai matar todos vocês, ela é cria do inferno. – Ele estava algemado e sendo levado juntamente com dois guardas. – Vocês vão morrer.

O homem negro na cela resmungou baixo quando a mesma foi aberta e tiraram as algemas do homem tatuado.

– Entra logo, uma noite na cela para esfriar a cabeça, Greg. – Honyl apontou o caminho e olhou Gianni no canto. – Logo venho buscá-lo. – Virou para sair, quando o tatuado segurou na manga de sua blusa.

– Honyl, minha linda. – Riu debochando – Vem cá, sei que está necessitada, posso resolver isso com uma noite daquelas, que tal?

A oficial puxou o braço e estreitou os olhos ameaçando-o.

– Posso denunciar um assédio a ser incluído na sua ficha criminal, Greg?

Greg soltou um assobio e se afastou das grades levantando os braços em um gesto de paz.

– Foi só brincadeira, oficial Honyl. – riu olhando-a se afastar.

Rindo debochado, virou-se para o negro e o magrelo do lado oposto da cela, depois olhou para Gianni. Estava no meio da cela, voltou para as grades e voltou a gritar.

– Eiii!!! Honyl gostosa, vem me buscar, vou te mostrar como se fode para valer! – gargalhou – Vou te fuder, vadia! – resmungou e afastou-se das grades quando um dos guardas apareceu com um cassetete na mão, encarando-o. – Eu… Bom, posso pensar no seu caso. – Encarou-o de volta.
O negro alto começou a rir de Greg e o magrelo ao lado ainda olhava Gianni de lado, sentindo arrepios.

– Está rindo do que, negão? – Greg virou para o homem, que levantou de onde estava indo até ele.

– Vamos parar com a festinha, depois as damas namoram. O delegado logo vem conversar com todos. – O guarda bateu com o cassetete nas grades da cela.

Gianni olhava toda situação e mantinha-se no canto sem nada dizer, odores de sangue e aquela agitação deixaram-no ainda mais sedento. Precisava sair dali o mais rápido possível. No entanto, aqueles três pareciam que dariam muito trabalho, ficar naquela cela poderia ser perigoso.

Greg afastou-se e caminhou para as grades tagarelando algo em russo. Olhou Gianni, lambeu os lábios e ainda estava agitado, naquele momento que os olhos de ambos se cruzam, Greg denunciou ao ex-humano o que era. Os olhos do tatuado avermelharam e voltaram ao normal, depois inclinou a cabeça de lado para a dupla do outro lado da cela.

Gianni mudou a postura, o tatuado era vampiro e nitidamente poderia fazer aqueles dois no canto de alimento. Inspirou baixo e olhou a dupla no outro lado da cela, depois voltou a encarar o tatuado, negando com a cabeça. Precisava evitar aquele ataque, apesar de a tentação e o ardor na sua garganta aumentarem cada vez mais.

Greg sorriu no canto dos lábios e deu de ombros, deixando claro que iria atacar os dois homens junto com eles naquela cela. Quando se virou para ir na direção deles, sentiu a mão de Gianni lhe segurar e empurrar de volta às grades.

– Não.

– Por quê? – Greg encarou-o.

Gianni não podia deixar que aquele vampiro tatuado e perturbado fizesse aquilo.

– Vai fazer novamente barulho e algazarra, vai trazer toda a delegacia para dentro dessa cela? -Gianni olhava-o e soltou o braço do tatuado.

– Viadinhos da porra, agora temos que aguentar isso. Vão se agarrar para lá, escrotos filhos da puta! – O negro ralhou alto e nervoso.

– Eu vou matá-lo se xingar de novo, seu “negão” fedido. Filho da puta. – Greg empurrou Gianni para encarar o negro.

– Espera. – Gianni entrou no meio dos dois e encarava Greg. – Você não vai fazer isso.

Greg ia começar a retrucar quando parou de repente e foi rápido para as grades. Sua expressão mudou drasticamente e começou a xingar assustado.

– Puta que pariu… Vamos morrer… – afastou e começou a andar desnorteado pela cela. – Vamos morrer, porra!- bateu na cabeça com a palma da mão. – Pensa, desgraçado, tenho que sair daqui. Vamos morrer… – Correu para as grades e gritou. – Guaardaaaa, abre a cela, rápido! Vamos morrer! Fudeu! – Apavorado ele olhou para Gianni. – Fudeu!

– Esse russo filho da puta é maluco…- o negro mal começou a falar e todos ouviram tiros vindo de fora da área das celas. – Que merda…?

Gianni engoliu seco e sentiu um odor diferente dos que estavam naquele lugar, era algo como de um cão, mas era forte demais e incomodava fazendo as narinas arderem. Aproximou-se das grades para olhar e depois olhou Greg.

– Ele veio atrás de mim…- Greg grunhiu baixo.

