A Dama Negra Conto da Noite Sombria

A Dama Negra Conto da Noite Sombria

O quanto o amor é inconstante?

A noite em Roma era sempre um pouco agitada, a cidade recebia muitos turistas e com isso era difícil de andar pelas ruas sem sentir que se estava fazendo turismo. Para os moradores era uma rotina comum, para os visitantes era excitante. Tudo aquilo era um chamariz para os seres da noite, muitos costumavam sair em busca de alimento em lugares aos quais os turistas estavam mais empolgados. Alguns desobedeciam as regras e costumavam invadir as ruínas para uma “aventura” a mais nas suas viagens pelo país.

Nada disso atraía a vampira, estava tão envolvida com o padre caçador que conforme a noite vinha, despertava de seu sono diurno e rapidamente aprontava-se para ir à igreja. Ela saía de seu esconderijo para atravessar a cidade de Roma e ir até a pequena paróquia a qual o padre estava celebrando a missa noturna.

Mesmo a contragosto de seus servos e de seu “pai” que a esperava em Paris, mesmo contra a vontade deles ficou em Roma, queria saber mais daquele humano, conhecê-lo, ficar perto e ouvir sua voz. Ela admirava a postura daquele humano, apesar de muitas das vezes sentir o medo vindo dele sentia também a curiosidade. O humano fazia perguntas as quais possivelmente nenhum caçador já fizera antes, ou se permitia fazer, já que muitos deles atiravam antes e perguntavam depois. Mas Padre Salvatore era diferente, ele parecia ávido pelo conhecimento e parecia estar a cada noite que ela ia visitá-lo mais e mais a vontade com a presença de Lya.

Naquela noite em especial Lya sentia algo diferente, logo que entrou e sentou-se para assistir a missa, viu padre Salvatore entrar como sempre sendo acompanhado dos coroinhas prontos para iniciar a missa. Ele parou e a olhou por um tempo, Lya ficou atenta àquele olhar e sentiu o peito arder, suas bochechas pálidas coraram de leve e ela inclinou a cabeça um pouco encabulada, desviando o olhar. O padre curvou um pouco a cabeça e desviou o olhar, inspirou baixo e voltou a caminhar até o altar.

A noite por si só estava sendo um tanto estranha para a vampira, ela podia sentir o clima diferente entre eles, os olhares se cruzavam durante toda a celebração e muitas das vezes a criatura da noite desviava o olhar, tímida. Entretanto o momento mais estranho veio com as palavras que ele proferiu no momento da sua pregação.

“- Caros irmãos e irmãs, hoje em especial quero falar sobre o amor, Jesus vem a nós e deixou as palavras que foram ditas pelo Pai. – fez uma breve pausa. – Amai-vos uns aos outros, como vos amei! – Olhou cada rosto dali do altar. – Será que praticamos? Será que realmente amamos uns aos outros como nosso Pai nos ama? Precisamos nos questionar se diante de tantos infortúnios na vida, diante de tanta discórdia e desavença, conseguimos tal ato. – Sorriu leve ao olhar novamente para a vampira, no entanto, quando notou que ela retribuiu desviou o olhar. – Hoje quero que todos vão para casa com esse pensamento e façam uma reflexão sobre essas palavras.”

Depois daquelas palavras, continuou a missa normalmente até o encerramento. Lya permanecia ali sentada no último banco e observava como sempre a igreja ir esvaziando aos poucos, cada fiel que saía após cumprimentar e receber as bênçãos do padre, outros aguardarem para se confessar. Poucas horas depois a igreja estava completamente vazia, Lya ainda permanecia ali sentada no último banco olhando o altar.

Ela inspirou fundo e sua mente ficou confusa, afinal o que estava fazendo? Estava naquela igreja, assistindo aquelas missas noite após noite e por qual motivo? A mente dela rodou e a vampira baixou a cabeça, debruçou sobre a cabeceira do banco da frente e fechou os olhos respirando fundo. O que estava fazendo atrás aquele padre? Não era de seu mundo, não era daquele lugar, estava destoando diante deles, daqueles humanos que buscavam noites de redenção de seus pecados.

