A Dama Negra Contos da Noite Sombria

A Dama Negra Contos da Noite Sombria

Contos da Noite Sombria

Bragatti

Sussurre ao vento, grite ao silêncio, fale em sonhos e estarei te ouvindo.

Disponha todos os teus sentidos ao etéreo, ao prazer da alma, transpassando as barreiras da imaginação mais profunda, e entregue-se a mim.”

Há alguns relatos que se referem a Roma como domínio do Vaticano. Esse mesmos relatos sugerem que há um grupo no clero infiltrado para deixar a Igreja sobre controle. Segue aqui um dos relatos de como um reinado pode ser usurpado em uma disputa de territórios entre clãs de sangue puros…

A sangue puro aguardava paciente em sua confortável poltrona. Sua postura altiva e elegante fazia-a parecer uma rainha em seu trono. Ela podia sentir o visitante se aproximar antes mesmo que seus pés tocassem o recinto. Um sorriso suave e satisfeito moldava seus lábios tingidos de vermelho.

A porta dupla se abriu e uma figura encapuzada se aproximou. A mulher ajeitou-se no assento e cruzou as pernas sensualmente, sabendo que o recém-chegado não resistiria olhar sua beleza. Longos cabelos negros, a pele branca como a neve, o corpo voluptuoso. Uma femme fatale.

Signora. – O estranho fez uma reverência.

Signorina. – Ela corrigiu, mas falou com a voz suave. – Bem vindo à minha residência.

– Obrigado por receber-me, signorina Bragatti.

– E quem requisita minha atenção esta noite? Quais são seus interesses comigo, signore? – Ela perguntou inclinando levemente a cabeça para o lado.

– Direta?! Aprecio… – Sorriu olhando-a fascinado a beleza mortal dela o atraia. – Aliança… O que me diz de comandar Roma? – Olhou-a com um leve sorriso nos lábios.

A vampira analisou-o um tempo antes de responder com um suave sorriso.

– E por que um estranho iria propor-me uma proposta tão tentadora?

Ele andou para mais perto e na devida postura respeitosa inclinou a ela

-“… Da janela vem um vento cortante, que quase me leva, é a minha deixa, me colocarei a voar…” – Sorriu – Eu li essa frase em um escrito assinada pela bela senhorita a minha frente, fiquei fascinado e questionava-me todas as noites em como lhe encontrar.

A vampira sorriu e inclinou-se para frente, seus dedos tocaram com suavidade abaixo do queixo do outro vampiro.

– Então vejo que tenho um admirador – Ela riu baixo. – Diga-me, signore, como poderia dar-me o controle de Roma? E o que tu queres em troca desta aliança, signore…? – Ela deixou a pergunta no ar, novamente sondando-o para saber seu nome.

Fechou os olhos apreciando o toque dela, ainda sem revelar seu nome.

– Roma tem sido banalizada e quero fazer dela um reinado acima de todos os reinados… Seria a bela Bragatti que caminharia ao meu lado nesse novo reinado. – Abriu os olhos e voltou a falar. – Posso lhe garantir total entrada em Roma para marchar contra seus atuais regentes.

Caminharia ao seu lado naquele novo reinado. É claro, ele seria muito tolo se não propusesse dividir o poder. Ela sorriu com os olhos brilhando ambiciosos. Há séculos procurava uma brecha para se infiltrar em Roma e tomar o poder. Se o jovem realmente pudesse lhe dar aquilo, então seria realmente útil.

– Dê-me esta brecha de que fala e te darei nossa vitória – Disse, enfatizando bem a palavra “nossa”.

Ele inspirou o ar satisfeito e retirou do bolso um anel.

– Eis sua chave, com esse anel nada a impedirá de entrar em Roma. -estendeu a mão e a mostrou para que pegasse. – Os regentes tem uma magia antiga que lhe garantem proteção, no entanto dentro do território essa proteção cai por terra.

Ela pegou aquele objeto com extrema satisfação. Ali estava seu belo trunfo. Colocou e admirou o anel em seu dedo, ela podia sentir o poder contido naquele pedaço de metal ornamentado. Bragatti voltou a olhar o vampiro e sorriu.