Novamente tiros disparados, gritos de mulheres e homens, alguns pediam por ajuda. Barulho de mobílias sendo arremessadas e novamente vários tiros disparados. O quarteto naquela cela ficou apreensivo, seja lá o que estava lá fora estava começando a chegar perto, e os tiros cada vez mais próximos denunciavam que provavelmente estava indo em direção a eles. De repente os disparos cessaram e os gritos pararam, um silêncio aterrador se formou e os outros três foram para as grades tentar olhar em direção à porta.

Gianni afastou-se olhando em volta, não havia saída. Fechou os olhos e inspirou fundo, em sua mente somente a imagem de Lya vinha e as lembranças de como a vampira sumia nas sombras. Ao abrir os olhos, notou que as sombras vinham a ele. Deu passos para trás sendo seguido por elas até que encostou na parede e as mesmas o envolveram.

Greg se afastou da grade e procurou o outro vampiro. Viu quando ele começou a sumir nas sombras e correu segurando seu braço sendo engolido junto com Gianni por elas.

– Sombrio, por favor, me ajuda.- Greg ficou ao lado de Gianni, não via nada dentro daquelas sombras, mas sabia que Gianni estava ali.

– Fique quieto.- Gianni arregalou os olhos quando um enorme monstro peludo arrebentou as grades e os dois homens gritaram apavorados encolhendo-se no canto da cela. – O que é isso? – murmurou para o outro.

– Errr… Digamos que foi um mal entendido e agora… O lobo ai quer me matar.- sussurrou de volta.

O enorme lobisomem estava sobre as duas patas e farejava a cela procurando por Greg, rosnava e suas patas pesadas derrubavam tudo pelo caminho. Aquela situação piorava a cada minuto e ambos os vampiros só tinham as sombras para lhe protegerem, no entanto, de alguma forma, funcionou, já que o lobisomem não conseguia encontrar ambos ali no local.

Gianni empurrou Greg, fazendo-o andar para o lado. A cela estava aberta e se passassem por ela poderiam sair antes que o enorme monstro atacasse ambos. Passaram pelas grades esgueirando-se nas sombras e saíram no corredor, rapidamente ambos atravessaram e logo estavam do outro lado, foi quando notaram o odor forte de sangue vindo da entrada da delegacia.

– Há pessoas feridas.- Gianni falou ao ver o outro vampiro correr entre os corpos caídos feridos no chão. – Aonde vai?

– Embora. Acha mesmo que vou ficar aqui com aquela coisa farejando por ai?- Greg parou perto da porta e olhou a saída, então voltou xingando baixo. – Está cheio deles lá fora.- Deu tapas na testa e ficou no canto olhando em volta. – Sombrio, faz a merdas das sombras aparecerem, tira a gente daqui, vai logo.

– Pessoas estão feridas e você quer ajuda? – Gianni se afastou e se envolveu nas sombras novamente.

– Olha só, o que acha que podemos fazer? – Greg foi até ele e segurou em seu braço. – Não temos como ajudar. – Olhou-o e depois em volta.- Olha, se me tirar daqui eles vão embora e não vai acontecer mais nada com os humanos. – Riu nervoso.

Gianni ficou pensativo, foi quando ambos ouviram os rosnados altos do lobo vindo das celas. Ele concordou e as sombras envolveram o outro vampiro.

– Preciso pegar meus pertences. – Andou até a área oposta que levava ao departamento de provas e lá pegou as chaves que estavam penduradas em um armário e saiu das sombras.

– Sombrio, anda logo… Eles vão nos farejar aqui…- Greg olhava para a porta nervoso. – Vai logo, cara…

Gianni pegou sua sacola de viagem e olhou suas coisas jogando dentro da mesma seus pertences, roupas e livros. Havia as armas de caçador, além da munição especial para matar vampiros, tudo estava catalogado em sacos como provas naquele departamento.

– Merda, lá vem eles! – Greg correu para dentro daquele lugar e parou ao lado de Gianni. – Eles estão vindo, cara! Rápido, esconde a gente nas sombras!

Gianni, alarmado, ainda tentava manter a calma quando abriu um dos sacos plásticos que tinha uma das suas armas de caçador. Olhou-a um momento e ao tentar pegar a arma queimou sua mão e soltou-a deixando cair no chão. Aquilo chamou e atenção do lobisomem, que farejou ambos naquele lugar.

A fera rugiu alto e entrou no corredor que levava até o lugar correndo enfurecida, derrubando tudo pelo caminho. Greg se encolheu e jogou-se no chão rastejando por entre as estantes para se esconder.

– Faz logo essa droga de sombra, anda logo!!! – Greg gritava desesperado.

