A Dama Negra 2ª T – Nocturna VI Há males que vem para o bem…?

A Dama Negra 2ª T – Nocturna VI Há males que vem para o bem…?

Nocturna VI

Há males que vem para o bem…?

A cabeça pesada o deixava cada vez mais irritado. Gianni resmungou em sua língua natal, estava balbuciando quando Lya entrou naquela enfermaria um tanto alarmada com o chamado do arcebispo Bartolomeu. Naquele exato instante, ele fechou os olhos e sua mente vagou até o passado, até as imagens de uma existência a qual desconhecia.

– Figlio mio… – Lorenza embalava a cria nos braços afagando os cabelos de seu filhote, ali na sacada da varanda olhava a noite estrelada de Roma. O pequeno Lourenzo aconchegava-se nos braços da mãe enquanto a ouvia cantarolar uma canção de ninar. – Sarai grande come tuo papa e tua mama. – Ela sorria feliz com aquele seu presente, após séculos de tentativas frustradas de gerar um herdeiro puro para seu amado Nicollas, conceberam Lourenzo que passou ser o príncipe daquela casa.

A felicidade daquela família era completa. E como Regentes de Roma tinham total apoio do Vampiro Rei, que sempre lhe beneficiavam com recompensas e proteção. No entanto, naquela noite de final de estação tudo mudou. Dentro de sua própria casa estava morando a traição e Nicollas sofreria por confiar tão cegamente naquele que lhe apunhalou pelas costas.

Fuga, gritos e desespero marcaram a mente daquela pequena cria, os olhos brilhantes azulados como os da mãe registravam a noite de horror e assassinato que todos os membros e servos do clã passaram. E um a um foram caindo exterminados pelos algozes, que enfurecidos destruíam e queimavam tudo pelo caminho.

O filhote puro abriu os olhos assustados para a mãe, que o abraçava cantarolando a sua canção de ninar favorita. Estavam em uma gruta no meio do nada quando ele a viu se desmanchar em sangue, sumindo de sua frente assim que seus olhos pesaram de cansaço.

Desde aquele momento sua mente mergulhou no esquecimento e assim ele foi entregue a um casal, que de braços abertos o receberam como filho e nunca mais falaram sobre aquele terrível ataque.”

Lya afagava os cabelos negros de seu amado enquanto ele estava deitado com a cabeça apoiada no seu colo, ele resmungou algo e se ajeitou passando o braço pela cintura da vampira. Piscou os olhos algumas vezes e aos poucos abriu, fitou-a ainda na mesma posição e soltou um breve gemido chateado.

– Quanto tempo apaguei? – Sussurrou a ela.

– Não muito, acredito que quase uma hora. – Afagou novamente os cabelos dele. – O que aconteceu?

– Eu não sei, o arcebispo foi falando sobre mim, fatos que acabaram fazendo me sentir mal e… – Levantou de sobressalto. – O arcebispo, onde ele está? – Olhava em volta e notou onde estavam. Era um quarto do hospital onde estavam a sós.

– Ele está na enfermaria com as freiras, parece que chegaram alguns membros da arquidiocese e foram falar com ele e saber do padre baleado. – Lya olhava Gianni atenta a cada detalhe, curiosa com o que ele ouvira do arcebispo. – Diga-me, o que foi dito para lhe fazer sentir mal?

Ele olhou-a e voltou a sentar, levou as duas mãos ao rosto e esfregou bufando em seguida, depois afastou-as e virou a face novamente a Lya.

– Ele disse que eu sou o primogênito sangue puro e que minha família foi toda exterminada pela atual Regente de Roma, Isabella Bragatti. – Fechou os olhos e voltou a falar. – Lya, você sabia disso? Sabia que eu era um vampiro, ou melhor dizendo, que eu sou um sangue puro?