– Nosso acordo está selado.

Assim que o outro vampiro se retirou, a mulher sorriu. Tolo jovem traidor. Tão confiante que acreditava ser assim tão fácil enganá-la. Como se ela não pudesse sentir quem ele era, seu cheiro o denunciava. No entanto, a vampira entraria naquele joguete por seus próprios interesses. Se ele estava assim tão disposto a dar Roma para ela de bom grado, seria uma tolice desperdiçar tal oportunidade.

– Bernard – chamou em tom baixo e suave.

Momentos depois o rapaz entrou na saleta. O carniçal se aproximou e se ajoelhou diante dela, pegando sua mão e beijando seus anéis com respeito.

– Estou aqui, mia signora. Diga-me como posso servi-la.

A mulher se aproximou e acariciou a bochecha de seu mais fiel lacaio.

– Quero que faças algo para mim.

O homem caminhava pelos corredores voltando do culto da meia noite. Por mais que a noite gélida estivesse serena, ele sabia dos perigos que espreitavam as trevas noturnas. Sempre que o dia findava, Matteo pensava em seus irmãos e no perigo que corriam em sua batalha contra as criaturas sombrias…

Buonanotte, signor Cardinale.

O cardeal se sobressaltou e olhou na direção da voz, enquanto sua mão seguia por instinto para o crucifixo em seu rosário. Havia um rapaz sentado na larga janela aberta, e o religioso tinha certeza de que não havia ninguém ali segundos antes. O humano se arrepiou, sequer o ouvira ou sentira se aproximar. A figura se aproximara feito fantasma e parecia como um: a pele pálida, cabelos brancos como neve e olhos rosados; um albino.

O rapaz sorriu ao vê-lo segurar a cruz.

– Não temas, cardinale. Sabes que um ser noturno não tem poder para entrar aqui. Ou será que não acreditas em tua própria fé? – Riu baixo.

Matteo olhou-o desconfiado. De fato, nenhuma criatura de natureza profana podia por os pés em solo sagrado. No entanto, seus servos humanos ainda podiam.

– E o queres aqui, na casa de Deus, signore…?

– Sou apenas um mensageiro. – Bernard respondeu e desceu da janela – Minha signora deseja propor-lhe um acordo.

– E a tua signora seria uma vampira? – O cardeal perguntou com desprezo. – A Igreja não faz acordos com seres da noite.

Bernard quase riu. O homem falava em nome da Igreja e sequer era seu principal representante, quanta prepotência naquelas palavras.

– E se o ser da noite lhes oferecesse o extermínio do Arquiduque Regente e seu clã?

Matteo arregalou os olhos. Exterminar um clã inteiro de sangues puros era uma tarefa trabalhosa e sangrenta, uma tarefa impossível de ser feita sem auxílio e bom treinamento.

– Não há como apenas uma de vocês dizime todo um clã.

– Decerto que não sem ajuda, e tampouco vocês também podem. – O carniçal concordou com a cabeça – No entanto, recebemos uma… ajuda… Que nos permite ultrapassar as barreiras protetoras do clã. – Ele sorriu – O que nos diz, cardeale?

O cardeal abaixou a cruz e o olhou ainda desconfiado.

– E o que a sua signora quer em troca de nossos serviços?

Bernard sorriu.

Na sacada de uma das mansões, Bragatti olhava tudo com um largo sorriso. Ela ouvia os gritos de pavor, o cheiro do sangue puro derramado e cinzas preenchia o ar noturno. Era possível ver dali a movimentação de seus lacaios e seus mais novos aliados, os caçadores da Igreja. Os duques haviam caído, não havia mais um clã regente.

O vampiro ao lado dela olhava satisfeito. Agora o poder era deles. Ele a olhou com os olhos brilhando e se aproximou.

– Roma é nossa.

A vampira virou para ele e deu um sorriso doce. O rapaz sentiu o coração acelerar quando a bela mulher tocou seu peito e se aproximou mais. Ela se inclinou e beijou seus lábios, invadindo-o com luxúria. Agora Roma era dele assim como aquela anciã diante de si.