– Cala a boca! Você choraminga demais! – Gianni abaixou e olhou a arma. Inspirou baixo e começou a murmurar em italiano. – Per favore, Dio, mi permetta di tenere la pistola che elimina il male, so che non sono più degno di essere suo servo, ma è considerato me ancora degno della salvezza, concedimi questa grazia … Fammi Dio essere degni di servire voi. (Por favor, Deus, permita-me segurar a arma que elimina o mal, sei que não sou mais digno de ser seu servo, mas se considera-me ainda digno de salvação, conceda-me essa graça… Permita-me, Deus, ser digno de lhe servir.)

Voltou a tocar a arma receoso, e ao tocar sentiu um ardor, mas não tanto quanto antes, até que conseguiu segurar. Gianni sorriu feliz por poder segurar a arma e destravou, carregando-a no exato momento que a fera arrebentou a porta do lugar. O vampiro apontou a arma para a fera, que correu até ele pronto para abocanhar quando Gianni atirou.

A criatura tombou em cima dele e ficou imóvel. Greg ficou olhando incrédulo, saiu do canto e se arrastou para perto, olhou o braço de Gianni debaixo da criatura.

– Ei… Sombrio, está vivo?

Gianni bateu a mão no piso frio e murmurou pedindo ajuda ao outro.

– Calma, que… – Olhou em volta e depois tocou no lobo empurrando-o para o lado. – Cara, você matou um lobisomem…- Olhava o lobo com um buraco no peito feito pelo disparo da arma.

Gianni levantou, ainda sentia o baque e seu ombro estava com um enorme ferimento feito pelas garras do lobisomem. Ele tocou a ferida e grunhiu baixo sentindo a dor, sua visão começou a falhar.

– Vamos sair logo daqui…- falou com dificuldade. – Eu vi uma porta nos fundos…- Levantou pegando a sua sacola.

Greg rapidamente pegou a sacola da mão dele e segurou-o apoiando com o braço.

– Cara depois de o que fez, vou te seguir até no inferno, vamos logo.

Saíram pelo corredor novamente, tomando o rumo oposto para fora da delegacia e saindo pelos fundos, que deu no pátio que era o estacionamento das viaturas. Andaram entre os veículos até que o vampiro parou perto de um carro preto com fita isolante nas portas.

– Carona para fugirmos logo daqui. – Greg quebrou o vidro e abriu a porta, fez o outro vampiro entrar e sentar no banco do carona, jogou a sacola no banco de trás e sentou segurando o volante, depois abriu a parte de baixo para fazer a ligação direta. – Pronto. – Arrancou com o carro saindo do lugar no mesmo momento em que viu pelo retrovisor várias outras viaturas chegarem e duas delas seguiram atrás deles. – Ei sombrio, tem como esconder a gente nas sombras? Despistar os tiras? – Apontou para trás.

Gianni olhou para trás e balançou a cabeça, porém não saberia se conseguiria fazer isso com eles em um carro em movimento. Fechou os olhos e se concentrou. As sombras encobriram o carro e logo a polícia não os seguia mais.

Greg riu ao ver que conseguiram e virou o rosto para Gianni gargalhando e batendo a mão no volante virando os olhos para a rua.

– Porra cara, pensei que íamos morrer! – Olhou-o de novo e notou que o vampiro estava mal.- Perdeu muito sangue, vou te levar a um lugar e vamos dar um jeito. – Greg pisou fundo e o carro ganhou mais velocidade.

Gianni olhava para fora pela janela, as luzes e movimento da cidade passavam rápido e sua visão começou a falhar. Estava fraco e sedento, sentindo a dor daquele ferimento. A sua primeira noite longe do refúgio de Lya fora um completo desastre e em sua mente o desejo era de vê-la. Não conseguiu pensar muito e ali murmurou o nome dela antes de apagar de vez.

Música Tema Marillion - Waiting To Happen

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Cleber Medeiros

    Parabéns Isa seu texto é digno de um filme hollywoodiano

    • Isa Miranda

      woooo… quem me dera, mas gosto das tretas e vai ter muitas rs

  • Eduardo Moretti

    Capitulo agitado e cheio de emoção. Parabéns Isa!!!

    • Isa Miranda

      Ainda é só o começo amigo, vem bastante ação e agito … Mistérios e tramoias rs

  • Andrea Bertoldo

    Uau!! Eletrizante o capitulo de hoje! Parabéns!!

    • Isa Miranda

      Bem agitado mesmo… Frenético… Grata amiga <3

  • Fabi Prieto

    “-Ouvi dizer que ele anda de péssimo humor esses dias” aí, ó, de quem é a culpa!

    (confesso que pensei que a culpa era da menininha antes do lobisomem aparecer kkk)

    p.s.: gostei das imgs de ambos

    • Isa Miranda

      Então … Ele está de mal humor rs
      Menininha… humm… he he he *treta*

      Valeu Fabi vamos que vamos caprichar mais e mais <3