Lya ficou um tanto tensa, realmente ela sabia que ele era vampiro, ao menos depois que o transformou e foi constatado que ele havia desenvolvido poderes das trevas, porém ainda faltava ter a confirmação de que ele era um puro e isso somente iria descobrir depois com seu amigo Solomon. No entanto, o arcebispo pareceu confirmar através daquele relato ao seu amado Gianni.

– Eu constatei que sempre fora um vampiro quando usou poderes sem nunca ter aprendido e com bastante facilidade, diga-se de passagem. – Inclinou o rosto para fita-lo. – Eu não imaginava que fosse um sangue puro, apesar de que senti que seus poderes crescem a cada despertar noturno.

Ele ficou em silêncio olhando-a, analisando a situação. Inspirou ainda chateado e levantou caminhando pelo quarto ainda pensando em tudo que ouvira.

– Eu ouvi as explicações de Dom Bartolomeu, mas ainda não sei se acredito em tais palavras. Está tudo muito confuso e a sensação que tenho é que há algo errado.

Lya ficou em silêncio naquele momento e, mesmo sem ter uma resposta, tentou ser um pouco coerente com ele.

– Seja lá o que sente, aqui nesse lugar não irá ajudar a ter suas respostas, sugiro seguirmos para minha residência e com calma pensarmos em tudo, o que acha? – Levantou, caminhou até ele e segurou em seu braço ansiosa para ele concordar com sua proposta.

Gianni olhou-a novamente e ponderou. De que adiantava ficar no hospital questionando toda aquela informação? Teria que confirmar de alguma forma, apesar de crer que o que o arcebispo contara soava verdadeiro. Ele tinha as lembranças vagas daquele ataque muito antes de saber com o velho vampiro. Se fosse verdade, o que iria fazer? Ainda não fazia ideia de como seria dali para frente, mas era certo que não iria permitir que inocentes pagassem com a vida por saberem sobre a verdade de sua existência.

– Iremos para sua residência, porém não posso deixar eles sem proteção. Virão atrás do arcebispo e de irmã Maria, possivelmente da irmã Clarence e do Padre Davi também, não posso permitir que mais inocentes paguem com a vida por saberem de minha existência como vampiro.

– Gianni, o que sugere que façamos? Não há como protegê-los aqui no hospital sem nos expormos junto. – Preocupada, inspirou baixo pensando em uma solução.

– Eu não irei até que Dom Bartolomeu e os demais fiquem à salvo dessa vampira, preciso pará-la.

– Isabella Bragatti é insistente quanto se trata de perder aquilo que ela julga pertencer-lhe. Ela é capaz de tudo e não duvido que virá até você, Gianni, quer acabar com o último empecilho que possa tomar a Regência e… – Lya parou de falar e abriu os olhos. – Regência… Isso, podemos por o arcebispo e seus servos em proteção. – Lya pegou do bolso de seu sobretudo o celular e fez um gesto para ele esperar, então realizou a chamada.

Gianni fitou-a observando enquanto falava com alguém do outro lado da linha. Intrigado, apenas se limitou a ouvir aquela conversa.

– Boa noite, Sr Benjamin. – Fez uma pausa para ouvi-lo. – Eu compreendo, soube do ocorrido e lamento pelas perdas. – Ficou séria ouvindo as palavras do Regente por uns longos minutos sem demonstrar alguma reação, por fim voltou a falar. – Eu posso imaginar o quanto teve trabalho para encobrir o ocorrido na região comandada por Sr Sebastian, lamento… – Foi interrompida e olhou Gianni. – Eu creio que sim, Sr Benjamin, meu irmão corre risco assim como Dom Bartolomeu e seus servos. – Voltou a face para o lado e caminhou ouvindo as palavras do Regente. – Entendido. – Parou de andar e sua expressão facial mudou novamente, porém o tom de voz ainda era calmo e contido, soltou um leve sorriso e voltou a falar. – Agradeço imensamente, aguardarei os seus emissários aqui no hospital.