Pecados? Ela tinha vários, tantos que perdia a conta em tantas décadas de sua existência. O que estava fazendo em sentar naquele banco e assistir uma missa se não buscava nenhuma redenção? Redenção de que? Ela era um ser da noite, uma vampira que muitos chamavam de demônio e por muitas das vezes não acreditava naquele Deus que falavam, ainda assim por causa daquele humano estava ouvindo aquelas palavras e sentindo-se culpada pelos seus pecados.

As palavras dele que eram sempre proferidas atingiam o peito da vampira, mexiam com sua mente e atordoavam seu discernimento ao ponto de desejar… Desejar? Ela, ali com os braços jogados sobre o encosto do banco da frente onde sua face olhava o chão, espantou-se ao sentir desejo. Seu peito ardeu mais quando a face do padre Salvatore inundou sua mente, ela o desejava e, pior, de tal forma que podia sentir tudo a sua volta, de tal forma que queria ser como ele, para ser humana novamente e ficar ao lado dele. Estremeceu e seus olhos ficaram vermelhos tão intensos que chegavam brilhar. Não, isso seria terrível, sem nenhuma chance, tal desejo iria mudar sua existência vampirica, estava perdida e não havia mais volta para o que se tornara. Decidida, voltaria a sua vida noturna e abandonaria aquele lugar de uma vez.

Quando levantou a cabeça, assustou-se com a presença do padre, que estava ali de pé ao seu lado com um olhar preocupado pronto para tocar seu ombro. A vampira grunhiu baixo e afastou-se rapidamente dele, andou pelo corredor já tomando o rumo da saída daquela paróquia.

– Lya.

Padre Salvatore a chamou e a vampira parou de imediato, como se a voz dele fosse um comando para não ir.

– Aconteceu algo?

– Não.

– Seus olhos estão vermelhos, está com sede, presumo. Venha, tenho algo que pode aliviar. – Ele ficou ali parado esperando ela se virar e voltar para ele.

– Eu estou bem. – Ela ainda estava imóvel e de costas para ele. – Vou embora, boa noite padre Salvatre.

Ela voltou a andar, mas foram somente duas passadas, a voz dele voltou a chamá-la.

– Lya, por favor, não vou deixá-la sair por aí sedenta. – Passou entre os bancos e caminhou até ela, ficando alguns passos, próximo. – Vamos, eu te peço, venha comigo.

– Padre, eu sei me controlar, não vou atacar ninguém. – Ela virou o rosto por cima do ombro e estremeceu ao ver a mão dele estendida para ela.

– Prefiro prevenir, vamos… – Ele andou até ela e mesmo cauteloso segurou sua mão pálida, virou-se para voltar no corredor e a puxou levando-a consigo.

– Eu… por favor…- Ela balbuciou aquelas palavras sem resistência alguma ao fato dele levá-la para dentro da igreja, tomando o rumo da sacristia.

Ela era muito mais forte que ele, muito mais ágil, podia até dominar a mente dele, paralisá-lo, ordenar que a soltasse e atacá-lo. Sim, ela era a predadora, quem ordenava, superior a ele em tudo e, no entanto, estava sendo levada pela mão por ele de tal forma que todas as suas forças sumiram.

Na sacristia, ele soltou a mão dela e calmamente foi até a geladeira, pegou uma frasqueira térmica e voltou até a mesa colocando-a ali sobre a mesma. Abriu e retirou de dentro duas bolsas de sangue. Lya olhava tudo atenta como um cãozinho esperando pelo seu dono, era aquilo, ela estava ali de pé parada como um animal de estimação esperando para ser alimentado. Seus olhos vermelhos fitaram as bolsas de sangue quase como se estivesse hipnotizada por elas. O padre foi até a cozinha enquanto falava com ela.