No entanto, seu corpo foi envolvido por uma massa de ar que o imobilizou, e o ar foi expulso de seus pulmões como sugado para o vácuo. Ele arregalou os olhos e tentou se mover em vão. A vampira abriu os olhos, agora vermelhos ao invés de azuis.

– Pobre filhote tolo… – Ela sorriu acariciando seu rosto. – Acreditou mesmo que eu iria cair em seu teatrinho… Gervásio? Achou que eu não reconheceria o cheiro de teu puro sangue, de teu clã?…

O vampiro arregalou mais os olhos. Então ela sabia a verdade, sempre soubera. Enquanto acreditava que estava a usando, fora ela quem o usara. Fora tão ingênuo, estava cego pela sede de poder.

– É uma pena, até que és formoso… – Ela alisou seu rosto outra vez e a mão foi descendo por seu peito. – Mas tu me serves mais morto do que vivo.

Com apenas um movimento ela golpeou o peito do outro puro e arrancou seu coração. Enquanto deixava o corpo cair dele cair no chão, ela olhou o coração e o devorou. Agora o poder dos duques também seria o dela.

Enquanto lambia o sangue dos dedos, sons de passos se aproximaram. Ela se virou e viu o cardeal Matteo diante de si. Ela sorriu sem se preocupar com a arma na mão do humano. O som de uma arma sendo engatilhada soou e o cardeal olhou na direção. Lá estava o carniçal albino entre ele e sua mestra, apontando-lhe a própria arma. A maldita nunca estivera desprotegida.

– Está feito, signore cardeale. Honrarás tua parte em nosso acordo? – Ela ronronou.

– Enquanto honrares a tua – O homem respondeu, olhando-a sério.

Ela sorriu.

– Então, até breve – Falou e sua figura desapareceu desvanecendo no ar.

Enquanto movia-se pelo vento, a vampira tinha certeza que aquela noite entraria para a história. A noite em que Isabella Bragatti tornara-se senhora de Roma.

Anos depois…

O Arcebispo Dom Emanuel havia recebido aquela mensagem no final da tarde, estava um tanto apressado ao atravessar as colunas da Santa Igreja, sabia que ela não gostava de esperar e muito menos de ser atendida por qualquer pessoa.

Quando entrou na sacristia, sentiu um certo alívio ao ver que chegara antes. Sentou em sua cadeira e se encostou respirando fundo. Pousou o cotovelo no braço do assento e cobriu os olhos, pensativo. Curiosamente ela havia lhe pedido mais um padre caçador, queria o melhor dos melhores, o que deixou intrigado. Sim, ele tinha esse caçador e lhe informara que iria lhe encaminhar em breve.

Uma leve brisa passou pela face do arcebispo e ele sentiu um leve arrepio. Ao tirar a mão de cima dos olhos, foi pego diretamente pelo par de olhos azuis que olhava-o com ar provocativo e sensual.

Dom Emanuel engoliu seco e curvou a cabeça, respeitoso abriu a gaveta e retirou uma pasta de couro, entregando-a.

– Espero que seja o que buscas mia signora.

– Confio em vossas pesquisas, Dom Emanuel – Ela pegou a pasta e olhou seu conteúdo. Deu um breve sorriso, satisfeita com o que leu, e a fechou.

Assim como chegara, se retirou como um vento suave e silencioso. Naquela noite algo iria acontecer com os caçadores, que mudaria toda a ordem do clero designada a caçar vampiros, ordenada pela Santidade maior do Vaticano.

Continua…

Música Tema - Nox Arcana - Night of the Wolf

Contos da Noite Sombria
São Spin off’s que completam relatos descritos nos episódios de A Dama Negra.

Conto escrito em parceria 
Fabiana Prieto 

Criadora dessa personagem fascinante e emblemática Bragatti
Acompanhe todos seus trabalhos aqui no Cyber Série – Perfil  http://cyberseries.com.br/seu-perfil/fabiprieto/ 

Informando que mudou os dias e horário dos lançamentos de episódios de A Dama Negra

19:00hs – A DAMA NEGRA (Terças e Quintas)

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

  • Andrea Bertoldo

    Parabéns, meninas!! Ótima história!!^^

    • Isa Miranda

      Obrigado Dea <3