Gianni mantinha a postura de antes, até notar que ela mudara, inclusive a energia em sua volta ficara mais densa e pesada, já havia aprendido que quando Lya ficava assim algo a irritara profundamente. Aguardou encerrar a chamada e fitou-a de braços cruzados sobre o peito.

Lya inclinou a cabeça e guardou o celular no bolso. Voltando a face para Gianni, notou que ele estava sério e falou com cautela.

– Sr Benjamin estava irritado, os ataques foram encobertos e a polícia local calada, principalmente em questão ao massacre na região onde era dominada por Sr Sebastian. – Caminhou até ele. – Ele enviará emissários para proteger o arcebispo, já que foi lhe informado do ataque a catedral. Ao meu ver, eles ficarão seguros.

– Ótimo, já me deixa um pouco mais aliviado. – Abaixou os braços e ainda olhava-a aguardando o restante do que tinha para lhe dizer.

Lya sorriu e concordou, porém não queria contar o que fora falado para ela, afinal o Regente solicitou um encontro com a sangue puro.

– Então, só aguardarmos a proteção chegar e iremos, certo?

– Lya.

Ela baixou o rosto e desviou o olhar sabendo que ele encarava, bufou e negou com a cabeça voltando olhá-lo.

– Eu só vou encontrá-lo para garantir que não venham atrás de você, vão nos dar proteção.

– Ótimo, irei junto. – Gianni voltou-se para a porta do quarto e abriu-a, estendeu a mão para ela segurar. – Vamos…

Lya rolou os olhos e caminhou até ele segurando sua mão, sentiu ele apertar com firmeza e puxou-a para segui-lo pelo corredor após saírem do quarto. Caminharam pelo corredor indo em direção a enfermaria, logo que chegaram à ala principal viram Willian e irmã Maria conversando sentados no sofá da recepção do hospital.

Willian voltou a face para ambos os vampiros e levantou curvando levemente a cabeça, os cumprimentando. Irmã Maria levantou e notou as mãos dadas de Lya e Gianni, suspirou baixo como quem lamentasse por aquilo.

Lya notou e segurou ainda mais firme a mão de Gianni entrelaçando os dedos aos dele. Voltou a face para Willian e sorriu gentil, depois para a freira demonstrando simpatia, falsa na verdade, já que ainda não engolira aquela serva de sangue de seu amado.

– E pelo visto parece melhor, meu amigo. Afinal de contas, o que aconteceu lá com o arcebispo para lhe causar esse pequeno apagar de mente? – Will estava um pouco tenso.

– Quando sairmos daqui conversaremos com calma, o Regente irá enviar emissários para proteção do arcebispo e seus servos. – Gianni olhou para irmã Maria e sorriu a ela . – Irmã Maria, segundo soube estarão sob proteção do Regente da cidade e não precisará ficar mais preocupada, não irão permitir que ataquem o arcebispo e seus servos.

Irmã Maria sorriu um tanto sem jeito e olhou de rabo de olho para Lya, que mantinha ainda uma expressão de indiferença mesmo com o sorriso gentil na face.

– Eu agradeço, realmente agradeço… – Segurou o terço entre os dedos um tanto tensa. – Foi um tanto surpreendente saber que o arcebispo é um… – olhou em volta e falou mais baixo. – Mas eu supero, já que desde que resolvi aceitar a missão de auxiliar os caçadores não deveria mais ficar surpresa com essas situações.

– Não a culpo, foi surpresa para mim da mesma forma, mas o importante que ele terá proteção e você juntamente. – Olhou para Lya e concordou. – Vamos esperar os emissários chegarem.

– Eu agradeço pela ajuda. – Irmã Maria sentou e fitou eles, depois olhou para o corredor onde via que irmã Clarence vinha de encontro a eles.

A freira se juntou ao grupo e falou do estado do Padre Davi, estava fora de perigo, porém ainda na UTI. Relatou sobre o que fora dito pelos enviados da igreja e que iriam investigar o incêndio na catedral. Estavam julgando ser algo premeditado dado as investigações preliminares, o que segundo a freira serva do arcebispo não era bom para ele, poderia denunciar sua existência como criatura da noite.