– Eu sei que consegue se controlar, mas ainda assim não ficarei tranquilo sabendo que anda pelas ruas sedenta, não sei onde fica seu… seu… como chama o lugar onde fica? Sei que não gosta que chame de ninho. – Deu outro breve sorriso enquanto aquecia aquela bolsa de sangue no aparelho que permitia que não coagulasse.

– Refúgio. – Respondeu baixo.

– Refúgio. Pode ser longe e até lá alguém pode se distrair e se ferir.

– Nossa, pensou em tudo pelo que entendi. – Ela ainda falava baixo.

– Sim, desde que começou a vir à igreja pensei em tudo, inclusive proteger os fieis e a senhorita de ser caçada. – Pegou a bolsa de sangue com a luva térmica e uma taça de vinho e abriu derramando todo conteúdo da bolsa na taça. – Melhor prevenir do que remediar. – Estendeu para ela.

– Entendo.

Lya caminhou até ele e segurou a objeto, hesitante um tempo. Retirou-o da mão do padre caçador, olhou o líquido rubro e aroma ferroso que exalava, inspirou e seus olhos novamente brilharam vermelhos. Tomou o primeiro gole e notou que sentia sede, realmente a sede estava intensa voltou a beber dessa vez em goles longos. Quando terminou entregou a taça para ele e baixou o rosto um tanto tímida.

– Obrigada… Nem havia notado que estava com sede. – Murmurou baixo.

– Não se alimenta há quanto tempo? – Ele questionou, levando a taça para a cozinha, dali podia ver a vampira.

– Não gostaria de saber, afinal és um caçador, pode querer me prender e levar à sede onde prendem vampiros.

– Eu posso lhe fazer uma pergunta mais pessoal? – Ele enxugou a taça e a colocou na cristaleira perto da mesa onde fazia suas refeições.

Lya não olhava para o padre, preferia evitar aqueles olhos azuis.

– Pergunte, direi se irei ou não responder.

– O que pensa realmente de um humano? – Ele parou perto dela, estava com aquela batina negra e suas mãos pousadas uma sobre a outra esperando sua resposta.

Lya levantou o olhar e o encarou rapidamente, desviando em seguida, estava intimidada por aquele jeito dele, pela voz e sua pergunta.

– Eu já respondi a essa pergunta, esqueceu?

– Não esqueci, mas acho que a farei de forma mais precisa, o que pensa de humanos que são mais próximos a senhorita? – Ele inclinou a cabeça para olhá-la nos olhos. Uma coisa que havia notado nela era que a vampira sempre o encarava quando dizia algo verdadeiro.

Lya levantou o rosto e os olhares foram trocados. Ela estremeceu por dentro, voltou a face para o outro lado e andou até o sofá que havia no lado oposto da sacristia.

– Eu não vejo como alguém que possa me fazer mal, se tenho apresso costumo manter perto, que podem me servir de alguma forma, quanto mais próximos a mim, mais eu os protejo.

– Entendo. – Ele andou pelo lugar pensativo e parou mais perto dela. – Eu posso presumir que tem apresso por mim, já que vem todas as noites à igreja e algumas vezes me segue as escondidas nas caçadas.

A vampira deu mais um passo para trás e encostou no sofá, mas ainda de pé olhava-o sem entender aonde queria chegar com aquela postura.

– Decerto, eu ando vindo muito aqui, mas é que… – balbuciava sem jeito. – O que quer com essas perguntas e agora essas suposições? Acha que penso em vós dessa forma, ter apresso por um humano… – Um tanto intimidada resolveu retrucar.

– Calma, não quero que fique irritada, não é isso que está pensando. – Ele parou e inspirou fundo, afastou dela e voltou para perto da mesa dele. – Eu fiz minha escolha, não estou perguntando se tem afeto por mim dessa forma.