Gianni ainda não sabia o que fazer com o fato de ter nascido vampiro, ainda sentia tudo aquilo surreal demais. Tinha suas memórias e criação humana tão vivas em seu ser que a possibilidade de ter nascido vampiro passava pela cabeça como algo inacreditável. Assim, ele ficou perdido naqueles pensamentos, desatento a tudo que falavam a sua volta. Calado, somente concordava automaticamente com a cabeça e vez ou outra dava um leve sorriso.

Lya notava a distância dele do que conversavam e observava atenta a cada movimento e expressão dele, tentava entender o que se passava com seu amado. Ela tinha a sensação de que ele estava perdido, talvez sobre não crer que era vampiro e descobrir que sua existência fora toda fadada a assassinatos e perseguições, ao ponto de outros morrerem para lhe proteger.

Gianni pelo que percebi está descobrindo aos poucos o mundo de horror e disputa de que fora tirado quando se tornou humano. A culpa é minha, foi eu que lhe coloquei em risco. A cada momento que constato tal fato, sinto que naquela maldita noite deveria ter partido de Roma conforme havia planejado. Como fui fraca em sucumbir ao seu pedido e aceitei ficar, tola!

Pouco mais que um quarto de hora se passou e um grupo se aproximou deles. Eram em quatro os emissários do Regente e curvaram a cabeça cumprimentando Lya com respeito. O primeiro deles, e possivelmente o que comandava o grupo, se apresentou e depois os demais relatando que iriam proteger o arcebispo até sua alta e de seus servos. Lya apresentou as duas freiras como servas do arcebispo e relatou que o padre estava na UTI e que era outro servo que precisaria de proteção.

Feito as devidas apresentações, os vampiros foram cumprir sua missão deixando o trio ali se despedindo das freiras.

– Irmã Maria. – Gianni se aproximou dela. – Qualquer coisa me ligue. – Estendeu a mão para ela lhe dar o celular e assim que pegou salvou na agenda seu contato pessoal. – Qualquer coisa que precisar, me ligue.

– Obrigada, Gianni, ligarei. – Sorriu. – Deus te abençoe e proteja, estará sempre em minhas orações.

– Eu não sei se mereço tais orações, mas mesmo assim agradeço, boa noite. – Afastou dela e foi até Willian e Lya que já o esperavam na porta de saída do hospital.

Ambos acenaram para as freiras e saíram logo em seguida. No lado de fora o trio caminhou pelo estacionamento indo para os carros. Willian foi para o dele e Lya caminhou para o carro que viera com Gianni.

– Srta Merelin.

A voz baixa e firme ecoou para ela como uma lâmina afiada que atravessou o peito, fazendo-a olhar quase que instantâneo para o lugar de onde ela vinha. A sangue puro arregalou os olhos ainda parada perto da porta do carro.

– Minha senhora, a quanto tempo. – A face diante dela esboçava certo sarcasmo naquele cumprimento, ele curvou a cabeça levemente e lançou o olhar para Gianni, que do outro lado do carro havia notado que ele não era um vampiro qualquer.

Richard curvou um pouco a cabeça cumprimentando Gianni e voltou o olhar a Lya, um leve sorriso brotou no canto dos lábios ao notar o quanto ela estava nervosa. Satisfeito pela reação da puro, ele deu um passo atrás.

– Serei breve… – Voltou novamente a face a Gianni, os lábios se abriram em outro sorriso satisfeito, o outro vampiro estava muito irritado com sua presença. – Os que lhe importunam não virão mais atrás de vós.

– O que…? – Lya mal conseguia falar de tão tensa que estava com a presença daquele vampiro. – Não… O que você fez, Richard? – Andou irritada até ele, sua energia ficou pesada e seus olhos totalmente negros, estava furiosa.

Richard recuou mais uns passos com o avanço da puro e notou que Gianni deu a volta em torno do carro indo até ambos com uma das mãos no bolso do sobretudo.

– Minha senhora, somente impedi que esse hospital sofresse um massacre afinal, estavam de tocaia esperando para atacar vós. – Fitou ambos. – Não precisam mais se preocuparem, esse problema foi resolvido, somente vim lhe dizer isso. – Curvou a cabeça a ambos.

Gianni estava cada vez mais intrigado e a irritação de Lya fazia-o lembrar que ela escondia segredos dele. Precisava tirar dela a verdade, afinal aquele vampiro era perigoso e sentiu isso assim que ele se aproximara.

– Quem é você? – Ele questionou antes do vampiro sumir. – Responda…

Richard olhou Lya e depois a Gianni.

– Ela não lhe contou? – Voltou a face a sangue puro. – Ela lhe contará.

– Vai embora… vai embora… vai!!! VAIIII!!! Avise a ele que não quero nenhum de seus “favores”!!! – Lya gritou e sua energia ficou ainda mais pesada, estava pronta para atacar o vampiro à sua frente.

Richard levantou as mãos em sinal de paz e deu mais uns passos para trás, evitando provocar mais a puro.

– Não… Minha senhora, para vós não são favores, és a trindade e pela trindade tem toda proteção… – Sorriu novamente no canto dos lábios. – Sr Magnus manda-lhe os cumprimentos e que em breve deseja revê-la. – Richard curvou-se elegantemente a ambos e se afastou sumindo das vistas de ambos entre os carros.

Lya ofegava furiosa e seus olhos negros denunciavam a verdadeira face e poder. Gritava dentro de si o quanto aquele momento fora o erro, agora que Magnus sabia onde ela estava dificilmente esconderia seu passado de Gianni. Colocou a mão sobre os olhos fechados para recompor-se e sentiu o toque da mão dele em seu ombro.

– Gianni, e-eu… – Ofegou tensa – E-eu… Vou falar, só preciso me acalmar…

– Lya. – Gianni tocou o queixo dela e a fez olhá-lo.

Ela relutou em fitá-lo com sua face transtornada envolta na energia espiritual daquele olhar negro, mas ele insistiu e ela o encarou. Gianni tocou o rosto dela e afagou, logo depois aproximou e beijou os lábios dela de forma delicada. Afastou-se notando que a vampira se surpreendeu com aquele carinho e voltou a beijá-la daquela vez de forma mais intensa.

Lya mesmo surpresa acabou retribuindo a segunda vez na mesma intensidade e seus lábios entreabriram recebendo os dele, trocaram carinhos e afagos enquanto os beijos ficavam cada vez mais intensos, até que ela o afastou ofegando baixo pousando a testa no queixo dele.

Seus olhos voltaram ao normal em tom esverdeado e sua aura pesada sumira, estava mais calma apesar de ainda sentir um aperto no peito.

– Gianni, vamos sair daqui…

– Claro, venha, entre no carro. – Pegou a mão dela e levou-a para o carro.

Logo que ela entrou e sentou, Gianni deu a volta e entrou no carro tomando o assento do motorista. Deu a partida e olhou-a uns instantes, até que acelerou e saiu em seguida tomando o rumo da rua principal. Pouco depois estavam indo para a central das barcas que levavam à ilha que era o refúgio de Lya.

Alguns minutos antes…

Bernard estava no alto daquele prédio, dali tinha uma visão privilegiada da entrada e saída daquele hospital. Estava tudo pronto e o carniçal sentia-se satisfeito por finalmente poder cumprir a missão dada pela sua senhora. Eliminaria naquela noite o último Salvatore da face da terra e levaria como troféu aquela caixa com os pertences do clã Salvatore, que poderiam tirar a Regência de Roma das mãos de Bragatti.