Lya ficou tão constrangida por ter pensado nele naquela forma carnal que sua vergonha virou irritação.

– Não gosto dessa conversa, obrigada pela “bebida”… – A vampira virou-se para sair, dessa vez mesmo que chamasse estava decidida a partir e não voltar nunca mais.

– Eu serei seu servo de sangue.

Lya congelou ao ouvir ele falar aquelas palavras quando já passava pela porta da sacristia, virou olhando-o espantada e andou de volta parando de frente para ele.

– Enlouqueceste? – Resmungou entre os dentes ainda sem acreditar naquelas palavras.

– Não, somente quero garantir que não ataque ninguém por aí ao ponto de ser caçada. – Falava com ela sério, com uma certeza no olhar que chegava a intimidá-la.

– E acha que eu aceitaria tudo normalmente?

– Espero que sim, afinal tem visitado a igreja, não posso proibi-la de vir e para garantir a segurança dos fiéis prefiro que se alimente bem todas as noites…

Lya baixou a cabeça e ficou tensa, aquela postura dele irritava-a ainda mais, ao ponto das sombras no lugar começarem a oscilarem.

– Para de falar, não sabe o que está dizendo, se oferecendo assim. – Olhou-o novamente com a face fechada e nitidamente furiosa. – Pensa que sou o que padre, um animalzinho de estimação que alimenta para manter calmo? – As sombras começaram a se mexerem no ambiente.

Padre Salvatore se alarmou e olhou em volta assustado, fitou-a e estremeceu com a energia pesada que vinha da vampira.

– Lya, não… Por favor, não entendeu o que quis dizer, por favor, acalme-se, deixe-me explicar…- Ele recuou procurando por sua arma.

– Explicar? Não, eu não quero ouvir, age como se fosse algum animal incapaz de me controlar. – Ela avançou nele e o segurou pela batina.

– Lya! – Alarmado com o avanço dela, segurou suas mãos que estavam sobre a batina dele na altura do peito. – Acalme-se, por favor, não é isso, não a vejo dessa forma… Escuta… Eu gosto de você!

Lya estava agitada e irritada, porém quando ele segurou suas mãos e ouviu aquelas palavras ela ficou em choque e paralisou novamente, olhando-o com os olhos arregalados tamanha fora o peso daquelas palavras.

– Como? – Afastou dele desvencilhando de suas mãos. – O quê? Por quê?

– Eu faço isso porque gosto de você, Lya. – Ele olhava-a ainda tenso. – Não penso que é um animal incontrolável, eu vi que não é desde as ruínas quando nos vimos, eu estava ferido, você estava ferida e mesmo assim não me atacou.

– E por que gosta de mim? – Ela ainda estava atordoada com aquelas palavras dele.

– Por quê? – Ele deu um breve sorriso e vendo que ela estava aparentemente mais calma voltou a aproximar mais dela. – Por muitas das vezes a observei aqui na paróquia, chego a dizer que de certa forma gosta de vir aqui e das conversas que temos, sinto que de alguma forma procura por algo e acredito que encontrou aqui, então assim como gosto de todos os fieis da igreja, já a vejo da mesma forma, não como um monstro.

Conforme ele falava o rosto dela se iluminou e seus olhos antes vermelhos, voltaram ao verde claro daquela vez com um brilho diferente para ele, até que ele disse que a ver como uma fiel, naquele momento seus olhos baixaram e ela ficou um tanto decepcionada.

“Uma fiel da igreja, claro, ele me veria dessa forma, afinal é um padre que está ali para ajudar as almas perdidas em busca de conforto e redenção.”

Os olhos dela lacrimejaram, não entendia por qual motivo sentira aquela pontada de decepção no peito. Ele era padre, o que queria dele afinal?