Deu o comando para seus agentes agirem assim que ele desse o primeiro disparo contra o vampiro sangue puro, Gianni iria desaparecer de uma vez por todas. Notou um carro chegar e estacionar onde quatro seres de negro saíram e tomaram o rumo do hospital. Franziu o cenho estranhando aquele grupo e falou ao rádio com o vampiro em terra que estava agindo como olheiro dentro do hospital. Teve a confirmação que eram vampiros servos do Regente que estavam ali para proteção do arcebispo.

O carniçal pouco se importou, já que seu real objetivo no momento era Gianni. De qualquer forma era melhor não se envolver com os agentes daquele Regente, sua senhora não almejava uma guerra com um líder de território do outro lado do oceano e correr o risco de chamar atenção desnecessária para si.

Assim, deu mais uma ordem para que aquele vampiro ficasse de tocaia apenas observando e aguardando o sinal dele para agir. Logo em seguida apontou a mira de sua arma preparada com silenciador e esperou. Foi que naquele momento que um ser apareceu ao seu lado. A aparição súbita fez seu corpo tencionar, como não notara aquela presença se aproximando? No entanto, não tivera tempo de reação.

– Sinto dizer, mas essa noite não haverá mortes, pelo menos por enquanto. – Richard atacou o humano.

Bernard sentiu seu corpo paralisar e ao olhar em volta arregalou os olhos, diversos espíritos estavam a sua volta e seguravam seu corpo o mantendo imóvel.

– Sr Bernard entenda, por mais que tente lutar para escapar, mais espíritos irão lhe segurar, é inútil lutar. – Richard caminhou até a beirada do peitoril do prédio e olhou para baixo.

O albino o encarou, cauteloso. Não era um bom sinal aquele homem saber quem era e o que estava prestes a fazer.

– Quem é você? – perguntou baixo e em tom frio. Não importava quem fosse, não iria confessar nada. Tentou se soltar daquelas almas penadas. – Faça o que tiver que fazer, torture-me se quiser, mate-me, mas eu não trairei mia signora – voltou a encará-lo.

– Sim, sei disso… – Fez um gesto para ele ficar em silêncio assim que avistou Lya e dois outros vampiros saírem de dentro do hospital tomando o rumo do estacionamento. – Espere-me, já conversaremos. – Logo em seguida Richard subiu no peitoril do prédio, saltou e pousou suavemente no jardim de frente a calçada sendo amparado pelos espíritos que somente ele via. Aquele ato fora tão rápido que somente olhos de vampiros poderiam ver um ser soltar de um prédio de 10 andares e caminhar pela calçada tranquilamente.

Bernard se debateu novamente, mas era inútil tentar se soltar daquelas coisas. Não adiantava em nada conseguir vê-las se não conseguia se soltar das malditas. Se ao menos houvesse cogitado a possibilidade de ser atacado por espíritos enquanto estava de tocaia, teria se preparado melhor. Cerrou os dentes e urrou baixo. Merda… Estava cometendo muitos erros naquela missão.

Respirou fundo e bufou ao olhar para baixo sem poder se mover. Aquela teria sido a chance perfeita e se aquele infeliz não fizesse perdê-la enquanto estava preso ali sem saber o que acontecia lá embaixo…

Logo depois daquela conversa…

Richard voltou e caminhou para perto de Bernard. O humano ainda tentava inutilmente se soltar, mas quanto mais lutava acabava cada vez mais preso nas mãos daqueles espíritos. Assim que sentiu o outro vampiro retornar, parou de se debater e o encarou.

– Sr Bernard, venho em nome de Magnus e peço de antemão desculpas pelo tratamento inadequado à vossa pessoa, porém era necessário dado o momento em que iria começar um ataque de proporções épicas. – Franziu a testa. – Sr Bernard, existem meios mais eficazes e discretos de eliminar um oponente sem que ele sequer note o que atacou. – Sorriu nos cantos dos lábios. – Vamos ao que de fato me trouxe aqui.