– Lya… – Gianni se aproximou dela e notou os olhos cheios de lágrimas, se compadeceu com aquilo e a tocou no ombro, depois que ela olhou-o tocou seu rosto. – Todos temos direito a buscar algo melhor que o destino forçou a seguir, se deseja vir a igreja, venha. E como padre dessa congregação, tenho que garantir o bem estar de todos que aqui buscam conforto, inclusive a senhorita.

– Padre Salvatore. – Ofegou baixo e fechou os olhos sentindo o afago daquela mão. – Eu nunca vi alguém tão tolo como vós, afinal eu sou um monstro, vivo nas trevas e mato humanos pelo sangue, ainda assim quer me tratar como uma igual? – Abriu os olhos, tensa. – És estranho.

– Eu posso ser um tolo, mas eu errei em dizer algo que percebi na senhorita? É o que quer, não é? Quer se redimir e ter paz, acertei?

Lya abriu a boca ainda mais surpresa, cada palavra dele era forte demais para ela ouvir. Em total desespero empurrou ele, negando com a cabeça.

– Eu não quero, por favor, não quero… – Abraçou-se afastando dele chorosa. – E quero…

– O que quer Lya? – Gianni olhava-a.

– Ficar…

Ele voltou para perto dela e tocou seu ombro.

– Então, fique.

Lya abriu os olhos e as lágrimas escorriam sem parar, levantou o rosto para olhá-lo e trêmula baixou os braços.

– E por isso vai ser meu servo de sangue?

– Eu posso a servir de meu sangue para que possa ficar aqui entre os fiéis, sou forte e doo sangue sempre, só terei que doar um pouco mais. – Soltou um leve sorriso, aliviado por ver que ela estava mais receptiva.

Ela andou suavemente até ele e estendeu a mão para tocar o rosto do padre.

– Realmente és um tolo e ingênuo padre. – Ela inclinou a cabeça e tocou a face que escorria lágrimas.

– Pegue. – Padre Salvatore tirou de dentro do bolso de sua batina um lenço e estendeu a ela. – Não chore mais, agora precisa se acalmar.

– Obrigada. – Pegou o lenço e enxugou os olhos e rosto.

O padre parecia satisfeito com aquele resultado. Afinal, o que podia fazer se não aceitar aquele sangue oferecido por ele? Já havia provado antes e sentira-se saciada na ocasião.

– Hoje não sairei em caçada, pretendo fazer alguns estudos e, se não for abusar muito, gostaria que me acompanhasse. – Ele andou até a estante, pegou uns livros antigos e colocou sobre a mesa com um breve sorriso. – Ah sim, se não for algo chato para fazer, afinal não temos muita diversão na igreja quando ela fecha à noite.

Lya o seguia enquanto recompunha o seu estado emocional, estava ainda trêmula com tudo que acontecera e um pouco chocada com o fato de ter sentido tantas emoções com aquele humano naquela noite, tanto que mal ouviu seu convite. Andou até a mesa e puxou uma cadeira sentando e olhando aqueles livros antigos.

– Diversão? Já faz umas boas décadas que não sei o que é isso, fico mais isolada do que andando por ai. – Puxou um livro que falava da Grécia antiga. – Ler é bom, afinal de contas padres não leem a bíblia?

– Nem todos, prefiro acompanhar o mundo e tirar minhas conclusões. Quero sim entender de tudo, leio e estudo os fatos e comparo com o que a bíblia diz.

– Interessante. – Falou mais calma.

– Então, gostou do sangue que lhe dei? – Sentou na outra cadeira abrindo um segundo livro.

Ela olhou-o e virou os olhos.

– Realmente, você é estranho. – Folheou algumas páginas e despreocupada respondeu. – Bastante saboroso, me saciou de imediato, lembrou seu sangue… – Parou de imediato e olhou-o de novo.

– Eu só podia fazer isso, doar meu sangue a senhorita.

Lya olhou-o de lado um tanto cabreira.

– Gosta de café requentado, Padre Salvatore?

Ela a olhou confuso enquanto abria uns cadernos com folhas em branco para começar as suas anotações.