Fez um gesto com a mão e os espíritos começaram a se afastarem até que todos sumiram soltando o humano. O albino o encarava irritado, odiava que questionassem seus métodos, do algoz perfeito de sua mestra que fora impecável durante tantos séculos. Não admitiria, mas parte da irritação também se devia às suas últimas falhas. Assim que foi solto, endireitou a postura e continuou a encará-lo ainda cauteloso.

Mia signora não irá gostar de saber que falhei em abater meu alvo – Pegou sua arma e usou a mira para olhar em direção ao pátio. Viu que o carro não estava mais no estacionamento e bufou irritado. – Atrapalhou todo meu plano, agora irão esconder-se e terei um enorme trabalho para atraí-los e conseguir eliminá-lo. – Olhou para Richard furioso. Não se importou em revelar que estava ali para matar o Salvatore, era óbvio que aquele homem, de poder sinistro que arrepiava até a alma, já estava ciente de tudo.

Richard olhou o humano que falava sem tato algum nas palavras. Seus olhos negros denunciavam sua espécie, era um vampiro que controlava espíritos e pela forma que olhou o carniçal, demonstrou grande poder espiritual.

– Sr Bernard, sua senhora ficará muito mais satisfeita com a proposta de meu senhor… – Caminhou como um felino prestes a atacar sua presa até o humano e finalizou. – Magnus não é um ser qualquer e devido a isso, solicita que sua senhora lhe permita uma visita para ambos conversarem sobre assunto em comum.

O albino não recuou e o encarou nos olhos, por mais que um arrepio percorresse sua espinha.

– E qual seria esse assunto? – Bernard voltou a face para seus objetos e arma. – Diga-me e verei se mia signora irá perdoar a intromissão de seu senhor.

Richard soltou outro sorriso sarcástico e observou o humano enquanto caminhava em sua volta.

– Ela ficará bem mais satisfeita com o que meu senhor tem a propor. – Tirou do bolso de seu casaco longo e pesado e estendeu àquele humano um envelope com um selo na frente lacrando-o. – Entregue à sua senhora e aguardaremos o retorno para o mais breve possível.

Bernard pegou o envelope e olhou-o com a expressão séria. Não gostava de receber ordem de terceiros, mas talvez fosse mais sensato daquela vez seguir a sugestão. O vampiro tornou a falar.

– Mais uma informação, até que o encontro de nossos senhores ocorra é de imprescindível importância que o ataque a Gianni Salvatore e Lya Merelin seja suspenso, assim como os ataques aos demais que estão envolvidos com a dupla de sangue puros. – Curvou a cabeça e caminhou para o peitoril do prédio. – Sr Magnus aguarda o telefonema de vossa senhora.

Bernard viu aquele vampiro saltar novamente do prédio e ao pousar no chão caminhar normalmente entre as pessoas naquela noite fria. Olhou o envelope e ficou tenso, afinal não conseguira cumprir a missão que lhe fora dada e agora ainda tinha que relatar o que ocorrera entregando aquele envelope à sua senhora. Não costumava receber punições já que sempre cumpria as ordens com perfeição, mas certamente receberia um castigo severo por falhar em uma missão tão importante.

Irritado, guardou seus pertences e saiu do terraço tomando o rumo das escadas, por fim alcançou a rua e caminhou até a moto. Terminava de guardar tudo quando o seu celular tocou dentro do bolso de sua jaqueta de couro preto.

Mia signora, peço perdão… – Atendeu prontamente ao ver que era a Regente Bragatti quem lhe contatava. – Eu temo lhe dar péssimas notícias, mia signora… – Foi interrompido por ela. – Farei o que me pedes, assim que embarcar no voo para Roma lhe contato. – Finalizou a chamada, incrédulo com as novas ordens da sangue puro.

O albino ligou o veículo, tomou o rumo da rua principal e acelerou a moto sumindo entre os carros.

Continua…

Música tema Position Music - Time After Time (Cyndi Lauper Cover - Epic Powerful Vocal Hybrid Drama)

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

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