– Não, prefiro fresco passado na hora. -Fitou-a

– Sim, bem melhor fresco, assim como o sangue, melhor vindo da fonte. – No instante seguinte, com um piscar de olhos, ela estava parada atrás dele e tocando seu pescoço, inclinou a cabeça dele onde aproximou os lábios. – Não aprecio sangue requentado, assim como café, padre. – Sorriu baixinho e tocou o pescoço dele com os lábios.

Gianni congelou alarmado com aquele ato rápido e engoliu seco conforme ela aproximava os lábios.

– Não quero ser mordido, Lya, muito menos ser um vampiro… – Ele ofegou baixo sentindo o toque dos lábios dela. – Por favor…

Lya afastou os lábios do pescoço dele e sorriu divertindo-se com seu receio.

– Não existe padres vampiros, padre. – Afastou novamente soltando o pescoço dele e voltando a seu lugar. – Porém, ainda prefiro o colhido da fonte, fresco e cheio de vida. – Olhou-o no canto dos olhos.

– Como faremos? – Ele olhava-a atento e engoliu seco com aquele olhar esverdeado para si.

– Podemos fazer um talho em seu braço e sugarei seu sangue, que acha?

O padre ficou quieto uns segundos e depois suspirou baixo se dando por vencido quanto à forma que ela iria se alimentar dele.

– Tudo bem, mas não morda.

– Prometo. – Levantou a mão solenemente fazendo aquela promessa. – Podemos tentar agora, para ver se não desiste dessa sandice de alimentar uma vampira.

– Agora? – Ficou tenso.

– Claro, você se ofereceu achando que tirar o sangue e me dar nesses saquinhos seria a melhor forma, mas para mim o que me sacia mesmo é beber da fonte. Então faremos o teste e, se conseguir aguentar, será meu servo de sangue. – Sorriu de forma ainda mais divertida.

Ele olhou-a e engoliu seco novamente, estava tenso e conforme ela falava sua tensão aumentava. Por fim bufou com o sorriso divertido dela e balançou a cabeça concordando.

– Está se divertindo com isso, pelo visto consigo realmente ser uma piada para vampiros, ótimo caçador que sou.. .- Afastou-se da mesa e se encostou na cadeira.

– Eu acho que acertou pois, somente um ingênuo como o padre é para se oferecer dessa forma a uma vampira, mas se quer assim farei do seu jeito, vai me alimentar para deixar a fera domesticada visitando sua igreja.

Ele olhou o braço e puxou a manga da batina enrolando-a expondo o antebraço. Ficou novamente olhando para o braço e depois para ela. Lya esperava atenta a cada gesto do padre. Por fim ele estendeu a ela o braço e pousou sobre a mesa deixando que ela fizesse o talho e se alimentasse dele.

Lya se aproximou, segurou o braço dele e com uma unha fez um furo no antebraço, um pequeno talho onde as gotas do sangue rubro e forte surgiram. Os olhos da vampira brilharam, ela aproximou os lábios e tocou a pele do padre, sugando o sangue que saía morno e descia pela sua garganta de tal forma que a fez soltar um gemido de prazer.

Padre Salvatore estremeceu quando os lábios dela tocaram a ferida aberta por sua unha afiada, sentiu o sangue ser sugado e seu corpo ficou mole e relaxado. Ofegava trêmulo ao ponto de levar a outra mão que estava livre até os olhos e cobrir de forma que escondesse o quanto aquela sensação de ser sugado por ela lhe afetava. Não imaginava que aquele ato poderia lhe causar aquela estranha sensação de prazer ao qual ele não estava habituado. O corpo também reagia de forma inconveniente, traindo-o diante da vampira. Seu rosto corou e o desconforto foi imenso, sentiu-se febril e desejou que ela terminasse logo com aquilo antes que fosse longe demais.

– Acho que já foi o suficiente. – Ele falou ainda ofegante.

Lya ouviu e o olhou. Ela sentia como havia o afetado pelo cheiro dele e o sabor de seu sangue. Sentir o gosto do prazer naquele humano a tentava ao ponto de ponderar continuar. Porém, tinha apreço ao padre e, por mais tentada que estivesse, sabia que ele não gostaria que ela prosseguisse, os sentimentos que lhe tinha, por mais ironico que fosse é o que a fez parar. Por respeito, afastou os lábios e lambeu o lugar, cicatrizando a ferida ao ponto de sumir e a pele voltar ao normal.

– Saboroso… – murmurou baixo e se afastou soltando o braço dele. – Seu sangue é muito saboroso.

Gianni trouxe o braço até si e olhou-o vendo que sumira o ferimento, ajeitou a manga da batina desenrolando e fechando o botão. Respirou fundo e se ajeitou na cadeira puxando a batina para disfarçar seu estado. Suspeitava que a vampira pudesse sentir quanto o corpo dele havia reagido com aquele ato e aquilo deixava-o envergonhado.

– E agora, o que acontece? – Balbuciou trêmulo aquelas palavras. – Passei em seu teste?

– Na verdade essa pergunta és vós quem responde. Ou melhor, posso fazê-la de outra forma: padre, pode aguentar a cada vez o que aguentou agora?

O padre engoliu seco, a sensação era maravilhosa não podia negar. Sentia uma adrenalina e o corpo tenso e ao mesmo tempo relaxado de uma forma estranha, era uma sensação que desejou mais. Trêmulo e com a cabeça um tanto pesada, um cansaço lhe bateu e seus olhos estavam pesados pela falta de sangue.

– Nada que uma noite de sono não resolva. – Sorriu e levantou segurando na mesa, procurando ficar de costas para ela. – Se for uma vez ou outra posso suportar, só não faça isso quando eu tiver que sair para missões. – Andou lento até a porta da sacristia e abriu-a. – Melhor encerrarmos por hoje, senhorita Lya.

– Sim, afinal precisa recuperar o sangue perdido. Irei agora, mas amanhã à noite estarei de volta. – Levantou e passou por ele como quem quase flutuasse em suas passadas suaves. – Descanse padre, boa noite.

– Boa noite senhorita Lya.

Gianni andou atrás dela e parou perto do altar enquanto a via sair da igreja sumindo nas sombras. Inspirou baixo e olhou para o braço ainda trêmulo. Seu corpo tinha reagido a ela, reagido àquele ato de sugar seu sangue. Ofegou algumas vezes e foi rápido para seu quarto, pegou suas vestes e tomou um banho demorado, depois voltou para o quarto e jogou-se na cama.

Deitado, olhava o teto do quarto que escuro iluminado somente pelo luar, que entrava pela fresta da cortina que balançava com a suave brisa que vinha da janela. Inspirou fundo e soltou o ar do peito para que aquela sensação sumisse de uma vez, não podia se permitir aquilo, seu corpo ainda estava tenso com aquele ato, mesmo depois do banho ainda estava sentindo aquele “prazer” que fora ter os lábios dela em sua pele e o sangue sendo sugado.

Ele fizera a sua escolha, era devoto e amava o que era, ser padre era sua vida e tal ato somente o fazia lutar para fortalecer sua fé. Era aquilo, aquela era uma forma que iria fortalecer sua fé e sua vocação, aquela vampira era sua prova de fogo e iria enfrentar, já que acreditava que o encontro de ambos não fora mero acaso do destino, que ambos tinham algo para ser superado e para isso faria o possível e impossível para conseguir.

Adormeceu por fim exausto caindo em um sono profundo que não notou que, dali das sombras de seu quarto, Lya, atenta e desejosa, observava-o dormir.

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado,

pensava que somando as compreensões, eu amava.

Só depois percebi que, somando as incompreensões

é que se ama verdadeiramente”

-Fim-

Música tema: Evanescence Understanding

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Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única.